O Sol e A Lua

45 Fagulhas e Cerne


Notas iniciais
Oi minha gente!! Todos bem?? Espero que sim. Aqui no sul faz umas duas semanas que deu a louca no tempo. Bem, como prometido, trago mais um capitulo para vocês. Está repleto de amadurecimento, emocional, físico, psicológico, e também tem muito subtexto escondido, só para vocês rirem das entrelinhas. Também há comédia e implicância escancarada, eu pelo menos, ri horrores a cada pedacinho disso. Mas vocês me conhecem, sou suspeita para falar. Espero que a construção feita aqui, para cada núcleo narrativo, alcance vocês e transmita cada emoção, pensamento e cada ação retratada, com a intenção que foi pensada: ser real, transmitir verdade e humanidade à estória. O mundo retratado aqui está crescendo, expandindo e avançando no enredo, e espero de coração que vocês disfrutem da leitura. Como sempre, obrigada pelo carinho, pelo apoio, e por dedicarem tempo a ler e comentar. Beijão a todos!!!

Os corredores do edifício administrativo, normalmente silenciosos àquela hora da noite, reverberavam com passos apressados, portas eram abertas sem cerimônia, cadeiras arrastadas pelo assoalho e pergaminhos distribuídos às pressas enquanto mensageiros cruzavam os corredores quase correndo; pela primeira vez em muitos anos, uma reunião extraordinária do alto conselho de Kumo fora convocada antes mesmo que o sereno da madrugada caísse sobre a Vila. Sentada em seu lugar na mesa oval, Mabui vagueou os olhos pelo local, observando os membros do conselho chegando um após o outro, e bastou um único olhar para C e Dobai para perceber que nenhum dos dois fora informado previamente, e pior ainda, não conseguiam compreender o que deixara Darui, Killer Bee e o Raikage naquela tensão incomum após sua inspeção na fronteira pela manhã.

O ar dentro da sala já parecia mais pesado do que o habitual, carregado de uma expectativa que ninguém ousava transformar em perguntas em voz alta, e o mistério prosseguiu por mais alguns minutos, quando os murmúrios especulativos começaram a tornar-se conversas mais altas, as portas de carvalho foram abertas; os passos firmes e pesados do Raikage foram suficientes para silenciar a sala e, em seguida, foi sua postura ereta como uma montanha, aquela rigidez nos ombros, que terminou de alertar os presentes sobre a seriedade do momento. Ao seu lado, Darui mantinha o rosto fechado, os olhos atentos a cada movimento ao redor, enquanto Killer Bee, que costumava trazer leveza até nas situações mais sérias, seguia em silêncio, as mãos enfiadas nos bolsos e o olhar distante; mais de um conselheiro engoliu em seco diante daquela imagem, outros endireitaram-se nas cadeiras quase instintivamente, organizando os próprios pensamentos antes que a reunião fosse aberta.

O Raikage caminhou sem pressa até a cabeceira da mesa, onde parou e apoiou ambas as mãos sobre a madeira polida, com tanta força que as juntas dos dedos esbranquiçaram-se sob a pele escura, varrendo o ambiente com um olhar intenso, que percorreu cada rosto ali presente, como se avaliasse a capacidade de cada um de absorver o que tinha para dizer; com um aceno para Darui, no instante seguinte, um pequeno destacamento de elite entra na sala e coloca-se de prontidão.

— Cancelem todas as diretrizes de incursão ao norte e recuem as patrulhas da fronteira para o segundo quadrante de defesa. — A ordena primeiro, a voz rouca cortando o ar com a força de um trovão contido, girando a cabeça levemente na direção de Mabui e Dobai — Imediatamente.

Um murmúrio de surpresa e descontentamento ameaçou subir entre os conselheiros mais antigos, recuar linhas de defesa sem um ataque declarado ia contra o orgulho e a doutrina militar de Kumo; Dobai tencionou o corpo, menoscabando o protocolo ao abrir a boca para intervir, mas bastou um sutil e gélido balançar de cabeça de Darui para o veterano recuar, engolindo a própria contestação.

— De acordo com nossa inteligência, os sentinelas relataram uma invasão hostil nas fronteiras essa manhã. — O Raikage prossegue, silenciando os sussurros sem sequer elevar a voz — Foi um relatório adulterado que nos encaminhou para uma emboscada.

— … Uma emboscada…? — C ergue-se espantado, a voz estridente de susto sobressaindo ao burburinho subindo cada vez mais de tom.

A sala de reuniões submergiu em um pequeno pandemônio, muitos olhavam para todos os lados, preocupados e aturdidos, outros encolhiam-se em seus lugares, recuando e sentindo como o controle lhes escapava das mãos; A gesticula, e Bee e Darui distribuem a C, Dobai e Mabui as cópias dos pergaminhos que receberam na fronteira, com todos os detalhes do que descobriram.

— Hoje, Kumo recebeu uma ajuda inesperada, e grandemente oportuna, e eu, como o Yondaime Raikage, não me atrevo a desperdiçar. — A continua, finalmente sentando-se em seu lugar, os olhos escuros varrendo a sala novamente, detendo-se em alguns rostos numa intensidade assustadora — Agora, vou arrumar a bagunça na minha casa.

***

O céu estava começando a dividir-se, de um lado da imensidão começava adquirir um tom de roxo escurecido, e ao leste, uma palidez cinzenta tingia timidamente o horizonte, e o som que ia e vinha ritmado, num suave ssshhh… whoooshhh rompendo a quietude da alvorada; o vento assoviando por entre os rochedos e agitando as árvores, juntava-se ao murmúrio do mar e passava por entre as janelas abertas, movendo as cortinas de linho numa constância tranquila. Esses ruídos de calmaria, junto ao cheiro da brisa salgada, matizada de ervas e terra molhadas de orvalho, foram o que lhe trouxeram primeiro a consciência, e logo, foi aquela sensação já conhecida e incontrolável; estava misturada à calidez familiar do peso brando em seus braços. Ao abrir os olhos e inspirar profundamente, o aroma de glicínias e lavanda preencheu seus sentidos, anulando os demais, e o latejar do sangue a pulsar por suas veias tornou-se mais intenso; o suspiro que ecoou no quarto em seguida foi um tanto cansaço, um tanto resignação de quem já sabia-se incapaz de voltar a conciliar o sono.

— Já é... hora? — O resmungo sonolento de Hinata detém a tentativa de Naruto de deixar a cama.

— Não. Descanse mais. — Beijando sua têmpora com ternura, Naruto a faz voltar a dormir, embrulhando-a nas mantas como um charutinho — Ainda é bem cedo.

Após permanecer alguns minutos a mais, certificando-se de que Hinata voltasse a cair no sono, e outros minutos mais somente observando-a ressonar, Naruto levanta-se, troca-se e deixa o quarto sem fazer ruído; o caminho pelo corredor do terceiro piso da cabana ainda estava escurecido, mas já estava tão habituado ao espaço, como esteve todos aqueles anos em Konoha, ao ponto de já conhecer os degraus da escada que produziam rangidos e estalos. Na sala, os jogos deixados pelas crianças na noite anterior continuavam sobre a mesinha, e na cozinha, umas poucas brasas persistiam firmemente no fogão de pedra, e logo de reacender o fogo, Naruto sai para o pátio; os pássaros nem iniciavam suas cantorias ainda, quando ele alcançou a área aberta para treinamento atrás dos canteiros das plantações.

Você sabe que ela vai brigar quando souber, não é? — Como se estivesse esperando, Kurama pronuncia-se com ar de superioridade, vendo-o alongar os braços e girar o tronco, soltando o ar retido nos pulmões.

— Preciso extravasar, Kurama, e já estou recuperado. — Fazendo o selo para o Kage Bunshin, Naruto canalizava parte do chakra da raposa para o clone que surgiu ao seu lado.

Hmpf… Eu poderia citar umas três soluções mais eficientes. Mas vocês humanos gostam de sofrer. — Kurama debocha, embora não parecesse tão indignado.

— Bem… só isso tem funcionado. — Vendo seu clone assumir o estado de cinco caudas da Kyuubi, envolto em chamas de chakra vermelho que ondulavam como fumaça viva, Naruto entra em posição de combate, os pés firmes no solo e a postura alinhada com a disciplina que carregava desde a infância.

E você acha que isso vai resolver até quando? — Kurama provoca, vendo-o defender uma sequência absurda de socos e chutes com uma precisão minuciosa, desviando por milímetros e aparando os golpes sem perder o equilíbrio.

— O suficiente. — Sentindo a pele arder pelo contato direto com a energia densa e abrasiva do chakra, Naruto retruca enquanto revida com força controlada, sendo cuidadoso o bastante para não desestruturar o clone e ter de recomeçar o processo.

A troca de golpes de Taijutsu ali causava vácuos de som e vento, movendo a vegetação ao redor, levantando poeira do chão endurecido que Naruto preparara logo após os dois meses de terem se estabelecido em Uzushio; havia descoberto cerca de um ano e meio antes, que canalizar o chakra de Kurama para os seus clones, tornava-os bons “parceiros” de treinamento, principalmente porque assim, não importaria quão bruto ou intenso o combate se tornasse. Também era uma excelente forma de identificar vícios de combate, eliminar padrões previsíveis, corrigir falhas de defesa, postura e ataque, afinal, eram seus clones e repetiam padrões de luta dele; o confronto estendia-se pelo fim da madrugada, as estrelas remanescentes iam baixando, enquanto o céu pintava-se de um roxo alaranjado na linha onde o sol iniciava sua subida, e os sons dos golpes agora faziam parte da melodia composta pelo mar e o vento.

Quando o céu estava completamente iluminado — num azul anil sem nuvens — e o sol brilhava com intensidade, fazendo a linha do horizonte tremular em ondas de calor que subiam do chão, um pequeno grupo começa a reunir-se no alpendre, alinhados na saída dos fundos; o cheiro de matcha, café e gohan impregnando a corrente de ar que entrava pelas grandes janelas da cozinha e cruzava o primeiro piso, numa essência que praticamente falava “descanso”, ao juntar-se ao aroma de maresia e lenha queimada. Com os braços apoiados nos balaústres, Jiraya observava atentamente cada movimento que ecoava pelo pátio, os olhos negros curvados pelo sorriso ladino em seus lábios; sentiu quando os demais foram atraídos pelos sons, como ele antes, mas não moveu-se a ninguém especificamente a cada “bom dia” que pronunciava, simplesmente fascinado com o que via.

— Faz quanto tempo? — Chegando a usar seu Doujutsu para analisar por alguns instantes, Neji pergunta após uns minutos.

— Estou aqui a meia hora, e duvido que tenha transcorrido apenas isso. — Jiraya responde, murmurando um “uau”, ao ver Naruto aplicar um golpe da “prensa da palma do sapo” com o punho infundido em chakra, potencializando o Fuuton.

— Ele saiu da cama às cinco. — Hinata conta, surgindo atrás de todos daquela forma silenciosa que nunca adormecia — O café da manhã está pronto.

— Desde quando ele usa os clones assim, Hina? — Impressionada, para não dizer perplexa, Ino questiona, os olhos fixos na figura vermelha como lava no pátio.

— Já tem um tempinho. Foi antes dos exames. — Calma, Hinata explica, já habituada àquela imagem.

— Uma pressão impressionante. — Fuu comenta, apertando os braços cruzados.

Ao lado dela, Shino e Hiashi apenas concordam, sem conseguir desviar o olhar daquele treinamento incomum, enquanto os estalos secos chegavam-lhes aos ouvidos sucessivamente; observavam os impactos agitando o ar ao redor do confronto, a intensidade dos choques propagando pequenas ondas de pressão pelo pátio, e nenhum deles conseguia imaginar uma forma de absorver ou aparar golpes daquela magnitude sem ceder terreno, exatamente como Naruto fazia.

— Ele vai parar, eventualmente, e vocês não vão querer esperar com fome por isso, acreditem. — Com um último olhar para o pátio e uma expressão de quem sabia muito mais do que dizia, Hinata volta a entrar na casa.

Pouco depois, ela escutou os passos dos outros vindo logo atrás, e em instantes, a cozinha foi inundada pelos sons de cadeiras sendo arrastadas pelo assoalho, o tilintar das louças e conversas tranquilas e banais misturadas ao planejamento para o dia; o delicioso aroma dos filés de shake grelhados na chapa, do nattō e do tamagoyaki preenchia o cômodo, abrindo o apetite instantaneamente.

— Nossa, Hina, você tem uma mão para cozinhar que faz até a minha mãe parecer uma novata. — Ino elogia, soltando um suspiro de satisfação por causa do sabor do missoshiru — Como você consegue? Sempre foi assim… lembro que, quando a gente ia brincar na cabana e você e o Naruto mal alcançavam a altura do fogão, o Shikamaru sempre dizia que a comida fazia a gente se sentir na casa dos nossos próprios pais.

— Não faço nada demais, só gosto de cozinhar. É um hábito que me tranquiliza, igual a prensar flores. Talvez seja por isso. — Hinata ri fraquinho, as bochechas corando levemente enquanto trazia mais um bule de chá para colocar à mesa — Mas vocês precisam provar quando o Naruto decide que é dia de Kaiseki Ryori. É um verdadeiro banquete.

— Você faz até banquetes complexos para esse convencido, nee-chan? — Num rompante de pura incredulidade, Neji pergunta, franzindo o cenho com uma ponta de indignação protetora.

— Pelo contrário, nii-san, é o Naruto quem cozinha para mim. — Sorrindo com a lembrança carinhosa da última comemoração, Hinata esclarece num tom tão terno que fez todos à mesa sorrirem com ela — Ele sempre faz isso no meu aniversário e, às vezes, quando decide que é um dia especial.

Conforme os minutos iam passando e as conversas iam saltando de um tema a outro sem qualquer ordem ou previsão, o início do novo dia começa a assentar-se em todos, afastando qualquer sonolência ainda persistente, despertando os sentidos daquela letargia natural de corpos e mentes relaxados; antes que os pratos tivessem que ser reaquecidos, os passos apressados e leve das crianças propagaram-se andares acima, anunciando seu despertar agitado e cheio de sua energia única. Ao mesmo tempo, a porta dos fundos — fechada anteriormente pelo último a voltar para dentro — abriu-se com um rangido e Naruto surgiu no umbral, abaixou-se e retirou as sandálias, deixando-as no carpete de fora; quem estava sentado à mesa de costas para a pia da cozinha — Ino, Hiashi e Neji — pôde vê-lo perfeitamente, as roupas grudadas de tão molhadas de suor, os ombros acompanhando o movimento dos braços, soltando vapor, completamente coberto de terra e restos de vegetação triturada, emaranhadas até mesmo em seus cabelos. Quando seu rosto fez-se visível a todos, o Uzumaki fez um aceno tranquilo de cabeça, disse “bom dia” e dirigiu-se ao banheiro ao lado da lavanderia; mesmo estando faminto agora, Naruto jamais sentava-se à mesa se não estivesse impecavelmente limpo, salvo quando estavam em missões e tinham de alimentar-se pelas estradas.

Ouvindo como as crianças iniciavam o dia com sua costumeira algazarra, enquanto abria o registro d’água e despia-se, Naruto sorri com certa nostalgia, recordando-se de sua própria infância ao lado de Hinata, ao ouvi-la perguntar aos dois se levaram-se direitinho e fizeram suas camas; aquele costume de sempre ser assíduos e organizados fora outro dos ensinamentos de vida que Kurenai lhes inculcara, e agora o passavam adiante naturalmente, assim como sua “mania” de estar limpo para as refeições, pois como dizia ela, era a forma correta de agradecer pelo alimento e ter respeito por quem o preparou. A água gelada caia pressionando seus ombros e nuca, enquanto sua testa escorava-se na parede fria, e seu calor corporal ia diminuindo gradualmente, junto aos batimentos de seu coração voltando a normalidade; havia sido um bom começo de dia, embora fora de seus padrões, ao menos aquelas eventualidades — se é que poderia seguir chamando-as assim — foram canalizadas em algo produtivo e importante.

— Vamos ter de reabastecer. — Abrindo um pacote de escova nova, Naruto observa como os demais itens de higiene no armário estavam diminuindo — Talvez seja melhor comprar lotes maiores dessa vez.

Você acha que eles virão mesmo? — Tentando esconder o interesse, Kurama questiona — Como consegue ser tão otimista?

— Não sou otimista, sou calculador. — Naruto retruca, parando até de escovar os dentes, só para ganhar a discussão com a raposa — Pessoas desesperadas e sem rumo, costumam ceder a oportunidades oferecidas sem cobranças. Quando a morte estiver bafejando o cangote deles, vão vir sem pensar duas vezes.

E eu que alguma vez pensei que você era uma alma pura. — Não querendo perder, Kurama implica, e sem querer, acaba delatando-se — Onde foi parar a pulga que mal conseguia sair do subconsciente para que eu não ficasse sozinho?

— Está guardada. — Rindo de leve, Naruto não ressalta o fato de seu hóspede ter acabado de revelar que lhe agradara desde o início — Nesse mundo de agora, Kurama, não posso ser apenas bom e esperançoso. Preciso ser alguém de alma cinza… pelo menos por enquanto. E talvez, um dia, a pulga volte.

— Argh! Então não me peça paciência quando isso aqui estiver cheio. — Agitando as orelhas com aquela típica irritabilidade, Kurama reclama — Desde que aquele inseto chegou, tudo está barulhento demais.

— Barulhento? — Confundido, Naruto indaga, desvirando as roupas pegas na lavanderia — Está como sempre, seu resmungão. As crianças e o padrinho fazem bagunça, mas não chega a ser uma desordem completa.

Não eles. É o inseto que não para de falar. — Bufando só pela menção, a raposa replica num revirar de olho puramente adquirido de Hinata — Fala e fala sem parar.

— Não sabia que vocês se comunicam. — Vestindo a blusa, Naruto observa.

Eu não me comunico. É aquele besouro intrometido. — Seguindo com suas reclamações, Kurama agita as caudas com óbvio descontentamento.

— Bem, você terá de ser mais sociável, porque isso aqui vai ficar bem barulhento. Ou torça para os outros não serem tão falantes. — Rindo da birra da Bijuu, Naruto deixa o banheiro.

Ainda sorrindo, divertindo-se com a inesperada vulnerabilidade do seu hóspede, Naruto caminha calmamente para a cozinha, já sentindo o leve enrijecer em sua musculatura começando a dar sinais de que teria uma noite sem sonhos — o que talvez fosse uma boa recompensa — e antes de sentar-se em seu lugar à mesa, faz algo que sempre surpreendia os demais, não importava quanto o vissem fazer; com uma naturalidade desarmante, Naruto inclina-se um pouco e beija o topo da cabeça de Konohamaru e Hanabi, perguntando-lhes se dormiram bem, e ao ouvir as respostas dos dois, volta-se a Hinata, e também beija-lhe o rosto, como se tivesse acabado de voltar de uma longa missão.

— O que foi? — Vendo-o gargalhar baixinho, como quem fora pego de surpresa, Hinata pergunta.

— Kurama está reclamando. — Divertido com aquela torrencial sequência de resmungos, Naruto conta, atraindo a atenção dos demais — Parece que o Nanabi tem conversado muito com ele. Sua imperiosidade silenciosa foi profundamente perturbada.

— Ah… Choumei queria que ele contasse quem vocês encontraram. — Do outro lado da mesa, Fuu recorda o fato naquele instante, erguendo os olhos do próprio prato.

— E eles conversam? — Ino intervém, interessada na implicação do que ouvira.

— Parece que sim. Acabei de ficar sabendo. — Rindo novamente dos protestos de Kurama, Naruto explica — Mas o resmungão afirma que ele não conversa.

— É fascinante. — Shino comenta, ajustando os óculos num tique que denunciava sua curiosidade — Parece que ainda há muito por descobrir sobre Bijuu’s e Jinchuuriki’s.

— Considerando que raras vezes se viu Jinchuuriki’s terem essa afinidade com suas Bijuu’s, é compreensível que não saibamos quase nada. — No seu habitual tom analítico, Neji pondera.

— A humanidade não costuma entender o que teme. Apenas teme e afasta sem buscar outro caminho. — Jiraya solta uma de suas inusitadas palavras sábias e sérias, os olhos observando ambos Jinchuuriki’s como se visse através deles, e logo uma expressão contente inunda seu rosto — Bem, acho que essa geração vai ser diferente.

— Já está sendo. — Hiashi se pronuncia numa concordância inesperada.

— Não o provoque tanto. Kurama sempre foi sensível, e acredito que a... ham, convivência, possa ser um desafio para ele. — Naquela calma que transmitia tanta verdade, Hinata diz a Naruto, lhe afagando o braço sobre a mesa — Foi assim conosco, será assim agora.

— Você o paparica sempre, Hina. — Embora suas palavras fossem implicantes, o tom de voz indicava que a ouviria, e naquele seu modo de conversar em duas dimensões diferentes ao mesmo tempo, Naruto acrescenta — Kurama já é convencido, agora, ficou insuportável.

Desde que ocorreram aqueles “vazamentos” de emoções negativas que influenciaram Naruto, eles deixaram de trocar por um tempo, uma precaução para o caso de as rachaduras nas contenções fossem maiores do que conseguiam mensurar; então, o Uzumaki acabara tornando-se o intermediário nas vezes em que Kurama queria falar com Hinata. Entre pequenas implicâncias e brincadeiras, o café da manhã prosseguiu em calmaria e leveza, e na mesma rotina de todos os dias, a cozinha foi organizada e as tarefas de Konohamaru e Hanabi foram definidas, o trabalho realmente começou; Hinata ocupou-se da documentação enviada por Konoha, estabelecendo diretrizes e procedimentos para as missões e a segurança que enviaria à Vila, além de averiguar os relatórios financeiros e as deliberações e pareceres enviados pelo conselho de clãs.

Jiraya esteve encarregado de supervisionar as lições das crianças junto a Fuu, quem também estava tomando essas lições para recuperar o tempo que perdera ao ter de fugir por anos, e agora finalmente tinha a estabilidade para completar sua formação e evoluir; Shino continuou com sua catalogação da fauna e flora da ilha, ainda que sua tendência fosse suspeitamente inclinada para a entomologia, e Ino, após ter concluído sua tarefa principal, passara a auxiliar Hinata a catalogar e testar as ervas e plantas medicinais de Uzushio, acrescentando novas espécies raras, trazendo mais opções para uso no Ninjutsu médico. Já Neji e Hiashi acompanharam Naruto até o ponto mais alto da ilha, onde por fim ativariam o escudo que ocultaria os sinais de presença humana no arquipélago, e lhes garantiria a segurança para continuarem com a segunda metade do planejamento; aquele dia, depois da primeira interceptação direta deles ter tido sucesso, era como o marco zero de toda a operação que levaram dois anos construindo e estruturando.

— Muito bem, vamos começar. — Chegando ao topo, Naruto invoca seus pergaminhos e materiais para a hierografia das runas — Neji, preciso que você se posicione ao norte, e Hiashi-sama ao sul.

Assim que ambos ocupam suas posições, Naruto faz os selos de mãos e ao instante seguinte, dois Torii’s vermelhos materializam-se, um ao norte, outro ao sul, grandes e imponentes, carregados de ancestralidade como a própria Uzushio; com muita calma, Naruto abre o enorme pergaminho, então com mais suavidade ainda, conduz o pincel com firmeza, formando os traços rúnicos que determinara após muito estudo e pesquisa dos documentos deixados por sua mãe. O traço, no entanto, não fez-se com a tinta nanquim escorrendo do pincel, e quando Neji viu as linhas rubras, espessas e vivas formando-se sobre o pergaminho, pulsando discretamente antes de serem absorvidas pelas fibras do papel, seus olhos sempre plácidos e racionais denunciaram seu espanto; Hiashi não esteve diferente, e por um instante, quase deixara sua posição, temeroso do que estava presenciando.

— Naruto… — Incapaz de manter-se quieto, Neji o chama, ainda que sem conseguir colocar em palavras toda a sua perplexidade.

— Não é tanto quanto parece. — Sem erguer os olhos do pergaminho, Naruto responde, numa tentativa um tanto tosca de tranquilizá-lo.

— Entendo que seja necessário, dado a natureza do escudo, mas não deveria esperar um pouco mais? — Desta vez é Hiashi quem intervém — Quem sabe, esperar mais uns dias, até você estar recuperado.

— Nenhum inimigo que nos descubra, vai esperar. — Impassível, Naruto retruca, endurecendo suas feições quando o ardor em seu braço torna-se mais intenso — E enquanto esse escudo não estiver ativo, corremos esse risco.

Hiashi queria ter como argumentar mais, contudo, entendia as razões do Uzumaki perfeitamente; o que fazia com que o Hyuuga sentisse aquele impulso de mediar a razoabilidade daquele momento, era a compreensão que teve durante sua estadia em Uzushio, e também, de quem Hinata tornara-se. Talvez fosse muito tarde para tais sentidos paternalistas, e muito menos considerava-se digno de intervir ou admitir que os tinha, mas a verdade era que Hiashi sabia quão profunda e forte era a ligação de Hinata com Naruto; então, ao perceber o que o rapaz fazia e saber como isso o afetaria, sua prioridade imediata foi detê-lo, porque sabia que o que afetava Naruto, consequentemente afetaria Hinata.

— Vocês sentirão um “puxão”, só precisam manter o chakra estabilizado e as posições. — Um tanto ofegante, Naruto termina de traçar as runas, e explica enquanto senta-se diante do pergaminho em posição de meditação — Prontos?

No momento seguinte à concordância de ambos, a sequência precisa de selos de mãos foi iniciada rapidamente, e então, os dois Torii’s começam a tremular e caracteres das runas surgem brilhantes em toda extensão de suas estruturas; em suas posições, Hiashi e Neji sentem seus chakras ressonando, como se estivessem sendo chamados pelos enormes portais. De seu lugar ao centro, Naruto teve o seu próprio chakra “sugado”, materializando-se primeiro em espirais de vento alaranjados, antes de crescer em forma de ciclones que circundaram o local furiosamente, até serem absorvidos pelos Torii’s; enquanto as runas e hieroglifos reconheciam e gravavam as delimitações e fórmulas da barreira, em seu braço esquerdo um terceiro padrão negro parecia ser “entalhado” em sua pele, acompanhando a tatuagem da ANBU e a marca do Fuin Kokuō no In que ele executara um ano antes.

À medida que a matriz era alimentada substancialmente pela ressonância e convergência dos três pontos mantidos por eles, as runas na estrutura dos Torii’s iam acendendo-se uma após a outra, completando o circuito da fórmula transmitida pelo pergaminho; nesse instante, o rugido do vento fez a montanha estremecer, e os ciclones aumentaram significativamente, varrendo a vegetação e arrancando detritos do chão. Em sua posição ao sul, Hiashi sentiu o diafragma contrair e expandir violentamente, e teve de concentrar-se em estabilizar os Tenketsus de seu plexo solar; em seu lugar ao norte, Neji experimentava a mesma sensação vertiginosa, e pensou seriamente que seria varrido junto ao frenesi que o Fuin causava à natureza ao redor deles. Foi exatamente nesse segundo, quando os ruídos estrondosos ficaram mais intensos e parecia que seriam engolidos pela técnica, que a matriz e os Torii’s incandesceram como papel bomba explodindo, e então fez-se silêncio; ao redor deles, os vórtices de vento, os detritos de vegetação e terra, e até mesmo as suas respirações ficaram suspensas, estagnadas no ar, até que por fim a gravidade voltou a exercer sua influência.

— Haaah… — Sentindo o ar inundando seus pulmões numa lufada dolorosa, e o coração espancando as costelas, Naruto deixa-se cair no chão, o corpo todo amolecido e exaurido.

Seus ouvidos captam outros dois ruídos surdos, indicando que Neji e Hiashi tampouco conseguiram manter-se em pé agora que o Fuin estava completo, e os sons de suas respirações irregulares denunciam o quanto lhes foi exigido; enquanto tentava manter a consciência, sentia seu fluxo de chakra completamente desregulado, como se um daqueles ciclones tivesse bagunçado tudo em seu interior também, além é claro, dos sinais de sua nova anemia e a deterioração muscular — consequência física do Fuin — que tentava conter a muito custo.

— Isso foi… horrível… — Neji protesta entre um fôlego e outro.

— Não deve ter sido pior que a extração do seu selamento, ou foi? — Tentando ocultar seu estado, Naruto zomba.

— Você deveria descansar agora. — Hiashi, no entanto, não estava disposto a ignorar o que seus olhos estavam vendo — Neji, busque Hinata…

— Não! — Naruto imediatamente ordena, quase sentando-se novamente — São só câimbras musculares, já passam. Não chamem a Hina.

A palavra saiu mais áspera do que pretendia, e Naruto teve que se apoiar com uma das mãos no solo para não desabar de volta, cerrando os dentes contra a tontura a girar sua cabeça; Hiashi encarou-o por um segundo, voltando a prescrutar cada linha, desta vez sem ocultar o uso do Byakugan, a mesma compreensão que o fizera intervir antes ensombrecendo suas feições austeras.

— Você sabe que ela vai descobrir. — Hiashi argumenta, realmente apelando para a influência de Hinata — Não é melhor esclarecer de uma vez?

— Daqui a pouco isso para. Não é nada comparado ao que já me aconteceu. — E com uma teimosia resoluta, Naruto garante, sem ceder um milímetro — Não teria sobrevivido tantos anos, sem controlar meu próprio corpo.

— É, sim, porque você é um ancião de quatorze! — Agora é Neji quem retruca acidamente, bufando em frustração — Para de ser teimoso, a nee-chan vai descobrir de todo jeito. Mesmo que a gente espere, é ela pôr os olhos em você e o seu castigo vai ser lendário.

— Que seja. Vou estar recuperado em alguns minutos e isso é o que importa. — Naruto retruca, lançando um olhar incisivo a Neji — E se você ficar calado, não teremos problemas.

Eu vou amar ver como você se ferra, de novo. — Inesperadamente, Kurama intromete-se em seu subconsciente.

— Não me pilha, Kurama. Escolhi essa hora justamente porque a Hina vai estar ocupada com a correspondência da divisão. — Tentando soar confiante, Naruto responde sentindo outra vertigem o dominar e o suor frio escorrer por suas costas.

E você parece que não conhece a companheira que escolheu. Ela já sabe e você está condenado! — Com imenso prazer perverso, a Kyuubi afirma agourentamente.

— Então, qual dos três iria me avisar o que vieram fazer? — Como uma descarga elétrica, aquela voz suave soa atrás deles, fazendo-os eriçar-se completamente, rígidos como estátuas de sal.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado quanto o ar antes da tempestade, Naruto demorou uma eternidade para virar o rosto, o coração que já batia descompassado parecendo querer saltar pela garganta; ouviu, finalmente, seus passos calculados e pequenos esmagando a grama pelo caminho, e sentiu quando ela parou às suas costas. Não precisava virar para saber que Hinata já tinha feito um inventário de tudo e que nada escaparia à sua percepção aguçada; numa tentativa um tanto inocente, ainda tentou ocultar o braço esquerdo, colando-o ao corpo de modo a “tampar” a marca rúnica em forma de espiral em sua pele. Observando o flagrante desenrolar-se diante deles, Neji permaneceu sumariamente quieto, não querendo ser implicado, e Hiashi soltava um suspiro exasperado sabendo que já tinham sido catalogados como cúmplices; ainda pensando em como justificar-se, enquanto ouvia as gargalhadas estrondosas e pirracentas de Kurama, Naruto capta o murmúrio repleto de preocupação de Hinata e seu coração apequena.

— Hina… tá tudo bem… sério… — A explicação escapa atropelada, carregada de angústia.

— E se não estivesse? Você esqueceu o que aconteceu ano passado? Quer mesmo barganhar comigo nesse estado? — A réplica dela vem certeira e impassível, enquanto o Ninjutsu médico irradiava de suas mãos, estabilizando-o.

— Eu só não queria te envolver, o Sōzō Saisei precisa de um período de latência depois do que aconteceu, e essa barreira iria, certamente se alimentar das suas reservas. — Sentindo os efeitos do tratamento regular sua rede interna, Naruto embasa sua decisão em lógica.

— E não poderia ter prosseguido comigo aqui? Você poderia ter operado com a mesma configuração de agora, bastava ter me incluído por precaução. — E como sempre, Hinata desmonta sua lógica num instante, e dói-lhe mais, quando ouve o ressentimento nas seguintes palavras dela — Acha mesmo que eu não saberia o que te custa? Senti lá debaixo, cada segundo dessa… sua estratégia imprudente.

— Desculpe. — Aquela única palavra parece ressoar com eco pelo descampado da montanha, de tão impregnada de sinceridade e arrependimento que estava.

Hinata não o absolveu, embora não insistisse na discussão, simplesmente manteve os lábios crispados e o semblante ilegível enquanto concluía o tratamento de Naruto, e logo dirigiu-se a Neji — que inclusive perdeu o ar de riso que inundara seu rosto ao ouvir a derrota do Uzumaki — fazendo-o parar-se ao lado de Hiashi, tratando ambos simultaneamente, já que seus danos físicos consistiam somente em fadiga; quando os três estavam recuperados, o grupo iniciou a descida devagar, fazendo um desvio maior para evitar trechos íngremes ou instáveis do terreno. Chegando ao sopé da montanha, de algum jeito imprevisível e que seria hilário, não fosse o momento, Neji e Hiashi “decidiram” colher flores numa planície situada nos arredores da praia, afastando-se significativamente dos dois; lhes lançando um olhar penetrante que dizia claramente “traidores”, Naruto os viu afastar-se quase correndo, e teve certeza de ter ouvido alguma risadinha debochada de Neji.

— Você está muito brava? — Enchendo-se de coragem, Naruto indaga, observando o caminhar tenso dela.

— Qual a progressão das coisas que você vai me esconder? Esse é o limite, ou terei de me preocupar com outros aspectos? — De um jeito despectivo que somente ela saberia usar, Hinata provoca.

— Hinata. — Naruto a chama, tentando manter a calma.

— O quê? Hoje foi uma operação imprescindível para Uzushio. Amanhã o que será? Você vai arrumar outra família? Tem alguma noiva perdida pelo mundo? — Ainda sem olhá-lo, Hinata pontua e gesticula com as mãos, deixando clara sua preocupação com o ocorrido.

— Não seja absurda, Hinata! — Indignado, Naruto retruca, contendo ao máximo a frustração e aversão que as especulações dela lhe causam.

— Ah, que bom que te parece absurdo! É exatamente assim que me senti, frustrada, irritada, excluída! — Virando bruscamente o pescoço para fitá-lo, Hinata acusa, então respira profundamente e fechando os olhos, busca por sua costumeira serenidade, antes de continuar — Me deixe… assimilar o que já aconteceu… eu só preciso de espaço agora…

Naquele dia, o almoço sempre animado e repleto de conversas interpondo-se umas às outras, foi preenchido pela quietude que o intervalo entre as garfadas das crianças permitiam, e as únicas vozes que inundavam a mesa eram delas; não houve qualquer comemoração pelo sucesso da instauração da barreira, e mesmo aqueles que não tinham subido a montanha sentia a anormal energia de derrota cercando Naruto, Neji e Hiashi, assim como o estado de contenção absoluta de Hinata, como se ela fosse um trovão ambulante, prestes a rasgar os céus num clarão.

Pela tarde, numa tentativa de continuar sua rotina como se nada tivesse ocorrido, a Hyuuga decidiu treinar seu Taijutsu e também sua capacidade de trabalhar suas reservas em confronto, mas as únicas opções que tinha eram Naruto — a quem ela não queria dirigir a palavra no momento — e Neji — quem parecia em pânico demais para se concentrar — esses fatores fizeram Hinata tomar uma decisão que, cinco meses antes, sequer teria considerado; caminhando até o ponto mais distante no alpendre, onde sabia que ele estaria bebendo seu matcha, fingindo ser imutável ao mundo a sua volta.

— O senhor me acompanha, pai? — O convite de Hinata quebrou até mesmo o som do rangido da madeira sob o peso das demais cadeiras espalhadas na área.

— … Eh… é claro… — De olhos arregalados e uma perplexidade impagável, Hiashi concorda quase mecanicamente.

Sob os gritos entusiasmados de Konohamaru e Hanabi, de que o “vovô” duelaria com a okaasan pela primeira vez desde sua chegada, Hinata e Hiashi ocupam as extremidades do dojô construído na parte traseira do pátio; no alpendre, Ino e Fuu entreolhavam-se, seriamente assustadas com os desdobramentos da manhã, enquanto Neji e Naruto praguejavam baixinho — cada um por sua própria parcela de culpabilidade — e Jiraya e Shino tentavam compreender a extensão do problema que não presenciaram.

Quando as posturas foram assumidas, o primeiro ataque de Hinata foi como sempre: implacável e imprevisível, munido de força e perícia; Hiashi apenas conseguiu defender-se, surpreendido com a diferença entre o tradicional estilo Hyuuga e a técnica dela. Graças ao seu próprio domínio do Juuken, o homem pode manter-se firme no duelo, ainda que somente pudesse manter a defesa e contenção de danos, para sua completa admiração; Hinata movia-se como uma incógnita para seu Byakugan, mudando o movimento em pleno ato, transformando defesas em contra-ataques sem que pudesse prever e explorando as vulnerabilidades do Doujutsu que ninguém dentro da proteção do clã ousaria evidenciar.

— Você realmente… é uma mestra. — Bloqueando um golpe que teria danificado os Tenketsus em seu ombro direito, Hiashi afirma, abismado.

— Não, ainda não. O senhor está resistindo. — Num replicar frenético e repleto de adrenalina, Hinata responde.

— Você está realmente brava com ele? — A pergunta escapou dele sem que a visse vir, no meio de um desvio.

— Estou brava com a imprudência. — Após uma sequência de chutes que fez Neji apertar a guarda da cadeira em que estava, Hinata responde honestamente — Sempre fomos eu e ele, em todos os momentos, isso me afetou.

— Ele parece querer te poupar de tudo. — Sem saber porque estava tomando partido, Hiashi fala, afetado pela euforia do momento, contra-atacando com precisão nos meridianos.

— Sei disso. — Defendendo e conseguindo atingi-lo na panturrilha esquerda, Hinata retruca.

— Então sabe porque fomos escolhidos? — Esse ponto era um verdadeiro mistério para Hiashi: saber por que ele e Neji foram envolvidos.

— Nossas linhagens. Se as escrituras antigas forem certas, somos primos distantes. — Hinata responde, trazendo luz à dúvida e impetuosidade ao ataque — Vocês dois são mestres do Juuken em gerações, e isso compensa os Uzumaki’s puros necessários para o escudo.

Bloqueando mais uma sequência impossível dela, Hiashi analisa o que ouvira, sentindo o choque das revelações mais intensamente do que os golpes que aparava, era muito mais grandioso saber que linhagens nobres e históricas tinham um passado em comum, e que isso estava forjando um futuro; e quando punha-se a considerar o envolvimento de sua filha — mesmo com as controvérsias do caminho errôneo que ele escolhera — com um dos Kekkei Genkai’s mais puros entre gerações, e a linhagem daquele rapaz que num passado recente ele mesmo havia descartado como insignificante, Hiashi sentiu-se bêbado, não de poder ou qualquer superficialidade que as tradições lhe tivessem doutrinado, mas sim pela grandiosidade do que estava sendo construído diante de seus olhos, era pelo Akai Ito sendo tecido e costurado bem à sua frente, conduzindo a um caminho — não predestinado por superstições — que talvez viesse a alterar profundamente a história da humanidade.

— Entendo. — Hiashi murmura, alterando sua postura cautelosa para algo mais agressivo-defensivo.

Não saberia dizer quando esteve tão confiante de suas ações, mas sabia que sentia-se extremamente entrosado e motivado em dar àquela filha extraordinária o desafio que ela desejava, mesmo que isso não compensasse os anos em que sequer poderia ser considerado um genitor decente; Hiashi apenas sentia que deveria levar Hinata a sua superação pessoal, e se isso significava extenuá-lo, que o usasse como ferramenta para seu crescimento, ele estava satisfeito e feliz com seu uso e seguramente, em garantir que ao menos nisso, pudesse ser o pai que ela sempre merecera.

No alpendre, Naruto e Jiraya observaram a mudança na postura do Hyuuga com interessada curiosidade, enquanto Neji entretinha-se em estudar a rumorejada perícia do tio, todos os três notando como aquele duelo transformara-se de um simples treinamento rotineiro, a um embate geracional mais complexo do que palavras poderiam descrever: Naruto, especialmente, via como suas “pequenas e indulgentes” dicas eram utilizadas por seu irremediavelmente austero e rígido sogro.

Cerca de três horas mais tarde, pai e filha decretaram um empate que tinham total intenção de decidir no dia seguinte, e naquele instante de expectativa e surpresa, os demais deixaram suas impressões virem à tona, os partidários de Hinata — Naruto, Neji, Ino, Konohamaru e Hanabi — e os partidários de Hiashi — Jiraya, Fuu e Shino — todos expondo entusiasticamente suas opiniões sobre o tema; mas o que mais destacava o embate como algo extraordinário, era a postura dos dois participantes. Hinata parecia tão leve em relação a antes, como se aquele momento extenuante fosse exatamente o que necessitava, era como um carimbo atestando que não estava obsoleta, que o ocorrido da manhã fora simplesmente um daqueles desvios que ninguém prevê; Hiashi, por sua vez, era como um menino ganhando um prêmio, tendo literalmente em suas mãos a chance que estivera buscando desde sua chegada, estava — da forma mais inesperada — integrado a tudo àquilo.

— A Hina tende a ficar mais observadora no final, é melhor estar atento da próxima vez, sogro. — Alcançando-lhe uma bolsa de gelo, Naruto “instrui”, observando como as duas crianças cercavam Hinata euforicamente.

A palavra, simples e pequena, desprovida de pretensão e floreios, foi o que desmontou de vez o muro de Hiashi, o muro que ele manteve por anos tentando ser o líder perfeito que seus antecessores queriam — abdicando inclusive de seu bem mais precioso — e ultimamente, mantinha para não ser apenas um velho com remorsos que ninguém queria reconhecer; com erros que todos sabiam, escolhas cruéis que jamais faria se pudesse voltar atrás, e tantas deficiências que mal podia enumerar, Hiashi estava “aceito”, não de uma forma que resolvesse o passado, mas de uma forma que reconhecia quem ele era ali.

O ocaso daquele dia parecia mais luminoso do que costumeiramente, sem nuvens e com um dourado quase idílico despedindo as últimas horas precedentes do anoitecer, o calor bochornoso do verão começava enfim a ceder ao vento fresco, trazendo ao olfato um aroma de mato, maresia e terra que funcionava como um feitiço, tornando qualquer ação arrastada e preguiçosa; na orla da floresta, como em todos os fins de tarde, os sons secos e ritmados do machado dispersavam os vaga-lumes residentes da vegetação rasteira, que teimosamente voltavam a sobrevoar as lascas de lenha empilhadas, assim que fazia-se um momentâneo silêncio.

— O que foi que aconteceu? — Vendo-o erguer o machado novamente, Jiraya por fim abandona sua observação contemplativa.

— Não avisei a Hina que íamos ativar a barreira. — Sucinto, Naruto condensa os fatos, desferindo um golpe com mais força do que a necessária no tronco, fazendo lascas voarem longe.

— Não falo disso. Todos nós percebemos seu erro de cálculo. — Revirando os olhos, Jiraya retruca, e sem qualquer discrição, especula abertamente — Estou falando desta manhã. Sei que vocês levam o treino a sério, mas àquela hora? Você geralmente não hiberna depois de uma missão longa?

— Só… perdi o sono. — Num esforço inútil por emendar o que suas ações revelavam, Naruto desconversa, partindo outro toco de lenha — O que vimos na missão foi inquietante.

— … Sei. — Observando-o por mais alguns instantes, Jiraya beberica seu inseparável cantil de saquê — O que mais foi inquietante?

— Nada, padrinho. — Naruto mente de pronto, desta vez, conseguindo acertar a lasca no ângulo errado, fazendo-a ricochetear a lhe acertar a canela.

Segurando-se para não rir da desastrosa situação, Jiraya fita-o por infindáveis segundos, descobrindo e catalogando os sinais que o jovem não conseguira conter: suas orelhas vermelhas, a voz que carecia de firmeza e o evidente nervosismo o desestabilizando; ao final de sua análise minuciosa, a intuição aguçada brilhou nos seus olhos negros.

— Naruto, posso não ter estado presente na sua vida por algum tempo, mas te conheço bem o bastante para saber que nenhuma missão te faria perder o sono. — Sentando-se em um dos troncos maiores da pilha de lenha, Jiraya argumenta — Vamos lá, garoto, não te segui até aqui porque queria ver o pôr do sol.

Os sons do machado prosseguiram por mais uns quantos minutos, estendendo aquela intercessão repentina, enquanto o Uzumaki considerava e tentava pôr ordem em sua mente, definindo e decidindo se e o quê externalizar, embora soubesse que não havia camuflagem que funcionasse com Jiraya; também sentia como os limites ficavam cada vez mais difusos e como suas medidas de moderação vinham falhando.

— A... manutenção normal… — Franzindo a testa diante da própria escolha de palavras, Naruto baixa o machado por um momento, deixando os ombros caírem junto, como se a externalização do que lhe ocorria levasse embora o peso neles — … não funciona mais.

— Me impressiona que funcionasse até agora. — Sem qualquer traço de zombaria, Jiraya devolve, entendendo de imediato — O que mudou, exatamente?

— Acho que tudo, antes era “fácil” por que era só crescimento. — Numa honestidade complexa, repleta de inseguranças e temores, Naruto expõem — Mas agora tem intenção, e isso é mais “difícil” de… controlar.

— Só você? — Astuto, Jiraya chega à questão que realmente significava o cerne de tudo, e vê o rapaz negar minimamente — Bem, nesse caso é o mais natural, não acha?

— Obviamente que não, padrinho! — De pronto, Naruto contradiz, verdadeiramente horrorizado com a insinuação e rapidamente volta ao seu habitual lado racional — Você sabe quanto é contraindicado para a saúde? Afeta todo o crescimento. Eu jamais seria egoísta assim! Simplesmente estou com dificuldades em encontrar o meio-termo. Não vê o Neji? Ele é três anos mais velho e não o vejo tendo esses problemas. Acho mesmo que devo ter algum defeito, sou o único com essas…

— Naruto, se acalme. — Percebendo o quanto o Uzumaki estava abalado, Jiraya decide deixar de lado a ambiguidade adotada para evitar constrangimentos e fala mais claramente, com mais incisão para fazê-lo entender — Eu não disse que é indicado, eu disse que se ambos estão nessa página, fica mais fácil. E sobre os outros garotos, me diga, qual deles literalmente leva uma vida de casado com a namorada? A sua situação é completamente fora dos padrões, garoto, é compreensível e esperado que as proporções da relação mudem na mesma lógica.

— Ainda assim… — Desconcertado, Naruto tenta encontrar argumento que invalide a explanação verdadeira de Jiraya; os olhos agitados focando em qualquer ponto que não fosse o rosto sereno do padrinho.

— Escute, garoto, existe um momento dos relacionamentos no qual a afinidade é desbordante, e isso aparece em ações. Você e Hinata estão nesse momento, e essa afinidade aparece nitidamente para todos, até quem não conhecia os dois antes de Uzushio, percebe. — Com muita paciência e munido de informação factual, Jiraya debate — Durante nossa viagem até aqui, também vi isso acontecendo, e você sabe, sou um bom observador para romances. Partindo disso, posso deduzir que o que vocês deixam transparecer diariamente, é uma parcela mínima da afinidade real, estou certo?

— Existem… novos limites. — Sem querer expor àqueles momentos que pertenciam apenas aos dois, Naruto admite parcialmente.

— Então você não vai conseguir “frear” nada. — Fazendo-o arregalar os olhos, assustado com sua predição, Jiraya sentencia — A forma segura, em todos os sentidos, de sobrelevar o momento atual, é a prática paliativa.

— … O quê? — Confuso e temeroso com o significado daquilo, Naruto questiona.

— Escute com atenção, vou te ensinar. — Pela primeira vez desde o início daquela conversa, Jiraya sorri, para pavor de Naruto.

***

O cheiro de assepsia preenchia o ambiente, ofuscando até mesmo o cheiro característico de látex das luvas estéreis, as luzes fortes cegando a visão num primeiro instante, e o ruído dos equipamentos funcionava como um metrônomo do momento; a equipe toda estava pronta, cada um em seus postos, e quando viu Tsunade decretar o início da operação, Sakura sentiu o estômago afundando e contraindo nervosamente.

— Bisturi. Pinça hemostática. — Os primeiros instrumentos solicitados pela Godaime são prontamente entregues em sua mão estendida.

Sakura sentia-se ridiculamente assustada — principalmente quando considerava que já realizara tratamentos mais complexos e em piores condições — e recriminou-se mentalmente mais de uma vez, inspirando e expirando profundamente muitas vezes, até conseguir controlar seus nervos; ao menos, congratulava-se por ter iniciado bem e não ter confundido os instrumentos logo de cara.

— Shizune. Sakura. — Com seu habitual tom impaciente, Tsunade as chama, e quando as duas a flanqueiam, faz um gesto indicativo com a cabeça — Vejam isso, essa linha fina e emaranhada aqui, é a coluna cervical. É aqui que temos que desobstruir, estão vendo?

— Sim. — Ambas respondem em uníssono, sem desviar o olhar das ágeis mãos da Hokage.

— Muito bem. Agora quero ver as duas trabalhando nisso. Me entregue a sucção, Sakura. — Inesperadamente, Tsunade ordena, afastando-se da mesa.

— Hokage-sama! — De olhos arregalados, Sakura afasta-se também, empalidecendo imediatamente.

— Tsunade-sama, não creio que seja… — Shizune iniciava uma longa lista de protestos e imprudências daquela ordem, igualmente petrificada em seu lugar.

— Vocês nunca vão aprender se não praticarem, Shizune. Eu estou aqui, se houver a mínima alteração, vou assumir. — Tsunade a interrompe, embasando sua ordem surpreendente e encorajando-as — É o mesmo principio de quando Hinata te ensinava, Sakura, apenas a escala do paciente está maior. Vamos, coloquem-se a trabalhar, vocês sabem como o tempo de anestesia interfere na recuperação.

Chegando a ouvir o coração sobressair ao barulho dos equipamentos, Sakura volta a aproximar-se da mesa, aceitando os afastadores com a bile subindo-lhe à garganta, obrigando-se a manter a estabilidade, repetindo mentalmente o mantra que Hinata sempre lhe dizia naquelas situações: calma e precisão mantém a mão firme, Sakura; ao lado dela, Shizune aceitava as pinças após uma série de suspiros audíveis, realizando seu próprio ritual para estabilizar-se. Pelas horas seguintes, Tsunade pairou sobre as duas, o olhar atento a cada mover de dedos, as mãos erguidas de prontidão para qualquer imprevisto, e a voz firme guiando-as a cada etapa do procedimento, fosse para ajustar a densidade do chakra molecular, fosse para expandir a área de acesso; o bip contínuo das máquinas e o som áspero e viscoso da sucção marcando a passagem daquele de tempo.

Após o primeiro instante de incerteza e temor, todos os dias de estudos, todos os ensinamentos absorvidos inundaram a mente de Sakura, devolvendo-lhe uma calma relativa, o suficiente para prosseguir sem deixar-se abalar mais; havia estudado o caso, sabia de cor os riscos e quais as medidas de segurança, conhecia as diretrizes de operações em grande escala e dizia a si mesma que toda sua bagagem deveria ser útil. Ao final, quando o último ponto da sutura foi dado, ela e Shizune perceberam perplexas que tinham terminado, e acima de tudo, conseguido; quando ouviram a ordem de Tsunade, para a equipe proceder com a reabilitação, ambas entraram numa espécie de experiência extracorpórea, como se vissem tudo ocorrendo à parte delas.

Do lado de fora, na sala de esperas, Asuma andava de um lado ao outro, ignorando a própria exaustão e a hora avançada da noite, com o pequeno Hiruzen em seus braços, dormindo placidamente, sem saber que era a única âncora de seu pai durante aquelas horas de agonia; quando as portas corrediças abriram-se e as três deixam o centro cirúrgico, o Sarutobi rapidamente aproximou-se, os olhos movendo-se de um rosto a outro, com uma ansiedade palpável, o coração encolhido aterrorizado.

— … Então? — A palavra lhe escapou atravancada, quase sufocada em desespero.

— Por que não explicam o êxito do procedimento, meninas? — Como fizera na sala, Tsunade passa o bastão as duas, sorrindo com um raro orgulho estampado em seu rosto — O mérito foi delas, Asuma.

Enquanto as ouvia, Asuma teve de sentar-se, seus joelhos fraquejaram repentinamente, o alívio anulando a tensão e levando sua motricidade embora, e nem dera-se conta de que seus olhos transbordavam, simplesmente as ouvia concordando freneticamente, enquanto abraça com ternura o bebê em seus braços; suas únicas perguntas urgentes ao receber a notícia, foi sobre quando poderia estar com Kurenai e quais os cuidados pós-operatórios desta vez.

Depois de terem cumprido suas funções, Sakura e Shizune foram liberadas por Tsunade, e no vestiário, ambas entraram na etapa do frenesi, comentando e discutindo todo o procedimento, ainda incrédulas do que tinham realizado; quando está finalmente sozinha, pois Shizune ainda iria assessorar a Godaime no prédio administrativo, Sakura experimenta a mesma descarga do pós adrenalina que Asuma experimentara, e ali mesmo, no chão do vestiário, deixou-se estar por longos minutos, contemplando mais um degrau que conseguira alcançar.

De repente, seus olhos brilhantes de euforia ganharam um foco inesperado, e como se outra onde elétrica tomasse conta de seus sentidos, Sakura busca em seus pertences no armário dois pequenos pergaminhos novos, e escreve duas mensagens distintas — embora, igualmente importantes — e ao lacrá-las, deixa o vestiário com sua mochila nas costas sem sequer se importar com sua aparência desgrenhada; assim que sai para as ruas de Konoha e afasta-se minimamente da área do hospital, Sakura corre em disparada para o setor de criptografia. Teve a impressão de ter sido chamada por Gai e Tenten, parados a uma esquina com Lee e Chouji, mas não parou para verificar, sua respiração parecia queimar seus pulmões, quando finalmente deteve-se diante da sala; suspirou contente ao ver que ainda estavam de plantão, e com um grande sorriso entrou, já tinha na ponta da língua as coordenadas de Uzushio, seguidas pelas de uma pequena vila muito, muito distante.

***

O casebre parecia mais destartalado agora que tinham terminado, prestes a ruir, com a luz da lua espalhando sombras pelas frestas, revelando parcialmente a degradação daquele esconderijo; o som da lâmina cortando exterminou o último dos murmúrios suplicantes, então restou apenas o ruído do vento a soprar uma canção uivante, uma melodia estranhamente adequada para aquela noite. Sua Katana continuava tão afiada quanto nos seus anos de divisão, e sua perícia revelava-se muito mais assustadoramente polida, agora que tinha uma motivação entrelaçada à missão; os passos de seu companheiro a aproximar-se calmamente indicavam que seu quadrante também fora limpo.

— A próxima toca? — Limpando um respingo de sangue de seu braço parcialmente descoberto, Sakumo questiona monotonamente.

— A noroeste. — Igualmente desprovido de reação diante do cenário que deixariam para trás, Kakashi responde.

Saiam pelas portas destroçadas do que antes era um dos postos dos atravessadores em sua lista, quando um pio de um falcão cortou o barulho do vento, detendo-os onde estavam; quando a ave pousou no ombro de Kakashi e estendeu-lhe a perna, um reconhecimento imediato atravessa a máscara de indiferença em suas feições. Ao abrir o pergaminho e lê-lo com Sakumo pendurado em seu ombro, um sorriso mínimo domina seus lábios, e o olhar profundo e afiado que esteve presente nele desde que iniciaram a caçada, transforma-se em algo caloroso; o Haruno, por sua vez, foi menos discreto que o Hatake em sua alegria orgulhosamente exibicionista.

— Viu só? Minha irmãzinha é uma gênia! — Sakumo exclamava eufórico, balançando Kakashi pelos ombros, e desata a fazer planos — Na volta, vou encontrar um belíssimo presente. E nada de você me imitar, Kakashi!

— Dois é melhor que um, Sakumo. — Infelizmente para Sakumo, Kakashi não tinha intenção de ouvi-lo — Você não é mais o único que quer parabenizá-la.

— Descarado. — Sakumo acusa o amigo de pronto.

O vento continuou a assobiar entre as vigas quebradas, mas já não parecia tão gélido; a notícia vinda de Konoha parecia ter aquecido o ar ao redor dos dois, rompendo por um instante a dureza da missão que os consumira. Sakumo ria baixo, batendo nas costas de Kakashi com uma animação que fazia esquecer o sangue seco nas vestes, enquanto o Hatake guardava o pergaminho com cuidado, como se fosse algo muito mais precioso do que qualquer relatório de missão.

— Vamos logo, onii-chan. Quero terminar e ir para casa. — Numa óbvia provocação, Kakashi volta a caminhar, fazendo Sakumo revirar os olhos, exasperado.

— Sabe? Vou começar a cobrar imposto dos não residentes que ocuparem o meu sofá. — Seguindo-o de perto, Sakumo devolve, apenas para conseguir alargar o sorriso de Kakashi.

— Vamos precisar redigir um contrato? — Parecendo mais animado do que intimidado com a ideia, Kakashi retruca, cheio de petulância.

O próximo alvo estava a cerca de quatro horas dali, e precisavam manter a constância e evitar que o atraso na comunicação da rede alertasse aos que ainda restavam, então o desgaste daquelas duas semanas não passava de mero reconhecimento para quem tinha um objetivo tão claro; antes de alcançar o seguinte esconderijo, Kakashi voltava a utilizar a abstração que tanto inculcara em Naruto e Hinata, a cada vez que os enviava a essas “limpezas” longas. Durante aqueles dias, estava aprendendo como aqueles mecanismos nunca deixariam de ser parte dele, não importava quão longe daquele caminho estivesse, ou quantas vezes reconstruísse sua vida, sempre que precisasse, ainda seria um mestre assassino; aceitar que já não voltaria a ser o Kakashi adolescente que fingia indiferença com aquele colete Jounin nas mãos pela primeira vez, ainda que não fosse um velho com montes de décadas nas costas, talvez fosse a bagagem que trazia que tornavam os seus vinte e dois pesados de carregar, e constatar que tinha sido um longo processo também assustava junto da percepção de que não eram as coisas que fez que o atormentavam, era o temor de ser repudiado por isso.

O perímetro foi alcançado dentro do tempo estimado, e como sempre acontecera nos anos passados, Sakumo assume a ofensiva antes dela sequer iniciar, ativando a Anulação em suas presenças com perfeição, e então, quando estão a poucos metros da entrada, com o domínio estabelecido, a transfere aos alvos; neste instante, sem encontrar resistência ou pânico em seu caminho, Kakashi vai eliminando os objetivos ao seu alcance, sorrateiro, silencioso e certeiro, sem desperdícios ou confrontos desnecessários. Obviamente, a Anulação de Sakumo era uma habilidade que precisava ser utilizada com moderação, mas quando o momento chegava, os números já não eram contavam como nenhum fator decisivo; apesar de sempre acontecer um princípio de caos nestes poucos instantes, antes que pudesse transformar-se em algo maior, tudo já havia terminado.

Horas mais tarde, sem deixar vestígios de quem fora responsável, ambos encontravam-se a beira de uma pequena estrada quase em desuso, era uma das poucas paradas que permitiam-se, conferir equipamentos, averiguar o estado físico e recompô-lo, ingerir alguma ração ou pílula e água, antes de seguir novamente; Sakumo estava escorado em uma grande pedra negra, os olhos fixos na linha pálida do horizonte, enquanto trocava as bandagens de seus pés. Ao seu lado, numa imobilidade rotineira, como se até mesmo respirar devesse ser uma economia, Kakashi bebia uns poucos goles d’água, apenas o suficiente para prosseguir; como sempre, apertava o nariz numa tentativa ineficaz de suprimir o gosto férreo que parecia impregná-lo, contaminando até mesmo seu cantil.

— Já vai amanhecer. — Ignorando o tique que já reconhecia no Hatake, Sakumo murmura.

— Vamos sair da estrada e continuar pelo subterrâneo durante o dia. — Voltando a ajustar sua máscara, Kakashi decide, reorganizando mentalmente o mapa que vinham seguindo.

— Haaah! Era muito mais rápido quando a gente tinha o Itachi. — Engolindo com uma careta uma amarga pílula de reposição de chakra, Sakumo resmunga.

***

As lanternas flutuantes pintavam as ruas como milhões de estrelas, e o ar estava impregnado com o aroma de fumaça de churrasco e incenso, além do perfume das flores ornamentando as pilastras, contrastando com as faixas decorativas de cetim e linho vermelho; Ozu estava resplandecente e fervilhando como um formigueiro, o porto abarrotado de embarcações de todos os tamanhos e tipos, e as caravanas de mercadores entupetando as calçadas, tornando quase impossível caminhar pelo local. Aqueles que chegassem desavisados eram engolidos por um frenesi de cores e sabores que tonteava, e quando por fim conseguisse adaptar-se ao ambiente sensorialmente estimulante, os gritos e chamados dos comerciantes, além da própria população em festa, terminavam de desnortear os mais sensíveis; quem não tivesse cuidado poderia facilmente terminar atropelando alguma criança, todas correndo desenfreadamente com suas máscaras, doces e carpas, felizes e alheias ao tumultuo do qual faziam parte.

— Por que você tá chorando? — Numa calçada, segurando uma grande carpa branca e vermelha, a menina deteve-se em seu caminho.

Avistara o garoto paralisado na esquina, girando os olhos assustados para todas as direções, já com o rosto molhado de lágrimas apavoradas, apertando as vestes tremulamente.

— Você tá perdido? — Aproximando-se mais, ela pergunta com suavidade e recebe uma concordância frenética em resposta — Quer ajuda? O meu otousan é muito bom em achar pessoas. Como eles são? Seu papai e sua mamãe?

— Hanabi! — Antes que o garoto pudesse acalmar-se o suficiente para responder, uma segunda voz infantil lhes alcança, irritada e ofegante — Por que você saiu de perto de mim? O que está fazendo?

— Kono-nii, ele tá perdido. — Virando-se para Konohamaru e sua expressão brava, Hanabi explica tranquila.

— Caramba, Nabi, o otousan disse pra ficar perto, que coisa! — Verificando rapidamente o estado dela, Konohamaru ralha, e então volta seu olhar para o garoto em questão.

Não parecia muito mais jovem, mas ainda assim, estava evidentemente apavorado, e seu choro de antes até sessara quando ouviu o tom áspero de Konohamaru, encarando-o com olhos esbugalhados; o suspiro do Sarutobi e o olhar entrecerrado que lança a Hanabi era a clara exasperação de um garoto, que não sabia até meses antes, que ter uma “irmã mais nova” seria tão trabalhoso.

— Vem, vamos achar sua família. — Atenuando seu tom, Konohamaru lhe oferece a mão, e quando o garoto hesita por um instante, apenas o segura pelo braço com cuidado — Vamos logo, os adultos estão para lá. Nunca fique em esquinas escuras.

Embora sua forma de falar fosse mais seca e brusca, sua intenção de ajudar logo fica clara e o garoto tranquiliza-se, seguindo-o sem resistência; Konohamaru, por sua vez, não estava tão tranquilo como aparentava, e por precaução puramente intuitiva, virou-se para Hanabi e segurou-a pela mão com firmeza.

— Não solte! — Seu aviso, sério e preocupado, foi prontamente aceito por ela, que apenas caminhou ao seu lado deixando-se levar.

A multidão continuava a passar ao redor deles — rindo, gritando, carregando lanternas e doces — indiferente a três crianças deambulando por ali, afinal, era um festival depois de tudo, mas para Konohamaru aqueles passos curtos e algo apressados estavam sendo conduzidos com certa ansiedade; o ambiente cheio e barulhento parecia intensificar os temores comuns de qualquer garoto de sua idade que já soubesse o que era o perigo, e seu coração deu um salto tremendo, quando avistou as duas figuras abrindo passo por entre as pessoas, caminhando na direção deles.

— Otousan! — Konohamaru adiantou-se, trazendo Hanabi junto e puxando o garoto para que os acompanhasse — Okaasan!

— Vocês estão bem? — Hinata abaixou-se, fitando os rostos de ambos com cuidado meticuloso — O que aconteceu?

— Ele está perdido. — Apontando a terceira criança, Hanabi conta, pousando seus grandes olhos esperançados em Naruto — Podemos achar os papais dele, não é, otousan?

— Conta que você saiu de perto de mim, Nabi. Eu disse para esperar comigo na fila, e ela saiu vagando sozinha. — Exasperado, Konohamaru dedura, lançado a menina um olhar reprovador.

— Eu só estava fazendo a carpa voar, fiquei na calçada do lado. — Muito certa de sua razão, Hanabi justifica de imediato.

— Tudo bem, tudo bem. Isso é para depois, mais tarde revemos as regras, mocinha. — Antes que a discussão aumentasse, Naruto a detém, e especificamente dirige esta última parte a Hanabi, e então se volta para o menino petrificado diante deles, tentando transmitir calma em sua postura, para obter as respostas essenciais — Como você se chama? Como seus pais se chamam? Onde eles estavam antes de você se perder?

Durante a seguinte meia hora, o grupo de Uzushio — com a ajuda de Ino, Shino, Hiashi, Neji e Fuu disfarçada — a exceção de Jiraya, quem desde que chegaram, sumiu numa taverna local, esteve buscando pelos pais do garoto chamado Shota; sem dar lugar ao pânico, Naruto conduziu uma busca organizada, avisando a segurança do local e mantendo o menino erguido em seus ombros, para que ficasse mais alto e visível, enquanto verificavam os lugares nos quais a criança recordava ter passado. Os encontraram buscando-o desesperadamente, já vítimas do medo que a imaginação produzia ao idealizar os piores cenários; era válido temer e preocupar-se, contudo, Naruto e Hinata sabiam bem demais, que estar refém disso nunca ajudava.

— Obrigada, muito obrigada. — Chorosa, a mãe do menino curvava-se repetidas vezes, apertando-o contra o corpo como se fosse devolvê-lo ao ventre.

— Não foi nada, tudo bem. Ficamos felizes que tudo ficou bem. — Sentindo-se abrumada com aquela gratidão desmedida, Hinata a tranquiliza, gesticulando com as mãos para que deixasse de curvar-se.

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Enquanto os mais velhos conversavam trocando palavras de gratidão e alívio, comentando por alto o perigo desses ambientes para crianças pequenas, o menino, agora sentindo-se seguro e acolhido entre os pais, focou seus olhos escuros em Hanabi, balançando tranquilamente sua carpa, segurando a mão de Naruto perfeitamente feliz; como qualquer criança em pânico, o menino gravou na mente a imagem dela aproximando-se, a yukata florida e o rosto de porcelana, e os grandes olhos de boneca. Sua mente inocente repetia e repetia aquele instante na esquina, tornando-o cada vez mais nítido e luminoso, e sentindo que deveria demonstrar também sua gratidão, voltou-se para a cesta que a mãe tinha num dos braços; não era exatamente o que alguém de sua idade gostaria, mas pelo menos era bonito, por isso engoliu a timidez.

— Obrigado. — O pequeno Shota fala, atraindo a atenção ao estender a Hanabi uma camélia branca do ramalhete da mãe.

Ao lado dela, Konohamaru revirou os olhos e bufou, e seus lábios crisparam-se ainda mais, quando o garoto repetiu o agradecimento estendendo-lhe a mão para um aperto, e enquanto o Sarutobi tentava empertigar os ombros durante o cumprimento, os mais velhos observando a cena tentavam conter os risos; Naruto, especialmente, via a atitude pavoneadora de Konohamaru com uma sobrancelha erguida em diversão.

Quando os últimos agradecimentos são ditos e as despedidas também, o grupo volta às compras que faziam nas barracas mais próximas, e Hanabi caminhava entre Naruto e Konohamaru, encarando seriamente a camélia em sua mão, pensando no que fazer com a flor e não encontrando jeito de continuar brincando e aproveitando o festival sem perdê-la; Hinata viu a indecisão dela e iria oferecer guardá-la em sua bolsa de mão, quando Konohamaru parou de andar com uma impaciência impagável.

— Se você sair correndo de novo, eu juro que nunca mais te empresto meus jogos! — Tomando a flor das mãos dela, Konohamaru a prende em seu cabelo, fixando-a com o grampo para não cair.

— Por que você está irritado, Kono-nii? — Confundida, porque seu tom de voz dizia uma coisa, e suas ações diziam outra, Hanabi exige, indignada.

— Porque você é tonta. — Konohamaru retruca, e volta a segurar a mão dela com firmeza — Vamos logo, ainda tem espetinhos de frutas daquele lado.

Vendo-os ocupar um lugar à fila da barraquinha, Naruto e Hinata já não conseguiam esconder os sorrisos, e atrás deles, Neji negava com a cabeça murmurando algo como “que bom que não preciso me preocupar com isso”, e Hiashi suspirava rendido com as reviravoltas da vida, que a essa altura já não lhe surpreendiam mais.

— Acho que ele vai ser pior que o Sakumo. — Divertida, Hinata comenta, encontrando a dinâmica entre as crianças adorável.

— Considerando que ela está cada dia mais parecida com você, Hina, preciso seriamente iniciar um treinamento instrutivo com o Kono. — Mesmo sorrindo com a imagem à sua frente, Naruto também começava a ter em conta os desafios futuros.

— Não seja dramático, Naruto. — Rindo da descabelada antecipação dele, Hinata continua observando as crianças.

Lhes dera a mesma missão que Kurenai dera a ela e Naruto anos antes, sobre como ter responsabilidade com o próprio dinheiro e saber como gastá-lo, modificando apenas a parte em que os dois não precisavam comprar armamentos ninja nem mantimentos como eles precisaram no passado; Konohamaru e Hanabi precisavam apenas saber controlar o que gastavam, cuidar o troco e comprar coisas gostosas para comer.

— Não sou dramático, sou realista. — Sorrindo, Naruto parecia estar contemplando algo além da imagem diante deles, e com essa mesma leveza impregnando seus gestos, toma o pulso de Hinata e prende ali uma delicada pulseira que estivera escolhendo, antes do ocorrido com as crianças — Já disse que você está linda hoje, okaasan?

Teve o prazer de ver o rubor subindo às bochechas dela, chegando a atingir suas orelhas, e embora seu próprio coração estivesse a ponto de estalar em desagrado a cada passo que davam entre a multidão, era absolutamente agradável ter momentos como aqueles; estavam utilizando o festival como camuflagem para reabastecer Uzushio, não poderiam esperar por Daiki e seus marujos a cada trimestre, então aproveitaram a oportunidade do grupo fazer compras sem atrair atenção, e todos vestiram-se de acordo com a ocasião. Mas para o completo abalo emocional de Naruto, quando Hinata surgiu naquela manhã para sua saída, trajando aquele yukata negro com detalhes prateados, e os longos cabelos parcialmente presos e ornamentados, parecendo uma pintura de tão linda, ele soube que não teria paz; agora eles vagavam pelo festival, fazendo compras e também tendo um momento raro de lazer, e Naruto experimentava o amargo dessabor, lançando olhares ameaçadores a cada três passos aos mais descarados, ou idiotas, como Neji chamara, ao dar-se conta do que estava acontecendo.

— Alguma ocasião especial...? — Agora sendo ela a fazer drama, Hinata brinca, lhe estreitando os olhos como se estivesse desconfiada, mas sem conseguir ocultar a ternura em suas feições ao observar atentamente a delicada peça.

— Digamos que é um suborno pelo meu mau comportamento ultimamente. — Satisfeito ao notar o contentamento dela, Naruto joga com as palavras.

— Inclui os olhares zangados de hoje? — Obviamente, Hinata não deixa a chance de réplica passar.

— Principalmente esses. Sinto que vou voltar ao meu estado neandertal até o final desse dia. — Adotando uma expressão emburrada para reforçar a ideia, Naruto retruca, passando um braço pelos ombros dela e beijando-lhe a têmpora num claro exibicionismo — A culpa é sua, okaasan, assuma a responsabilidade.

Alguns passos atrás, próximos a barraca de espetinhos de lula, Neji aguardava por Ino e Fuu — que foram em busca de suas próprias necessidades imediatas para a estadia em Uzushio — junto a Shino e Hiashi, observando a cena segurando o riso debochado; havia prestado atenção em toda a cena, e percebia o evidente afeto nas ações de Naruto, como também a razão oculta nelas.

— Mas é um grande paspalho mesmo. — Neji murmura, vendo como os dois rapazes diante do posto de dangos paravam de sussurrar e seguiam seu caminho.

— Meus Kikaichū detectaram um aumento de hostilidade na postura corporal do Naruto desde essa manhã. — Shino comenta, seguindo a linha de visão de Neji.

— Bem, se me conformo de algo nessa vida, é que minha filha não escolheu alguém incapaz, em muitos sentidos. — Como se estivesse declarando um sutra hinduísta, Hiashi declara sua observação.

— O que vocês estão fazendo? — Com suas tarefas concluídas, Ino reúne-se ao grupo, com Fuu acompanhando-a entusiasmada.

— Observando um espetáculo. — Zombeteiro, Neji responde, indicando a elas a direção.

Quando as crianças obtém seus espetinhos de frutas caramelizadas, o grupo estava todo reunido, e querendo aproveitar os últimos momentos daquela noite — além de precisarem aguardar o retorno de Jiraya antes de sua partida — dirigem-se a churrascaria mais próxima e menos abarrotada por aquela área; ao encontrarem uma mesa grande o suficiente para todos, acomodaram-se para desfrutar daquele raro momento em que não estavam lutando ou defendendo uma fronteira. Era apenas um dia inesperado, que geralmente demorava a chegar para aquelas pessoas, um dia onde poderiam ser comuns, rir de coisas bobas e apreciar a graça de o sol ter surgido; enquanto pediam cortes de carne, acompanhamentos e bebidas, a figura faltante naquele quadro juntou-se a eles como se nunca tivesse ido longe demais, sentando-se no lugar reservado a ele com naturalidade.

— Achei que sua pesquisa seria mais longa. — Implicante como ninguém poderia ser, Naruto alfineta.

— A pesquisa é importante. Mas ainda sou um mestre de um discípulo muito esquentadinho. — Jiraya devolve, rindo estrondosamente — Não pense que não vi sua atitude, garoto. Se não controlar esse humor, seu coração vai pedir socorro antes dos trinta.

— Ainda não entendo, o que é que faz todos rirem tanto? — Inusitadamente, Fuu pontua, revelando o quanto estava perdida com aquelas provocações veladas.

— São só garotos bobos, Fuu, em qualquer idade. Nabi, como seus legumes. — Hinata intervém antes que o assunto estivesse completamente voltado a eles.

— Não sei não, Hina. A mim, pareceu que seu quase marido é muito intolerante. — E Ino imediatamente contradiz, enfatizando o que estavam debatendo com muita satisfação — Conta, Naruto, qual o seu maior desagrado do dia?

— Considerando o conjunto da obra? — E o Uzumaki rapidamente acompanha a peça, entusiasticamente — Tenho uma quase esposa formosa demais para o bem da minha sanidade, e crianças que acham que minha indulgência é enfeite. E no meio disso tudo, um grupo de pessoas que não sabe o significado de discrição, para controlar.

— E ele nem toma saquê ainda, minha gente. — Ino debocha acidamente da situação.

— Para de ser resmungão, Naruto, se eu não te conhecesse, diria sem duvidar: aquele é o Jinchuuriki da Kyuubi. — Neji por outro lado, era um caso extraoficial das regras sociais, graças à influência daninha de Jiraya — Ele sempre foi assim, Fuu. Lembro quando a gente ia brincar na cabana, e o Naruto sempre dava um jeito de estar em par com a nee-chan. Era tão frustrante.

— Ah, aqueles tempos eram tão divertidos, você lembra, Neji, como a Hina não entendia porque eu nunca despia a roupa nas nossas idas ao riacho? — Rindo como se fosse a piada mais engraçada, Ino trás à tona lembranças preciosas — A primeira vez ela perguntou se minha roupa tava colada.

— E o que era, de verdade? — Fuu questiona, interessada na história antiga.

— Nada. Só o cuidado da minha mãe, que me ensinou que meninas não se despiam na frente de meninos. E diferente do que Kurenai-sensei ensinava aos dois, sem atropelar nada. Mas no nosso grupo, erámos eu, Neji, Shikamaru, Chouji, Naruto e Hinata. Não tínhamos outras garotas, então, automaticamente eu e a Hina agíamos como os garotos. — Nostálgica, Ino explica, sorrindo emocionada — Depois vieram a Tenten, o Lee, o Sai, o Shino e a Madoka na Academia, e depois até a Sakura. Nosso grupo cresceu tanto.

— Eu lembro do Naruto, especificamente surgindo atrás da Hinata, a cada vez que o Iruka-sensei nos ordenava trabalhar em equipes distintas. — Shino delata, contentíssimo ao ser incluído nas lembranças trocadas — E ele sempre disfarçava com um “nossa, terminamos no mesmo grupo”. Mas confesso que o Kenta e o Ryo teriam esgotado até a minha paciência, isso sem mencionar o Sasuke e o Kiba atazanando.

— E... e como essa etapa... ham... continuou...? — Inusitadamente, é Hiashi quem questiona sobre a infância deles, exatamente como um peixe fora d’água, mas genuinamente interessado em ouvir mais sobre o crescimento que não acompanhou da filha.

— Acho que não houve nada extraordinário, não foi, Hina? — Compreendendo a razão, Naruto prontifica-se a relatar — Nós treinávamos a grande maioria do tempo, depois aprendemos a conciliar a fachada da vida normal com as obrigações da divisão, mantivemos os amigos do início e fizemos novos. E crescemos, sabendo quem deveríamos ser, e talvez mais cientes do mundo a nossa volta.

— Eu recordo de chegar à uma cabana florida numa noite, através de um caminho escuro, e encontrar um menino vestindo um pijama de sapinhos, muito animado por me ver, e lembro do vovô dizendo que seríamos companheiros dali em diante. — Hinata esclarece, com uma serenidade tão inocente, que era cortante — Essa é a lembrança mais forte que tenho. Mesmo que saiba que existiu mais antes disso, que houve agressão e negligência, isso é o que literalmente me marcou. E não pai, em nenhuma das recordações antes disso, você aparece como alguém que me machucou diretamente, apenas como quem disse “leve ela” ao Hokage. Quando penso em alguém que realmente me machucou e magoou, foi Hiromi.

— Eu lembro disso, o vovô veio de noite, trouxe uma menina e me disse: ela será sua companheira, Naruto. — Segurando a mão de Hinata sobre a mesa, Naruto reafirma, os olhos azuis brilhando em nostalgia e saudosismo, com um amor refletido tão nítido como o dia — Lembro de ter pensado que não ficaria mais sozinho, e que aquela menina boneca era um presente especial para mim. Talvez por isso eu tenha sido tão chato na nossa infância, pessoal.

— Então você amou a okaasan assim que a viu, otousan? Igual nos contos? — Inusitadamente, Hanabi pergunta, denunciando o quanto estava atenta ao assunto.

— É, a okaasan era como a Princesa Sayo! — Eufórico, Konohamaru até coloca-se em pé na cadeira — Bonita e gentil, corajosa e resiliente!

— Otousan, se um garoto não pensar assim de mim, significa que ele não serve? — Hanabi emenda, mudando totalmente o foco e a essência do debate.

— Claro que não vai servir, Nabi! Você não vê? O otousan amou a okaasan desde sempre. Essa é a regra. — É Konohamaru quem responde, o peito inflado orgulhosamente pela revelação.

Naquele momento, todos os presentes entreolham-se, abismados com a interpretação das crianças, e no entanto, ninguém atreveu-se a responder no lugar dos envolvidos e tacitamente, responsáveis; Jiraya murmurou um “vai, garoto, eduque suas crias” erguendo as mãos, e Neji voltou a retrucar seu jargão “ainda bem que não sou responsável”, enquanto todos os outros — até Hiashi — prendiam a respiração diante da inusitada e problemática questão.

— Hanabi, quando um dia, num futuro muito, muito distante, um garoto vier a expressar seus sentimentos por você, ele deve ter a consciência de que você é amada, respeitada e preciosa. Se ele mantiver esses três princípios, vou considerá-lo alguém. Nada menos do que isso. — Num tom terno e resignado, Naruto responde, enfatizando bem seus pontos, enquanto acariciava o rosto da menina, e então focou no menino — E digo o mesmo a você, Konohamaru, se você não tiver a intenção de amar, respeitar e valorizar sua companheira, sequer demonstre o que sente. Um homem não assume uma mulher se não puder ser a base dela. Vocês entendem?

— Eu preciso saber e entender o que estou fazendo. — Konohamaru responde, decidido.

— Eu preciso ter segurança e evidências. — Hanabi afirma, resoluta.

— E isso não significa, meus amores, que devem ser excludentes. — Hinata complementa, atraindo a atenção de todos, especialmente das crianças — Somente cuidadosos. Nabi, você é forte, determinada, altruísta e espontânea. Alguém para estar ao seu lado, precisa aceitar e respeitar essas suas quatro formas essenciais, além de te amar incondicionalmente como nós fazemos. Kono, você é protetor, expansivo, generoso e altamente temerário. E isso não significa que você deve se anular por alguém, significa que você dá tanto como recebe. Você é igualmente precioso, mas com valores distintos. Apenas esperamos que os valores que te ensinamos, te transformem num homem capaz e insubstituível, amado com a mesma intensidade que irradia.

— Entendido, okaasan! — E como se fossem um disco riscado, as duas crianças respondem juntas.

— Pelas barbas do sábio! Vocês querem me fazer chorar, não é? — Ino prontamente se manifesta, trazendo graça, irreverência e um pouco de verdade — Dá até vontade de criar uns pirralhos. Vou escrever pro Sai, perguntar o que ele pensa sobre pestinhas.

Os filés de carnes continuaram a ser entregues na mesa deles, assim como todos os acompanhamentos e bebidas, e de um instante a outro a missão essencial de obter os mantimentos e partir, transformou-se em uma verdadeira comemoração; em algum momento, quando as crianças já estavam na sobremesa, Jiraya conseguiu burlar a vigilância — já desgastada de Naruto — e distribuir copos suspeitos a todos. E o problema nem foi esse, foi que o Uzumaki não identificara o perigo de imediato, estava felizmente tranquilo em seu lugar, cortando frutas milimetricamente para que Konohamaru e Hanabi não tivessem dificuldades; e no instante exato em que sua garganta, seca e ansiada por água protestou, ele tomou um gole grande e necessitado de seu copo, engasgando com o conteúdo ao instante.

— O que houve, Naruto? — Assustada com a tosse frenética dele, Hinata o auxilia, sem saber ao certo por onde começar o tratamento.

— Haaah!... Meus netos... meus netos... vão ser... magníficos... — Nesse instante, Hiashi já estava num estado deplorável, e mantivera-se quieto apenas pela incapacidade de organizar a mente, até romper o silêncio desastrosamente — Hinata... quando é que os bebês chegam...?

— Faltam... dois mil dias... tio... — Num estado semelhante, Neji retruca, mordendo um pedaço de carne como um farejador faminto, o rosto escorado na mesa — Juuken... vou ensinar...

— Naruto! Pare de enrolar... meus netos... agora...! — Erguendo um garfo no ar como uma lança, Hiashi levanta-se de supetão.

Ao redor da mesa, Ino, Shino, Neji, Jiraya e Fuu desatam a rir, sem sequer compreender o que estava acontecendo ou a gravidade do desfecho daquele jantar; Naruto e Hinata se entreolharam assustados e perplexos com a cena, tapando às pressas os ouvidos dos mais novos, e o Uzumaki com os olhos ainda lacrimosos e as bochechas vermelhas rapidamente juntou as peças em sua mente, lançando um olhar fulminante ao padrinho. Antes que qualquer um dos dois sóbrios reagisse, Hiashi deixou seu lugar, e cambaleante, foi até a mesa vizinha; em seu lugar, Shino girava o dedo indicador em círculos, fazendo seus insetos formar um pequeno ciclone negro na mesa, completamente fora de controle, parecendo uma colmeia humana, de tanto que zunia.

— Vocês sabem... o que um pai pode fazer... para ganhar netos...? — Na outra mesa, Hiashi já sentava-se num lugar vago desavergonhadamente, expondo suas lamentações embriagadas.

— Sogro! Por Rikudou! — Num salto quase acrobático, Naruto alcança e ergue Hiashi daquela mesa, e logo curva-se impressionantemente — Desculpem, perdão! Meu sogro está um pouco alto! Já vamos. Desculpem.

— Olhem esse rosto. Os olhos. Uma netinha com esses olhos... hic... seria linda... não...? — E ainda sem render-se, o Hyuuga agarra o rosto do Uzumaki, exibindo-o como um espécime raro e pedindo a opinião alheia, e então aponta para Hinata, praticamente encolhida em seu lugar — Olhem minha filha... é preciosa... hic... que genes... Naruto... onde estão... hic... meus netos...?

— Naruto, deixe de ser mesquinho, dê os netos ao homem! — De seu lugar, Jiraya coloca mais lenha na fogueira, erguendo um copo de saquê como quem faz um brinde e rindo ruidosamente.

— Calado, padrinho! — Completamente à mercê daquela trupe imprevisível, Naruto ordena.

De alguma forma, enquanto Naruto ralhava com Jiraya, Hiashi desvencilhou-se dele e cambaleou — muito rapidamente por sinal — até Hinata e sentou-se ao lado dela, e com um cuidado quase divino, segurou ambas mãos da filha; e o mais surpreendente para a Hyuuga não foi o gesto, foram as lágrimas que molharam suas mãos logo em seguida.

— ...Hinata... prometo que... vou ser bom... — Hiashi solta um lamurio sofrido, fazendo-a arregalar os olhos, e mesmo naquele estado carente de lucidez, era mais verdadeiro do que muita declaração que já fizera — ...só preciso... ver... hic... crianças gordinhas... iguais a você...

— Tudo bem, pai. Veja bem, crianças gordinhas levam tempo para chegar. Mas falta pouco, é uma produção longa. — Percebendo seu estado e achando melhor contar uma mentira piedosa, Hinata o tranquiliza.

No mesmo instante em que Hiashi é tranquilizado, Ino, Neji, Shino e Fuu — que praticamente saltitava, quase sobrevoando a mesa — iniciam um coro de “bebês gordinhos” puxado por Jiraya, naquele momento de desordem geral, engrossado por Konohamaru e Hanabi, que estavam adorando aquela bagunça; lançando a Hinata um olhar que pedia paciência, Naruto sinaliza que vai acertar a conta, para que pudessem sair rapidamente dali, e antes de chegar ao caixa, ouve até mesmo alguns clientes — igualmente embriagados — juntando-se ao coro irracional de sua mesa.

Horas mais tarde, depois do feito extraordinário de ter conduzido todos em segurança — ainda que afivelados aos seus lugares com nós de marinheiro em cordas de sisal — na pequena embarcação até Uzushio, com uma sopa de algas para ressacas aquecendo seus estômagos e as crianças dormindo ainda às gargalhadas, soltando murmúrios durante o sono de como o “vovô” estava legal, Naruto por fim senta-se em sua cama; o aroma dos lençóis limpos e a tranquilidade do quarto devolvendo parte de sua serenidade, enquanto considerava por onde começar a descarregar as cargas do barco, que nem guardara na chegada, tamanha era a confusão que seus bêbados armaram.

— Você também precisa de sopa de algas para dormir? — Preocupada, Hinata pede, sentando-se na cama e olhando-o atentamente.

— Não. Estou bem. Só me lembre de nunca mais deixar seu pai e saquê no mesmo lugar. — Deitando-se com um riso anasalado, Naruto acomoda-se e puxa Hinata para o seu lugar de sempre, entre os seus braços.

***

Pela primeira vez na vida, aquele quarto estava ocupado por outras garotas além dela, e essa realização era impressionantemente eletrizante, como a sensação encontrar um item raro de colecionador, era maravilhoso estar vivendo aquilo que sua imaturidade anterior lhe impedira; as três riam e compartilhavam coisas e fofocas, e nem parecia que Karin fizesse parte do grupo havia pouco mais de meio ano, ou que existia uma diferença de três anos entre elas e Tenten, ou que Madoka, que sempre era tão explosiva e expansiva, pudesse integrar-se sem gerar conflito com Karin.

— Feche os olhos, Sakura. — Tenten pede, parada diante dela, enquanto as outras duas lhe prendiam o obi com perfeição.

— Isso é mesmo necessário? Não vai ficar estranho? — Acuada, Sakura temia ficar ridícula, nunca tinha experimentado nada daquilo.

— Estranho seria não te deixarmos impecável. Esse yukata pede por uma produção completa. — Tenten retruca, iniciando seu trabalho assim que Sakura obedece, e cheia de curiosidade, indaga — Mas, me diz, achei que você iria escolher um rosa ou branco, porque esse tom?

— É difícil encontrar um rosa que fique bonito, ainda mais com meu cabelo. — Sakura responde, detendo-se um instante ao sentir Tenten passar-lhe algo nos lábios — E... eu queria parecer um pouco mais... madura..., sem parecer uma garotinha vestindo as coisas da mãe... entendem?

— Totalmente, você quer transmitir sobriedade. É perfeito. Pode deixar que você vai ficar radiante. — Empolgando-se, Tenten capta a mensagem, ainda que não captasse a razão.

— Ahh, mas que droga! — De repente, Karin para de ajustar o próprio yukata, resmungando e segurando as barras do tecido soltas — Sakura, você me empresta um sutiã? O meu acabou de arrebentar o fecho.

— Na segunda gaveta da cômoda, Karin. — Terminando de prender as tarraxas dos pequenos brincos de pedras azuis turquesa, Sakura lhe indica, sentindo-se extremamente nervosa por ver o resultado daquela quase operação — Será que vai ter espetinho de lula?

— Ah sim, o Chouji já nos deu um relatório completo de todos os temperos e aromas que sentiu no caminho para cá. — Madoka conta, rindo ao recordar daquele informe entusiasmado — Ele disse que tudo que for grelhado e tiver a palavra churrasco, vai estar divino. Você vai soltar o cabelo, Tenten?

— Vou. Todas estamos fazendo mudanças drásticas hoje, vai ser legal. Pena nossos times estarem incompletos por enquanto. — Com um matiz saudoso pintando suas palavras, Tenten responde, mas antes que o abatimento pudesse assentar-se, muda o foco rapidamente — Sabem, o Neji escreveu essa semana. Parece que uns dias atrás eles também foram a um festival por lá. E adivinhem o que aconteceu?

— Um desastre, com certeza. — De uma forma muito engraçada, as três respondem juntas, como se tivessem ensaiado.

— Exatamente. Neji disse que o Naruto passou o dia inteiro rosnando para desconhecidos. — Tenten conta às gargalhadas, detalhando a descrição enviada pelo Hyuuga — E o golpe final foi Jiraya-sama sabotando todo mundo, Hiashi-sama descontrolado, e parece que até o Shino ficou um desastre. Diz o Neji que a bronca que todos ouviram no dia seguinte foi histórica, o Naruto não poupou ninguém e fez todos correrem cem voltas pelo pátio, pra “desintoxicar”.

— Coitada da Hina. — Compadecida, Sakura comenta, terminando de fixar os kanzashis de flor de Higanbana em seus cabelos — Deixa eu te ajudar agora, Tenten.

Pela próxima hora, estiveram assim, revezando e trocando, se ajudando a aprontar-se entre confidencias e brincadeiras, apreciando aquele tempo doce que se desvanecia sem que pudessem contê-lo; na sala, no entanto, o ambiente era de puro constrangimento e rigidez, como se naquela casinha branca existissem duas dimensões separadas e opostas.

— Por que a gente veio esperar aqui, mesmo? — Sentindo as orelhas latejando ao ouvir mais uma onda de risadas, Chouji questiona.

— Por que elas decidiram. Disseram que era melhor, já que o Sakumo ainda não chegou, ou algo assim. — Quase dormindo com seu copo de chá na mão, Shikamaru responde — É melhor do que esperar na rua, meu amigo.

— Confessa que você só queria um lugar para se escorar e dormir, Shika. — Igualmente atirado no sofá ao lado, Sai implica.

— Depois do turno dupla no perímetro sul? Claro que sim! — Com a irritação pela falta de sono afetando seu filtro, como sempre ocorria, Shikamaru retruca emburrado — Às vezes acho que o capitão espera ser o nosso turno, e ordena esses relatórios de anomalias, só para mexer comigo.

— O que há com ele? — Impressionado com a mudança na compostura sempre relaxada e contida do Nara, Lee pergunta.

— Eram só alarmes falsos. Duas vezes. Curiosamente, quando estávamos por trocar. — Igualmente cansado, Sai explica minimamente.

— Kakashi disse uma vez que, quando assumiu o comando, Tenzou implementou esses “testes”. Que são para a percepção fatigada. — Finalmente tendo algo para dizer, e quase perplexo por querer participar, Sasuke comenta — Ele aplicou o mesmo com o time, durante o último inverno. Foi uma semana infernal.

— E como está sendo a adaptação do time sete, nessa configuração agora? — Inesperadamente interessado naquele tema, Shikamaru investiga, deixando Lee e Chouji confusos, afinal, não sabiam que mudança era aquela.

— Os relatórios continuam chegando no tempo certo e não houveram discrepâncias. — Compreendendo o que o seu parceiro estava fazendo, Sai observa, complementando a linha de raciocínio — Pensamos que talvez, já pudessem ter surgido conflitos de interesse a essa altura.

— O mais irritante é isso, não teve. Achei também que teria, e por isso fui pego desprevenido. É irritantemente bem separado. Mas também não fomos a missões externas depois disso, e até o momento, Kakashi tem mantido o controle. — Honesto e falante, Sasuke expressa o que pensava a respeito de uma forma que teria feito Karin o parabenizar.

— É verdade que durante a missão de Suna, o coitado do Gaara esteve na mira dele? Sakumo falou disso por uma semana na divisão. — Numa zombaria velada, Sai esmiúça.

— Isso foi o mais impactante. Ninguém entendia o porquê. Bem, a Karin sim, mas ela é uma... exceção estranha. — Franzindo a testa ao recordar o quanto a Uzumaki lhe tinha atazanado naquela missão, Sasuke confirma o feito extraordinário — E depois, só ficou claro quando voltamos a Konoha, foi uma explosão de informação.

— Espera, porque vocês estão falando como se Kakashi-sensei estivesse sendo vigiado? E que mudança é essa? O que aconteceu no time sete? — Lee interrompe a conversa entre os três, sem compreender o que estava sendo discutido ali.

Entretanto, os passos e as vozes animadas das garotas descendo as escadas, interrompe o compartilhamento da informação e cala subitamente qualquer comentário que Shikamaru, Sai e Sasuke ainda tivessem por fazer, confundindo ainda mais Lee e Chouji; quando as quatro chegam à sala, prontas e sorridentes, o Nara ainda sussurra um “ainda bem”, claramente aliviado pela espera ter terminado, para que pudessem sair e consequentemente, terminar aquela noite rapidamente.

— Pode ir desmanchando essa cara de tédio, Shikamaru, você vai nos acompanhar sem reclamar nenhuma vez. — No entanto, Tenten percebe a intenção dele antes mesmo de saírem pela porta — Faz tanto tempo que não podemos aproveitar todos juntos, e eu não vou deixar você estragar isso.

— Você sabe que tecnicamente, não estamos todos juntos, não é, Tenten? — Como somente ele poderia, Sai atem-se estranhamente aos fatos literais.

— Não importa! Se a Hina e o Naruto estivessem aqui, igual aos outros, nós iríamos fazer o mesmo. Sempre fizemos isso quando crianças, então me obedeçam. — Agindo comicamente como Ino costumava fazer para empurrar os demais, Tenten bate o pé — E se você continuar implicando, Sai, vou escrever a Ino e contar sobre o seu mau comportamento.

— Ah, esperem. Preciso deixar um recado para o nii-chan. — Enquanto a pequena discussão ocorria ali, Sakura vai até a cozinha e escreve no bloquinho sobre a mesa.

Seu rosto ilumina-se ao escrever, e ela precisou limpar as mãos duas vezes, antes de conseguir completar o bilhete, sentindo um frio enervante começando a espalhar desde o estômago pelo corpo todo; Lee, detém-se cheio de curiosidade, quando deposita a bandeja com o bule de chá e os copos na mesa, ao ver o conteúdo do bilhete descaradamente.

— Por que você separou dois yukatas pro seu irmão? — E obviamente, a origem de sua curiosidade veio daquele detalhe aparentemente fora do padrão.

— Você escolheu dois para ele ter mais opções? — E Madoka, ao seu lado junto às outras três, também não parece compreender a situação.

— Ah! Essa noite vai ser incrível. — Divertida, Karin debocha segurando o riso.

— Vamos logo, é o último dia e dizem que os fogos vão ser mais caprichados este ano. — Numa voz esganiçada, Sakura desconversa, caminhando para a porta deixando uma metade do grupo aos risos, e outra perdida.

As ruas estavam perfeitamente iluminadas e decoradas, e como nos dias anteriores daquele mês, Konoha estava em festa, pela primeira vez em tempos numa comemoração a grande escala; não era apenas pela estabilidade de Tsunade como a Godaime Hokage, mas também pela resiliência da Vila, agora cem por cento recuperada daquele fatídico dia, e havia ainda uma outra camada que todos percebiam sem que fosse dita abertamente: não fosse pela preparação da ANBU sob o comando dos Tenentes Neko e Kitsune, Konoha teria se transformado num cemitério gigante, com perdas maiores dos que as que tiveram. Por isso havia uma forte sensação de vitória tomando conta de todos, mesmo uma vitória dura deveria ser festejada, ainda que tardiamente, o importante era que os habitantes sabiam a razão de ainda estarem ali; a consequência disso foi a unânime aceitação da população, que já não estremecia-se quando algum dos mais conservadores — uns poucos que sempre encontravam motivo para reclamar — pontuavam que era terrivelmente aterrorizante o fato dos dois serem apenas dois adolescentes que mal deixaram a infância de lado, e quando o fato era destacado, as massas logo saiam em seu apoio, recalcando que aterrorizante ou não, eles eram a espada que mantinha Konoha em pé.

— Ah, está tão bonito! — Com olhos brilhantes, Madoka aprecia a decoração do palanquim, onde um grupo de artistas itinerários fazia uma apresentação de acrobacias — Pensei que todos viriam, mas não vejo Yumi e Shiin.

— Depois do fiasco, acho que elas tem um enorme bom senso, pelo menos. — Pela primeira vez demonstrando algum desagrado, Tenten comenta.

— ... Que fiasco? — E Sakura, notando a estranha postura dela, pergunta.

— Você não deve ter percebido isso, né? Bem, eu entendo, era sua época obscura. — Sem qualquer maldade, Tenten responde, e muito sutilmente indica Sasuke adiante delas com o queixo — Naquele tempo, você, ele e Kiba estavam completamente decididos a ser irritantes, por isso acho que não perceberam nada, mas o fato é que: naquele último ano da turma de vocês na Academia, Yumi e Shiin faziam parte do grupinho que marginava o Naruto.

— Bem, então acho que também sou parte do fiasco, não? — Um riso amargo escapou de Sakura, e as lembranças foram vergonhosas o suficiente para deixá-la vermelhíssima.

— Mas aí é que está a questão. Você amadureceu, Sakura, evoluiu e se desculpou com todos nós e com eles. Até aquele metido arrogante ali fez um pedido de desculpas, pelo que a Hina contou. — E outra vez, Tenten aponta Sasuke abertamente, que lhe olha completamente perdido por ter sido apontado, sem saber do que as garotas conversavam — Você lembra quando o Shikamaru organizou aquele acampamento na clareira deles, para a gente treinar para os exames Chunin?

— Ui, aqueles dias foram dolorosos. — Madoka comenta com uma careta, ao ver Sakura concordar, recordando o treinamento extenuante que Naruto e Hinata lhes impuseram.

— Pois então, durante aqueles dias, Yumi e Shiin simplesmente decidiram que Naruto era agradável e passaram a ser descaradamente sugestivas com ele. Para piorar tudo, ele e a Hina tinham mudado a relação há pouco tempo, mas era óbvio que eram um do outro, sempre foram, e ainda assim, aquelas duas tiveram essa audácia. — Muito mais irritada do que o seu normal, Tenten relembra, com Madoka concordando e deixando Sakura e Karin estupefatas — Foram simplesmente hipócritas e falsas. E aí, quando no dia do ataque, eles revelaram quem eram para o corpo Shinobi, elas mudaram de atitude de novo. Claro que ficaram com medo, tinham o rabinho preso. Mas são umas mal agradecidas, e voltaram a expor suas “opiniões recriminativas” a respeito deles. Ouvi que Sai e Shikamaru já deram uma advertência disciplinaria para as duas, afinal, todos sabem que assuntos do contingente da Vila são segredo.

— E eu achando que já tinha sido suficientemente descarada. — Detendo-se em frente a barraquinha de dangos, Sakura comenta, tentando trazer a leveza de volta às conversas — Você teve sorte, Karin, chegou numa época relativamente mais centrada de todos.

— É, mas ainda posso degustar de fofocas de alto nível. É um estudo maravilhoso observar tantas emoções num único lugar. — Completamente satisfeita com a dinâmica daquele grupo, Karin armazena as novas informações obtidas, e aproveita a chance que surge de voltar ao seu recorrente divertimento — Ei, peixinho, vamos ver quem acerta mais alvos.

Antes que Sasuke consiga protestar, Karin lhe agarra um braço e o arrasta até o posto de lançar argolas ao lado, e claramente fez mais algum comentário desdenhoso que só o Uchiha ouviu, já que o rosto dele ultrapassou o tom dos cabelos dela; como se um sinal tivesse sido dado, rapidamente Lee e Chouji juntaram-se a competição dos dois, apostando prêmios e penalidades para as pontuações mais altas e mais baixas.

— Isso é inesperado. — Parando ao lado delas, a observar a competição, Shikamaru comenta.

— Isso nem é o começo. Karin parece que tem uma habilidade especial, ela desmancha o Sasuke e coloca a cabeça dele em pane em segundos. — Compreendendo de quê Shikamaru estava falando, Sakura revela, apreciando um dango de baunilha em seu espetinho — Lá em Suna ela falava cada coisa, e o Sasuke simplesmente travava.

— E você parece que superou completamente. Tanto a afeição, quanto o que aconteceu durante os exames. — Impressionada, Tenten observa acertadamente.

— Ah, isso faz bastante tempo. A afeição... nunca foi para ser. Acho que era só a minha forma de buscar alguma normalidade na minha vida, entende? Pode ter sido verdade num começo, mas depois era só escape. — Sorrindo, Sakura observava Karin fazer uma dancinha ridícula para implicar com Sasuke, por tê-lo vencido na primeira ronda, e prossegue — E naquele dia, eu sei que não foi inteiramente culpa dele, então acho que ficou tudo bem. É como a Hina disse na época, o tempo cura tudo.

— Sabe, chegaram uns instrutores novos na Academia, são bem interessantes. Quer que eu te apresente? — Com expectativa crescente, Madoka sugere, parecendo disposta demais em ser a ponte.

— Você vai arrumar problemas se fizer isso. — Sai logo avisa a companheira de time.

— Que instrutores? — Lee, que havia voltado ao lado dos amigos enquanto esperava sua vez novamente, pergunta com uma ponta de pânico sobressaindo a curiosidade.

— Ah, não, Madoka. Não precisa... — E Sakura nega veementemente, gesticulando com as mãos para dar ênfase, fazendo Shikamaru rir de seu desespero.

— Tem certeza? Sabe, você parece tão focada ultimamente, talvez alguém que tenha esse mesmo foco combine com você. Sempre achei que alguém responsável e disciplinado é a sua cara. — Madoka, no entanto, não captara a essência da recusa, e seu comentário provoca uma pequena comoção.

Sakura, que pensava ter dispensado e encerrado o assunto, voltava a degustar seus dangos, e sente sua garganta fechando imediatamente ao ouvi-la em seguida, precisando ser socorrida por Tenten, que logo pede auxilio a Karin; e enquanto as duas garotas socorrem Sakura de seu engasgo inesperado, Lee via Shikamaru e Sai rindo descontroladamente, e fitava Madoka com uma espécie de desconcerto e determinação estampados no rosto.

— Você também se interessa por responsabilidade e disciplina? — Quando Lee externaliza os tumultuosos pensamentos que lhe atingiram, a parcela feminina do grupo foca sua atenção nele num lampejo instintivo.

— Não, eu disse que isso é a cara da Sakura. Nunca me coloquei na equação. — Com os olhos brilhando em desafio, Madoka retruca seriamente, tentando manter-se neutra às expressões sorridentes de Karin e Tenten, e até mesmo de Sakura com seus olhos lacrimosos.

— O que vocês estão fazendo? — Sasuke pergunta, juntam-se ao grupo com Chouji, completamente alheios ao ocorrido.

Estiveram concentrados em ultrapassar a pontuação de Karin e Lee e sequer notaram o desastre ocorrendo às suas costas, e entendiam menos ainda aquele silêncio buliçoso tomando conta de todos, ou os risos ainda persistentes de Shikamaru e Sai; havia tantas informações se desenrolando ao mesmo tempo, principalmente as não ditas, que ninguém sabia por onde começar ou como sortear aquela repentina mudança na atmosfera da celebração. Ao redor deles, ouviam as pessoas passando, rindo e comentando uma que outra atração, crianças brincando e disputando em postos de jogos exatamente como estiveram fazendo, e o aroma delicioso das comidas sendo preparadas na hora aos clientes; o mundo parecia estar passando numa velocidade distinta a que estavam processando o momento, mas em lugar de surgir uma disparidade que afete o entrosamento, surgia apenas risos, risos porque ninguém estava entendendo nada, e os que entendiam não estavam em condições de explicar nada. Foi nesse momento, enquanto Lee tentava resumir a situação rapidamente para Chouji e Sasuke, e Sakura tomava bons goles de um suco que Karin lhe alcançou, finalmente limpando a garganta, que a segunda interrupção da noite aconteceu; Madoka juntava-se à explicação ao Akimichi e o Uchiha, e Shikamaru e Sai conseguiam manter alguma seriedade, quando Tenten viu a primeira e destacável figura aproximando-se.

— Ah, Gai-sensei! — Tenten chamou, acenando alegremente.

Ao chamado dela, os demais também buscam na direção que Tenten acenava, e encontram Gai aproximando-se com Hayate, Ebisu e Aoba, mais atrás deles, vinham Asuma empurrando a cadeira de Kurenai — ainda em reabilitação de sua cirurgia no início do mês, mas claramente recuperando-se — que abraçava o pequeno Hiruzen com ternura, e ao lado deles, Anko caminhava descontraída com Sakumo, e por fim, Kakashi; ao verem os mais jovens, o grupo de senseis rapidamente mudou seu rumo, indo de encontro a eles, detendo por um instante a busca de Hayate por Yūgao, e Sakumo, ao avistar Sakura, fez o que todo irmão orgulhoso e exibicionista faria: correu e a ergueu sem cerimônia, girando-a com um enorme sorriso.

— Nii-chan! — A resposta dela arranca algumas gargalhadas, enquanto Sakura claramente tentava não tontear — Céus, você acaba de voltar, como é que tem tanta energia?

— Aqui, e que fique claro que o meu é melhor. — Pondo-a no chão, Sakumo lhe mostra um grampo de cabelo ornamentado, antes de prendê-lo ao já elaborado penteado dela — Parabéns, Sakura, fiquei muito orgulhoso!

— Foi realmente impressionante, e a recuperação da Kure está sendo muito mais rápida, em comparação. — Trazendo uma espécie de selo de aprovação pelos resultados, Asuma acrescenta, com toda a propriedade de quem viu em primeira mão.

— Sim, Sakura realmente merece todas as felicitações. — Com a voz tingida de gratidão, Kurenai complementa — Ouvi da Godaime que ela e Shizune foram mais do que eficientes.

Enquanto Sakura ouvia comentários de felicitações e respondia nervosamente ruborizada com um titubeante “foi... foi apenas porque tive uma boa guia...”, Ebisu e Aoba se despedem do grupo, voltando ao seus postos de vigília antes do fim de seu intervalo, e Hayate decide continuar procurando por Yūgao por outros lados do festival; o grupo rapidamente se reorganizava, com Gai ouvindo os relatos de Lee e Tenten sobre o que estiveram fazendo até o momento, e Sai e Shikamaru questionavam discretamente Sakumo sobre os resultados da expedição, atraindo a atenção de Asuma, Kurenai, e os outros — interessados na grandiosidade de uma missão que durou um mês inteiro — quando Kakashi finalmente aproximou-se em silêncio de Sakura.

— Não conte ao Sakumo que discordo dele, ok? — A zombaria evidente na voz dele denunciava o quanto os dois tinham discutido o assunto no caminho, enquanto lhe prendia ao pescoço uma correntinha de prata com um pingente de flor de lótus.

— Achei que não chegariam a tempo. Bem, também pensei que estariam cansados para vir. — Pegando o pingente entre os dedos, com um sorriso mal contido começando a inundar seu rosto, Sakura comenta — Tem certeza que está bem? Pode ir desc...

— E perder a oportunidade de usar um yukata escolhido a dedo? — A provocação produz o efeito esperado, e enquanto o rubor no rosto dela intensificava-se, Kakashi prossegue satisfeito — Estou bem, Sakura. É o último dia do festival, devemos aproveitar.

Estavam entretidos em sua conversa, enquanto os demais decidiam o que fariam a seguir agora que os dois grupos reuniram-se, e alguns olhares intrigados eram dirigidos aos dois.

— Capitão, me empresta ela rapidinho? — Interrompendo a conversa com uma naturalidade que deixa a cena ainda mais inusitada, Karin os aborda junto de Sasuke, e antes mesmo de ouvir a resposta, toma a bolsinha de mão de Sakura, a entregando a Kakashi — Preciso de alguém com força o bastante para fazer aquela bigorna subir, não como certos peixinhos desnutridos.

— Ei, eu não fui tão mal assim! — Sasuke protesta de imediato, e então foca no Hatake, denunciando um cansaço maior do que nunca — Você não pode usar a autoridade de líder do time e fazer essa doida parar de ser tão... tátil?

— O que aconteceu com vocês na minha ausência? — Impressionado com a exasperação de Sasuke, Kakashi pergunta, observando Karin já arrastando Sakura — E você sabe, Sasuke, mais do que nunca, não posso ser imparcial.

— Então aumente a carga de treino dela, vai ficar cansada e feliz e vai parar de me encher. — Como última medida desesperada, Sasuke sugere, encontrando uma brecha convincente — Veja só como agora ela até está sendo inconveniente, roubou a Sakura de você na maior cara dura.

— Nisso você tem razão. — Kakashi não interferiria nos assuntos de Sasuke, na verdade, achava mesmo que Karin era ótima para tirá-lo de sua zona de conforto, mas tinha que concordar com sua lógica.

Vendo o Uchiha afastar-se achando que tinha conseguido obter alguma medida de controle sobre Karin, ironicamente, para ir ver os resultados de Sakura e competir também, Kakashi ouve a discussão de todos, sobre para onde iriam, e todos optaram por um local menos concorrido, que lhes garantisse uma boa vista dos fogos, e tranquilidade; ouviu Shikamaru e Sai respondendo ambiguamente a observação desconfiada de Asuma e Kurenai, as zombarias veladas de Anko para Sakumo, e a alegria energeticamente desmedida de Gai que fazia todos rirem. Quando os três retornam para junto do grupo, com Sakura gargalhando das implicâncias de Karin, que parecia atazanar Sasuke mais do que antes, já tinham um destino definido e, portanto, começam a encaminhar-se para lá; foi durante esse instante que Tenten e Madoka quase tropicaram com absolutamente nada em seu caminho, ao capitarem o segundo em que Kakashi devolveu a bolsinha de mão a Sakura, e naturalmente sem cerimônia, lhe ofereceu uma mão, e a Haruno a segurou sem hesitação.

Como se marcassem presença pontualmente em cada barraca de comida, ou posto de jogos, o grande grupo ia deambulando pelas ruas lotadas, e cada vez mais, alguns deles dirigiam olhares curiosos e em choque para os dois que caminhavam mais atrás; Gai, Asuma e Kurenai, principalmente, pareciam apreensivos e dividiam sua atenção sempre que podiam entre Kakashi e Sakumo, que por vezes aproximou-se dos dois com Anko fazendo alguma brincadeira como sempre, e parecia ignorar bizarramente aquelas mãos unidas. Depois vinham os mais jovens, Chouji e Lee esfregavam os olhos repetidamente, como se desconfiassem que estavam vendo miragens, e Tenten e Madoka pareciam estar a ponto de explodir em suposições e risinhos entre cochichos; em algum momento da maratona pelo festival, esses quatro deram-se conta do estado indiferente de Karin e Sasuke e deram um jeito de especulá-los em um canto afastado.

— Será agora? — Gai indagava Asuma, que já prontificava-se, deixando o pequeno Hiruzen no colo de Kurenai por um instante.

Estavam observando de esguelha como Kakashi dizia algo a Sakura, inclinando-se muito naturalmente numa proximidade que lhes fazia saltar os olhos das órbitas, quando Sakumo voltou a parar-se diante deles; mas em lugar de uma explosão irritada, captaram apenas um revirar de olhos exasperado, e o Haruno maior entregando a irmã um espetinho de frutas caramelizadas, e logo voltando para onde Anko competia numa queda de braço no posto vizinho.

— Mas que diabos? Será que ele está normal? — Asuma especula, impactado demais com a cena.

— Ah! Estão preocupados com aquilo? — Shikamaru, ouvindo a conversa deles, desvia a atenção da sua competição de pebolim com Sai, e foca na direção que os três observavam — Não se preocupem, eles estão em família agora, com direito a oficialização e tudo.

— É, Tenzou quase plantou uma sequoia na sala da Godaime, só de susto. — E Sai encontra uma forma muito inusual de debochar.

— Espera, assumido? Pensei que era só... sei lá... uma aproximação inconsciente. — Assombrada, Kurenai divaga, voltando a encarar os dois escolher máscaras numa barraca adiante.

— É, a gente viu, né? Nos últimos tempos o Kakashi parecia tratar a Sakura como trata o Gai, até se retrucavam. — Asuma pontua, enquanto Gai assentia freneticamente — Como é que virou “coisa de família”?

— Ei, Sakumo, venha cá. — Vendo o Haruno maior voltando, ainda proferindo uma série de provocações ao contrincante de Anko, Shikamaru atrai sua atenção — Conte ao pessoal o que o seu querido Hatake está distraído demais para fazer.

— Aquele descarado! — Ao instante, o semblante divertido pela vitória da namorada desmorona, e fazendo uma grande pose, Sakumo abre a boca — Veem como é amarga a vida? Num dia você tem um amigo, uma irmãzinha adorável, e tudo é paz mental. E de repente, seu amigo quer ocupar o sofá da sua casa como agregado. Eu já avisei, vou cobrar imposto por metro ocupado!

— Então...? — Mais ansiosa ainda, Kurenai averigua, temendo aquela revelação para além da obviedade.

— Está tudo bem, gente. — Deixando o drama de lado, Sakumo explica seriamente — Kakashi é responsável, Sakura é capaz e tem discernimento, e antes que fosse um problema, aquele descarado fez questão de conversar comigo e informar à Godaime. Não é escondido, não é problemático, apesar de me dar azia às vezes.

— Capitão, me ajude aqui! — O pedido impertinente e autoritário de Karin, abaixada em frente ao tanque de peixes, soa no exato instante em que Gai os fitava com lágrimas abundantes inundando o rosto, já pronunciando as primeiras palavras sobre “juventude primaveril” — Sasuke é decretado incapaz em festivais. Não conseguiu nem um mísero peixinho. É a ironia do destino!

— Por que você continua aceitando os desafios dela, se vai ficar assim? — Enquanto Kakashi escolhia tentar capturar um peixe para a garota, a lidar com Gai naquele estado, Sakura para-se ao lado do Uchiha, que já exibia uma veia saltada na testa.

— Por que quando eu ganhar, vou fazer essa maluca pagar o triplo das zombarias que faz. — Inesperadamente honesto sobre suas razões, Sasuke conta, ouvindo Karin contar aos quatro ventos como suas mãos eram inaptas para jogos — E, enquanto não aceito, ela fica me atazanando.

— Foi por isso que você não quis que te apresentasse ninguém? — No momento em que Sasuke voltava a tentar por pura birra, Tenten e Madoka abordam Sakura, observando os três debruçados sobre o tanque de peixes.

— Ah, bem... não tive muitas chances de... — Sakura não queria que parecesse que havia escondido aquilo delas por falta de confiança.

— Tudo bem, Sakura. Sabemos como é difícil expressar algo assim. Só estamos felizes por você! — Percebendo como a Haruno agitava-se, Tenten apazigua, demonstrando um apoio muito bem-vindo.

A certa altura da noite, o grupo foi se dispersando, Kurenai e Asuma com um bebê pequeno não ficaram para os fogos, Gai tinha uma missão no outro dia, portanto ele, Tenten, Lee e Chouji — quem foi escalado para o time três para cobrir a ausência temporária de Neji, enquanto o Hyuuga e Ino estavam na missão de Uzushio — despediram-se de todos, e de passo, acompanharam Madoka, que também voltaria à sua nova função na Academia — já que o time oito também estava desfalcado, com a recuperação de Kurenai e Shino estando fora — e no instante em que Tenten encerrou a noite, Shikamaru e Sai sumiram de vista; por fim, quando restava apenas o time sete por ali, e Sakumo e Anko se esgueirando por algum lugar com saquê e vinho de arroz quente, faltavam dez minutos para a meia-noite, quando os fogos marcariam oficialmente o fim do verão e o início do outono.

— Ali parece um bom lugar. — Apontando um banco de pedra de frente para o rio, numa colina um pouco mais elevada do que a praça central, Kakashi indica.

— Sim. — Sakura concorda, já virando-se para chamar os outros e não encontrando ninguém atrás deles — Ué, para onde foram?

— Karin encontrou um jogo que ainda não venceu Sasuke, e Sakumo está sendo arrastado por Anko em alguma dinâmica só deles. — Kakashi responde, franzindo o cenho para aquela estranha e quase idêntica dinâmica entre as duas duplas.

— Ahhh... acho que ninguém vai vir para esse lado, não é? — Sentando-se no banco com um suspiro, Sakura observa os arredores praticamente vazios, e com ninguém permanecendo por ali.

— Provavelmente não, ainda tem muita comida e apresentações acontecendo lá na praça. O que foi? — Intrigado, Kakashi pergunta ao vê-la retirar os getas dos pés e pisar na grama descalça.

— Fazia tempo que não usava nada assim. — Sorrindo grande, Sakura balança os pés livres ao vento, com uma leve vermelhidão entre os dedos e aos lados.

— Vou na botica... — Kakashi já levantava-se, quando ela o detém.

— Não precisa. Sabe que o chakra medicinal pode ser conduzido? Daqui a pouco estará tudo bem. — Segura, Sakura dispensa a preocupação do momento, decidindo focar no que realmente tinha curiosidade — Então, por onde mais você e o nii-chan passaram?

Durante os seguintes minutos, o ruído longínquo do festival, a brisa suave a soprar e o cricrilar dos insetos noturnos foram acompanhados pela voz mansa e tranquila de Kakashi, a relatar as distintas peculiaridades dos lugares por onde passaram — sem nunca mencionar a razão da missão, isso Sakura logo percebeu que era ponto indiscutível para ele — e os corriqueiros e implicantes resmungos ocasionais de Sakumo pelo caminho; discutiram também sobre como ela tinha estado no dia da operação, especificamente o que sentira ao deparar-se com seu primeiro sucesso, e como estava sendo entrar nesse novo desafio no hospital da vila.

— Aí, a Shizune pediu para trocar dois turnos comigo, e eu fiquei “nossa, então é assim que funciona?”. — Com um ar de riso satisfeito, Sakura contava emocionada, atropelando um pouco os fatos, mas necessitando compartilhar aquilo como lhe vinham as palavras a boca — Acho que me senti um pouco mais adulta, entende? Não sei se é assim, mas foi o que pareceu... que alguém mais experiente da mesma área confie o suficiente em mim para me pedir para assumir seu lugar por algumas horas...

— É claro que é. Por que é diferente para cada um, não existe regra, Sakura. Quando você percebe, já é. E algumas pessoas tem muita dificuldade de enfrentar isso, então não conseguem assumir a parcela que lhes cabe. — Daquele seu jeito despreocupado, Kakashi pontua, quase como se não desse importância à grandeza do que estava dizendo — Você está indo muito bem, por sinal.

Antes que Sakura pudesse emendar outro assunto dos muitos que ainda tinha por compartilhar, ou que assimilasse aquela validação tão espontânea e relevante que lhe fez o coração dar um solavanco, um estampido estrondoso ecoou e então, os céus de Konoha iluminaram-se lindamente; várias cores de diferentes tonalidades formavam padrões e desenhos, ofuscando as estrelas por uma brevidade. O rosto de Sakura ergueu-se, entretendo-se em visualizar e apreciar o espetáculo, e ao lado dela, ainda sentindo a calidez daquela mão pequena na sua, Kakashi mal conseguira desviar o olhar; os fogos eram belos e radiantes, mas havia algo na forma como Sakura estava a vê-los que lhe prendia a atenção. Ela estava ali, com os cabelos erguidos e ornamentados com kanzashis, um de pedrarias e pingentes de um rosa translúcido que Sakumo lhe dera, outro de flor de Higanbana idênticas às bordadas por todo seu yukata escuro, e os olhos — claramente enfatizados por um contorno de uma pigmentação rosácea sutil — brilhando com uma luminosidade preciosa; era um daqueles poucos momentos em sua vida em que recordava ter uma sensação tão boa e serena, com um calor crescente espalhando por seu peito e a ausência daquela pressão desesperante de que aquilo poderia desvanecer, sabia que poderia só estar ali.

— Você viu que bonito, Kakashi? — Balançando-o levemente, Sakura pede eufórica, quando a frequência dos fogos começam a diminuir — Tsunade-sama tinha dito que esse ano seria em grande escala, mas isso foi muito mais... argh... parecia uma explosão gigantesca interminável!

— Eu vi. — Segurando o riso como nunca, Kakashi confirma, embora sua concordância não tivesse relação unicamente com os fogos.

Quando o show termina definitivamente, Kakashi levanta-se e a escolta tranquilamente de volta, parando em alguma barraca ainda em funcionamento, enquanto aguardavam a multidão mais imediata dispersar-se, adquirindo uma que outra guloseima tardia; a medida que se afastavam do centro, adentrando nas áreas residenciais, suas vozes iam diminuindo o tom, tornando-se sussurros contidos para não importunar os vizinhos, embora nem de longe perdessem a alegria e o matiz de confidencialidade especialmente único. Ao alcançarem o limiar da casinha branca com cercas de madeira, uma sensação muito parecida ao embalar suave de uma rede numa tarde de primavera, quase um flutuar sem explicação, apodera-se deles; ouviam nas outras ruas, e naquela mesma, as pessoas chegando às suas casas, e ainda assim, aquela atmosfera parecia dizer que eram os únicos no mundo, desbravando e conquistado o verdadeiro sentido bucólico da vida.

— Vou organizar o treinamento de rotina da equipe para depois de amanhã, à tarde. — Detendo-se em frente ao portão, Kakashi informa, considerando o que ela tinha dito sobre as escalas do hospital.

— Certo. Vou ver se Shizune me consegue uma cópia das escalas do mês, assim não comprometo nenhum dos lados. — Rapidamente captando o teor daquele aviso, Sakura adapta-se.

— Não precisa ficar apreensiva. Nessa época do ano, as missões de equipes passam a ser mais internas, você sabe. Só precisamos estar prontos. Não é exatamente um problema. — E Kakashi intuitivamente intervém na sobrecarga que poderia surgir daquilo.

— Bem. Muito bem. — Visivelmente mais aliviada, Sakura concorda, passando para o lado de dentro da cerca — Boa noite, Kakashi.

— Boa noite, Sakura. — E novamente, aquele tom despreocupado e quase arrastado volta a surgir.

Quando vira-se depois de vê-la caminhando em direção a porta de casa, Kakashi começa a considerar por onde iria começar a organizar seus pertences em casa, quais dos seus equipamentos precisariam de manutenção, e o que estava irremediavelmente perdido; iniciava um assovio sem sentindo, nos seus primeiros dez passos rumo ao próprio apartamento, imaginando que mais uma plantinha de suas tentativas de ter verde em casa tenha sucumbido, quando escuta um pisar apressado e algo impaciente, e logo sente-se ser abraçado.

— Eu... obrigada... por ter voltado, Kakashi... — Sakura não sabia que o que estava dizendo transmitia muito além do que pretendia, sua intenção era apenas expressar o que sentia, verdadeiramente — Fiquei pensando a noite toda quando dizer... como fazer... e não sabia... só queria...

— Ei, tudo bem, Sakura. — Virando-se de volta sem desfazer o abraço, Kakashi lhe devolve o gesto antes de processar o que fazia — Obrigado, por ter esperado.

Entretanto, quando a calidez inesperada espalha-se suavemente em sua testa e demora-se ali, uma nova compreensão do que sentia apodera-se dela, não a idealização de realidades perfeitas inexistentes, não os bonitos momentos calculados e projetados para gerar expectativas; era apenas a pura necessidade de expressar e ser correspondida naquilo que era, e essencialmente, mais significativo do que qualquer concepção. Talvez por isso não tenha sentido nervosismo, quando afastou-se apenas o suficiente para fitá-lo, e suas mãos sequer tremeram quando acomodaram-se no rosto de Kakashi; externamente, ouvia um zunido distante que parecia um sinalizador irritante, percebia ter se erguido na ponta dos pés e uma expressão assustada cruzar o semblante dele quando puxou o tecido daquela máscara para baixo, enquanto o próprio coração retumbava a um ritmo alucinante, e ainda assim, não deteve-se por nenhum segundo.

Então, o contato ínfimo tomou a proporção de ação, o roçar suave que mal chegava a delatar contato assentou-se tranquilamente, antes que as mentes pudessem decifrar aquela fração de segundos, e foi quando a percepção instaurou-se; Kakashi por fim compreendeu o que Sakura desejava transmitir, e firmou os braços ao redor dela, aceitando-a. Estava surpreso, sim, mas deixou de pensar com coerência naquele instante, tudo que passou a importar-lhe era a docilidade daquele toque, pequeno e singelo, de uma candura inexplicável que lhe aquecia de um modo que nenhum outro momento emocional fizera; tinha plena consciência das implicações, contudo, quis apenas estar mais um pouco ali, então a trouxe mais para perto, envolvendo-a com cuidado, retribuindo a mesma intenção e afeição.

— Eu... não esperava... — Sem saber em quantos níveis aquela frase entrecortada traduzia suas emoções, Kakashi murmura.

— Sou insolente, lembra...? — Numa provocação mal organizada, Sakura devolve, ainda de olhos fechados.

— É, absolutamente. — E desta vez, após uma réplica divertida e indignada, é ele quem toma a frente.

E o tempo deteve-se então, como se uma magia estranha tivesse sido lançada sobre os dois, não pelo extraordinário, mas pela leveza do significado e poder estar sem reservas entregues ao instante, quase infinito; não foi urgente, explosivo, ou consumidor, e mesmo assim, vibrava e irradiava.

— Agora sim, é um boa noite, Sakura. — Com um efêmero toque de lábios novamente no topo de sua cabeça, Kakashi delimita.

— É, um muito boa noite. — E Sakura brinca, erguendo-se e lhe devolvendo o gesto no rosto, antes de afastar-se e despedir-se — Até!

Kakashi a viu voltar pelo caminho de pedra e entrar pela porta que deixara entreaberta, sorrindo e ruborizada visivelmente, viu as luzes acendendo-se no interior da casa, e ainda assim, não conseguiu mover um pé sequer dali; ainda estava preso naquele loop, quando uma canção desafinada numa voz reconhecida lhe faz colocar sua atenção na esquina, para identificar com certeza a forma daquela figura alta que parecia cambalear até ali relaxadamente.

— Ei, meu querido amigo. Cunhado do meu coração! — Sakumo quase pula sobre ele, agarrando-lhe pelo pescoço com um braço — Esqueceu alguma coisa aqui em casa?

— Não. Só acabei de deixar Sakura. — Kakashi responde, disfarçando heroicamente que ainda erguia sua máscara, mas então, explica demais — Estava esperando ela trancar a porta.

— Sei... — Sakumo murmura, estreitando os olhos, como se o fusível ANBU nele entrasse em ignição, seguindo o olhar ainda perdido de Kakashi, focado na pequena janela lateral que iluminou-se instantes antes — ... Descarado sem vergonha...

— Sua imaginação que é sem vergonha, Sakumo! — Kakashi protesta de pronto, desvencilhando-se dele e girando para ir embora, ainda tentando preservar o sigilo do momento precioso.

— Haham, e eu sou o Rikudou. Aliás, diz isso pro batom na sua boca. — E finalmente, Sakumo desestabiliza Kakashi a ponto de fazê-lo errar o compasso de sua retirada.

Rindo e assoviando, completamente satisfeito por ter visto o amigo afastando-se aos trancos e barrancos, o Haruno maior entra em casa, encontrando apenas a luz do corredor acesa, como costumavam manter; subindo as escadas, capta o som de risos nervosamente abafados, e aproximando-se sorrateiramente, consegue ver através da porta entreaberta, Sakura atirada na cama, balançando as pernas no ar, abraçando o pobre Akamaru como se fosse uma pelúcia, e o rosto oculto numa almofada.

— Que alegria, moleca. — Num tom igualmente alegre, Sakumo fala tocando levemente a porta, denunciando sua chegada.

— Nii-chan! — Erguendo o rosto radiante, Sakura foca nele, com um enorme sorriso predominando seu rosto — Viu como o festival estava bonito? Anko-san gostou do seu yukata? Escolhi esse azul especialmente para te deixar garboso para ela!

— Sim, sim, muito casamenteira, moleca. — Sakumo responde condescendente, e então muda o tom para a implicância — Mas, Sakura, é melhor lembrar de estar no sofá, quando for dar uma de beijoqueira com seu namorado.

— Nii-chan! Eu não... não foi assim... — Vermelha como tomates maduros, Sakura se embola e justifica além da conta.

— Sakura... — Inesperadamente sério, Sakumo a chama, fazendo-a fechar os olhos com força, esperando uma reprimenda — Você está feliz? Quero dizer feliz, não entusiasmada.

— Sim, nii-chan... imensamente... — E com aquela mesma expressão que dominara suas feições quando o conheceu, parecendo um pequeno esquilo regordete, Sakura afirma com voz embargada.

— Ótimo. Então vai dormir, garota, amanhã todo mundo trabalha nessa casa! — Num eufemismo surgido do nada, Sakumo decreta e fecha definitivamente a porta dela.

***

O vento passando pela entrada da caverna produzia um uivo constante, era um som agourento e triste, e complementava muito bem aquele local desolado e desprovido de cores e vida; quando um eco cresceu do interior, arrastado, doentio, um sopro sibilante que indicava o fim do silêncio, espantando os pequenos pássaros que estiveram aninhados em suas mãos, ele voltou a entrar pelo escuro e úmido caminho, os enormes ombros caindo ao antecipar o suplício interminável, até o próximo momento de silêncio.

Notas finais
Galerinha, esqueci de acrescentar os embalos de sábado a noite kkkkk Quem quiser entrar no clima do finalzinho do cap, tem até música tema, olha a evolução. Era o que esta senhora que vos fala esteve ouvindo quando escrevia. Me digam se querem mais assim, e não liguem para a velharia, vejam a letra. https://youtu.be/h9uXbi6-uuA
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.