O Sol e A Lua

44 Caminho de Volta.


Notas iniciais
Olá minha gente!! Todos bem?? Espero que sim e que tenham aproveitado as estas e as comidas gostosas. Bem, como vocês parecem ter gostado, esse capitulo também é grandão, e por isso demorei um pouco mais; além de estar na correria como sempre, pelas festividades escolares, gente do céu, foi cada perrengue. Mas vamos lá, a outra razão para capítulos maiores, é que a estória está entrando numa fase delicada e que precisa ser muito bem trabalhada. A profundidade do enredo está "encorpando", digamos assim, e tudo precisa ser bem construído, espero que vocês gostem disso. Neste capitulo mesmo, há muitas e muitas camadas trabalhadas, em diferentes relações, e há muitos contrastes, como na relação inicial entre Kakashi e Sakura e todas as suas complexidades, que devem ser bem elaboradas, e na relação já consolidada de Naruto e Hinata, que apesar disso, também está atravessando uma importante metamorfose; e nesta última, trago um ponto de vista (e acredito muito nisso e vocês entenderão do que estou falando) sobre o que é a intimidade real. Bem, chega de papo, espero que todos estejam bem e que gostem do rumo que tudo está tomando; como sempre, muito obrigada por todo carinho, por todo tempo dedicado e por ainda acompanharam minha fic!

As madrugadas em Konoha costumavam ser arrastadas, lentas e preguiçosas, corriam de uma forma muito diferente de quando esteve observando os esconderijos de Orochimaru, sempre com aquela pressão eletrizante, que fazia os sentidos estarem constantemente alerta, como se a qualquer segundo, a morte viesse por sua alma; e principalmente ali, no subsolo da vila, essa sensação de lentidão era maior, mais claustrofóbica e densa, embora, estranhamente para Sakumo, tão reconfortante quanto estar em sua própria cama.

Pelos corredores acima, embaixo e naquele andar mesmo, os sons eram os mesmos de sempre, objetos sendo arrastados, correntes tilintando, luzes que piscavam por conta de fiações desencontradas, o som constante de água caindo em poças de goteiras ou infiltrações; tudo era mantido naquele estado deplorável justamente porque funcionava como o primeiro choque que fragmentava a mente dos prisioneiros, então tudo que era antônimo e controverso à vida, remetendo a destruição, fazia parte daquele lugar naturalmente.

Sakumo já havia processado toda documentação pendente dos relatórios das últimas patrulhas, já organizara as seguintes escalas e a sequência da semana toda, e ainda assim, sua mente continuava indo e vindo para aquela tarde há dois dias, quando ouvira seu melhor amigo falar com tanta propriedade sobre construir algo com sua irmãzinha; não queria pensar naquilo, não queria encarar ainda, e por isso, esteve escondido ali, enterrado em trabalho enfadonho e arrastado, porque aquela realidade era difícil de digerir, e ele sabia no fundo de sua alma, irreversível e sólida.

Não era por negação ou resistência, porque não cabia isso, Sakura estava crescida, evoluindo cada vez mais, dona do seu destino e completamente diferente da menina quebrada e inconsequente que conhecera, por isso as decisões que ela tomava agora poderiam e deveriam ser tomadas com seriedade; o problema era apenas acostumar-se, adaptar-se à consciência de que agora, Kakashi havia ultrapassado um limite que Sakumo nunca imaginara, nunca fora imposto e nem considerado, o que somente comprovava que não foi premeditado.

Lá fora, acima do nível da rua, o dia já deveria estar amanhecendo, segundo o relógio na parede com seu tic-tac ritmado, e Sakumo continuava pensando e pensando, internalizando tudo que estava mudando, para que quando estivesse diante daquilo, pudesse ser o irmão, pudesse ser o amigo; agora, mais calmo e depois de ter racionalizado tudo, conseguia ver tudo com clareza, não estava perdendo nada, estava ganhando, e de uma forma muito especial.

— Você está aqui há quanto tempo? — Interrompendo a imersão mental dele, a voz de Shikamaru soa da porta de sua sala.

— Acho que já vai fazer setenta e duas horas. — Sakumo responde, endireitando-se na cadeira, virando-se para encará-lo, encontrando-o como sempre, ao lado de Sai — Algum problema?

Shikamaru e Sai tinham menos tempo de divisão que Sakumo, mas quando a questão da vacante que Naruto e Hinata deixariam no comando fora levantada, esse ponto foi o que menos peso tivera; o que levara a promoção de tenência interina deles, foram os pontos fortes e insubstituíveis dos três. Enquanto ambos os rapazes possuíam aquela maleabilidade para conduzir, deduzir e comandar, Sakumo possuía uma versatilidade em campo que o tornava uma pedra angular de toda e qualquer operação, ele sempre era o trunfo escondido, o coringa no carteado da ANBU; portando, todos os três sabiam e compreendiam suas funções de confiança e competência, e isso tornava o trabalho deles muito simples, porque diferente do que outros membros sussurravam pelos cantos, eles entendiam que não era uma questão de privilegiar uns e ignorar outros, era uma questão de utilizar ao cem por cento, as habilidades de cada ativo.

— As equipes enviadas para o suporte na fronteira retornaram mais cedo. — Sai introduz o assunto, entrando de vez na sala, e lhe estende um pequeno cilindro vermelho — A Hina te enviou algo.

— Algo? — Confundido, Sakumo o pega e começa a retirar o lacre.

— Está mais com cara de “resolve isso”, como ela costuma ordenar. — Shikamaru comenta, e como se pressentisse o que viria, completa — Ela mandou prisioneiros.

Sakumo abria o pergaminho, quando aquele último comentário faz seu estômago contrair nervosamente, e conforme seus olhos deslizavam pelas palavras escritas com aquela caligrafia inclinada e levemente trêmula, sua respiração começa a alterar-se consideravelmente; e ao chegar ao final daquela mensagem, o Haruno entrava num estado de contenção extrema, com uma das mãos agarrando firmemente as bordas da mesa, simplesmente para ter o que segurá-lo no que deveria.

— Onde estão? — Sua voz soa baixa e com uma aspereza perigosa.

— Encaminhamos para o setor três. Instrução do Naruto. — Sai conta, já pressentindo que teriam um longo expediente.

Sakumo detém-se por um momento, traçando seus passos, formulando estratégias antes de finalmente agir, sua mente trabalhando numa velocidade que combinava com o turbilhão emocional que sentia, e então, num instante de profunda realização, ele pensa para além do seu envolvimento; sabia, antes mesmo de aceitar o pensamento, que não era mais o único, e principalmente, tinham acordado aquilo, mesmo que ainda não tivesse cumprido, tinham combinado.

— Chamem Kakashi. — São as primeiras palavras que escapam dos lábios de Sakumo, enquanto ele erguia-se.

Cerca de duas horas antes, distante dali, com a brisa da manhã soprando suavemente, erguendo espirais de vapor do orvalho fresco que retornava aos céus, no campo de treinamento três, Kakashi aguardava seu time, para mais uma manhã de treinamento e alinhamento, antes que qualquer outra missão lhes fosse designada; e naqueles tempos de incertezas, onde a maré mudava a qualquer segundo, esses momentos eram parte imprescindível para a manutenção de uma equipe funcional, era o que diferenciava os que retornavam daqueles que tornavam-se um número a mais nas estatísticas.

O livro, quase um ícone indissociável de sua identidade, estava aberto em frente ao rosto, embora, detido na mesma página por mais de cinco minutos, indicando que ele estava com o pensamento longe, num lugar inalcançável, onde as sequelas de uma vida roubada não existiam; foi o som das folhas sendo amassadas ao chão que o trouxe de volta, fazendo-o virar-se naquela direção, para encontrar um dos motivos do seu pensar introspectivo.

— Somos os primeiros? — Ela pergunta, buscando pelos outros pelos arredores, enquanto solta o cão no chão.

— Pontualmente. — Kakashi responde, fechando o livro sem ver a página.

— Eles devem ter considerado que você iria atrasar. — Marota, Sakura implica.

— Bem, digamos que meus atrasos podem ser menores agora. — Kakashi responde, guardando o livro no bolso, sorrindo de leve — Então, o que temos para hoje?

— Quero revisar algumas táticas. — Parando ao lado dele e sentando-se, Sakura retira da mochila um livro grosso e antigo, abrindo-o em certa página já marcada — Acho que estou pecando nas táticas de cerco mais básicas.

— Vamos revisar então. — Observando as anotações que ela já tinha feito, Kakashi concentra-se no assunto.

Passam cerca de meia hora daquela forma, Sakura perguntando e teorizando, Kakashi explicando, ensinando, ouvindo, e sempre que chegava a esse ponto, o ouvir, seu olhar fixava-se nela fragmentado, parte era a concentração que o trabalho pedia, parte era ele apenas guardando aquela imagem na memória; e justamente esse aspecto, que poderia ser complicado, estava sendo um dos mais simples. O sol começava a brilhar mais intenso, afastando aquela névoa residual do amanhecer, indicando que o dia seria caloroso e com pouco vento; estavam concluindo uma das últimas revisões, quando Kakashi nota outro enorme volume cheio de apontamentos e páginas marcadas na mochila dela.

— Restauração celular. — Puxando o livro, Kakashi o abre na página mais marcada e rabiscada — Você está nervosa com a operação?

— Um pouco, mesmo que seja apenas observar e talvez instrumentar. — Sakura conta, apertando as mãos num tique nervoso — É uma grande responsabilidade.

— Nem Hinata, nem a Godaime, te colocariam na sala, se não confiassem na sua evolução e capacidade. — Kakashi afirma, apontando com o indicador todos os escritos na página diante dos olhos dela — Você se dedicou inteiramente a isso desde o primeiro momento, participar numa operação agora, é o resultado de todo seu trabalho.

Baixando o olhar para seus inúmeros rabiscos, Sakura processa aquelas palavras, absorvendo e refletindo sobre como a afetavam e igualmente, tranquilizavam; ainda estava habituando-se aquele novo tratamento direto vindo de Kakashi, que diferente dos elogios ocasionais de antes, era desprovido de qualquer barreira técnica ou distanciamento calculado.

— Ainda é enervante num nível assustador. — Sentindo que suas bochechas começariam a tingir-se de vermelho, Sakura murmura — Ainda posso travar ou me atrapalhar, confundir instrumentos… é muito diferente de uma autopsia.

— Aí é que está. — Como se tivesse resolvido uma grande incógnita, Kakashi endireita-se e alarga aquele sorriso preguiçoso que lhe fechava os olhos — Você já opera sob pressão em situações de risco real. Já toma decisões mantendo o raciocínio lógico em combate. Sabe como funciona e como proceder com cada diretriz operacional Shinobi. Estar numa sala com equipe de suporte, conduzindo uma diretriz que você já conhece, é quase como entrar no seu estado natural, já faz parte de você, Sakura.

— Você diz cada coisa. Não sabia que deixei tão óbvio que gosto de operar. — Sempre soubera que era lida com facilidade, mas pensara que aprendera a ocultar um pouco mais suas emoções.

— Não deixou. — Com seu costumeiro ar de desinteresse, Kakashi responde — E aqui estamos.

Inesperadamente, agindo por puro instinto de preservação, Sakura cobre os olhos de Kakashi com as mãos, ao decifrar as muitas camadas escondidas naquela resposta vaga e aparentemente inofensiva, antes que o calor terminasse de espalhar-se por seu rosto; agora entendia como Hinata devia sentir-se com Naruto sendo sempre tão direto e natural sobre coisas intimamente perturbadoras.

— Ei… — Tentando esquivar e afastar o ataque repentino das mãos dela, Kakashi protesta.

— Me dê um momento. — Sakura o faz aquietar-se, ouvindo o retumbar de seu coração nas orelhas, inspirando diversas vezes profundamente para tranquilizar-se.

— Tudo bem. — Kakashi deixa de esquivar, mas mantém suas mãos segurando os pulsos dela.

Sakura suprime o impulso de confrontá-lo — o que somente contribuiria para mais daquelas observações reveladoras — ao ter a impressão de ouvir algumas notas de riso mal contido na voz dele; no entanto, a tranquilidade que ela restaurava lentamente, é estraçalhada no segundo seguinte, fazendo-a corar mais violentamente do que antes.

— Pode vir, peixinho, eles não parecem a ponto de se beijar, não ainda. — É a voz de Karin chamando por Sasuke, soando bem ao lado dela, que abala as emoções de Sakura.

Num reflexo instantâneo, Sakura recua um passo como se tivesse levado um choque, os olhos arregalados, o rosto tomado por um vermelho vibrante e uma expressão de indignação impagável que faz Karin quase saltar de alegria; a Uzumaki tivera todo o cuidado de aproximar-se na surdina, justamente para ver aquele tipo de reação, e embora a falta de comoção por parte de Kakashi indicasse que ele sabia de sua chegada, o susto de Sakura compensava. Como se suspeitasse que poderia ser alvo de um castigo doloroso, Karin agarra-se a Akamaru — já lhe abanando felizmente o rabo — formando uma barreira protetiva que sabia que Sakura não ultrapassaria; aproximando-se um tanto hesitante, com o rosto tão vermelho quanto o de Sakura, como se também tivesse sido pego no pulo, Sasuke alcança os três, olhando para todos os lados, menos para eles.

— Manhã agitada, capitão? — Pirracenta, Karin implica, cada palavra escorrendo malícia.

— Acaba de ficar. — Sem dar importância para o que já previra que seria quase rotina por um tempo, Kakashi responde e se volta para Sakura inquieta e tentando voltar ao seu ponto de equilíbrio — Posso olhar agora?

Nesse instante, o cérebro dela congela e até a respiração suspende, e quando seu olhar pousa nele — ainda arregalado e agora com um traço de incompreensão — com aquela calma disfarçada de indiferença, em lugar de confusão e embaraço, Sakura sente alívio; não qualquer alívio, e certamente, muito mais forte do que a primeira vez que teve aquela sensação, quando viu-se capaz de tudo que propunha-se com dedicação, era a percepção e realização profunda de saber-se ouvida.

— Sim. — Num sopro minúsculo, quase inaudível ela responde.

— Muito bem. Então, o que planejaram para hoje, Sasuke? Karin? — Ignorando a evidente confusão dos dois, ao não compreender de que tratava-se aquilo, Kakashi retorna ao ponto do dia.

Durante os seguintes cinquenta minutos, o time todo esteve replicando táticas de emboscadas, recriando cenários e possibilidades diversas, aumentando o nível de perícia e a resposta imediata de sua formação padrão; como previsto, a manhã estava cada vez mais calorosa e qualquer brisa mais refrescante e duradoura, ocasional. Estavam os quatro sentados à grama, respirações pesadas, suor escorrendo pelas têmporas, cabelos grudando nas testas, enquanto tomavam um descanso antes de prosseguir para o próximo exercício; Sasuke encarava a própria mão, flexionando os dedos, repassando mentalmente cada minuto anterior, cada instante onde esteve perto de tocar aqueles malditos sinos. Karin apenas sorria contente, massageando os músculos dos braços, ela sempre estava contente com tudo que envolvia movimento constante; ao seu lado, Sakura apoiava a cabeça nos joelhos erguidos, murmurando baixinho cálculos de área e delimitando pontos de posicionamento, os dedos arrancando nervosamente chumaços de grama do chão.

— Se você pronuncia a resposta da equação, eu sei a posição A, B e C pelo cálculo reverso. — Simplesmente atirado na grama ao lado dela, Kakashi instiga, revelando já catalogar as seguintes estratégias que seriam aplicadas.

— Cálculo de área não serve apenas para o alcance do ataque contra um alvo, Kakashi. — Erguendo os olhos faiscantes pela provocação, Sakura retruca daquela forma que parecia morder as palavras.

— Não? — Divertido, Kakashi abre um único olho, encarando-a como se exigisse a resposta.

— Não. Serve para eu saber exatamente onde estão meus companheiros e não atingi-los enquanto esmago o chão sob seus pés. — Sem se importar de revelar sua intenção, Sakura replica ameaçadoramente, fazendo aquele sorriso preguiçoso voltar a espalhar-se pelo rosto dele.

De repente, a calmaria daquela folga é interrompida pela materialização silenciosa de uma ANBU, a postura de prontidão, a máscara de porcelana e aquela presença que fazia o ar ao redor dela vibrar; imediatamente, Kakashi senta-se, o semblante relaxado diluindo-se num instante.

— Capitão. — Numa saudação impecável, ela apresenta-se diante de Kakashi.

— Faz quatro anos que deixei de ser, Mahi. — Tentando manter a casualidade, o Hatake observa, antes de indagar — Você tem assuntos aqui?

— Uma vez divisão, sempre divisão. — Reconhecendo aquele tom que indicava descanso, Mahi desfaz a postura de espera e revela — Kaminari me enviou para te buscar.

Nesse momento, Sasuke, Karin e Sakura, principalmente, que já observavam a conversa com interesse e preocupação, tensionaram-se ao mesmo tempo, e naqueles milésimos de segundos, a imagem do irmão exasperado na sala de casa no dia em que retornaram de Suna invadiu os pensamentos de Sakura; parecia estar vendo aquilo nitidamente, Sakumo ameaçando Kakashi veladamente se ele fizesse “gracinhas”, e somando isso ao fato dele não ter retornado a casa todo aquele tempo, um alerta acendeu na mente dela.

— … Por quê? — Sentindo seu estômago afundar, Sakura intromete-se, com a ardência da bile já subindo a sua garganta.

— Tudo bem, Sakura, tenho certeza que seu irmão quer minha ajuda com algo. — Captando imediatamente o temor dela, Kakashi a tranquiliza, segurando uma mão dela entre as suas.

— Na verdade, é porque a Tenente enviou prisioneiros desde a fronteira. Chegaram pela manhã com a unidade de suporte. — Confundida com a cena, Mahi explica o que sabia, agradecendo a máscara em seu rosto.

— Prisioneiros? — Estranhando que Sakumo o tenha chamado por aquilo, Kakashi ergue-se e acaba trazendo Sakura junto, e considerando o que fazer, reorganiza o time — Prossigam com o cronograma de hoje, depois, estão dispensados. Vou verificar isso com Sakumo. Te vejo mais tarde, ok?

— Ok. — Agora sabendo que era por trabalho, Sakura consegue concordar tranquilamente.

Afastando-se dela depois de afagar suavemente a mão que mantivera entre as suas, parando ao lado de Mahi, Kakashi já cogitava as inúmeras razões escondidas por trás daquela convocação, imaginando a real situação e até pensando que poderia ser um pequeno teste de um irmão muito protetor; no segundo seguinte, os dois somem num Shunshin, restando apenas aquele vácuo de vento característico no local onde estiveram.

— Você acha que seu irmão descobriu sobre vocês? — Quase instantaneamente, Karin questiona.

— O nii-chan já sabe. Kakashi falou com ele quando chegamos de Suna. — Sorrindo fraquinho, Sakura conta, e vê o exato momento em que um interrogatório sem precedentes forma-se na mente de Karin.

Já praticamente no outro extremo da Vila, Kakashi passava pelos portões da sede, lugar que preenchera boa parte de sua adolescência e o início de sua juventude adulta, lugar de perdas insubstituíveis, que o forjara em aço, sangue e dores suprimidas constantemente, onde o sentir era uma arma mortal, onde o humano nunca existia; era estranho como uma única construção de cimento e ferros poderia representar tanto, como o simples som do vento passando pelos corredores úmidos, trazia fleches torrenciais, ocasiões nunca esquecidas, embora, adormecidas dentro dele.

Seguindo Mahi cada vez mais profundamente através do subsolo de Konoha, Kakashi dividia-se entre a realidade e seus fantasmas passados, via como se fosse verdade, antigos companheiros caminhando por aqueles corredores, surgindo de passagens secretas, imutáveis como na última vez que os encontrara em vida, parados no tempo; fechando os olhos com força, ele tenta suprimir aquele frenesi mental, tenta fazê-los parar de retornar e leva uma mão até a ponta do nariz escondido sob a máscara e o belisca. As visões somem, não pela dor do gesto, mas pelo aroma de ervas, terra e peônias, e assim que identifica essas fragrâncias, uma única imagem forma-se na mente de Kakashi, mais nítida que as anteriores, como um talismã; suspirando, como uma rendição exausta, ele sufoca um riso fora de lugar, e pergunta-se verdadeiramente curioso quanto ela saberia causar, e rapidamente a resposta, certamente, sequer tinha consciência disso.

Ao passarem pelo quadrante das salas de interrogatórios, os sons que sempre vazavam para fora das portas reforçadas, eram a sinfonia mais sinistra e cacofônica existente, e quando Mahi deteve-se diante de uma das últimas, com um grande vidro de observação separando o interior do exterior, Kakashi avista três figuras conhecidas paradas ali; não era estranho que estivessem observando, ou envolvidos, mas a maneira como pareciam incomodados com algo, plantou uma inquietação inusitada em sua mente, uma espécie de percepção adquirida ao observar e catalogar a linguagem corporal de terceiros.

— Yoh. — Kakashi pronuncia-se, sabendo que já deveriam tê-lo notado, e indaga — Precisam de mim?

— Não sabemos ao certo. — Com uma nota de preocupação na voz, Tenzou fala, mantendo os olhos fixos no interior da sala onde Sakumo já interrogava.

— Ele não nos deu detalhes, só disse para te chamarmos, e que iria conduzir um caso extraoficial. — Tentando formular um padrão comportamental com o que via, Shikamaru explica.

— Sequer vimos o que a Hina escreveu ou ordenou. — Sai acrescenta outro ponto, e talvez, o que era mais inquietante naquilo.

— Sendo assim, só me resta entrar e descobrir. — Recalibrando seus seguintes passos de acordo com as informações obtidas, Kakashi caminha até a porta e entra na sala.

Como habitual, o primeiro que lhe alcança é o cheiro, cheiro de suor, de sangue, metal e resíduos de chakra e selamentos, e então Kakashi vê Sakumo em pé, escorado numa parede com o olhar vazio, as mãos cruzadas a frente do corpo, já com as luvas táticas manchadas; e sentado, preso a cadeira com as mãos para trás, a boca escorrendo sangue com dentes faltantes, e um nariz quebrado, um homem esquálido, na casa dos seus quarenta e poucos, pele cinzenta e doentia, balbuciando coisas que ele demora a processar.

— Já disse… foi um acordo… — O homem choramingava, com baba e corrimento nasal misturando-se ao sangue pingando de seus lábios trêmulos, o pescoço com marcas de um estrangulamento recente — Nem vi essa garota… só fotografias… e foi aquele cretino que me deu…

Kakashi detém seus passos um momento, tentando entender o que se passava, o olho visível indo do prisioneiro a Sakumo, buscando encontrar a razão daquilo, e qual sua função em tudo, afinal, fora convocado; no entanto, o que ouve a seguir, explode qualquer racionalidade, qualquer diretriz que sua mente treinada pudesse seguir impessoalmente.

— Eu ia aceitar como pagamento das dívidas do jogo… ainda estava decidindo perdoar a dívida ou não… — O esquálido continua, deixando a cabeça pender diante do corpo, como se não conseguisse mais sustentar o peso dela — Queria aproveitar um pouco, é claro que sim! É bonita, nova, intocada… queria provar a carne antes de colocar ela para trabalhar… treinar… ensinar como ser uma perfeita p...

O som de metal retorcido e em seguida, de uma cadeira sendo arrastada com força contra o chão corta aqueles murmúrios, e com uma fluidez calculada, Kakashi senta-se à frente do prisioneiro, pega a prancheta sobre a mesa, lendo o registro feito por minutos intermináveis; quando ele larga a prancheta de volta, fincando-a na mesa e causando um estalo seco, o prisioneiro salta em seu lugar.

— Quem? — E volta a saltar ao ouvir aquela voz inumana tão baixa e suave.

— Foi o pai dela… tá legal? Ele disse que me entregaria no próximo festival… — Sentindo todos os seus instintos gritarem, o esquálido prisioneiro quase cai ao chão com cadeira e tudo, enquanto tenta esquivar o corpo para longe daquele segundo Shinobi.

Girando o rosto na direção de Sakumo, Kakashi parece entrar numa espécie de frequência única e silenciosa, e era algo extremamente raro mesmo na ANBU, algo que somente Naruto e Hinata, depois Shikamaru e Sai, demonstraram possuir, um tipo de comunicação muda que ditava o rumo e o ritmo de operações de forma surpreendente; no instante posterior, Sakumo deixou seu lugar, e com passos rígidos e vagarosos, caminhou até a cadeira do prisioneiro, com um só sinal de mãos, desfez os selos de contenção, agarrou suas mãos e as colocou sobre a mesa de metal, refazendo os selos, mantendo-o preso naquela posição. Antes que Sakumo retornasse ao seu lugar, com aquela calma tormentosa quase ebulindo, os olhos azuis parecendo uma substância química altamente corrosiva, os gritos agonizantes inundaram a sala; atrás do vidro negro, Tenzou, Shikamaru e Sai ainda não conseguiam compreender o cerne de tudo, e suas mentes revisavam cada possível detalhe que envolvia Kakashi e Sakumo juntos.

— Quem? — Ainda segurando e pressionando o dedo quebrado, Kakashi repete a pergunta.

— Sakura… Sakura, esse é o nome! O pai que me deu ela… — Em desespero, Aku finalmente confessa, tentando furiosamente puxar seus braços travados — Eu não sei de mais nada… Kizashi que ia organizar tudo… eu só aceitei…

Ao instante, outro estalo seco se escuta, outro dedo quebrado e novos gemidos agonizantes fazem eco, e dessa vez Kakashi não contenta-se com quebrar e pressionar, ele literalmente gira e gira o dedo continuamente, até que a pele rasgue, até que as cartilagens e ligamentos rompam-se, e por fim, aquele imundo pedaço esteja separado do corpo; atrás do vidro, Shikamaru sente o estômago dar um nó, ao começar a compreender a gravidade do que estava assistindo.

— Nomes. — Cutucando o rosto do prisioneiro com o próprio dedo, pelo lado decepado, Kakashi exige friamente — Quem sabe? Quem participa? Quem mais compra e vende mulheres nas fronteiras? Atravessadores, compradores, aliciadores. Agora.

— Ninguém… ninguém mais… era um acordo separado… para lucrar sozinhos… — Aku choraminga, fechando os dedos restantes como se isso os protegesse — Eu ia começar meu negócio com ela… montar minha casa… é uma beleza exótica… o lucro seria imediato… o pai dela ia ganhar uma porcentagem… só ia trepar c…

Nesse segundo, as mãos daquele homem esquálido são torcidas e pressionadas ao oposto, fazendo ossos estalarem e sangue jorrar em abundância, deixando um corpo espasmódico chocalhando violentamente entre dor e fraqueza na cadeira.

— Você ainda tem aqueles prisioneiros nas celas? — Como um sopro agonizante e mal contido, a voz que antes era baixa e fria, soa como um trovão agourento.

— Sim. — Pela primeira vez, Sakumo fala algo desde que Kakashi entrara na sala.

— Ótimo! Agora, comece a falar, nomes, locais, rotas. — A ordem veio como tudo naquela sala, sombria e um presságio de dor sem igual.

Durante a seguinte meia hora, um mapa de jogos clandestinos, escravagismo, sequestro, cárcere privado e violência indiscriminada foi desenhado, detalhando pontos de coleta, extração, rotas entre territórios neutros, esconderijos periféricos alocados em pontos cegos, e uma rede de exploração sem precedentes, chegando a alcançar o próprio sistema Shinobi em sua corrupção; ao final, com aquela energia mortífera ainda comandando boa parte de suas ações, Kakashi afasta-se da mesa, impondo a maior distância entre ele e o prisioneiro, antes que cedesse as suas vontades pessoais, dizendo-se a si que por enquanto bastava, que precisava manter tudo sob controle por algum tempo, porque não chegara nem perto de resolver aquilo. Quando seus passos o guiam para fora daquela sala impregnada com tudo que instigava-o a tornar-se bestial, Kakashi para diante da parede do corredor, cinza e indiferentemente gélida, e numa sequência frenética e assustadora, soca o concreto repetidas vezes no mesmo ponto, causando rachaduras manchadas com seu sangue; Sakumo, que saíra um momento depois dele, agarrou-lhe o pulso firmemente, impedindo-o de continuar aquela loucura.

— Os prisioneiros enviados pela Tenente serão colocados nas celas do subsolo, distribuídos entre as vinte e três e vinte e sete. Façam com que as informações coletadas aqui, cheguem aos prisioneiros antigos. — A voz de Sakumo soa baixa e rouca, de uma forma que os três observadores sabiam, significava os dois passos restantes ao descontrole.

Antes que eles pudessem argumentar, no entanto, o Haruno caminha a passadas largas arrastando o Hatake consigo, ambos num estado que faria qualquer ser de razão fugir há quilômetros; e as peças soltas que antes não tinham pontas de encaixe, começaram a ganhar sentido na mente de Shikamaru, depois de ter ouvido toda aquele inusitado interrogatório, especialmente, depois de ouvir onde os quatro prisioneiros seriam enviados com direito a história de fundo e “tratamento especial”.

Já na sala de Sakumo, isolados e protegidos de ouvidos e olhos alheios, os dois amigos encaravam-se ofegantes, raivosos, assustados, sobretudo, assustados, num estado de colapso físico e mental, que nem as batalhas mais intensas e mortais puderam causar-lhes; como se tivesse medo do próprio reflexo no olhar do amigo, Kakashi desvia sua atenção fingida para uma janela por onde a luz natural quase não passava, a respiração doendo-lhe como qualquer corte de morte, o coração disparado e um suor pegajoso fazendo suas roupas de malha grudarem-se a sua pele claustrofobicamente.

— Ele já deve ter sido trazido para cá. — Após alguns segundos, Sakumo fala.

— O que você quer fazer? — Numa tentativa de manter a sanidade, Kakashi repete a pergunta de dois dias antes, a própria voz saindo como agulhas cravando-se em sua garganta.

Sakumo o fita por um instante eterno, as mãos ainda ferrenhamente fechadas, o semblante revelando a perturbação e o impacto daquela situação, e essencialmente, o desespero do que descobriram.

— Você sabe que isso não termina assim. Foi a primeira vez, que pode se transformar em muitas. Eu não vou permitir, Sakumo. — Assustadoramente, a voz de Kakashi soa trêmula e seus olhos brilham repletos d’água — Se você não faz, eu faço…

— Vamos só… coletar provas agora… — Sakumo retruca, e quando ouve um bufo contrariado e nervoso, emenda — Kakashi, você não quer levar isso a um nível impossível. Quer vê-la enfrentar consequências do que decidimos? Eu também queria poder erradicar a raiz de tudo, mas o que isso nos custaria? O que causaria?

— Como se ela fosse saber… — Kakashi contesta, completamente duvidoso de suas palavras.

— Você sabe que não mentiria para ela. Eu também não. E acredite, quero cravar uma kunai naquele pescoço asqueroso e ver a vida esvaindo, tanto como você. Mas isso me roubaria tudo que não posso perder. — Sakumo reflexiona, e não esconde o quanto estava temeroso de suas próprias emoções — Kakashi, nós somos tudo que ela tem, não podemos ser egoístas.

— Sakumo, você ouviu as mesmas palavras que eu? Seu pai ia prostituí-la! — Kakashi finalmente explode em dor, repulsa e raiva — Você sabe o que é isso?! É contrário a tudo que concebemos sobre respeito, compromisso. Sobre como eu tento agir com ela, porque sei que nossos tempos são diferentes, porque prezo por Sakura viver tudo que ela merece, nada menos! E vem essa desgraça, que se não fosse por Hinata e a providência divina, seria o fim de tudo, porque o animal que gerou vocês decidiu vender a filha!

— Kakashi… — Com um tom manso, tão quebrado quanto o do amigo, Sakumo pousa suas mãos sobre os ombros do Hatake, e como se fossem uma extensão de seu coração, as lágrimas banham seu rosto sem pedir licença — Eu preciso muito que você me ajude… não posso sozinho… não posso agir acima do que sou… não podemos…

Como se o tempo tivesse parado naquela sala, os dois permaneceram daquele jeito mesmo, permitindo que todas as angústias, temores, caíssem livres por seus rostos, antes que qualquer nova ação fosse posta em prática; havia uma dor muito crua naquele entendimento que lhes chegara, o saber que, se não fosse pela improbabilidade de Hinata ter topado com os credores ilegais de Kizashi, uma desgraça irreversível teria ocorrido em suas vidas, enquanto eles ainda estavam considerando a ameaça, já havia todo um plano em ação.

Cerca de quinze minutos depois, Sakumo e Kakashi caminham lado a lado pelos corredores, indo em direção a outra sala, desta vez no piso décimo quinto do subsolo, um pouco mais sombrio e tenebroso do que os andares operacionais legítimos; ao pararem em frente à sala, não foi surpresa que Tenzou, Shikamaru e Sai já estivessem lá, fitando com horror o interior iluminado por uma única luz forte sobre a pessoa detida, causando propositalmente, privação visual constante.

— O que vocês vão fazer? — Tenzou exige, a mente dando voltas e mais voltas diante de tudo que viram.

O problema, é que nenhum dos dois responde, agravando ainda mais a situação, uma vez que Sakumo, com aquela atitude, estava cometendo insubordinação ao não responder seus superiores imediatos; percebendo que a autoridade formal não funcionaria, Shikamaru muda a questão, pondo os termos fora da ANBU.

— Kakashi, compreendo que um membro do seu time foi implicado, mas você não tem jurisdição para conduzir isso aqui. — Shikamaru estabelece, esperando que as diretrizes fossem um freio eficaz — Muito mais complexo ainda, é uma operação extraoficial. Nem a Godaime, nem a inteligência e os líderes de clãs estão cientes. Vocês sabem que a divisão não pode ignorar a tríade, ainda mais, com civis envolvidos.

— Eu concedi a jurisdição quando convoquei Kakashi, Shikamaru. É uma operação utilizando ativos de Konoha, isso está permitido pelas diretrizes, mesmo quando o ativo já não pertence ao meio. — Sakumo justifica e utiliza as mesmas normas para “formalizar” como estiveram operando — E você sabe, eu recebi uma ordem da Tenente em campo.

— Tudo bem, o interrogatório dos prisioneiros está dentro do padrão. Perfeito. — Desta vez, é Sai que tenta racionalizar, e toca o ponto ainda cinzento de toda a questão — Mas agora, essa parte acabou. Você não pode mais envolver Kakashi, Sakumo. Está fora do alcance justificável. Você tem motivo e é compreensível…

— Não vou entrar nessa sala como ativo, Sai. Vou entrar como alguém com o mesmo motivo. — Kakashi por fim estabelece sua participação naquela segunda extração, colocando-se fora do operacional.

— Não se preocupem, ainda existe um limite. Até para nós. — Sakumo adianta-se, abrindo a porta da sala sem olhar para trás.

Antes que os três pudessem decifrar e compreender aquilo, a porta fechara-se, isolando os dois com o novo prisioneiro, e ao soar do clic da fechadura, Tenzou, Shikamaru e Sai param-se diante do vidro da janela de observação; lá dentro, um triângulo forma-se, Kizashi sentado diante de Sakumo e Kakashi, cada um a um lado.

— Ah… finalmente. — Com os olhos entrecerrados, Kizashi consegue por fim distinguir o rosto de Sakumo — Que significa isso? Por que estou aqui?

— Diga você, Kizashi. Sua consciência não te diz nada? — Sakumo retruca, os músculos faciais tencionados ao limite.

— Por favor, Sakumo, consciência? — É Kakashi que responde, escorando os cotovelos nos joelhos, unindo as mãos e apoiando o rosto nelas — Isso sequer sabe o que é consciência.

Por um instante, o silêncio retorna à sala, não há a pressão ameaçadora do interrogatório anterior, mas a hostilidade parece muito mais densa e perigosa agora; e apesar disso, Kizashi os encara sem vacilar, e é nesse segundo que algo ilumina seu semblante desprovido de remorso.

— Ah… entendi, compreendo. — Um sorriso de escárnio espalha-se por seu rosto — É por isso que você estava lá aquele dia, não é? Garota esperta. Conseguiu ser mais útil do que o esperado. Tudo bem, eu concordo. Você leva ela, só me pague bem e eu finjo que não sei de nada…

A explosão de chakra que ocorre em seguida trinca o vidro da janela de observação, fazendo os três do lado de fora recuarem instintivamente, e do lado de dentro, Kakashi e Sakumo pareciam o núcleo de dois vórtices tempestuosos.

— Sabe o que você vai receber? Muitos, muitos e muitos anos reaprendendo a ser gente, a ter humanidade. — Kakashi retruca, apertando os dedos cruzados até estarem brancos — E eu vou garantir que você cumpra cada dia.

— E não estamos aqui para ouvir confissões, já temos tudo. Estamos aqui para te dizer que você vai pagar, e se depender de nós, será pelo resto da vida. — Sakumo acrescenta, os olhos faiscando num prazer indizível — Eu te disse, Kizashi. Você poderia ter vivido sua vida miserável livremente, mas nunca, em qualquer hipótese, deveria ter tocado nela.

Os dois levantam-se juntos, ignorando as reclamações, os protestos desesperados de Kizashi, que não processa o que aquela sentença significava, e deixam a sala antes que passem-se dez minutos que entraram ali; ao alcançarem a porta, uma unidade de três já aguardava para proceder e concluir os trâmites.

— O condenado vai cumprir vinte anos de trabalhos nas minas ao sul, por associação ao tráfico humano, jogos ilegais e aliciamento. — Sakumo comunica, seco e direto.

Momentos mais tarde, estavam ambos diante da Godaime, de Shizune, de Shikaku e Inoichi, acompanhados de Tenzou, Shikamaru e Sai, como testemunhas de como tudo foi conduzido, cumprindo o protocolo de informar e relatar operações realizadas antes de ordens oficiais expedidas; os interrogatórios, a investigação e a descoberta da rede criminosa não surpreenderam Tsunade ou os outros, era um caso trazido pela unidade em campo, e, portanto, naturalmente a diretriz permitia a ação imediata e posterior documentação e registros pertinentes.

— Bem, entendemos o ocorrido, a operação que virá depois e como chegamos a isso. — Recostando-se em sua cadeira, Shikaku pontua, e logo ressalta o ponto cinzento naquele relatório — Mas se Hinata enviou uma ordem de investigação e prisioneiros diretamente a você, Sakumo, por que Kakashi foi envolvido? Isso ainda não faz qualquer sentido para nós, não quando você é perfeitamente capaz de conduzir um caso assim de princípio ao fim.

— Isso foi por nossa situação pessoal. — Mas é Kakashi quem responde, e dessa vez, fita Tsunade diretamente, dando um passo à frente — Não pude informar ainda, quando retornamos de Suna e entreguei o relato verbal da missão, solicitei uma audiência separada, recorda, Tsunade-sama?

— Ah… claro! Shizune ainda não conseguiu organizar isso, essa semana com a cirurgia e os preparativos do festival… — Tsunade concorda, tentando entender como aquilo encaixava no caso atual.

— Muito bem, se não se importar, vou informar agora o que preciso. — Kakashi afirma, e ao seu lado, Sakumo revira os olhos e crispa os lábios — Apesar de saber que a impessoalidade é fundamental, estive envolvido na situação desde a tentativa de coerção de Kizashi, no dia em que retornei de Suna com meu time, na verdade, ouvi o final da conversa que Sakumo relata. E isso ocorreu quando fui conversar com Sakumo sobre a mudança da minha relação com Sakura.

— Espera… espera… isso significa… — Inoichi começa a assimilar o que ouvem.

— Pois é. — Sakumo confirma, cruzando os braços à frente do corpo, e surpreendentemente, empurrando o ombro de Kakashi com o seu — Convoquei Kakashi porque ele já sabia parcialmente o que Kizashi estava aprontando, e porque ele passou a ser meu cunhado… mesmo que eu ainda queira amassar a cara dele.

Atrás deles, Tenzou prende a respiração, Shikamaru sussurra um palavrão e Sai fala um “agora faz sentido”, enquanto Shikaku, Inoichi e Shizune ficam literalmente de queixo caído.

— Isso é alguma brincadeira? — Tsunade exige, a voz tão baixa que quase não se ouve, o semblante endurecido.

— De modo algum, Godaime. Não brinco com assuntos sérios. — Kakashi responde prontamente e acrescenta — E antes que pergunte, não permitimos que isso se interponha no funcionamento do time, que inclusive, já tem conhecimento. Tampouco, tenho intenção de esconder ou ignorar. Não vou recuar, é claro, com o devido e pleno entendimento de Sakura.

— Você pode não falar como um dicionário ambulante? Fica mais estranho ainda. — Sakumo reclama, o rosto tomado por uma expressão de zombaria e aversão.

— Tenho de ser claro e honesto. Você quer que eu informe algo dessa importância sem cuidado? — E Kakashi rebate no mesmo instante, virando-se para ele com uma tranquilidade desconcertante.

— Quando foi? — Tsunade questiona, apoiando os cotovelos na mesa, os olhos entrecerrados como um falcão.

— A mudança irreversível foi durante a missão de Suna. A primeira mudança de percepção que me fez… humm, parar e pensar, foi há uns dois meses. — E novamente, Kakashi busca ser o mais sincero e preciso possível, mesmo com suas orelhas visivelmente vermelhas.

— Você sabe que existem níveis de… potenciais complicações que surgirão disso? Sua carreira pode ser questionada e irreversivelmente prejudicada. Sua integridade e ética serão postos em dúvida, e toda sua vida a partir de agora, estará sob a régua de terceiros, independentemente da veracidade dos fatos? Isso falando apenas de você, Kakashi. — Tsunade pontua o que lhe chega à mente imediatamente, o que seriam os pontos mais atacados e comentados.

— Estou disposto a enfrentar essas complicações, Godaime. E como disse a Sakumo, não pretendo permitir que quaisquer consequências indevidas, externas, ou de qualquer cunho cheguem até Sakura. — Com uma resolução impressionante, Kakashi responde, fazendo Sakumo e Tsunade sorrirem levemente.

— Então… que bom que você tem a decência de informar e de assumir a responsabilidade, além é claro, de ter se envolvido com uma Kunoichi plenamente funcional e operativa, Kakashi. — Tsunade fala após alguns segundos, finalmente relaxando — Podem se retirar, vamos proceder com a operação para desmantelar a rede descoberta, e com todas as sentenças dos relatórios.

Deixando Shikaku, Inoichi e Shizune completamente sem palavras, Sakumo e Kakashi deixam a sala sem esperar segunda ordem, seguidos de perto por Tenzou, Shikamaru e Sai, e enquanto caminham pelo corredor do prédio administrativo, conseguem ouvir as mentes dos três a trabalhar furiosamente; podiam ver pela visão periférica como eles juntavam as cabeças e sussurravam entre si, e como seus olhares nervosos estavam girando de um a outro sem descanso.

— Tenzou, não precisa ficar inquieto, nós não vamos causar problemas. — Finalmente, Kakashi fala, fazendo os três deterem-se por um instante.

— E não vamos nos matar em qualquer esquina. Podem parar de agir como se fossemos líderes de milícias inimigas. — Sakumo acrescenta, fazendo os três contraírem os rostos diante daquela descrição violenta.

— Então, amigos de longa data, e agora cunhados? — Shikamaru começa, tentando parecer indiferente.

— É a vida, surpreendente. — Kakashi retruca, sem esconder o contentamento sutil.

Já nas ruas da Vila, eles continuavam juntos, como se os outros três quisessem garantir que tudo estava bem naquela situação entre eles dois, mesmo tendo ouvido que a exposição do relacionamento não era de agora; em certa esquina, os cinco detém-se novamente, Shikamaru e Sai retornariam às suas funções, e junto de Tenzou, organizariam a documentação formal para a expedição, e Sakumo, após ter estado quase três dias inteiros enclausurado na sede, recebeu as ordens de ir para casa e descansar devidamente. Entretanto, quando estavam a cerca de quatro quadras, o Haruno volta a parar, as mãos nos bolsos, o olhar longe indicando que sua mente estava presa em algo específico; quando Kakashi o encara buscando a razão, Sakumo sorri fraco e já dá os primeiros passos na direção oposta.

— Preciso recalibrar. Anko retornou de missão pela manhã. — Sakumo diz, e antes de sumir de vista, olha por sobre o ombro entrecerrando os olhos em aviso — Já sabe, não?

— Nunca esqueço. — Kakashi responde calmamente.

Nesse momento, quando volta a caminhar, tudo que as formalidades e a operacionalidade necessária estiveram suprimindo, vem à tona esmagadoramente, aquelas últimas horas trouxeram-lhe novamente a sensação nauseante daqueles anos no limite de sua sanidade; era como se toda a sujeira daquele mundo tivesse se impregnado nele, e aquela viscosidade repugnante permanecendo em suas mãos mesmo agora, quando estavam limpas e enfaixadas por baixo das luvas, forçando-o a ocultá-las nos bolsos, não querendo vê-las manchadas com aquele carmim que nunca ia embora. Não deu-se conta de ter chegado, até seu pé esbarrar com certa força na cerca que delimitava a calçada do pátio, e junto a essa percepção, veio a realização expositiva de já saber o caminho, mesmo naquele estado de tribulação mental; essa constatação traz de novo aquele tom vermelho as suas orelhas, Kakashi passa pelo portão e caminhando calmamente, toca duas vezes na porta e aguarda. Podia ouvir passos aproximando-se pelo corredor, e pela suavidade e ritmo entre as pisadas, diria que ela estava caminhando daquela forma que meio saltitava, meio andava; quando Sakura abre a porta, já sem seu uniforme, completamente a vontade e casual, o aroma de peônias que a acompanha agora parece mais acentuado, sem outras essências competindo por lugar.

— Oi! — Ela fala sorrindo, com uma bochecha manchada de nanquim, afastando-se um pouco para Kakashi passar pela porta.

— Você estava estudando? — Ao passar por ela, Kakashi limpa casualmente a mancha em sua bochecha, indo em direção à sala, encontrando livros e pergaminhos abertos sobre a mesa.

— Fazendo umas revisões. O nii-chan não veio? Como foi? Deu muito trabalho? — Despejando tudo que lhe inquietara nas últimas horas, Sakura dispara pergunta após pergunta, indo até a cozinha, numa tentativa de ocultar a agitação e o rubor — Chá?

— Foi para a casa de Anko. Vamos coordenar uma… expedição nos próximos dias. — Contando o simples e camuflando o complexo, Kakashi responde, e tenta manter o foco na normalidade — Você concluiu as suas metas de hoje?

— Quase. Aqui. — Sakura volta a sala trazendo duas xícaras fumegantes, e quando Kakashi a fita interrogativamente, prossegue — Karin estava absurdamente curiosa. Vocês vão? Pensei que você não fizesse mais essas missões.

— Quando é necessário. — Kakashi replica, sem entrar em muitos detalhes, e como se naquele momento toda a tensão acumulada começasse a esvair, seu olhar foca nas mãos de Sakura, quase como se fossem um imã.

Eram brancas, pequenas, dedos finos, o pulso da mão direita com aquela pele que permaneceu levemente rosada e mais fina por conta das queimaduras, e mesmo após todos aqueles meses de treinamento árduo, ainda pareciam tão imaculadas como sempre foram; quase inconscientemente, Kakashi estendeu as suas — ainda vendo-as vermelhas, parecendo carregar cada resquício das vidas que ceifara — e toma-as com cuidado, constatando o calor e a suavidade, em um misto de angústia residual e alívio.

— O que houve com suas mãos? — Sentindo o relevo que não estava ali naquela manhã, Sakura pede.

— Ossos do ofício. Às vezes acontece. — A resposta de Kakashi é vaga, e ele logo trata de mudar de assunto — Quando fomos relatar à Godaime sobre os planos da expedição, aproveitei a oportunidade e a informei sobre nós.

— … O que… ela disse? — Prendendo a respiração sem nem notar, Sakura indaga, retesando-se inteira.

— Não muito. Apenas questionou se estava consciente das implicações, e bem… isso sempre esteve nítido. — Aliviado por desviar a atenção dela, Kakashi conta, e aos poucos, vai retornando ao próprio eixo — Os questionamentos vão vir, fofocas também, e eu vou…

— Kakashi. — Sakura o interrompe, com aquele olhar que dizia claramente o que lhe incomodara — Não é assim que funciona e você sabe. Somos dois.

— Sim. — Sorrindo pela primeira vez naquele dia desde o campo de treinamento, Kakashi concorda — Somos dois.

Inesperado como surgira, o sorriso some quando Kakashi baixa o olhar para as mãos que seguravam as dela, pareceu-lhe por um instante que as estava maculando com o vermelho do seu passado; sem poder controlar aquele temor irreal, Kakashi solta-a tentando parecer natural e recosta-se no sofá.

— Me mostre o que esteve revisando. — Não querendo voltar aos seus silêncios ambíguos, ele pede, mantendo-se presente, ainda que não totalmente.

Sakura o faz, senta-se ao seu lado e mostra-lhe suas anotações e revisões, detalhando o que esteve aprofundando em seus estudos, e apesar de ouvir as respostas e comentários de Kakashi sobre o que lhe dizia, seu olhar distante revelava que ele não estava ali cem por cento; se fosse como no passado, teria se chateado ou insistido mais para descobrir o que lhe punha assim, contudo, Sakura já não era a menina que pensava que ser ninja era legal e simples, e também sabia que Kakashi só mantinha-se ali justamente porque estava tentando caminhar junto, mesmo quando partes dele estavam presas a lugares que ela sequer conhecia. Sem fazer alarde e sem questionar, Sakura prepara mais chá, traz em uma garrafa térmica junto a uma bandeja de mochi e volta às suas revisões; aquele seu hábito de ouvir e observar que adquirira com Hinata estava vindo bem a calhar agora.

Em algum momento, o som áspero do pincel pressionado ao papel traçando formas, o aroma do umeboshi impregnando-lhe o olfato, misturado ao doce do mochi, começam a puxá-lo de suas divagações — sobre o passado, e sobre as estratégias que já tecia para a expedição — mas principalmente, a presença tranquila ao seu lado; Sakura continuava a destacar trechos sobre regeneração celular, organizando seus pergaminhos, tornando o mundo simples o bastante para caber numa bandeja de chá. Não era, Kakashi sabia que não era, e o que experimentara nas últimas horas apenas confirmava o quanto o mundo podia ser horroroso, no entanto, aquele instante ali valia tanto, que o mundo podia esperar; apoiando o rosto numa mão, Kakashi volta ao que fazia naquela manhã antes de tudo, talvez agora com mais necessidade do que antes, observando e gravando em silêncio.

***

Shimogakure, extremo norte, quatro dias antes.

O vento cortante não cedia e o frio — mesmo em pleno verão — era considerável, e apesar disso, as pessoas dali aprenderam a viver, embora carecessem de organização estrutural e bélica como tantas outras vilas, pareciam mais capazes que a maioria; a taverna estava ruidosa, como qualquer outra, diferenciando-se somente pelos caldos quentes e bebidas fortes que nunca deixavam de ser servidas naquela região. Estranhamente, era pacifico, de um jeito que parecia forçado e ensaiado, toda aquela comodidade; ou talvez fosse a doutrina paranoica de esmiuçar, caçar e encontrar problemas em qualquer canto do mundo, ou talvez fosse porque as pistas que coletaram os havia levado até ali.

— Pescaria? — A voz suave chegou-lhe aos ouvidos, fazendo Naruto cerrar o maxilar ao instante.

— Ainda não. — Evitaria esse recurso quanto pudesse — Não é nosso objetivo principal, apenas convergiu com nossos interesses.

— Sabe que vamos terminar mais cedo assim. — Já baixando o capuz da capa negra de viagem, Hinata retruca, acomodando seus longos cabelos de uma forma muito específica, frágil.

— E você sabe que odeio esse método. — O rosnado aversivo veio em seguida, enquanto o estômago dele afundava ao captar as consequências imediatas daquilo.

— Os resultados serão os mesmos. E me preocupa que tenha conexões com os fundos deles. — Com os olhos frios, Hinata sorri daquela forma adorável que fazia suas bochechas corarem e levanta-se — Em cinco minutos.

— Três é meu limite. — Apertando as bordas da mesa, fazendo-a estalar, Naruto a vê caminhar para longe.

Contando aquele odioso lapso temporal com uma inquietação perturbadora sussurrando em seu ouvido para ir logo, o Uzumaki agarra-se à abstração de sua pessoalidade para suportar até o fim; contudo, quando o último segundo expira, o que resta no lugar da lógica faz o ar ao redor dele vibrar enquanto segue pelo mesmo caminho com passos indetectáveis. Seguindo os vestígios do chakra, ele esgueira-se através da cozinha, pelo depósito, saindo em uma porta lateral quase oculta, a passagem levava ao beco do outro lado do quarteirão; deteve-se nas sombras por um segundo, catalogando e memorizando posições. Havia dois vigias apenas, revelando o quanto se sentiam seguros no que faziam, um homem grandalhão e desengonçado — certamente o “transportador” — acabava de colocar o “embrulho” na carroça de repolhos, e vira-se para uma quarta figura, alta, vestes impecáveis e uma autoconfiança barata irradiando de sua postura, com certeza, o líder.

— Foi inesperado, mas a colheita de hoje é de qualidade. — O grandalhão conta num sorriso amarelado, abrindo o embrulho minimamente.

— Realmente, inesperado. — Os olhos do homem brilham enfeitiçados, ao ver aquele rosto de porcelana, e ele estende uma das mãos cheias de anéis para tocá-la.

O ruído seco de corpos caindo ao chão interrompe sua ação e assustados, ambos viraram-se para trás confusos, tinham certeza, não foram seguidos por ninguém, entretanto, caminhando em sua direção, a figura coberta de negro tinha as mãos pingando vermelho na terra batida; prevendo uma vantagem por sua estatura e pela maioridade numérica, o grandalhão saca suas armas, confiante e ignorando que seus dois vigias foram abatidos sem que nenhum deles percebesse.

— Extrato de papoula-dormideira? Isso é bem caro no mercado ilegal. Quem financia seu “negócio”? — E para a completa pane dos dois, a garota no saco levanta-se como se nunca tivesse sido colocada para dormir.

— Merda… que merda é essa… — O brutamontes gira o pescoço de um a outro, e impaciente, atuando conforme seus hábitos de pandilha, ataca Naruto primeiro.

O primeiro impacto é um chute preciso em seu joelho esquerdo — razão do seu coxear desengonçado — fazendo-o cair sob o peso do próprio corpo, o seguinte movimento foi distender ambas as mãos para cima, forçando os cotovelos ao contrário, inutilizando os braços, e o último impacto foi uma joelhada no queixo; sem qualquer sinal para causar alarde, sem alongar o embate desnecessariamente, tudo já havia terminado. E quando o último dos quatro processa o que vê e pensa em usar a garota como refém em sua fuga, ela já o rendera sem esforço; suas pernas simplesmente cederam, um formigamento estranho espalhava-se por seu corpo, e seus batimentos eram erráticos.

— Coniína. Eficaz e garante o tempo necessário para você soltar a língua. — Girando uma Senbon entre os dedos finos, Hinata coloca-se diante do homem, e seu sorriso já não produzia o rubor de antes — A menos, é claro, que queira que isso chegue até seus pulmões.

O tempo, como Hinata ressaltara, foi preciso e suficiente para terem a espinha dorsal de tudo que a normalidade forçada de Shimogakure ocultava, e pistas importantes sobre como a rede neural das organizações que estavam caçando estruturavam-se, comunicavam-se, e mais importante ainda, como mantinham-se, especialmente uma; cerca de meia hora mais tarde, a mensagem criptografada estava sendo presa à perna de um falcão, com a ordem explícita de que seus ataques coordenados passariam a rastrear e incluir até mesmo os pequenos ratos de latrinas.

Após uma noite longa e em constante movimento que a “limpeza” causa, a dupla deixa a Vila ao amanhecer, submersos em pensamentos que reorganizavam uma linha temporal interessante, e justamente um ponto incoerente os fazia repensar em muitos fatos que tinham como concretos; parando numa estrada deserta sob o sol do meio-dia, com o vento gélido distante, Hinata bebe bons goles de água, fitando uma árvore frondosa por minutos.

— Não é estranho que algo que começou em prol dos fracos e oprimidos, agora explore os fracos e oprimidos? — A Hyuuga por fim pontua aquela incongruência — A história conhecida e a que acontece por debaixo dos panos não confere.

— Pode significar que a história era uma fachada, ou que mais alguém está manipulando de dentro, e nesse caso, o sensei precisa saber. — Naruto responde, buscando mentalmente a localização do ponto de comunicação mais próximo que mantinham com Itachi.

— Vamos entrar nos limites de Kumo pelo nordeste, há um ponto lá. — Deduzindo o que ele pensava, Hinata ergue-se, guardando seu cantil — Se mantivermos o ritmo essa noite, talvez ainda dê tempo para uma interceptação em território neutro.

— Considerando que tivemos que mudar os planos e contornar a rota original. — Ajustando as Ninja-to’s ocultas por sua capa às costas, Naruto aproxima-se dela e com um semblante tumultuoso, lhe afaga o rosto — Sem mais pescarias, Hina. Kurama e eu estamos por um fio da sanidade.

— Eu estava no controle. — Hinata justifica, sabia que ele ainda remoía a estratégia.

— Eu sei. Mas isso não significa que seja menos doloroso. — Com aquela tensão ainda borbulhando dentro de seu peito, Naruto replica, seu olhar com aquele brilho cobalto retornando como um aviso — Você poderia se preservar um pouco mais? Prometo que vou estabilizar isso, mas ultimamente, tem sido difícil.

— Desculpe, não sabia que te afetava tanto. Antes, sempre usamos essa tática. — Preocupada, Hinata fala, devolvendo-lhe o afago.

— Bem, a última missão longa que fizemos sozinhos foi antes de nós, sequer entendíamos o que sentíamos, e também… — Tomando um respiro para organizar sua mente, Naruto considera como dizer-lhe aquilo — … percebi isso naquele dia lá no porto, antes de chegarmos a Uzushio. Kurama disse que aconteceria, mas não pensei que fosse ser tão… desestabilizante. Desde que alcançamos a sétima cauda, as emoções negativas que ele suprime estão vazando… influenciando o que sinto… então, toda aversão visceral que já existia em mim, é intensificada.

— Vamos resolver isso, e bem, suponho que serei um pouco donzela em perigo pelo bem da sanidade de vocês. — Astuta, Hinata traz um tom leve e provocativo a conversa, para ajudá-lo a deixar ir aquela tensão.

— Obrigado. — Segurando sua mão e sorrindo, Naruto reinicia a caminhada.

A caminhada perdurou a noite inteira, as paradas para hidratação e ingerir rações foram de no máximo cinco minutos, e como calculado, alcançaram antes do amanhecer um posto neutro para deixar a mensagem oculta a Itachi; o sol nem bem despontara para ofuscar as estrelas persistentes, e a dupla passava pelos últimos postos de sentinelas em seu caminho, antes de entrar propriamente em território de Kumo, sob a proteção da neblina matinal a elevar-se. E como Hinata estimara, a interceptação ainda seria possível, embora a assinatura daquele chakra maçante estivesse distante, e uma presença igualmente intensa estivesse encaminhando-se para cruzar sua rota; sabendo que perderiam uma chance que talvez fosse única, Naruto decide conseguir ao menos uma interação, e num movimento rápido e fluido, ergue Hinata em seus braços, avançando quilômetros em segundos, usando toda sua habilidade natural para alcançá-lo, garantindo segundos precisos.

— Mas que droga! — Exaltado com a aparição repentina, o jovem homem detém-se, interpondo-se entre eles, o velho e a garota, preparando-se para atacar.

— Não viemos lutar. — Ao baixar Hinata com suavidade, Naruto ergue as mãos em sinal de paz, e com os sentidos em frenesi pela absurda pressão do chakra avançando em sua direção, fala afobado — Somos de Konoha, Gyōja-san. Hiruzen Sarutobi foi meu mentor, meu avô. Não há tempo.

— Viemos informar de um abrigo, um lugar seguro. Fora das rotas convencionais, fora do radar dos caçadores de Bestas e Kinjutsu’s perigosos. — Hinata complementa, estendendo um pergaminho aberto ao chão, com coordenadas — A rota leste está segura…

— Vão. Agora! — Com suor frio brotando em seu rosto, Naruto interrompe, sentindo a presença mais perto, lançando um último olhar significativo ao jovem de cabelos negros, que trava por um segundo, quando sente o chakra da Bijuu fluir pelo Uzumaki.

Antes que os três recuperem a coordenação, diante da estranheza do momento, Naruto salta para trás deles, fechando sua retaguarda, no exato instante em que algo improvável acontece na história: o seis, o oito e o nove estão juntos exatamente ao mesmo tempo, no mesmo ponto; antes que os recém-chegados àquele encontro processem o que veem, ou os rostos diante deles, um movimento de espadas extremamente rápido, provoca um tufão, levantando a poeira da estrada num vendaval incontrolável, a cobertura perfeita. Quando a poeira baixa, não há mais sinal dos três interceptados ou do pergaminho oferecido por Hinata, restam apenas ela, Naruto, e os recém-chegados, com semblantes tensos e armas em punho; as duas presenças maçantes que o Uzumaki interpretara como sendo apenas uma antes, estão bem diante dele em postura de combate, aguardando um mínimo movimento para agir.

— Que surpresa, meus sentinelas reportaram uma invasão a noroeste, achei que fosse bobagem de novatos impressionados. — A voz grave daquela figura imponente reverbera.

— Engraçado, não existiam sentinelas nas guaritas quando passamos. — Naruto responde, enfatizando o detalhe.

— De qual Vila vocês são, garoto? Responda corretamente e tudo fica em paz. — Com a típica imposição etária de alguém em sua posição, o homem exige.

— Não atacamos. Isso nos exonera de qualquer acusação. — Parando ao lado de Naruto, Hinata ressalta, percebendo como o aperto dele nas empunhaduras aumenta — Nossa missão era um resgate.

— Sua missão será o que constar nos meus relatórios, mocinha. — Novamente, aquela autoridade espontânea se faz presente.

— Se você quiser guerra, Raikage. — Ao instante, Naruto retruca num rosnado.

— Naruto! — Hinata o repreende no mesmo segundo.

— É uma realidade estatística. — Dando de ombros, Naruto embasa sua provocação — Não atacamos um único Shinobi de Kumo, em nossos relatórios a missão consta detalhadamente como uma expedição de resgate em território hostil. O que aconteceria quando se desse a saber que o Raikage ordena execuções em terra neutra de fronteira?

— Yoh, maninho. — De um instante a outro, a segunda presença maçante se interpõe na discussão, dando um passo à frente, ignorando o protesto de A — Que tipo de energia é essa? Bakayaro! Konoyaro! É sinistra, yeh!

— Você sabe melhor, Bee-san. — Com uma calma que não cabia ali, Naruto retruca, fazendo o Raikage olhá-lo melhor.

Quando o impasse parecia que iria direcionar-se para um melhor caminho, perante aquele reconhecimento inesperado, uma dureza repentina apodera-se das expressões neutras do Uzumaki, e com um único selo de mãos, ele invoca seus pergaminhos bélicos, enquanto um rugido gutural escapa de sua boca; o porém, é que esse rugido não pertencia ao rapaz, e isso fica claro para os poucos Shinobis de Kumo acompanhando A e Killer Bee, ambos também estáticos e em posição defensiva diante daquela brusca mudança.

— Quem deu o aviso? Quem sabia que estariam aqui? — Captando a mesma alteração perimetral, Hinata faz as perguntas necessárias naquela situação, trocando seus Tessens por armas de longo alcance, suas Naginatas.

— Mais um passo e aniquilo os dois. — Ainda confuso, A avisa, o corpo todo emanando aquela energia crepitante de um Kage do País do Relâmpago.

— Você não entendeu? É uma armadilha! Um encontro orquestrado para aniquilar duas potências pela consequência de hoje! — Num brado impaciente que só utilizava com seus recrutas, Naruto exaspera-se, focando o olhar na direção em que sentira a aproximação ainda imperceptível aos demais.

Minutos depois, todos puderam ver o que poderia ser considerado um contingente, exagerado para ser apenas saqueadores ou mercenários comuns, mas a quantidade somente confirmava a suspeita: o alvo era o Raikage; era razoável considerar que a intenção de causar um incidente político existia, mas esse seguramente seria um plano secundário, se o mandante não tivesse conhecimento de quem o grupo de Kumo encontraria em terras neutras, se soubesse, a história abria um terceiro panorama.

— Vou repetir, Raikage, quem sabia? — Infundindo suas lâminas em chakra, Naruto indaga.

— Apenas o alto escalão, alguns conselheiros. — Impactado ao ver os dois jovens dar-lhe as costas, preparando-se para um confronto com o enorme grupo, A responde.

— Não. — Hinata ordena de repente, ao vislumbrar um lampejo avermelhado emanar de Naruto, que a fita em frustração — Não! Não sabemos quem está observando.

— Você vai moderar? — Quando os tilintares das armas e os brados tornam-se mais altos, Naruto negocia.

— Temos um acordo. — Posicionando ambas as enormes lanças para trás, para ganhar impulso, Hinata retruca, e erguendo o queixo com altivez, acrescenta — E tenho certeza que o Raikage-dono, Bee-sama e Darui-sama vão responder à altura a um verdadeiro ataque dirigido à Kumo.

O último que os três mencionados viram antes do rapaz focar seu olhar a frente, foi o sorriso ladino que dirigiu a sua companheira, no segundo seguinte o ataque os alcançava e os dois lançaram-se como se fossem um só, em um único impulso ao centro da armada; o rapaz parecia fundido às espadas, seus braços movendo-se com rapidez e agilidade, cortando carne e ossos num zunido, e havia algo de antinatural na forma como avançava: não parecia correr, mas romper distâncias, como uma correnteza violenta abrindo caminho montanha abaixo. Seu corpo atlético fluindo por entre os adversários, os olhos girando sem parar, encontrando os pontos falhos das defesas, assim como os mantinha em sua parceira mais atrás; se ele era a brutalidade e a força, a garota era a graça e a elegância, com ataques precisos, movimentos comedidos e uma suavidade que fazia cada passo parecer uma dança, embora, quando o golpe atingia o alvo, o resultado fosse tão devastador quanto os dele.

— Quando isso acabar, vamos descobrir quem são, quero recrutá-los. — A murmura antes de jogar-se no confronto.

A luta estendia-se e estendia-se, já que, ao perceberem que somente os cinco Shinobis acompanhando o Raikage — à parte de Bee e Darui — e os dois jovens desconhecidos, além do próprio A — que era um desastre da natureza em força — davam conta da ofensiva, os atacantes passaram a ter cautela; era um contingente habilidoso, provavelmente experiente em batalha, pelas táticas de cerco e ataques grupais que estavam usando. Pensando nisso, Naruto conduz parte do confronto, dividindo sutilmente os adversários — antes coesos e unitários — separando-os em grupos menores a cada nova leva de ataques; foi nesse instante, quando A percebe o que o garoto estava fazendo, que encontra o que o pusera desconfortável antes, ao vislumbrar o lampejo vermelho nos olhos que há instantes eram azuis, observando os homens como uma fera arrebanhando sua presa, que sequer nota quão indefesa está.

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A mantém o seu flanco estável sem esforço, e enquanto luta, seu olhar não deixa o rapaz em nenhum instante, observando aquele desmantelamento silencioso ocorrer sucessivamente; ele escolhia o alvo mais próximo da garota, iniciava o confronto, e no meio da troca de golpes, movia um passo calculado na direção central, e então começava a atacar com mais brutalidade e rapidez, obrigando os adversários a recuarem instintivamente, mas aí já estavam separados entre si e do grupo principal e o golpe final vinha em seguida. E o interessante para A foi notar que a garota sabia exatamente o que ele estava fazendo, pois assim que ele dava aquele passo que o posicionava para “arrebanhar”, ela colocava-se em sua retaguarda, fechando a brecha que o deixaria vulnerável.

— Ele mantém os flancos dela limpos. — Em um momento em que lutava ao lado de seu Kage, Darui comenta; também já tinha percebido.

— Sinistro, yeh! — Bee passa por eles, girando suas oito espadas em frenesi.

No momento em que restam apenas quinze homens, do contingente de cerca de duzentos, o líder do ataque considera bater em retirada, tarde demais; a pressão que o mantém paralisado não provém do alvo, nem do Jinchuuriki de Kumo, vem de um par de olhos vermelhos em fendas que pareciam ver sua alma. E em seu desespero por sobreviver, o homem arremete contra Hinata — numa necedade vergonhosa para a espécie humana, A pensara, afinal, todos viram a garota trucidar homens adultos — num erro de cálculo fatídico; ele não chega a alcançá-la, somente ouve um vácuo de vento e um estalo enjoativo, e então, está preso ao chão com um joelho pressionando suas costelas e uma mão agarrando seu pescoço.

— Que falta de modos. — O grunhido ressoa junto ao tilintar de armas caindo ao chão.

Os últimos homens caem com os corpos separando-se em pedaços indo para lados opostos, e enquanto A, Bee e Darui, assim como os outros cinco Shinobis de Kumo, processam o que viram — ou melhor, o que não viram — Hinata aproxima-se de Naruto, já com um estojo aberto em mãos, preparando-se para a segunda etapa; talvez fosse melhor entregá-lo ao Raikage, e simplesmente irem embora, mas enquanto existisse a possibilidade daquilo envolver Konoha ou comprometer o sigilo de Uzushio — caso alguém tenha refeito sua rota — eles tinham trabalho por fazer.

— Vou te propor um acordo, você me conta o que quero saber, e eu não te ensino boas maneiras, que tal? — Com um sorriso ferino, Naruto fala, escolhendo do estojo o seu habitual moedor de nozes.

— … Nã-não… não… s-se-sei… — O sujeito encolhe-se, sufocado com aquela opressão; e o primeiro estalo ressoa.

— Primeira lição: nunca, em hipótese alguma, erga a mão contra uma garota, tampouco se deduz que são fracas, ainda mais quando a garota em questão, aniquilou seu pequeno exército, imbecil. Bem, mas isso já é outra lição, se você quiser perder mais um dedo, é claro. — Naruto falava naturalmente, como se estivesse em um parque, apenas elevando a voz para sobrepor-se aos lamúrios angustiados — Então, me diga, quem te enviou aqui?

Os Shinobis de Kumo estavam acuados também, ao ver a cena, enquanto Bee observava murmurando rimas estranhas, e Darui e A decifravam a psicologia intimidante por trás daquele tom quase amigável, que tornava-se hostil pela escolha de palavras.

— P-p-po-por favor… — Assim que a súplica começa, outro estalo ressoa, e dessa vez o homem se urina.

— Vamos tentar mais uma vez. Segunda lição: não seja um covarde depois de ter atacado, assuma o que fez, e principalmente, não tente fazer reféns. — Naruto prossegue, ainda falando como um velho camarada, então seu semblante muda do sorriso ferino para uma expressão neutra vazia — Sabe, seres humanos têm vinte dedos ao todo, você ainda tem dezoito. Além dos dentes, das unhas, a pele… e bem, para sua infelicidade, eu tenho tempo.

— Se você nos disser o que queremos saber, sem mentir, porque saberemos, ele para. — Pela primeira vez, Hinata participa do interrogatório, trazendo uma promessa de alívio.

Ao ouvi-la, com aquela voz doce como a de um anjo, o homem desata a falar, entregando seu contratante, as ordens recebidas e mais um monte de outros crimes que nada tinham a ver com aquela emboscada, mas seu desespero diante do aviso das mentiras o fez confessar; ele já começava a implorar novamente, alternando seus olhos esbugalhados de um para o outro em frenesi.

— Como eu disse, ele para. — Hinata responde ao olhar suplicante, enquanto Naruto desfere o último golpe num estalo seco.

Antes que A ou Darui compreendam que terminou, os dois estão sentados na terra manchada, puxando alguns pergaminhos de compartimentos ocultos em suas roupas, observando as numerações escritas nos selamentos de cada um, até parar em uma; e a cena que já era estranha, fica ainda mais quando Bee senta-se bem ao lado de Naruto, vendo de perto o que ele fazia com uma naturalidade que faz o queixo do Raikage ir ao chão.

— Aqui, na investigação dos financiadores do Yato do ano passado. — Hinata destaca um nome no relatório, sem fazer conta que Bee estivesse lendo também — Parece que os dissidentes da Raiz se infiltraram em Kumo também.

— Bem, Raikage, seu querido conselheiro estava financiando uma organização criminosa, e parece que planeja usar o mesmo método na sua Vila, depois de eliminá-lo, é claro. — Com um pragmatismo desconcertante, Naruto estende o pergaminho a A, junto a mais alguns sobre a investigação.

— Por que está me entregando isso? Qual a vantagem de nos ajudar? — A ia indagando, desconfiado, enquanto lia e alternava o olhar entre os dois, e então reconhece o símbolo nos relatórios — Espera, vocês são de Konoha?

— Porque acabamos envolvidos no meio disso, é um problema nosso que saiu das nossas fronteiras. — Igualmente calma, Hinata explica o essencial, e acrescenta uma verdade importante — E pela discrição de não mencionar nossa presença aqui. Nossa missão era um resgate, sim, mas é sigilosa.

— Céus… Konoha… — Em um vórtice mental, A começa a catalogar todos os Shinobis da Vila da Folha com quem já topara, até deter-se em um.

— Ei? Bakayaro! Konoyaro! De qual Bijuu você é Jinchuuriki? — Sem nenhum interesse na conversa política, Bee decide parar de tentar adivinhar e questiona Naruto diretamente, fazendo A e Darui retesarem-se com sua afirmação.

— Da Kyuubi. — Pousando seu olhar em Bee, e ignorando a reação dos demais, Naruto responde.

Naquele instante, a desconfiança volta a preencher a mente do Raikage, e era uma reação muito compreensível até, afinal, durante todo aquele tempo, não sabiam quem os dois jovens eram, no entanto, os dois sabiam quem eles eram, cada um deles, e ainda tinham informações de Kumo; sabendo que eram Shinobis de Konoha, com seu histórico de desavenças passadas, e depois do que viram, A até esteve muito calmo diante de tudo.

— Muito bem, antes de qualquer acordo extraoficial, quero saber a verdade, o que estavam fazendo aqui? Como sabem de tudo isso? Quem eram os três que fugiram? Quem são vocês? — Com o chakra crepitando e cobrindo-o da cabeça aos pés, o Raikage pontua as questões mais urgentes.

Depois do que vira, sabia que a ameaça com base em força não funcionaria, seu instinto dizia que os dois morreriam antes de abrir a boca, então usaria o que raras vezes soube conduzir em sua vida: diplomacia; com um olhar rápido entre eles, e logo dirigido aos cinco Jounins de Kumo atrás de A e Darui — que ao perceberem a análise que a dupla fazia, ordenaram que se afastem quilômetros — Naruto e Hinata começam a responder às questões do Raikage, apenas com informações pertinentes que comprovassem sua presença ali, assim como justificavam serem eles, mas o suficiente para que a dúvida já não os mantivesse naquele impasse.

— Não brinquem! ANBU’s? — Perplexidade era pouco para descrever o estado de Darui nesse instante.

— Sim, por isso tantas informações, no nosso meio, informação é poder. — Calmo, Naruto confirma, erguendo-se e estende a mão para escoltar Hinata — Temos certeza que Kumo também tem dossiês de Konoha. E nos convém, como explicamos, nesses tempos em que essas organizações estão deixando de ser apenas uma promessa de problema, garantir que não obtenham mais nenhuma Besta.

— Isso significa que já conseguiram alguma? — Perspicaz, A quase afirma.

— Temos a confirmação do Yonbi, e há quase um mês o Sanbi, também há uma informação difusa sobre o Gobi, mas não temos mais detalhes, até onde sabemos, é um alvo ainda. — Séria, Hinata explica, e aproveita aquela outra oportunidade única e acrescenta — Por isso, seria bom que Kumo passasse a ter um protocolo protetivo para o seu Jinchuuriki, e que considerasse conduzir uma “limpeza” interna.

— Seria estúpido da minha parte, não ouvir. — Com uma postura que Darui e Bee jamais viram, o Raikage concorda, e agora que estava mais próximo, aquela imagem volta aos seus pensamentos, então ele deixa a altivez de lado e pergunta — Garoto, você me lembra alguém que conheci, quem é seu pai?

— Yeh, verdade, Big Brother. É um clone. — Bee imediatamente ergue-se, rimando e movendo as mãos inquietas — Está aqui, está lá! Bakayaro! Konoyaro!

— Minato, meu pai era Namikaze Minato. — Apesar da expressão neutra, a voz não escondia um orgulho e uma dolência que nunca esvaia; segurando a mão de Hinata, Naruto afasta-se dois passos — Se nos dão licença, precisamos ir. Até outra hora, Raikage-dono.

Deixando para trás um campo de batalha repleto de corpos, uma cooperação inesperada — que não saberiam dizer se voltaria a ocorrer — e três dos principais nomes de Kumo perplexos e surpresos, os dois somem num Shunshin.

***

Yugakure, nordeste do País do Fogo, anoitecer.

Muitas e muitas léguas de distância de onde o conflito ocorrera, naquela vila pacifica, ponto de turismo conhecido em todo mundo, dois jovens em mau estado atraem um pouco de atenção ao caminharem entre o público animado e festivo, desfrutando daquela noite bochornosa de verão; tinham se limpado o melhor que podiam em um rio no caminho, mas sangue não saia facilmente, não sem um banho decente. Hinata tinha os cabelos presos naquele rabo de cavalo endurecidos, e suas roupas negras do uniforme tático — assim como as de Naruto — desprendiam um odor metálico pungente, também endurecidas com os vestígios secos do confronto em seu corpo, misturando-se ao suor e poeira da estrada; poderiam continuar daquela forma e ir desfazendo-se da sujeira pelo caminho, conforme se apresentasse a oportunidade, contudo, sabiam que não ficariam realmente limpos, e tinham mais certeza ainda, aqueles que deixaram em casa sentiriam.

Desde os eventos do ano anterior, decidiram não mostrar nada mais que pudesse aumentar ou instigar o trauma latente de Konohamaru e Hanabi, e a imagem deles cobertos de sangue seco, era exatamente esse tipo de coisa que deveriam evitar; e também, ajudaria a não ser associados ao ocorrido nas fronteiras, que logo começaria a ser espalhado, se estivessem apresentáveis como viajantes comuns, não como suspeitos de ter saído de uma carnificina. Por isso, dirigiram-se até aquela Vila não militarizada, onde poderiam encontrar apenas descanso, comida e um lugar aconchegante para pernoitar, sem ter de estar vigilantes e alertas — ao menos, não tanto — como acontecia nas estradas; quando pararam diante do balcão do estalajadeiro, Naruto colocou sob o balcão um moedeiro antigo de couro.

— Um quarto, refeições e banho quente. — Sua voz saiu baixa e neutra, rouca de cansaço por todos aqueles dias andarilhando sob tensão.

Por um instante, a algazarra da taverna ali ao lado, o vai e vem da estalagem, e da rua festiva — o som de risadas, copos de saquê batendo e a música folclórica de verão — pareceu diminuir, engolida pelo silêncio pesado que aqueles forasteiros carregavam; o estalajadeiro, um homem de meia-idade com o rosto redondo e marcado pelo vapor constante das termas, alternou o olhar entre o moedeiro de couro gasto e os dois jovens parados à sua frente, e seu faro de comerciante não o enganou.

— Nossas termas são as melhores da região, dizem que nossas águas são curativas. — Assumindo um tom profissional polido, ocultando o desconforto visual, o homem aceita o pagamento, e empurra um livro de registros na direção do rapaz — O prato do dia é cordeiro assado, sopa de ervilhas, pão…

— Qualquer coisa quente. — Naruto o interrompe, indiferente ao que serviriam, contanto que servissem, assinando o livro com um nome genérico qualquer — Qual o caminho?

— Os banhos ficam descendo a escada no final do corredor, à direita. — O estalajadeiro concorda, engolindo em seco, alcançando uma chave de latão pesado sob o balcão, intimidado com a forma como aqueles olhos cobalto continuavam a mapear o local e todas as suas saídas — O quarto, no terceiro piso, quinta porta a esquerda. O jantar será levado até lá.

Com um aceno rígido, o Uzumaki ergue uma mão pesada e trêmula para pegar a chave, os músculos do braço protestando após dias brandindo espadas — principalmente naquela manhã — e obriga seus pés a prosseguirem pelo caminho indicado; atrás dele por apenas meio passo, Hinata estava na mesma condição, senão pior, considerando que as Naginatas após algumas horas, por terem hastes longas de madeira, pesam o triplo. Ao chegarem às termas, encontram uma única entrada por bloco, e intuindo que se dividiria nos trocadores, apenas conferem a numeração da chave, verificando que seria o bloco de seu quarto e entram; entretanto, do lado de dentro, não encontram nenhuma divisão, tudo era unitário, inclusive a área de banho, a qual verificaram em seguida.

— Vou perguntar, Hina, só um minuto. — Quase arrastando as palavras, Naruto gira nos calcanhares e sai do vestíbulo; e talvez pela providência divina, dá de cara com uma camareira que deixava outro bloco com cestos de toalhas usadas — Moça, um momento, esse bloco é feminino ou masculino? Acho que me confundi no caminho…

— Ah, não, senhor, nossos banhos são conjugais. Por isso são famosos, são o destino preferido dos casais. — Com uma alegria típica de quem adorava aquelas histórias, a mulher explica, sem vê-lo direito e logo parando rigidamente ao erguer os olhos; embora assustada, prossegue — E nossa discrição é precisa, nenhuma fuga, nenhum casamento escondido, nada sai destas paredes. Pode estar tranquilo.

Novamente, com aquele aceno rígido, Naruto agradece e retrocede os três passos de volta ao vestíbulo, ainda processando a informação obtida numa marcha lenta incomum para ele, e ao entrar, pronto para propor uma estratégia de uso coerente e simples que atendesse o que precisavam, detém-se por uns segundos; Hinata estava lutando com uma fivela presa de seu colete, travada com sangue seco, e que seus braços pesados e doloridos não permitiam que suas mãos soltassem.

— Obrigada. — Sentindo como ele abria o fecho quase automaticamente, Hinata agradece, soltando ao mesmo tempo, as fivelas das proteções de pulso.

— Você ouviu? — Pela atitude dela, Naruto deduz e a vê concordar, e então prossegue — É individual igual, te esper…

— Por favor, Naruto! Já fizemos isso na sede, e fazíamos isso até os oito anos, é o mesmo. Você está exausto, eu estou exausta. Esperar? No mínimo, seria para eu te carregar depois, porque você dormiria aqui assim que parasse de pensar. — Com aquele tom reprovador e mandão de sempre, Hinata o interrompe, e sem pedir, começa a soltar as bandagens dos pulsos dele.

Naruto queria argumentar que na sede eles estavam numa situação de luto, e que muita coisa mudou desde sua infância, mas a exaustão o impedia até mesmo de organizar seus pensamentos; e, no fundo, sabia que Hinata estava certa, era o mesmo, porque por mais que tivessem acabado de concluir uma das limpezas mais esgotantes e imprevisíveis de suas carreiras, ainda eram eles, somente Naruto e Hinata, que sabiam tudo um do outro.

— Espera, essa presilha já era, Hina. — Quando a viu tentando soltar os cabelos, ele prontificou-se, e vendo o estrago, simplesmente arrebenta o acessório.

Numa espécie de batalha diferente, a de conseguir desgrudar as malhas negras da pele, os dois encaram a difícil operação de retirar protetores, coletes, fivelas que prendiam os estojos táticos, bandagens que fixavam armas ocultas, e bandagens usadas para impedir que a pele dos pés — em constante atrito — ficassem em carne viva; enquanto separava duas toalhas grandes somente para os seus cabelos, enrolada numa terceira por puro hábito, Hinata nota Naruto ainda lutando com sua blusa de malha, com a cabeça enfiada por dentro da gola e os braços forcejando o tecido para cima.

— Céus, você vai acabar batendo o rosto assim. — Fazendo-o parar quieto, ela desenrosca o tecido enganchado ao cinto da calça, e o puxa em suas costas, onde estava colado à pele — Pronto, tenta agora.

— Obrigado. — Naruto por fim retira a blusa, sentindo as câimbras espalhar espasmos por seus braços.

Enquanto caminhava para a área de banho, Hinata ouviu o farfalhar do restante do tecido sendo despido, e ao empurrar a porta de correr, o vapor cálido e perfumado que a envolveu pareceu ter o efeito mágico de relaxar musculaturas tensionadas; instantes depois, Naruto a segue, e parece ter sentido o mesmo, já que seus ombros decaem consideravelmente. Por minutos, o barulho de água perfumada sendo jogada sobre a pele, os baldinhos de bambu sendo depositados no chão de pedra e o resfolegar de esponjas de banho ensaboadas esfregando braços, pernas, mãos é tudo que preenche a quietude; o contraste com os blocos vizinhos, que pareciam estar em festa, repletos de risinhos e conversas sussurradas, era impressionante, e estranhamente, parecia ruído de fundo, de tão distante que soava para os dois.

— Está limpo? — Esparramando os cabelos pelas costas, sentada naquele banquinho de madeira, Hinata vira-se e pergunta a Naruto, separando os fios negros entre os dedos.

— Não vejo mais sujeira. — Estendendo a mão e repetindo o mesmo gesto, Naruto inspeciona o cabelo por ela, e percebendo a aspereza, acrescenta — Mas vai doer para pentear, Hina.

— Pelo menos agora cheira a sabão. — E num tique desenvolvido após as incursões, Hinata leva as mãos até o nariz, cheirando a ponta dos dedos.

Quando Hinata considera que está limpa o suficiente, com sua pele ardida e avermelhada de tanto esfregar a esponja de banho, embora o cheiro sutil continuasse marcando presença junto à fragrância floral em seu nariz, ela encerra o lavar-se e ergue-se, caminhando com cuidado pelo piso resvaladiço até a banheira natural aberta na pedra da montanha, e submerge seu corpo cansado nas águas termais; ao lado do banquinho onde ela esteve, Naruto permanece em sua tarefa de enxágue, mantendo a atenção toda em si, aguardando mais alguns instantes antes de “encerrar” o que já tinha concluído. Não era tão difícil quanto os filósofos e pensadores romancistas relatavam em suas obras, e nem mesmo impossível, mesmo que o público masculino fosse extremamente visual, Naruto acabara por descobrir que era uma questão de saber como portar-se, como tudo na vida; o cansaço que parecia soterrá-lo no chão ajudava, o vapor residual ajudava, mas o grande trunfo estava nele, em sua compreensão de quem eram e de qual momento era aquele.

Quando ergue-se limpo e exalando a mesma fragrância floral junto ao vapor que saia de seu próprio corpo, manteve a fluidez que seus músculos doloridos permitiam, e apesar de que, quando o banho lavara a sujeira com parte do seu cansaço, parte de sua consciência retomou espaço, Naruto abstraiu-se dele mesmo outra vez; embora, naquela noite, fosse por uma razão diferente à de dois dias, funcionava e isso bastava. Não lhe importava nem influenciava o que diziam sobre os hormônios desgovernados, sobre a irracionalidade juvenil, ou as convenções estabelecidas por uma parcela da humanidade de mentalidade fraca; importava que, apesar do que sentiam, apesar do que tinham, a afinidade, o companheirismo e a construção da relação baseada em respeito que sempre foram suas bases, ditava o ritmo de tudo, mesmo agora.

— Quanto tempo leva para acordar, se dormir aqui? — Submergindo-se junto a ela, Naruto pergunta num suspiro de profunda rendição.

— … Três… três a cinco minutos…? — Agora foi a vez de Hinata ter a fala arrastada e sonolenta, provavelmente por estar ali há mais tempo — Quando foi… a última vez que… viemos às termas?

— Pelo que me lembro, foi quando o padrinho chegou a Konoha, lembra? Ele queria fazer “pesquisas” num desses banhos comunitários. — Fitando-a, Naruto dedura sem querer, e ri daquela imagem graciosa dela — Hina, você parece que tomou todo o saquê desse lugar.

— Pareço? Espera… você ajudou Jiraya nisso, Naruto? — Num lampejo de “sobriedade”, Hinata endireita-se, deixando de escorar o pescoço na borda de pedra, fazendo a água quente ondear.

— Eu? Não! — Imediatamente em pânico, Naruto nega, percebendo tarde sua língua solta — Você já tinha colocado o padrinho de castigo naquela semana, quando percebi que estávamos no banho comunitário, corri na hora.

— Ah, sei, imagino que sim. — Apertando ainda mais o braço cruzado em frente ao corpo, Hinata faz o maior bico, muito desgostosa — Que garoto de doze iria fugir de uma oportunidade dessas, não é? Por favor, Naruto, sei que funcionamos diferente!

— O que você não compreende, Hinata, é que na época, eu tinha vergonha até de segurar na sua mão. A gente estava aprofundando uma relação de infância, e tudo era hiper estimulante, tátil e visualmente. — Dando ênfase naquilo, Naruto busca e segura a mão dela por debaixo d’água — A gente não conhecia limites ainda, não controlava emoções, e parecia que todos os saltos temporais de maturação possíveis tinham acontecido a nós dois ao mesmo tempo. Tudo estava tão confuso, e a única regra que permanecia imutável, era a de toda a minha vida: se Hinata não faz parte disso, então não é correto.

— Acho que, mesmo com os atropelos no meio do caminho, a gente se saiu bem, não é? — Com os olhos marejados, Hinata devolve-lhe o aperto em seus dedos entrelaçados, e naquele tom travesso que só existia entre eles, continua — Mesmo que amanhã, quando o cansaço for embora de verdade, a gente não consiga se olhar direito pelo resto do dia.

— Vou me exonerar de acusações futuras e confessar que minhas reações serão puramente culpa na consciência. — Aproveitando o momento, Naruto “brinca” de verdade, e consegue ganhar um ataque de jato d’água; só que lançado com o pé, o que lhe chama atenção — Hina, por que você se segura assim? A água está cobrindo seus ombros completamente.

— Ah… há-há… isso é... — Pela primeira vez desde que entraram no banho, Hinata revela uma reação comum e natural diante daquela situação, e com mais lágrimas juntando-se aos olhos, explica — … porquê… flutuam…

Naquele milésimo de segundo, Naruto trava, um retesar tão brusco e inesperado que ele chega a estalar inteiro, diante do inusitado e do curto-circuito que a compreensão lhe causa.

— Flu-flutuam? Tipo… flutuam mesmo? Mentira… — Abismado e de olhos arregalados, ele encara Hinata esperando que ela risse da piada, mas quando isso não ocorre, quem gargalha é ele — Céus… Hinata, eu estive um bom tempo confuso e impressionado com as minhas transformações, enquanto você ganhou boias salva-vidas. Isso é muito mais legal!

O eco da gargalhada de Naruto pareceu flutuar pelo vapor, ricocheteando nas paredes de pedra até misturar-se ao som da água ondulando, e Hinata o encarava com as bochechas infladas e vermelhas, dividida entre afogá-lo ou ceder; por fim, o canto de seus lábios traiu sua postura severa, deixando escapar uma risada baixa, contida e genuína, enquanto seus ombros relaxavam mais um pouco.

— Você é um idiota, Naruto! — Hinata resmunga sem muita convicção, voltando a atacá-lo com a água.

— Um idiota com excelente raciocínio lógico. — Naruto rebate, deslizando até suas costas repousarem sobre a borda de pedra e deixando-se ser alvejado — Ah, quando tivermos férias, vamos voltar aqui, nem que seja só por uma semana.

— Somos perfeccionistas compulsivos com vício em trabalho. — Adotando a mesma postura dele, Hinata também recosta-se, fechando os olhos ao fazer a observação — Você sabe que ficaríamos apenas três dias, no máximo da sua paciência.

— Que seja, seria legal também trazer os pestinhas e o padrinho. — Com ar de quem montava um plano de ação, Naruto comenta, fazendo o sorriso de Hinata se alargar.

Após mais alguns minutos — exatos oito antes que suas pálpebras começassem a pesar como chumbo — com os corpos livres do odor férreo, músculos menos travados e a fome contorcendo suas entranhas, eles saem da água quente, secam-se superficialmente e voltam ao vestíbulo onde deixaram seus pertences; conferindo se os uniformes táticos e equipamentos estivessem devidamente guardados e selados, e que não contaminariam as mudas de reposição e nem o restante de seus itens, ambos vestem as yukatas macias e perfumadas da estalagem, depositando as toalhas molhadas nos cestos. Como previsto por Naruto, a tarefa de pentear seus longos fios foi dolorosa para Hinata, principalmente sem a ajuda de seus cremes de cuidado pessoal utilizados em casa, mas ela não precisava que ficassem completamente ordenados e desembaraçados, apenas o suficiente para recuperar alguma ordem antes de seguirem; ao refazerem o caminho pelos corredores, saindo dos banhos, passando pelo saguão do primeiro piso da estalagem, o impacto visual causado pela mudança drástica em suas aparências volta a silenciar o ambiente, e antes que sumissem escadaria acima em direção ao quarto, ouviram os murmúrios chocados começando.

No quarto de número trinta e sete, quando a porta é fechada, abafando os ruídos abaixo e qualquer conversa mais subida de tom daqueles mais entusiasmados e contaminados pela atmosfera festiva, o aroma de especiarias e comida boa os atinge com força, fazendo seus estômagos rugirem; embora o instinto ordenasse que fossem diretamente até a pequena mesinha e descobrissem os pratos de cerâmica, o cuidado e o pragmatismo de sempre ditavam o protocolo seguro que os manteve vivos durante todos aqueles anos. Sentando-se nos futons, Hinata busca e abre o kit médico de sua mochila, separando unguentos — tanto para cortes e feridas, quanto para dor muscular e de articulações — bandagens, antissépticos e pastas cicatrizantes; não houve nenhum protesto ou resmungo, sentado ao lado dela, Naruto apenas baixou as mangas do yukata, retirando os braços para fora e expondo seu torso, revelando os cortes — profundos e superficiais — espalhados pelos braços, costas e abdômen.

— Alguns estarão bons amanhã. — Terminando de vendá-lo, Hinata analisa.

— Os protetores novos são mais resistentes que os anteriores. — Segurando um pote de emplastro que ela lhe alcança, Naruto observa, virando-se para ajudá-la.

Nos minutos seguintes, o Uzumaki aplicou com cuidado o emplastro sobre os ombros, braços, costas e costelas de Hinata, logo fixando curativos de contenção nas áreas arroxeadas das contusões de impacto, com seus olhos transbordando angústia a cada marca tratada sobre a pele alva; detestava especialmente aquele momento, quando era a sua vez de curar, odiava terrivelmente por nunca deixar de ter de curar. Não importava seus braços retalhados ou as possíveis fraturas espalhadas por seu corpo, mas quando chegava o seu turno no revezamento, e seu olhar ia catalogando as provas da dor de Hinata, seu coração sempre apequenava; nesses instantes, desejava mais verdadeiramente, ter sido o único escolhido pelo Sandaime para aquela função.

— Você sabe que amanhã, graças ao Byakugou estabelecido, não haverá mais qualquer sinal disso. — Decifrando a turbulência que fazia o azul dos olhos dele oscilar furiosamente, Hinata pontua com calma, voltando a passar os braços pelas mangas da própria yukata.

— Isso não apaga que estiveram aqui. — Tocando suavemente o curativo sob a clavícula dela, Naruto replica num arrulho.

— Não. — Ela concorda, levantando-se e com delicadeza, o puxando junto, conduzindo-os até a mesa posta — Mas significa que não são permanentes.

O jantar então seguiu um ritmo letárgico, preenchido ocasionalmente por algum comentário banal ou alguma decisão referente à missão que lhes ocorria entre um pensamento e outro, e ainda que a comida estivesse decente e até mais deliciosa do que o esperado, não havia mais espaço para apreciação; quando o som suave de corpos aconchegando-se entre os futons e mantas preenche o cômodo taciturno, ambos estavam presos num limbo de semiconsciência, reconhecendo e agarrando-se à presença um do outro como sempre fizeram, e permitindo que suas mentes enterrassem — junto a tantas mais — os resquícios sonoros e visuais do confronto daquela manhã. Esse mecanismo preventivo foi algo que aprenderam a controlar e usar após os primeiros meses na divisão, funcionava como se os ruídos dos gritos, metal chocando-se, e o som úmido das lâminas encontrando carne fossem perdendo volume, e as imagens frenéticas naquele loop fossem ficando opacas até sumirem; foi assim que aprenderam a seguir para a seguinte missão, que conseguiram deixar para trás uma atrocidade, antes de envolverem-se com a próxima.

— Realmente, está cheirando a flor de figo. — Quase entregue, Naruto afirma, inalando profundamente o perfume impregnando os cabelos dela.

— Que bom. — Aninhando-se mais entre os braços dele, Hinata suspira, agradecida pela familiaridade tranquila que ajustava seu eixo.

***

O mar ainda rugia na enseada, como se a tempestade não tivesse partido de todo, as ondas vinham em sucessivas muralhas, quebrando-se contra as pedras com estrondos que lembravam trovões aprisionados, a espuma erguendo-se em véus brancos, espalhando-se pelo ar como fumaça de um incêndio invisível; o vento carregava o sal e o cheiro de algas arrancadas do fundo, arrastadas por quilômetros do fundo da baía, e cada impacto fazia a terra tremer sob os pés, como se a própria costa resistisse a um cerco naquele espetáculo de fúria e beleza, do caos líquido que não se deixava domar.

Entretanto, nem esse contínuo arrebato da natureza, um vestígio pequeno em comparação a como fora a noite até o amanhecer daquele dia, fizera surgir qualquer temor ou recuo na decisão das crianças, mesmo com os avisos dos outros sobre não poderem precisar quando seria, nem sobre a instabilidade do tempo; ambos permaneciam com os pés bem cravados na areia branca, repleta de detritos do mar e da floresta ao redor, os olhinhos fixos no horizonte, prescrutando cada ponto de movimento que conseguiam captar entre as águas, esperando.

— Já devem estar a caminho. — Levando até os dois uma pequena travessa com sanduíches, Ino para ao lado deles — Comam um pouco, vocês sabem que vão ouvir uma baita bronca se eles os virem assim.

Como se fosse um ritual não verbalizado, logo Jiraya, Hiashi e Neji juntam-se a ela, abandonando por algum tempo as tarefas que faziam naquela manhã, prontificando-se junto a Konohamaru e Hanabi para aguardar; atrás dos três, logo Fuu e Shino também aproximaram-se, sentando-se na areia sem restar importância às suas roupas ficando molhadas. Quando a apreensão começava a rondar entre todos, e a ansiedade e o medo puro começavam a fazer as lágrimas transbordar dos olhos das crianças, conforme as horas iam arrastando-se, um som mais alto e mais estridente do que o rugido das águas os alcançou; a reação foi imediata e coletiva, olhos estreitaram-se e varriam a extensão azul à frente, buscando em frenesi.

Primeiro, avistaram apenas um risco escuro rompendo o branco das ondas, logo tomando forma, uma silhueta escura e pequena surgindo mais nítida, e completamente reconhecível ao transpassar ziguezagueando pelas traiçoeiras correntes espirais antecedendo a baía; assim como o som do motor crescia, a agitação e alegria das crianças cresciam junto, pulando e saltitando em seus lugares, balançando os braços sem parar sobre as cabeças, sorrindo ao ver o barco aproximando-se rapidamente, indiferente a fúria das águas. O motor não havia reproduzido os últimos roncos, quando os pequenos já corriam até o local onde o barco era atracado — o mesmo que ocupara dias atrás — oculto pelas rochas negras da costa; os outros, que os seguiram assim que perceberam a ação, pararam a poucos passos de distância, observando e reconhecendo as duas figuras de negro desembarcando e jogando mochilas pesadas sobre a areia, instantes antes de serem atacados.

— Otou… — Hanabi não conseguiu completar o soluço, apenas jogou-se escondendo o rosto entre os braços que abriam-se para recebê-la.

Ao lado dela, Konohamaru sequer conseguira formular qualquer palavra, já com o rosto escondido no ombro de Hinata, que também abaixara-se para recebê-lo, murmurando algo baixinho que apenas o menino convulsionando em choro podia ouvir.

— Ei, tudo bem, Nabi, agora está tudo bem. — Ao aproximarem-se os últimos passos dos quatro, os demais puderam ouvir a voz arrastada de Naruto falar à menina com imensa doçura.

— Pontuais. Dissemos a eles. — Numa tentativa de aligeirar a atmosfera emotiva, Jiraya comenta, abaixando-se para pegar e carregar uma das mochilas, sorrindo ao ver Hinata analisar o rosto avermelhado e ranhento de Konohamaru em busca de qualquer sinal que não estivesse ali há quinze dias.

— Crianças não ouvem estimativas, padrinho, elas processam somente fatos. — Erguendo-se da areia levantando a menina junto em seus braços, Naruto responde, observando agradecido, Neji pegar sua mochila, vasculhando em seguida o estado de todos os outros — Tudo bem por aqui?

— Tirando a tempestade da noite, foi tranquilo e igual. — Neji responde, os olhos astutos fixando-se na leve contração e retração que captam quando Hanabi pousa suas pequenas mãos nas costas de Naruto.

— Eles se comportaram? Deram muito trabalho? — Hinata pergunta, observando os semblantes de todos passando da alegria do reencontro, para uma expressão de riso comedido.

— Você deveria saber, Hina, eles são terríveis. — Ino brinca, encenando uma trágica expressão de estresse — Mas de verdade? Quem dá mais trabalho nessa ilha é Fuu e Jiraya-sama.

— Chegamos à conclusão de que todas as traquinagens dos menores, são inventadas pelos dois. — Shino acrescenta com uma solenidade que não cabia no relato, e inclui um fato inimaginável — E para nossa desesperação, parece que Hiashi-sama os acoberta com precisão.

— Fui apenas um apaziguador. — Hiashi imediatamente se defende, enquanto os outros dois envolvidos sequer se dão ao trabalho.

Entre conversas, trocas de informações superficiais, brincadeiras e risos contidos, o grupo caminha junto à dupla pela trilha, de volta para a cabana escondida na floresta densa de Uzushio, e não demorou para que os outros também percebessem o que Neji identificara quase de imediato: passos rígidos, posturas endurecidas, e um vislumbre de bandagens através de golas e mangas; e sentindo o exato instante em que todos começavam a trocar olhares preocupados e as perguntas quase saltavam de suas línguas, Naruto lhes lança um único olhar de aviso.

— Ah! — Inspirando profundamente ao passar pelo umbral da porta da frente, Naruto sorri largo — Senti falta do cheiro de maresia e marchetaria.

— Matcha. — Hinata acrescenta no mesmo estado de espírito, caminhando com Konohamaru ainda tomado pela mão diretamente para a cozinha — Realmente preciso de matcha.

Com o grupo sentado ao redor da enorme mesa com xícaras fumegantes de matcha, e Konohamaru e Hanabi sentados entre os dois, praticamente grudados a eles, alguns detalhes simples foram compartilhados, o sucesso da interceptação, a investigação secundária — relatada em códigos e estritamente apenas o necessário — e inesperada que iniciaram durante a primeira semana antes de passar as fronteiras, além de respostas ocasionais aos pequenos, que questionavam principalmente sobre os locais por onde os dois cruzaram; também iam atualizando-se sobre o progresso na barreira da ilha, que Ino concluíra há dois dias, agora aguardando apenas pela ativação, sobre o cotidiano ali e as notícias recebidas, tanto pelo grupo, como pela dupla na estrada.

— Sakumo e Kakashi devem ter saído semana passada. — Hinata conclui, tentando recostar-se na cadeira sem sentir as costas protestando — É uma incursão extraoficial, então não vai ter registros. Tenzou escreveu que Shikamaru e Sai quase tiveram um aneurisma quando ouviram.

— É compreensível, tanto o corpo Shinobi da Vila, como a divisão ficam desfalcados sem os dois, principalmente com Kurenai e Asuma afastados. Konoha está em déficit de Jounins. — Jiraya analisa o panorama antes, obviamente, de focar nos detalhes mais fascinantes, de acordo com sua percepção — Quem diria, não é mesmo? Kakashi? Nunca que eu imaginaria.

— Eu só queria ter visto a cara do coitado do Sakumo. — Também evitando o ponto de crise da situação, Naruto volta-se para o lado comum de tudo que discutiram — Ele sempre dizia: “vou expulsar o infeliz”, “quero ver quem tem coragem”. E agora? Como ele expulsa o Kakashi?

Por um instante, todos entreolham-se, captando perfeitamente o desvio que Naruto impôs ao assunto e ao peso do que descobriram a respeito dos problemas e riscos rondando Konoha, especificamente neste caso, Sakura, Kakashi e Sakumo e toda a gravidade das ações de Kizashi; aquilo não era algo que deveria ser debatido por eles, principalmente, não naquele momento, sua função era compreender, apoiar e auxiliar no que fosse possível, mas não imiscuir-se no que não lhes competia. Graças a escolha de foco e de palavras do Uzumaki, apesar da atmosfera que a revelação instaurara, logo a leveza retorna à mesa, quando um riso inicialmente contido — começando por Hinata — espalha-se entre todos, transformando-se em uma gargalhada coletiva; a razão foi a clara visualização que eles fizeram de Sakumo, sério e soltando fogo pelas ventas, tendo que receber Kakashi naquela sua calma irritante em sua casa, não mais apenas como seu amigo, mas como seu cunhado.

— Juro… — Dando tapinhas na mesa, Ino tentava recuperar o fôlego — Vou escrever ao Sai e pedir para ele retratar…

— Então peça por um relato completo. — Adorando a ideia, Naruto instrui, sorrindo mais ainda.

Quando todos estiveram um pouco mais contidos e sóbrios, a conversa tranquila prosseguiu, até o relato da missão alcançar outro ponto que chama a atenção: o encontro com o Raikage.

— Uma emboscada contra o Raikage? — Incrédulo, Hiashi indaga, quase abandonando sua costumeira compostura — E vocês foram envolvidos no meio disso? Por quê?

— Pareceu, e não confirmamos nada ainda, um encontro orquestrado. — Sem dar mais peso do que o necessário, Hinata explica, e os sorrisos ainda restantes somem — Vamos ter de investigar essa variável mais a fundo.

— Nós vamos analisar o ocorrido passo por passo, depois de coletar mais informações e ter um quadro maior do que a visão que tivemos no perímetro. — Naruto acrescenta calmo, batendo ritmadamente o indicador direito na mesa — Tivemos muitas perspectivas inusitadas durante essa incursão, demais para não esmiuçar todos os ângulos.

Talvez fosse o peso de suas palavras, talvez fosse a forma insistente como ele tamborilava aquele dedo, ou a expressão vazia e distante que transformou seu rosto risonho, que fez com que todos os presentes — até mesmo as crianças alheias à essência do que estava sendo dito — sentissem um arrepio lhes percorrer a espinha; e novamente, vendo como aquela opressão típica da incerteza voltava a rondar-lhes, Naruto decide mudar completamente o foco, não querendo trazer para dentro de sua casa, aquela inquietude que vinha crescendo.

— Kono, Nabi, vejam só o que trouxemos. — Erguendo-se de repente, Naruto caminha até a sala e abre sua mochila, voltando de lá com dois pequenos embrulhos em mãos.

O efeito foi imediato, por uns minutos ou algumas horas, mas ao menos, a atenção estava focada em ver as crianças abrir os pacotes encantadas; Hanabi ganhara um precioso grampo de cabelo, todo ornamentado em pedrarias coloridas, e Konohamaru ganhara um par de luvas táticas de couro.

— Onde vocês encontraram tempo? — Neji pergunta, observando impressionado como Naruto prendia corretamente o grampo no cabelo de Hanabi.

— Paramos em Yugakure antes de retornar em definitivo. — Hinata conta o essencial, rindo minimamente ao recordar o espanto do estalajadeiro ao vê-los.

Naquela tarde, quando Konohamaru e Hanabi — exaustos após terem praticamente levantado antes do sol para esperar — adormeceram, Naruto e Hinata os acompanharam num sono de recuperação, e como pedido pelos pequenos, todos juntos; durante a noite, Ino e Fuu encarregaram-se de preparar o jantar — apesar da Yamanaka ter problemas para moderar as peripécias da Jinchuuriki — com a ajuda de Shino e Neji. Na sala, enquanto a dupla ouvia das crianças todas as histórias impressionantes e grandiosas dos quinze dias afastados, com acréscimos zombeteiros e provocativos de Jiraya, e comentários justificativos de Hiashi, um acordo silencioso e tácito instaurou-se sutilmente: pelo restante daquele dia, a palavra missão não foi mais pronunciada; no dia seguinte o peso, as responsabilidades, os planejamentos poderiam retornar, mas naquele instante — principalmente para os mais velhos vendo-os atentamente — estava claro que o que Naruto e Hinata mais necessitavam era a leveza inestimável daqueles sorrisos, das histórias mirabolantes com finais felizes e eternos.

“E foi assim que, com o martelo mágico, Issun-boshi se transformou em um jovem forte e imponente. Ele se casou com a princesa, tornou-se um samurai oficial e viveu feliz com seus pais no palácio”. — Horas mais tarde, Naruto terminava a leitura de mais um conto, colocando os dois para dormir — “Medetashi, medetashi.”

— Issun-boshi foi corajoso… — Konohamaru, entre o sono e a teimosia de permanecer desperto, começa — Igual você e a okaasan, otousan.

— É... mas a okaasan também é como a Princesa Sayo… só que mais bonita… — Hanabi considera, mal mantendo os olhos abertos.

— Com certeza, muito mais bonita e corajosa. — Guardando o livro, enquanto Hinata ajustava as mantas deles, Naruto sorri — Agora dormindo, os dois.

— Boa noite, otousan. Boa noite, okaasan. — A resposta soa conjunta, também no mesmo tom cansado e carinhoso.

Durante alguns minutos, antes de fechar a porta do quarto, eles permanecem parados ali, apenas ouvindo o ressonar ritmado, as respirações tranquilas — e ocasionais risadas — de Konohamaru e Hanabi, vendo-os como quem quer certificar-se que aquilo era real; quando caminham a passos lentos para o próprio quarto, Naruto ainda segurava a mão de Hinata como se quisesse ancorar-se naquele momento, como se o calor da presença dela tivesse o poder — e talvez realmente tivesse — de repelir qualquer sensação que não fosse sinônimo de paz e felicidade.

— Quando a gente esteve na estrada, naquela tensão da vigília constante, não dá para perceber muito. — Sentando-se na cama macia e observando-a com se visse pela primeira vez algo maravilhoso, ele fala — É só quando a gente volta para isso, para a nossa rotina, para eles, que dá para sentir a importância e a dádiva que é voltar.

— Você sabe que, mesmo inconsciente, mesmo misturado a tudo aquilo. — Recostando a cabeça no ombro dele com cuidado, Hinata responde, prolongando a contemplação um pouco mais — Esta é a motivação que nos faz continuar.

Do lado de fora, o mar continuava avançando e recuando sobre a costa, mas, dentro daquela casa, havia apenas paz.