O Sol e A Lua

31 O Primeiro Ataque.


Notas iniciais
Olá pessoas, espero que todos estejam bem! Gostaria de dar alguns avisos a quem acompanha a fic, a partir desse ponto, poucos eventos vão manter-se como no anime, nem manterão a mesma cronologia. Espero que gostem e desfrutem do capítulo, em breve, estarei postando o seguinte.

— Mais uma vez. — Firme, Hinata incentiva sua aluna sem dar-lhe trégua.

Diante de seu comando, Sakura volta a entrar em posição de luta, os punhos fechados infundidos em Chakra concentrado, os olhos faiscando com ardente chama; o suor escorria por suas costas, seu rosto e todo seu corpo, empapando suas roupas e fazendo até mesmo seus pés resvalarem nos calçados. Os pulmões doíam absurdamente para respirar e a bile ardente subia e descia por sua garganta, e não havia um músculo sequer em seu corpo que não estivesse protestando em agonia; contudo, ela não pretendia render-se, seguiria erguendo-se, para cada vez que fosse desarmada e derrubada, teria que erguer-se duas vezes mais.

O sol escaldante do fim de verão castigava as duas garotas, e nem mesmo a ventania constante do dia, parecia capaz de aplacar o mormaço, cigarras cantavam uma canção estridente, misturando-se aos sons de batalhas por toda clareira; era um domingo ensolarado sem nenhuma nuvem no céu, na Vila, as pessoas descansavam e apreciavam o bonito dia, mas ali, ninguém se dava o luxo. Eram as vésperas do último dia de batalhas, o dia em que poriam a prova seus esforços para chegar às suas metas, quando saberiam se seriam suficientes; existia no ar uma atmosfera de perigosa antecipação, um ansioso temor, que dizia-lhes para não parar. Ao final de mais um dos muitos embates, Hinata e Sakura detiveram os duelos, a Hyuuga não queria que sua aluna acabasse frustrada com os resultados desalentadores; mas diferente do que imaginara, Sakura não estava desanimada por não conseguir vencê-la, parecia mais bem admirada com relação a isso.

— Agora, venha treinar seu Ninjutsu Médico. — Após permitir que a Haruno recuperasse o fôlego, Hinata volta a ordenar-lhe.

— Certo. — A garota responde.

Já sabia o que fazer, e agora estava mais habituada àqueles métodos incomuns, por isso, antes que Hinata ordene, concentra-se o máximo possível e trata de encontrar algum ser vivo que pudesse capturar; quando fizera aquilo pela primeira vez, Sakura vomitara por dias, comer carne fora impossível e apenas a ideia de tentar novamente aterrorizava-a. Contrariamente ao que se esperaria numa situação assim, Hinata não fora compreensiva e tampouco dissera-lhe para continuar aquela etapa em outro momento, a Hyuuga instigara Sakura todos os dias a refazer o mesmo processo, até que ela estivesse tranquila a respeito; e a cada vez que Sakura falhava, dizia-lhe que era sua responsabilidade. Logicamente, Hinata tinha um coração bondoso, por isso, tratava todos os animais depois que Sakura ia embora, mas isso ela só contaria a sua discípula mais adiante; agora as mãos da garota já não tremiam ao segurar a kunai.

— Desculpe, você logo ficará bem. — Sakura murmura ao pequeno esquilo debatendo-se em suas mãos, então apunhala-o rapidamente.

O esquilo morre rapidamente, graças à que Hinata dissera-lhe para ser precisa e assim não causar mais dor do que já estava fazendo ao animal, como Sakura supusera que havia feito aos outros que não conseguira matar de primeira; então ela coloca o cadáver sob um pergaminho com muitas runas escritas, bem no centro, e passa a invocar seu chakra até suas mãos, concentrando-se para que pudesse curá-lo. Como antes, demora incontáveis horas, era difícil fazê-lo ali, com todo aquele barulho de conversas e das outras batalhas do pessoal que ainda treinava; mas como fora ensinada, numa missão real, ou numa guerra, não havia uma sala tranquila com livros textos para consultar a qualquer momento, às vezes não haveria equipamento adequado e muito menos um ambiente salubre. Então, quando já considerava aquele mais um fracasso, o esquilo mexera sua cola, logo seu nariz passara a farejar o ar, e o peito do animalzinho subia e descia com sua respiração; naquele dia, fora capaz de levar a prática até o fim com êxito, e sentira-se extremamente aliviada, tanto que derramara lágrimas ali mesmo, tamanha era a tenção que abandonara seu corpo.


— Foi um bom progresso, Sakura. — Hinata a elogia, sincera.

Desde que iniciaram aquele treinamento, houve vezes em que Sakura não pudera nem abater o animal que sanaria, houve vezes em que Hinata tivera que intervir e concluir a prática por ela, ou o bicho realmente permaneceria morto, mas naquele dia, Sakura conseguira realizar o processo de início ao fim sem falhas; era a razão para que Hinata não a pressionasse mais naquele dia, agora era momento de permitir que ela saboreasse aquela vitória, essa seria sua motivação de agora em diante. As duas garotas sentaram-se então no vasto gramado do descampado que havia atrás da cabana, uma agarrando seus joelhos, onde escondia o rosto enquanto lutava por recompor suas atribuladas emoções, a outra assistia tranquilamente à desenvoltura dos demais em silêncio; parecia que a clareira onde crescera havia se transformado em um campo de treinamento, além de um local de encontro para todos.

Em seu antigo balanço embaixo da cerejeira, Konohamaru e Hanabi brincavam alheios aos seus arredores, mais afastados deles Neji e Lee treinavam Taijutsu, Tenten e Ino liam alguns pergaminhos com respeito a suas respectivas técnicas, Shikamaru e Sai discutiam algo junto a Kakashi, Sakumo, Asuma e Itachi, enquanto Chouji, Madoka e Shino revisavam seus equipamentos; no primeiro dia em que estes últimos dois juntaram-se ao grupo de treinamento, fora um pouco complicado explicar a situação aos dois companheiros de Sai, do que por que todos pareciam muito tranquilos e indiferentes a presença de um Nukenin procurado, mas graças a racionalidade, e a que Shino e Madoka já desconfiavam que fazia seu companheiro de equipe, assim como a verdadeira situação de Konoha, resolveram calar-se e sequer pareciam incômodos à presença do Uchiha.

Mais afastados de todos, até mesmo por segurança, Naruto treinava com Jiraya, e os sons de sua luta eram impressionantes, bem como o estrago que iam causando a sua volta, mas acima de tudo, aos olhos de Hinata os dois pareciam estar se divertindo; existia uma sincronia entre eles, como se um lesse os pensamentos do outro e deduzisse qual seria seu próximo ataque, e assim os dois permaneceram naquele impasse por muitas horas, gastando energia e para o Uzumaki, aprendendo coisas novas.

— O que há com ela? — A voz de mais alguém chega aos seus ouvidos.

— Foi uma grande vitória, só isso. — Hinata conta, desviando seus olhos das lutas, para sorrir aos seus convidados.

Quase chegando ao seu lado, Temari vinha junto a Gaara e Kankuro, atrás deles Hizashi e Natsume a quem Hinata não via fazia muitos meses, também Shikaku e Inoichi compunham o grupo dos recém-chegados; o pai de Ino passara a frequentar sua casa há pouco, devido ao trabalho que vinha desenvolvendo com a garota que salvaram na Floresta da Morte durante o exame, a princípio ele estivera retraído e sem jeito de estar ali, mas graças a desinibição da filha que agia como em casa, Inoichi rapidamente integrara-se ao grupo.

— Yumi está com Kurenai? — Shikaku pergunta a Hinata, quando não vê a esposa por perto.

— Sim, elas me expulsaram da cozinha, como vai tia Natsume? — Hinata responde, agora que a via de perto, podia notar como estava cansada.

— Gostaria que o verão terminasse logo. — Natsume responde, acariciando seu avantajado ventre.

Fora uma tremenda surpresa quando Hizashi chegara ali meses atrás, afoito e preocupadíssimo, contando que sua esposa estava grávida, e desde então Natsume deixara de participar dos almoços de domingo, e Hinata passara a visitá-la constantemente junto a Naruto, verificando seu estado; ela e Hizashi não pensaram que poderiam conceber a esta altura da vida, e como a gravidez e o parto de seu primeiro filho tivera muitas complicações, as atenções com essa gestação foram redobradas.

— Você está indo muito bem tia, logo terá essa linda criaturinha nos braços. — Hinata alenta-a, pelo que via, o corpo de Natsume já começava a iniciar o trabalho de parto.

— Te ouvir sempre me deixa mais confiante, obrigada Hinata. — Natsume agradece emocionada, sempre se sentia tranquila e suas preocupações iam embora, perto de Hinata.

— E os outros senseis? — Quando não vê mais ninguém aproximando-se, Hinata pergunta.

— Ibiki virá mais tarde, parece que tem novidades, Gai e Ebsu estão junto ao Hokage, não sei se conseguirão vir, e Anko foi patrulhar a Floresta da Morte. — Shikaku informa, o ideal seria que todos pudessem reunir-se àquela tarde, mas tudo ultimamente estava ocorrendo imprevisivelmente — Esperaremos a que possam chegar?

— Sim, ainda está cedo, e duvido muito que os dois terminem tão logo. — Sinalando Naruto e Jiraya ao longe, Hinata afirma.

Quando os olhos dos recém chegados voltam-se para a direção apontada pela Hyuuga, surpreendem-se ao ver os dois, e mesmo daquela distância, a energia e pressão de sua batalha os fez arrepiar-se; inclusive para os três homens mais velhos, aquela era a primeira vez que viam, ou tentavam acompanhar, o que era a força de um Sannin, e como os mais jovens, eles estiveram impressionantemente admirados. Jiraya e Naruto moviam-se como se fossem vultos, não sendo possível para a grande maioria acompanhá-los nesse ponto da luta, apenas Hinata, Neji, Hizashi, Kakashi e Itachi conseguiam tal feito; e a diferença da garota, os demais não podiam acreditar, nem mesmo com seus olhos especiais.

A precisão de cada golpe, a intensidade de cada ataque era absurda, e mais absurdo ainda, fora perceber que eles estavam anulando-se a cada tentativa; o Fuuton de Naruto fazia as grandes árvores cercando-os, estalar e ranger em meio a avassaladora ventania, como se já fossem desabar ao chão. Enquanto isso, o Suiton de Jiraya ia varrendo e arrastando tudo que estivesse em seu caminho; dentro da barreira que eles fizeram para poder estar tranquilos de não acabar atingindo ninguém, era como se um enorme e terrível desastre da natureza estivesse ocorrendo. E, com grande assombro, os presentes assistiam ao jovem Uzumaki fazer frente a uma das grandes lendas do mundo ninja, com uma maestria que muitos não possuíam em anos de vida; obviamente, intuíram que Jiraya não o estava atacando com todo seu poder, e ainda assim, era visível e assertivo que eles não conseguiriam acompanhar ou mesmo suportar seus ataques.

Sakura, depois de tranquilizar-se, conseguira erguer os olhos e via como todos comentavam abismados a batalha dentro da barreira, permanecera em silêncio ouvindo-os atentamente; havia descoberto recentemente que, ouvir minuciosamente as pessoas à sua volta, também era uma forma de adquirir conhecimento, e então, por vezes ela ficava quieta ouvindo os demais conversarem, absorvendo e memorizando tudo que diziam. Esse seu novo hábito lhe estava rendendo bons aprendizados, e não somente como Kunoichi, também como pessoa, como garota; agora, ela mais ouvia do que falava, e por isso, fora capaz de se integrar e interagir com todos, como se sempre pertencera àquele lugar. Desta forma, ela adquirira a coragem e a sensibilidade, para desculpar-se sinceramente com cada um de seus ex-colegas a quem havia importunado nos últimos anos; sua atitude impressionara e comovera-os, já a haviam aceitado sem ressentimentos ali e não esperavam escutá-la pedir por seu perdão, como as duas pessoas que os mantinham unidos como uma grande família, seus amigos não remoíam coisas passadas, nem guardavam mágoas. Em verdade, para aqueles jovens corajosos, mais que um pedido de desculpas, demonstrar arrependimento e mudar, era o que realmente provava o valor de alguém, e isso a Haruno havia provado; ela, mais que qualquer um, sofrera as consequências de suas escolhas e a dolorosa desilusão a fizera crescer e madurar, e esse fato era o que bastava para que fosse acolhida, aceita e incluída sem reservas.

— Você estava chorando? — Ao lado dela, Gaara estivera em silêncio também, pergunta.

Ele, depois que passaram a frequentar e conviver com seus novos amigos, havia desenvolvido o hábito de questionar toda e qualquer coisa, era sua forma de aprender tudo que não pudera durante sua vida; nas primeiras vezes, Kankuro e Temari temeram que seu irmão pusesse as pessoas incomodas, ou que terminasse ofendendo alguém, mas quando todos ali empenharam-se em responder suas inúmeras perguntas — e às vezes vergonhosas também — e explicar-lhe solicitamente tudo, terminaram por acalmar-se. Os Sabaku’s não poderiam deduzir que, naquele lugar tão bonito, o estranho grupo de pessoas malucas — como Temari os chamava — já passaram pela mesma situação mais vezes do que gostariam; Sai, Naruto e Hinata, e até mesmo, Konohamaru e Hanabi estiveram percorrendo aquele mesmo caminho de incertezas, descobertas e mudanças, e por isso mesmo, empatizavam e compreendiam Gaara.

— Sim, estava. — Virando-se para olhá-lo, Sakura responde.

Como os demais, ela também o respondia sinceramente, mesmo envergonhando-se com as perguntas do rapaz, como agora.

— Por quê? — Curioso, Gaara tocava-lhe o rosto, enxugando algumas lágrimas que permaneceram em suas bochechas.

O tocar fora outra descoberta agradável que fizera, desde aquele dia em que Hinata abraçara-o cheia de alívio e gentileza, Gaara descobrira que amava tocar e sentir a calidez das pessoas; os limites, ele ainda não havia aprendido, e, portanto, em ocasiões, atuava de maneira imprevisível.

— Foi por alívio… — Vermelhíssima e de olhos arregalados, Sakura explica — Consegui fazer o que me propus e isso me encheu de alegria.

— Então, também se chora por alegria? — Aproximando-se mais da garota, Gaara analisava seus olhos de perto, tocando-lhe as pálpebras e a linha d’água — Dói? Estão vermelhos e inchados.

— Mais devagar, garoto. — No instante seguinte, Sakumo se interpôs entre eles.

Estivera o tempo todo atento a sua irmã, e quase desmaiara quando viu o Sabaku tão perto.

— Está tudo bem, nii-chan. — Saindo detrás de seu irmão, Sakura o tranquiliza — Não dói, mas quando choramos durante muito tempo, os olhos ardem um pouco.

Ainda que estivesse morrendo de vergonha pela repentina proximidade dele, e por que a atitude protetiva do irmão acabara atraindo a atenção dos outros para os três, a Haruno lhe deu uma resposta adequada às suas dúvidas; percebendo tardiamente o que o irmão fizera, Temari decide conscientizar Gaara.

— Gaara, você não pode se aproximar tanto e nem tocar sem permissão, nenhuma garota. — Ela lhe fala, afastando-o um pouco dos dois Haruno’s.

— Por que não? — Obviamente que outra dúvida surgiria disso.

— Porque as garotas são delicadas, você sempre deve tratá-las com gentileza e respeito, e se as tocar sem cuidado, pode magoá-las ou feri-las. — Aproximando-se tranquilo de onde estavam todos, Naruto é quem o responde — Você deve ter uma relação de grande intimidade e afinidade com alguém, para então poder ultrapassar os limites de espaço pessoal, compreende, Gaara?

Quando o Uzumaki lhe explica, Gaara assente e olha para a Haruno e seu irmão.

— Desculpe. — Gaara pede, mas então outra questão surge — Então, ainda não posso abraçar?

Gaara entendera que ele não possuía afinidade suficiente para dar abraços, já que passara a conviver com todos muito recentemente, e temeu que não pudesse fazê-lo nunca.

— Claro que pode. — Sorrindo-lhe, Naruto continua ensinando-lhe — Mas Gaara, nós que somos homens, devemos tomar um pouco mais de cuidado com as garotas, isso se chama cavalheirismo, entendido?

— Sim. — Aliviado por finalmente compreender a diferença, Gaara responde.

Gaara fora criado somente para tornar-se uma máquina de guerra, especializada apenas em matar e seguir ordens, nunca tivera seu emocional trabalhado e desenvolvido, e todas suas experiências estavam limitadas à sua relação familiar, que lhe dera uma base de como relacionar-se socialmente; porém, esse período fora tão curto que nada mais profundo fora agregado ao seu desenvolvimento como pessoa, Gaara entendia que possuía uma relação sólida com seus irmãos por serem seus irmãos, e tinha uma vaga ideia do que era o amor, mas essas memórias estavam tão distantes e borrosas em sua mente, que ele mal podia recordar o sentir. Sobre dor, solidão, medo, desespero, e mais uma infinidade de sentimentos ruins, Gaara carregava uma imensa carga; contudo, conceitos como felicidade, esperança e alegria, sempre foram muito vagos e muitas vezes, acreditara que tais emoções não existiam, e agora apenas começava a aprender e senti-los.

Depois que a situação fora resolvida sem maiores acontecimentos, Naruto e Jiraya sentaram-se junto aos demais, conversando, rindo, sendo por aquelas breves horas, um rapaz normal, sem as preocupações e responsabilidades que carregava em seus ombros; Naruto estava relaxado como nunca, mesmo as vésperas daquele dia tão aguardado, e, ao mesmo tempo, tão temido. Enquanto estivera duelando com seu padrinho, sentira e pudera ver os resultados de todo seu trabalho duro, e pela primeira vez desde que se tornou um Shinobi, sentira-se capaz e preparado para o que seu futuro lhe reservasse; Hinata, sentada na grama à sua frente, sentia essa energia acolhedora e tranquilizante vindo dele, enquanto era envolvida por seus braços. Podia sentir o coração de Naruto batendo ritmado sob sua camisa, e aquele leve pulsar sereno lhe devolvia à segurança, como no princípio de suas vidas; vendo-o sorrir e brincar com todos, Hinata manteve-se quieta, apreciando e guardando aquele precioso momento junto às suas outras recordações inestimáveis.

Quando seus olhos perolados passaram-se pelos rostos de todas àquelas pessoas reunidas ali, todas tão queridas e insubstituíveis para ambos, encontrou-se com um par de olhos muito negros e marejados, expressando sem palavras o mais genuíno amor; Jiraya olhava-os a ambos, e certamente recordava algo que lhe trazia belas recordações, e também, um pesar imensurável. Ao perceber que a Hyuuga o fitava de volta, e que compreendera as distintas emoções que sentia, Jiraya sorriu com o coração palpitante e encolhido; estivera recordando como Minato agia exatamente igual com Kushina, abraçando-a e mantendo-a sempre ao alcance de suas mãos, não importando o momento ou o lugar, expressando seu afeto abertamente. Naruto era idêntico ao pai, e havia encontrado alguém que o completava exatamente como sua mãe completara Minato; para Jiraya, vê-los juntos, foi como se estivesse vendo Minato e Kushina bem diante dele, e alegrara-se tanto, como também sentira saudades.

— O que você vai fazer quando ela tiver um namorado? — Prestando atenção em como Shikamaru ensinava Sakura a jogar Shogi, Kakashi indaga Sakumo.

— Farei o bastardo pensar mil vezes, antes de lhe pôr as mãos encima. — Rangendo os dentes, Sakumo responde azedo, logo preocupando-se — Por quê? Você sabe de alguma coisa?

— Não, relaxa, pelo que tenho visto, ela nem está considerando isso ainda. — Imediatamente o Hatake o tranquiliza — Mas você não deveria atuar dessa forma, principalmente em frente de outras pessoas, vai fazê-la sentir vergonha e acabar irritada.

— Se não há nada, por que está me dizendo isso, Kakashi? — Estreitando-lhe os olhos, Sakumo exige.

Sentiu como se Kakashi lhe estivesse ocultando algo, talvez estivesse alertando-o sobre um relacionamento oculto da irmã, ou estivesse protegendo o maldito que colocou os olhos em Sakura, talvez o merdinha Inuzuka? Faria sentido, era seu aluno afinal, protegê-lo era uma das funções de Kakashi.

— Neji agia igual, sempre muito ciumento e protetor com Hinata, por diversas vezes ela se irritou com o irmão, e da última vez, logo depois do início do namoro deles, Hinata lhe deu uma lição. — Kakashi conta — E se você não quer que ela comece a pensar em rapazes e namoricos, não faça alarde de coisas bobas, mude a atenção dela para outros assuntos, continue assim, e logo ela te apresentará alguém.

— Você acha que Sakura… — Sakumo não queria nem dizer o restante do seu pensamento.

— Ela é uma adolescente, não? Nessa idade, quanto mais você se opor, mais curiosidade eles sentem. — Kakashi fala ao pálido Sakumo, e agradeceu usar sempre aquela máscara, ou seu sorriso zombeteiro ficaria visível — Ao menos comigo foi assim, então, por favor, não faça nada que venha a dificultar meu trabalho, nii-chan.

Escutar a chacota do Hatake, fizera o estomago de Sakumo revirar-se e então ele passara a prescrutar ferozmente o rosto dos jovens rapazes presentes, buscando sinais, indícios, daqueles que poderiam vir a chamá-lo assim no futuro; infelizmente para o Haruno maior, sua mente tumultuada pelo temor e ciúme, não pudera deduzir na direção correta.

Para a hora do almoço, Hiruzen, Ebsu, Gai, Ibiki e Anko já haviam chegado, e com a adição dos irmãos Sabaku’s, Inoichi, Jiraya, e Shino e Madoka, o domingo na clareira mais uma vez transcorrera como nos velhos tempos; todos os seus senseis estavam presentes, seus amigos, suas famílias, e seu amado vovô. Parecia, para Naruto e Hinata, que naquele dia ensolarado, com um céu lindamente azul e sem nuvens, que os tempos difíceis jamais ocorreram ou ocorrerão; no entanto, o tempo, impiedoso e faminto, que sempre devora existências, seguiu passando e aproximando-se do final daquela hora encantada.

— Então, o que descobriu, para chegar mais atrasado que eu, Ibiki? — Anko indaga, assim que o grupo volta a sentar-se à sombra dos salgueiros.

— A garota, aquela cheia de… — Ibiki ia dizer mordidas, mas detém-se ao ver a dupla tampando os ouvidos das crianças presentes — Bem, descobri quem ela é, e vocês vão cair pra trás.

— Então conta logo, oras! — Impacientando-se, Anko revira os olhos.

— Ela é uma Uzumaki, Naruto. — O Morino conta, dirigindo-se primeiro ao rapaz, pois sabia como aquilo poderia perturbá-lo — Depois de estudar o chakra dela por dias, e constatar a grande quantidade, e ver as características físicas, decidi procurar os registros sobre os descendentes do clã que se espalharam pelo mundo, depois de Uzushio.

Ibiki permanece em silêncio, deixando que todos absorvam e compreendam as informações, todo o assunto que envolvia Uzushiogakure agora, era tratado com extrema delicadeza e cuidado, depois da recente descoberta que Naruto fizera sobre os responsáveis pelo extermínio de seu clã; podia notar como Neji e Hizashi estavam incômodos e desviavam os olhos cheios de culpa do Uzumaki, assim como o Hokage suspirava um desalento. As únicas pessoas que permaneceram calmas e imutáveis diante daquilo, foram Hanabi e Konohamaru — estes por serem crianças alheias aos assuntos de Konoha — e Hinata, por neste momento, ter a absoluta certeza que esse assunto não abalaria nem deterioraria sua relação com Naruto; quando o Uzumaki expressara suas suspeitas e começara a investigar o assunto, a Hyuuga inquietara-se por seu futuro, por eles. Mas, mesmo temendo que a depender do que descobririam, Naruto poderia não a olhar mais da mesma forma doce e amorosa, Hinata fez o que era certo e o incentivara a expor tudo; naquela noite, quando o Uzumaki removera o selo amaldiçoado de seu tio e primo, ela chorara escondida no banheiro, tentando ocultar dele seus medos. Contrariamente as suposições descabidas, o rapaz dera-se conta imediatamente de que algo a perturbava, e perplexo ao escutar seus pensamentos, Naruto lhe fizera outra belíssima declaração, cheia de sentimentos e promessas, e com um carinho jamais visto, pusera em seu delgado pescoço, um mimoso colar com o símbolo de seu clã; o colar pertencera à sua mãe, e chegara as mãos dele através de Jiraya, que o tinha guardado todos aqueles anos, Naruto ia dá-lo a Hinata depois que os dias turbulentos acabassem, mas decidira fazê-lo aquela noite, para exterminar com suas dúvidas e medos.

— Ela já acordou? Tem sinais de recuperação? — Mais despreocupado do que o esperado, Naruto pede.

— Não, ainda não. — Rapidamente recomposto, Ibiki responde.

— Bem, cuidaremos para que possa recuperar-se e estar segura. — Sabendo que isso era o que poderia fazer pela garota, Naruto não toca mais no assunto.

Odiava ver como seus amigos e o vovô estavam pisando em ovos com ele, cheios de dedos e coibidos, ainda mais, por algo que esteve e está completamente fora de suas responsabilidades; fora exatamente por isso, que pedira que a punição dos conselheiros Hyuuga’s fosse cumprida em silêncio, sem fazer qualquer anúncio a ninguém além de Koji, pois sabia que aquele tema mancharia a reputação de Konoha, e certamente, terminaria atingido os Hyuuga’s por quem tinha grande apreço, e sua amada Hinata. Naruto agira motivado por um senso de justiça aos seus antepassados, à tantas pessoas inocentes que tiveram suas vidas destruídas e interrompidas pela tragédia; mas tampouco permitiria que o passado incorrigível, viesse desmantelar o presente e muito menos, acabar com o precioso futuro.

Logo disso, depois de mandar as crianças para dentro fazer suas lições, o grupo passa a discutir e revisar o que fariam e como cada um procederia no dia seguinte, e exauriram-se pensando e considerando tudo que poderia dar errado e sair de controle, supondo e antecipando os mais diversos e prováveis — os improváveis também — cenários e desfechos para cada uma de suas ações; e somente após nenhum deles titubear para respondê-lo, foi que o Uzumaki dera-se por satisfeito. Esgotados mentalmente, mas muito contentes, eles foram despedindo-se da dupla, os Genins, combinando um horário para encontrar-se no dia seguinte, para irem juntos ao estádio, os senseis e os demais adultos, desejando-lhes boa sorte a cada um; Itachi também decidira que não ficaria ali aquela noite, desejando ver sua pessoa especial, despedira-se dos pupilos, e quando Jiraya voltou a Vila acompanhando o Hokage, e Kurenai e Asuma levaram Konohamaru e Hanabi com eles, a cabana ficara muito silenciosa.

— Nossa, é tão estranho não ter os dois correndo pela casa. — Alcançando uma xícara de matcha a Hinata, Naruto senta-se ao seu lado no sofá da sala.

— Já com a síndrome do ninho vazio? — Rindo do seu comentário, Hinata brinca.

— Talvez, mas também gosto do silêncio de quando estamos sós. — Travesso, Naruto lhe retruca, fazendo-a corar — Assim não divido a tua atenção com ninguém.

Nervosa, Hinata empertiga seus pequenos ombros, empina seu nariz e crispa os lábios, numa tentativa falha de parecer indiferente; seu coração latejava nas orelhas e ela sabia que devia estar muito vermelha, e essa borbulhante agitação que sentia a cada vez que Naruto agia assim, aumenta consideravelmente, quando vê o enorme sorriso espalhar-se pelo rosto dele; aquele sorriso brilhante que fazia seu coração encolher e expandir-se, dizendo-lhe que pertencia a ele, que fazia sua alma jubilar-se, e sempre seria assim.

Escorando a cabeça nos ombros de Naruto, Hinata não lhe devolve a provocação, suas emoções estavam atribuladas demais, para conseguir responder-lhe algo, em lugar disso, a garota decidira apenas desfrutar do momento; não sabiam quando poderiam ter aquela paz novamente, então, cada segundo de calidez era valiosíssimo.

— Você já sabe quando iremos? — Sua pergunta quebra o silêncio.

— Na próxima primavera. — Naruto conta — Poderemos organizar tudo com muita calma.

— Vai ser difícil separar os dois, vou ter que começar a plantear a ideia depois dos exames. — Não queria causar outro choque emocional em Hanabi — Talvez ela fique um pouco malcriada durante algum tempo.

— Tudo bem, com paciência, as coisas vão se acomodar. — Confiante, Naruto alisa os cabelos dela, fazendo um demorado carinho — Não sei quanto tempo vai levar, então estou considerando que teremos que vir aqui algumas vezes, tanto por trabalho, como pelo Kono, eu não me perdoaria e sei que ele também não, de estar longe assim.

— Os outros vão ficar muito surpresos, talvez até bravos, mas não quero falar a ninguém, ao menos até que estejamos indo. — Hinata afirma, sentindo um ardor na garganta — Só de imaginar uma despedida, já sinto vontade de chorar.

Sem dizer-lhe nada, Naruto somente beija-lhe o rosto e aperta mais os braços em volta dela, consolando-a e consolando-se também, já antecipava quão penoso seria, ainda mais quando considerava a larga distância, as condições de tempo e os lugares onde se instalariam, tudo isso, trazendo a tira colo uma criança pequena; porém, apesar de todas as complicadas decisões que teria de tomar, e todos os obstáculos que se poriam em seu caminho, o Uzumaki sentia que tinha que ir, algo lhe dizia para não adiar mais.

— Vai ficar tudo bem, Hina, vou fazer ficar tudo bem! — Não querendo vê-la triste, ele promete.

— Nós vamos, Naruto! — A resposta firme dela, faz Naruto sentir-se menos culpado por sua escolha.

Sentindo uma grande necessidade da coragem de Hinata, e da serenidade tão típica dela, Naruto ergue seu rosto com delicadeza, e suave e demoradamente, beija-lhe os lábios; nada em sua vida seria tão absoluto, quanto a certeza de que, enquanto tivesse Hinata em seus braços, tudo ficaria bem.

***

Na manhã seguinte, como na vez passada, Konoha borbulhava gente ao amanhecer, as finais Chunins só iniciariam as nove em ponto, e ainda assim, setenta por cento da população deixara suas casas antes das sete e meia, tudo para fazer fila no estádio e conseguir os melhores lugares; e impressionantemente, alguns chegaram ao ponto de fazer faixas e organizar grupos de torcidas, tudo para incentivar e apoiar os valorosos Shinobis. Entre os entusiastas, estavam o velho Teuchi e sua filha, Ayame, a velhota Shima do mercado, o Dr. Matsumoto, Miko e Saito, e sua pequena bebê, Nene, estes três últimos, sem saber que as pessoas por quem tinham gratidão, e os jovens a quem se descobriram admirando, eram as mesmas pessoas; pareciam ter-se encontrado na entrada, e quando notaram a quem se dirigiria suas torcidas, rapidamente se juntaram em um grupo, e somente não haviam entrado no estádio ainda, porque desejavam vê-los chegar. Assim que são avistados os Genins de Konoha, uma tremenda ovação estala, a população gritava seus nomes, lhes desejava sorte e pedia um pouco de sua atenção; e quando o Time Deltha chega, rindo e conversando junto a seu inusitado grupo de amigos, eles são imediatamente cercados.

— Naruto, Ayame e eu vamos te esperar mais tarde no Ichiraku, com uma enorme porção de ramem de porco, para comemorar a vitória! — Animado, o primeiro a abordá-los é Teuchi.

— Eu nem venci ainda, tio. — Uma gostosa gargalhada escapa de sua boca, ao ver o velho e bondoso Teuchi.

— Eu sei que vai, por isso já estou avisando. — Então seus olhos fervorosos voltam-se para Hinata — Eu comprei uma nova pimenta muito, muito forte, para fazer o seu ramem, Hinata.

— Obrigada, Teuchi-san. — Sorrindo docemente, ela agradece ao pai e a filha.

— Não vai torcer pela gente não, tio? — Provocando o velho homem, Sai questiona.

— Bem lembrado, sem favoritismos, tio, somos todos clientes. — Shikamaru entra na brincadeira.

— Claro que vou torcer por vocês, menos se terminarem duelando contra Naruto e Hinata! — Muito sério, Teuchi afirma.

Quando pôr fim conseguem entrar no estádio, depois de falar com mais algumas pessoas, todos os demais times já se encontram no local, e alguns juízes e examinadores tomam seus lugares; as arquibancadas lotadas de gente, as vozes alteradas criando uma grande algazarra, os brados e assovios ao verem os Genins. No momento em que as delegações das Vilas e o Hokage entram e assumem seus lugares de honra, é o único momento em que faz-se algo de silêncio; visto desde a arena, Hiruzen acompanhado daquele corpulento homem de enormes cabelos brancos, parecera incrivelmente pequeno, e estranhamente idoso. Sorrindo, ao notar que nenhuma alma ali parecia reconhecer quem era o ANBU junto ao seu “vovô”, Naruto relaxa a postura; ao lado dele, Hinata também sinaliza a mudança que ocorrera na delegação de Suna, mais especificamente, no Kazekage e com muito cuidado, faz com que os irmãos Sabaku’s tomem conhecimento do fato.

— Muito bom dia a todos, e bem-vindos, a esse magnífico evento. — Com um amplificador de voz, o examinador principal inicia a prova — Como devem ter percebido, os Exames Chunin deste ano, ocorreram de uma maneira diferente, e seguindo o conceito de inovação, as finais também serão diferentes.

Dando tempo para que todos compreendam a informação, o examinador se cala por instantes.

— Anteriormente, os Genins que aplicavam ao exame, duelavam entre si durante todas as etapas. — O Shinobi segue explicando — Depois de uma reunião com o Senhor Feudal de cada País, e de muita deliberação, foi decidido que a partir de agora, nas finais dos Exames Chunin, os duelos acontecerão entre o Genin e um Chunin; tendo em vista que o objetivo de todos vocês, é ser promovidos a Chunin, suas habilidades devem ser avaliadas por um membro do corpo Shinobi com essa patente.

A incredulidade domina as expressões da grande maioria dos jovens Genins, à exceção de quatro deles, responsáveis por essa mudança, para eles não faria diferença alguma, não depois daquele dia; mas essa alteração na didática das promoções de Konoha, fora uma maneira que encontraram de não enviar mais jovens despreparados para missões, e recebê-los de volta sem vida. Assim, os Genins que se sobressaiam na Academia, em suas missões, e realmente desenvolviam e aumentavam suas aptidões, teriam uma chance justa de conseguir a promoção; enquanto aqueles que ainda não estão ao nível esperado, ou que, como muitas vezes ocorre, foram carregados até este ponto, não poderão ir adiante.

— Como antes, seus nomes serão sorteados nos telões, e os demais deverão aguardar na área preparada logo abaixo das arquibancadas. — O examinador explica, sinalizando o local — Vocês devem vencer o Chunin com quem irão duelar, as batalhas poderão ser paradas a qualquer momento, em caso de incapacidade para continuar, lesões que ponham a vida em risco, ou desistências; todos compreendem?

As afirmativas incertas e fracas dos jovens quase não são ouvidas pelo examinador, mas tampouco importaria muito, tudo agora dependeria deles, se ficar e lutar, ou desistir antes mesmo de começar.

— Muito bem, vamos sortear a primeira luta. — Assim que ele fala, os telões brilham e caracteres embaralhados pipocam, até formar nomes — O Chunin Bekkou contra Uzumaki Naruto, por favor se apresentem; os demais podem retirar-se!

Rindo a valer daquela situação, Naruto começa a se emocionar um pouco com o exame, percebendo a excitação do Uzumaki, Hinata sorri também; Naruto provavelmente iria cobrar algumas dívidas antigas.

— Só não demore muito, ok? — Ela lhe pede, antes de despedir-se beijando-lhe castamente, e logo seguindo os outros.

Quando os dois se colocam no centro da arena, com o mediador entre eles, o sorriso de Naruto torna-se zombeteiro, sentia que quase podia ler os pensamentos do Chunin, de tão furioso que Bekkou revelara-se; mesmo ali, onde todos deveriam ser imparciais, parecia que algumas pessoas nunca saberiam separar o privado do trabalho.

— Você cresceu, nem parece que já foi um molequinho sujo. — Sem poder conter-se, Bekkou o insulta antes de começar.

Apesar do homem ter moderado suas palavras, Naruto sabia a que ele se referia, a recordação de quando tinha apenas três anos, e andava vagando pela Vila por perder-se de sua odiosa primeira tutora, coberto de xixi e fezes de porco, depois de ser alvejado pelos outros garotos, era assombrosamente vívida; e nessa ocasião, Bekkou, em lugar de socorrer Naruto e repreender os moleques, os incentivara e instigara a continuar. Se não fosse por Teuchi ter saído de seu restaurante para ver que algazarra acontecia na rua, seguramente o teriam soterrado vivo, transformando-o em uma fossa; à menção do episódio, traz de volta toda humilhação e dor que Naruto sofrera, e o medo horripilante daqueles adultos que o fitavam com asco e raiva.

— Preparados? Comecem! — O examinador ordena, quando Naruto permanece em silêncio.

Havia uma regra não escrita que dava a oportunidade de os duelistas dizerem algo antes das lutas, desejarem-se boa sorte, uma boa luta, coisas do tipo; e por isso o examinador aguardara uma resposta do Uzumaki, que apenas fitara Bekkou com superioridade e zombaria, contribuindo para aumentar sua irritação. Ao instante seguinte, o Chunin se afasta do centro da arena, esperando poder ver o que o Genin faria, e assim, contra-atacar de acordo; infelizmente para ele, mal dera dois passos, a dor lancinante o desnorteia e o barulho de ossos quebrados causa espanto. Com rapidez absurda, Naruto acercou-se e desferiu um soco em seu rosto, praticamente afundando seu nariz no crânio, o sangue jorrava por suas narinas, por sua boca, manchando o colete que ele orgulhosamente exibira a vida toda; enraivecido, Bekkou tenta fazer selos de mãos, queria revidar com o dobro de força, entretanto, ao contrário de suas intenções, suas mãos deixaram de mover-se no seguinte segundo, os tendões e ligamentos cortados com precisão por uma foice de vento, interrompendo o fluxo de chakra e a recepção do sistema nervoso central.

— Você quer desistir? — Caminhando calmamente com as mãos nos bolsos, Naruto pede ao Chunin desesperado com o sangue jorrando de seus pulsos.

— Seu demônio…! — Fanho, Bekkou cospe xingamentos.

Revirando os olhos, Naruto lhe acerta o golpe final, um simples nocaute com a mão aberta na nuca, e Bekkou vai ao chão inconsciente; é quando a gritaria estala, a plateia que esteve em choque enquanto assistia o duelo, finalmente processa e compreende o que viram, com apenas alguns movimentos, o Uzumaki vencera a luta em míseros dois minutos.

— O vencedor é Uzumaki Naruto! — Com assombro, o examinador anuncia.

A equipe médica que corre atender Bekkou também entra em um estado de perplexidade, ao constatar que os ferimentos do Chunin não punham sua vida em risco, apesar de que certamente, doeriam por muitos dias; caminhando indiferente aos olhares que recebia, o rapaz alcança a área onde estão os demais, e recebe sorrindo grande, o abraço de felicitação de sua garota.

— Demorei? — Naruto pede a Hinata, inalando o perfume de seus cabelos.

— Nem um pouco. — Contente, ela responde.

Nos lugares de honra, Jiraya e o ANBU sorriam amplamente, ainda que o sorriso desse último não estivesse visível; nas arquibancadas, os senseis que assistiam tudo de seus postos de vigília estavam eufóricos, e as delegações presentes, sentiam o pavor e a inquietação tomando conta. Não demora muito, a seguinte luta é sorteada, e ao ser um nome conhecido, as expectativas para o duelo aumentam.

— A segunda luta, o Chunin Mozuku contra Uchiha Sasuke, por favor se aproximem. — O examinador os chama.

Como antes, os oponentes reúnem-se no centro e aguardam o sinal para que comecem, e quando o duelo inicia, ambos fazem selos de mãos enquanto tomam distância, e tentando acertá-lo antes de ser pego em algum Ninjutsu mental, Sasuke usa primeiro seu Katon; Mozuku passa a utilizar alternadamente, Doton e Suiton, e a luta se estende pelos próximos quinze minutos, até o Uchiha conseguir fazer um ataque que o permita aproximar-se e noquear o oponente. Apesar das palmas e felicitações, as reações da plateia são mais frias do que foram com o resultado da luta anterior, fato originado pela impactante disparidade entre os Genins; os seguintes a ser sorteados são Neji, Temari, Shino, e Madoka, nessa ordem, e a exceção da companheira de equipe de Sai, os outros conseguiram vencer seus duelos. Logo, Tenten, Ino, e Lee foram sorteados, e apesar dos esforços de Tenten, ela não conseguira acompanhar Lee, e este último levara a plateia ao delírio, ao demonstrar toda força e impetuosidade de um mestre em Taijutsu; Kankuro, Chouji e Sai tem a vez, e todos os três impressionam com suas respectivas técnicas, e Sai muito mais, ao seguir os passos de seus mestres e não prolongar uma luta já ganha.

— O vencedor é Sai. — Assustado, ao ver o sorriso cínico do rapaz, o examinador anuncia.

No chão de terra da arena, humanoides e bestas de tinta haviam trucidado as defesas do oponente, e agora um segundo examinador tivera de ser chamado, para deixar o chão ao menos estável para as próximas lutas.

— Agora, o décimo terceiro duelo do dia, o Chunin Kamizuki Izumo contra Haruno Sakura, por favor aproximem-se. — Igualmente surpreso, o examinador anuncia.

Todas as outras Kunoichis tiveram adversárias, Sakura era a primeira a duelar com um homem, e isso causa espanto nos expectadores. Sentindo suas costas arderem a causa de um ameaçante e intenso olhar, Izumo saca a grande lâmina que carregava, não poderia fazer nada contra ordens de cima, mesmo que Sakumo o esfolasse vivo depois, cumpriria o que lhe ordenaram; o Chunin temia o Haruno maior, mas temia muito mais a pequena Tenente ANBU. Tentando manter-se calma, Sakura repassa rapidamente tudo que estivera estudando arduamente, as táticas de batalha, os pontos entre as articulações para torções, onde as linhas de Chakra mais se debilitam com um golpe forte, e principalmente, como aplicar suas reservas para fortalecer seu Suiton; dessa vez, a Haruno não sentira nenhuma ânsia, seu estomago sequer estava revoltado, e ela esboçara até mesmo um sorriso tímido, enquanto calçava as luvas de couro que ganhara de sua Masutā naquela manhã, feitas especialmente para ela. Assim que a luto inicia, Sakura parte para o ataque, sabia que por ser pequena, era mais ágil e usaria isso a seu favor, e um tanto quanto parecida a Hinata, ela ia desviando da lâmina infundida em Chakra de Izumo, enquanto golpeava-o nas regiões expostas de sua guarda; seu Taijutsu estava muito melhor agora, mas isso somente não bastaria, e percebendo o mesmo, Izumo passa a fazer selos de mãos, e no momento seguinte, utiliza o Suiton: Mizuame Nabara. Quando a água altamente viscosa se espalha a volta dele, torna quase impossível que seu oponente chegue mais perto sem cair na armadilha, e isso lhe garante tempo para fazer seu próximo ataque; Izumo apenas não contava que a pequena Haruno fosse utilizar Suiton também, e antes que pudesse pensar corretamente, vira o Mizu no Muchi dela agarrando-lhe o corpo e içando-o em alta velocidade. O Jutsu que por geral, já é forte, fora intensificado pelas reservas de Chakra de Sakura, e ao comprimir o tronco de Izumo, assim como manter suas mãos bem presas, deixando-o sem ar e sem possibilidades de realizar qualquer Jutsu; o Chunin vira quando a garota puxara violentamente o chicote de água com uma das mãos, enquanto erguia a outra cheia de Chakra, e logo o soco absurdamente doloroso lhe atingira o rosto, e então, perdera a consciência.

— A vencedora é Haruno Sakura! — Sem conseguir ocultar o quanto estava impressionado, o examinador fala.

Dando pulos e saltos estrelas, Sakura comemorava sua vitória, e buscando com os olhos chorosos, encontra entre a multidão os rostos de seu amado irmão e seu sensei, os encontra sorrindo-lhe, ela lhes acena energeticamente; então, corre para a área onde apenas duas pessoas ainda aguardavam por suas lutas, e como se estivesse na clareira sem ninguém mais vendo-as, abraça e rodopia junto com Hinata, gargalhando e chorando ao mesmo tempo. Aquele abraço entre as duas garotas estava repleto de muitas palavras e sentimentos, havia gratidão, admiração e orgulho, a ambas eram cientes de que, foi graças a um ato de infinita bondade, que puderam ver aquele esplêndido resultado; sem o perdão e o voto de confiança de Hinata, Sakura jamais poderia transformar-se tão belamente.

Os telões nas acima das arquibancadas, logo anunciam que chegara a vez de Gaara, e para surpresa dos mais próximos expectadores, o Sabaku também ganhara um abraço da Hyuuga, e antes de deixar a área dos candidatos, ouve algo do Uzumaki que desanuvia suas expressões algo espantadas; em realidade, seu duelo tampouco dura muito, entre uma tentativa e outra do Chunin, Gaara ia trabalhando a terra a seus pés, e quando esteve maleável o suficiente, prendera o oponente, deixando apenas o rosto parcialmente exposto, obrigando-o a renunciar o duelo. Então, o último duelo do dia brilha nos telões, anunciando a Hagane Kotetsu e Hyuuga Hinata, e por saber de quem a garota era dupla, a grande maioria da plateia começa a gritar euforicamente, incentivando-a; depois de ouvir as palavras amorosas cheias de afeto de Naruto, e os incentivos enérgicos de seus amigos, a garota caminha em direção do centro da arena, e ao vê-la, tão delicada e formosa, algumas pessoas duvidam de seu potencial, e acabam atribuindo a inesperada classificação de seu time ao Uzumaki.

Ao momento que o examinador autoriza o duelo, esses pensamentos são varridos da mente das pessoas, não havia ninguém na plateia que não tivesse seus olhos saltando ao chão praticamente, vendo em choque as mãos da garota brilhar com o abundante Chakra azul tomando a forma de duas enormes cabeças de leões; e antes que Kotetsu possa entender o que ocorria, o grande martelo em suas mãos é feito em pedaços, estilhaçando-se diante de seus olhos, e logo ele caia de joelhos ao chão, sentia seu coração errar batidas e doer, e o ar parecia não chegar aos seus pulmões, com a visão turva, ele soube que fora atingido pelos punhos gentis e tudo que escutara antes de desmaiar, fora um “desculpe” suave.

— A vencedora, Hyuuga Hinata. — Embasbacado, o examinador diz.

No instante seguinte a gritaria é ensurdecedora, Konoha nunca vira nada assim, e talvez nunca voltaria a ver; como se houvesse sido planejado, o primeiro e último duelo daquela manhã foram tão excepcionais e assombrosas, que muitos não podiam crer no que viam. Sem usar um Ninjutsu complicado e avançado, e sem expor desnecessariamente suas habilidades, aqueles dois jovens venceram seus duelos como se tudo não passasse de um jogo, com uma facilidade vertiginosa de quem estava habituado a desafios maiores; o que a população não poderia supor, é que depois de tantos anos repetindo uma e outra vez a mesma caçada, as presas começam a parecer-se.

— Atenção! — Repentinamente, a voz do Sandaime faz-se presente e logo todos calam-se — Parabéns aos Genins classificados, satisfatoriamente presenciamos hoje, a evolução de grandiosos Shinobis.

Uma onda de assovios e comemorações espalha-se pelo estádio, e demora um pouco até que a população se tranquilize para ouvir que mais o Hokage teria a dizer.

— Contudo, depois do que vimos, eu e a elite do corpo Shinobi de Konohagakure, assim como os examinadores e juízes presentes, decidimos que iremos fazer algumas alterações. — Temendo que haveria alguma desclassificação por algum motivo, as pessoas prendiam a respiração, ansiosas — Nara Shikamaru, Sai, Hyuuga Hinata e Uzumaki Naruto, um passo à frente, por favor.

Escutando seus nomes, alguns foram tomados por seriedade, outros por apreensão e incerteza; não sabiam o que ocorrera, mas em seus julgamentos, aqueles haviam sido os melhores duelos.

— Devido a inegável perícia demonstrada, suas habilidades e conhecimentos, e todo seu desempenho e dedicação, lhes entrego a patente de Jounins aos quatro! — Agora era oficial, nada mais estaria em seu caminho — Mais uma vez, parabéns aos Chunins classificados!

Em meio a um pandemônio de ovações e vivas, os jovens receberam os conhecidos coletes, para Konoha, verdes e cheios de compartimentos, para os três irmãos de Suna, era cinzas, mas com o mesmo padrão; a diferença dos demais, os quatro que receberam a patente de Jounin, receberam também braçadeiras, que eles rapidamente puseram em seus braços direitos, como já viram seus senseis usando. Depois do encerramento em meio a muitas comemorações de Konoha, e de ouvir as palavras do “Hokage”, os quatro novos Jounins sumiram rapidamente diante de todos, como se só estivessem esperando pelo momento de desaparecer; aqueles que continuaram na arena, logo foram encaminhados pelos examinadores, por uma porta lateral, escondida bem abaixo das arquibancadas, e sem entender o que aconteceria a seguir.

***

Muitos e muitos metros abaixo de Konoha, uma área tão ou maior que o estádio que sediara as finais dos Exames Chunin agora estava iluminado com milhares de tochas, de suas paredes de pedra escorria água, acumulando pequenas poças pelo caminho, as escadarias e corredores que os conduziram até ali eram agourentamente vermelhas; ninguém entendia o que estava passando, em um momento estavam direcionando as pessoas para fora do estádio, patrulhando as ruas de Konoha, em seus postos de vigília nos muros, e de repente, foram todos e cada um, substituídos por ANBU’s, e receberam o chamado do Hokage até aquele lugar, onde até o uivo do vento passando pelas fendas da rocha era horripilante.

Reunidos sem nenhuma outra informação, além de que foram convocados pelo Sandaime, todo o corpo Shinobi de Konoha se alinhava e posicionava dentro daquele imenso salão de pedra, alguns vendo seus conhecidos, acabavam juntando-se em grupos, especulando e tentando averiguar o que ocorria, outros pressentiam que algo muito grande estava por suceder, e alguns questionavam em choque, porque até mesmo os Genins que não se classificaram e os que nem chegaram as finais estavam ali também; mais à frente do salão, os jovens Shinobis olhavam para todos os lados assombrados, alguns deles, como Kiba e Akamaru, já estavam indo para casa, depois de assistir às lutas, quando foram abordados pelos respectivos senseis de seus times e levados até aquele lugar, já outros buscavam entender como fora que dois dos seus companheiros já estavam no salão quando chegaram, os dois completamente diferentes do habitual, vestidos completamente de negro, parados estáticos de olhos fixos à frente.

— Shikamaru, Sai, vocês sabem o que está acontecendo? — Nervoso e inquieto, Chouji questiona, saindo de seu lugar e indo até eles.

Reconhecendo-os, todos os outros Genins e recém ascendidos Chunins se reúnem a sua volta, ansiosos por saber o que ocorria, esperando que seus dois amigos pudessem sanar suas inúmeras dúvidas; mas contrariamente ao que eles esperavam, Sai e Shikamaru nada disseram, permaneciam parados fixando com olhos muito sérios, as escadarias a frente, mãos firmes às costas, pernas alinhadas com os ombros, rígidos em seus lugares, aguardando. Olhando-os espantada, Ino vaga seus olhos pelo lugar, encontrando uns quantos outros nessa mesma posição, incluindo seu pai e o pai de Shikamaru, e até mesmo o irmão mais velho de Sakura; a Yamanaka logo reconhece que era aquela estranha postura e a falta de resposta deles, sabia que os amigos jamais deixariam de responder-lhes ou os ignorariam de proposito.

— Eles não podem falar, estão guardando respeito aos seus superiores. — Ino fala, impedindo que Kiba em sua impaciência, puxasse Sai pelos ombros.

— Deveríamos nos alinhar também, estão fechando as portas do salão, agora não deve demorar. — Intuindo o que significava, Neji aconselha a todos.

Os últimos a chegar ao local, foram os líderes de clãs e outros membros da inteligência de Konoha, e como nunca participaram ou viram uma reunião como aquela, os jovens rapidamente seguiram o conselho do Hyuuga, e mesmo os mais problemáticos do grupo, sequer discutiram ou questionaram; nem bem Sasuke havia entrado em posição, eles sentiram uma brusca mudança no ambiente, a volta de todo salão, nas escadarias e corredores até onde sua vista podia alcançar, ANBU’s mascarados deixavam as sombras, revelando sua presença, e imponentemente, se colocam na mesma posição de espera dos dois rapazes entre eles.

Diferente a condição ansiosa dos Shinobis que viam aquela cena aterradora, caminhando sem pressa pelas escadarias, recebendo continências e saudações pelo caminho, vinham o Capitão da ANBU e o Sandaime Hokage; atrás deles, os mesmos dois homens que estiveram junto ao Hokage durante as finais mais cedo. Quando eles param-se em frente aos assustados ninjas, que rápida e desordenadamente, se puseram em posição de respeito, e diante de um aceno do Sandaime, entraram em posição de descanso; entretanto, aqueles poucos no meio deles que estiveram assim desde o começo, e os ANBU’s cercando-os permaneceram assim, prestando continência, ainda aguardando, inclusive os dois rapazes entre os mais jovens, para espanto de muitos.

— Agradecemos por todos terem comparecido à nossa reunião extraordinária. — Erguendo sua máscara até um lado de seu rosto, Tenzou toma a palavra — Sabemos que devem estar com muitas dúvidas, e vamos explicar tudo a seu tempo, como podem ver, sou o atual Capitão da ANBU, muitos de vocês devem me conhecer como Yamato; nós decidimos reunir todo o corpo Shinobi de Konoha hoje, para pô-los a par da verdadeira situação da Vila, assim como esclarecer algumas questões, que por necessidade, estiveram ocultas de muitos durante esses seis anos, e para isso, convoco meus dois Tenentes!

Pelo mesmo caminho de antes, recebendo continência e saudações, eles vieram calmamente, e diferente de todos os outros que estiveram caminhando por aquele salão, seus passos não faziam nenhum som, não reverberavam pelas paredes úmidas; as vestes negras estavam diferentes a dos demais, que utilizavam uma blusa de malha de mangas compridas, eles, assim como seu Capitão, usavam regatas de malha negra, deixando visíveis orgulhosamente, suas tatuagens. Ali, logo abaixo de seus ombros, em seus braços esquerdos, o padrão em espiral vermelho, as máscaras frias em seus rostos, os traços laranjas da raposa, os detalhes azuis do gato; não cabia dúvidas, aquela presença imponente e esmagadora pertencia a Neko e Kitsune, que para perplexidade dos Shinobis presentes, eram apenas dois adolescentes. No dia do festival em Konoha, mesmo que estivessem de patrulha e houvessem escutado os habitantes dizer que eles estavam ali, não puderam alcançar vê-los devido à grande multidão que os cercara, então os ninjas presentes no local, apenas puderam sentir sua tremenda força lhes causando arrepios na espinha; quando pediram a população por detalhes dos dois, ninguém quis responder, evadindo suas perguntas, aparentando muito medo de abrir a boca, e agora, enquanto seus corações detinham os batimentos e o ar daquele lugar tornava-se tão espesso que nem lhes chegava aos pulmões, eles entenderam a razão.

— Descansar! — Quando suas vozes são ouvidas no silêncio sepulcral, um forte brado ressoa, e os ANBU’s mudam sua postura.

Era impressionante e terrorífico, e para os mais jovens, que pararam justo na primeira linha do corpo Shinobi, aqueles com uma dedução mais aguçada, começavam a juntar peças soltas, trêmulos de medo; já um seleto grupo permanecia tranquilo, sem demonstrar nenhuma surpresa em seus rostos, mas bem, pareciam haver estufado o peito e empertigado ainda mais os ombros, orgulhosos.

— Bem vindos, neste maravilhoso dia, a nossa reunião! — Kitsune fala, sua voz rouca e um tanto grave, revelando que ele já havia atingido a puberdade.

— Temos muitos anúncios que fazer-lhes, por isso pedimos que mantenham a ordem. — Neko quase cantarola em seus ouvidos — Primeiro, Ibiki, traga nossos convidados!

A sua ordem, o Morino abre uma porta lateral e ao momento seguinte, os três irmãos Sabaku’s são vistos entrar no local, e sem nenhuma confusão ou temor, param-se ao lado do Sandaime; logo uma ANBU aparentando seus vinte, ajoelha-se em meio à multidão, já sabendo que ela seria a seguinte.

— Maki? — Com muita calma, Neko indaga sem mais detalhes.

— Ambos estão seguros, Tenente! — Trabalhar para eles, significava desenvolver suas funções a perfeição, e isso incluía, entender o que responder às suas perguntas.

— Muito bem, então agora, vamos falar da razão para que nossas identidades estivessem ocultas, mesmo para o corpo Shinobi de Konoha. — Erguendo sua máscara de raposa, Kitsune a coloca ao lado de seu rosto, como fizera o Capitão antes.

— Sem uma graduação válida como todos os Shinobis, não deveríamos ter entrado na Divisão, ao menos, até que fossemos incorporados como Shinobis. — Seguindo-o, Neko também revela seu rosto — Infelizmente, alguns acontecimentos graves, nos levaram a ocupar nossos postos mais cedo do que o pretendido.

— Todos vocês já devem ter ouvido boatos, em algum momento, sobre as forças inimigas que assediam Konoha, e devemos esclarecer que todos são verdadeiros. — O rosto desprovido de emoção de Naruto e a voz gélida, deixa suas ex-colegas de Academia tremendo — Akatsuki, Orochimaru, e até mesmo, outras Vilas poderosas das Cinco Grandes Nações.

— Ameaças internas também ocorreram nesse tempo, e devido à precária situação de Konoha, estivemos trabalhando nas sombras durante esses anos, e hoje, como presenciaram, atingimos nossa meta. — Hinata não estava diferente, e por isso mesmo, ela era quem mais assustava — Quando iniciamos, os conselheiros de Konoha ainda estavam em seus lugares, e como suas forças moviam a política e a economia da Vila, optamos por manter-nos ocultos, até obter uma patente que não permitiria que eles se opusessem a nossa real função, ser os Assassinos Especiais da ANBU.

— Alguma dúvida quanto a isso? — Despreocupado com algumas expressões de incredulidade, o Uzumaki oferece a oportunidade — Sim, Inuzuka Tsume?

— Quando os conselheiros foram julgados por corrupção, por que não se revelaram? — Mesmo com seu temperamento explosivo, Tsume podia racionalizar com precisão, e esse era um ponto que muitos questionavam em seus pensamentos.

— Uma excomungada e um Jinchuuriki, vocês nos seguiriam, antes? — Olhando para alguns, cheia de zombaria e desprezo, Hinata questiona de volta.

O ambiente que antes tremulava caótico, repleto de conflitos e incredulidade, de repente se torna sério e uma abrumadora certeza atinge-os, não precisavam pensar muito, para saber que se não testemunhassem tudo que a dupla fizera, jamais acreditariam que o Time Deltha e Neko e Kitsune, eram em realidade, as mesmas pessoas; entre uma parcela dos Shinobis presentes, outra emoção começa a tomar conta, e baixando os olhos ao chão, eles temeram por seus destinos.

— Depois de planejar durante anos, e sentar as bases para esse dia, junto ao Sandaime, a inteligência de Konoha e o comando da ANBU, anunciamos que desde agora, o corpo Shinobi de Konoha se reportará e trabalhará em conjunto conosco. — Neste ponto, as palavras de Naruto fazem os mais fracos de espírito, sentirem seus joelhos cederem — Suas missões, formação de equipes e a distribuição de trabalhos dentro da Vila, sempre serão deliberadas, decididas e ordenadas por esses três poderes, bem como membros do esquadrão serão disponibilizados para encontrar e solucionar as debilidades daqueles que desejarem, é claro!

— Konoha necessita fortalecer-se internamente, e essa é a razão para a união de nossa força combatente, a motivação para essa mudança é o próximo tópico da reunião, mas antes disso, precisamos mostrar-lhes as peças chaves das operações realizados durante esses anos, e apresentaremos a vocês o nosso esquadrão, e nossos dois aprendizes. — Pela primeira vez revelando alguma emoção, os olhos perolados da garota brilham na penumbra do salão mal iluminado, era chegado o momento — Kaminari!

Sendo o primeiro a ser chamado, o rapaz imediatamente põe-se diante deles, abaixado, o joelho e a mão direita tocando o chão, cabeça inclinada; havia um gosto de vitória tão satisfatório em poder ser reconhecido assim, que Sakumo quase não conseguia ocultar seu sorriso.

— Shiro! — Outro nome se escuta.

— Kanzaki! — E o seguinte.

— Mahi! — E mais um.

— Hayabusa! — De novo.

— Akemi! — Outra vez.

Um a um, os Shinobis que antes estiveram entre seus companheiros, deixam seus lugares e se enfileiram diante de seus Tenentes, orgulhosamente satisfeitos, mesmo ao sentir os olhares acusadores daqueles que não sabiam nada de sua vida dupla; então, expectantes e emocionados, os últimos dois quase saem antes do ordenado.

— Tora! — Naruto chama.

— Karasu! — Hinata conclui.

Nesse momento, assistindo abismados como Shikamaru e Sai moviam-se pela primeira vez desde que chegaram ali, seus ex-colegas de Academia deixam escapar exclamações impactadas; quando viram de tão perto as identidades dos rumorejados assassinos, o medo e a pressão que sentiam, que os esmagava como formigas, contivera suas vozes, porém, ao descobrirem sobre esses dois últimos, suas emoções desestabilizadas terminaram de ruir.

E como esperado, a agitação daqueles ainda ocultos por seus disfarces, nublara seus juízos e a cobiça de ter todos os alvos em um mesmo lugar, os impelira a agir com imprudência; sorrindo satisfeitos, aparentemente alheios, o Uzumaki e a Hyuuga viam seus leais companheiros, imperceptivelmente sacar suas armas. No momento seguinte, quando os Nukenins saíram de suas atuações, sua avareza os cegara e eles adentraram por sua própria conta na guarida de uma impiedosa besta; antes que pudessem perceber que aquilo era uma armadilha, os ANBU’s convocados haviam cercado o Sandaime e os três irmãos Sabaku’s, enquanto Tenzou, Ibiki, Kakashi e Asuma se colocavam protetoramente a frente dos Genins e novos Chunins.

Percebendo tardiamente a armadilha, os Nukenins se desestabilizaram, deveriam ter aguardado mais algum tempo, mas ver os alvos que deveriam capturar todos no mesmo lugar, fora uma tentação maior do que o esperado; dentro do perímetro seguro estabelecido pelos ANBU’s restantes da divisão — tanto para proteção dos líderes de clãs, como para identificar outros infiltrados — os Shinobis de Konoha assistiram abismados a sinistra carnificina. No perímetro formado pelo esquadrão da dupla, mantinha seis pessoas estavam seguras, ainda que o ANBU entre elas aparentasse estar protegendo o Hokage, e Temari — mais que seus irmãos — estava em choque com o que via o jovem Nara fazer; ele e seu companheiro pareciam muito satisfeitos e a vontade, enquanto desmembravam seus oponentes, Sakura também assistia petrificada, como era seu irmão em uma missão, completamente oposto ao seu gentil e dócil feitio. Mas o mais impressionante, era a dupla no centro daquele palco de horrores, alguns de seus ex-colegas já vomitaram e desmaiaram, sendo amparados por seus senseis, e no meio dos Chunins e Jounins — assim como os chefes das famílias — já não havia alma duvidosa; em questão de dez minutos, o grupo de Nukenins infiltrados entre os ninjas da Vila fora reduzido a pedaços de carne espalhados pelo chão, e o sangue que jorrara de seus corpos, começava a espalhar-se até escorrer para o nível mais baixo do salão, onde ninguém parecia capaz de desviar os olhos.

Espremido entre Kakashi e o Capitão ANBU, Sasuke presenciava de olhos arregalados o massacre, e sentia-se cada vez menor, diante daquela estremecedora demonstração de poder; soube nesse instante, que nunca tivera a menor chance, tudo que havia feito e tentado, não servira para outra coisa que divertir e entreter o Uzumaki. Não existia possibilidade de Naruto tê-lo levado a sério, sequer deve tê-lo considerado um rival adequado, e mais vergonhoso que isso, era perceber quão patético deve ter se mostrado aos olhos da Hyuuga; quando o último corpo cai inerte no chão, tanto os braços, como os rostos dos dois estavam manchados de sangue, e se não fosse pelas vestes negras, certamente seria mais evidente.

— Agora que estamos limpos, podemos continuar nossa reunião. — O Uzumaki fala, indiferente ao que fizera, indiferente aos cadáveres.

— Tudo que ouvirão agora, faz parte dos segredos de Konoha, que como Shinobis, vocês devem guardar com a sua vida. — Igualmente fria, Hinata se pronuncia.

Como se estivessem esperando, Anko e Ebsu entram no local, trazendo uma grande lousa branca, repleta de anotações, fotografias e informações relevantes, juntando-se a eles, Shikaku e Inoichi se preparam para dar seguimento as explicações, e nunca em uma reunião com tantas pessoas, fez-se desnecessário pedir silêncio diante de grandiosas revelações; embora, fosse pela perturbadora demonstração da potência da atual ANBU, os dois homens, como experientes membros da inteligência de Konoha, que se orgulhavam do título que carregavam, saberiam tirar proveito do pavor e incerteza instaurados naquele salão, teriam que fazê-lo, pelo bem de seu futuro.