Alguns metros abaixo das ruas de Konoha, em meio a escuridão, dois homens olhavam-se em silêncio, nada parecia perturbá-los, nem a asquerosa aparência daquele lugar, nem o cheiro fétido que impregnava seus narizes; sua imobilidade era um claro sinal de que não estavam ali para um encontro amigável.

— Vai revelar por que tentou capturar a Kyuubi sozinho, Rasa? — Aquela voz nasalada soa fazendo eco, terrivelmente arrastada e enjoativa.

— Do mesmo modo que você tentou capturar o Shukaku, Orochimaru. — A resposta causa estranheza neste último.

— Não sei do que está falando, mas de qualquer forma, você vai ser útil, Kazekage. — Num silbido, a ameaça alerta o outro, mas já é tarde demais.

No momento seguinte, Rasa estava paralisado, nem mesmo seus olhos podia mover e tudo que via era escuridão, enquanto ouvia sons arrastados aproximando-se, não podia crer que fora capturado tão facilmente; deveria ter esperado que seria traído, e se preparado melhor, no entanto, subestimara seu oponente, confiante de que sua força seria suficiente para detê-lo.

***

Distante dali, em uma sala cheia de instrumentos médicos, e enormes sensores de chakra por todos os lados, um grupo preparava-se para uma grande façanha, que poderia resultar tanto em uma vitória, como em terrível derrota; das dez pessoas naquela sala, nenhuma estava mais nervosa que Hizashi, seus olhos perolados estavam agitados, sua respiração parecia não ser suficiente para seus pulmões, e seu coração descompassava a cada linha que via o rapaz pintar no chão.

Ao seu lado, Neji encontrava-se no mesmo estado, se não mais angustiado, e quanto maior o silêncio se fazia, mais pesado o ambiente ficava, e todos prestavam atenção naquela máscara de raposa, fria e inexpressiva; deixando um pouco de suas preocupantes especulações de lado, o Hyuuga põem-se a olhar detidamente o rapaz, faziam dias que não o via, e agora dera-se conta de seu constante crescimento. Naruto estava mais alto, seus ombros começavam a alargar-se e os músculos de seus braços começavam a tomar forma e ficar rijos, até suas mãos pareciam maiores; o garoto que vira ainda como um bebê havia crescido diante de seus olhos.

— Está pronto, preciso que todos fiquem em seus lugares. — Ele anuncia, e então volta-se a Hizashi — Pode ser que doa muito, não temos uma base para saber mais a respeito, então preciso que esteja ciente disso, ok?

— Sem problemas. — Hizashi responde.

— Morda isso, vai ajudar com a dor. — Hinata, usando sua máscara de gato, lhe alcança uma mordaça.

— Pai, eu posso ir primeiro, sou mais jovem… — Neji começa, preocupado com o que ouvira.

— Não me atreveria a ser teu pai, se não pudesse nem fazer isso por ti. — Hizashi responde amavelmente.

Apesar de seu pequeno dialogo ser algo inteiramente deles, as palavras ditas sem intenção alguma, causaram dor no outro Hyuuga presente, mais afastado de todos e completamente ignorado; Hiashi quis imediatamente, estar presente, quando dois ANBU’s foram até o clã naquela manhã, buscar Neji e Hizashi sem dar detalhe algum. Surpreendeu-se quando foram levados a sede da divisão, e encontraram Naruto e Hinata ali, além de Hiruzen, Kakashi e outro jovem desconhecido; o mais impactante, foi a explicação do que fariam a seguir.

— Agora, vamos começar. — Naruto fala, sentando-se no chão, em posição de meditação.

Ele faz selos de mãos rapidamente, e então, as runas e marcações que estivera desenhando antes, começam a brilhar intensamente, até chegar onde Hizashi estava sentado, igualmente em posição de meditação; de Naruto, começa a emanar uma quantia absurda de Chakra, e a densidade e força dessa energia causa uma ventania naquela sala fechada.

A concentração do Uzumaki era impressionante, mesmo com o barulho de coisas caindo e as exclamações surpresas dos demais, ele mantivera sua forma, e seu fluxo de Chakra seguia constante; logo ouviu-se os grunhidos de Hizashi, e a expressão de seu rosto dizia quão desconfortável se sentia, e depois de quase vinte minutos, o suor acumulado em seu rosto, deram-lhe uma aparência doentia. Então tudo acalma, a energia diminui, e as runas apagam-se, assim como os protestos do Hyuuga.

— Hizashi, retire a bandana. — Naruto pede, entre um fôlego e outro.

Neste momento, quando o Hyuuga atende seu pedido, todos podem ver a vermelhidão em sua testa, mas nenhum sinal das runas verdes que compunham o símbolo do selo que havia ali; com olhos arregalados, Neji pega o rosto do pai, estupefato.

— Pai, está sentindo alguma coisa? — O garoto pergunta, preocupado.

— Não, agora está só formigando, e não chega a doer horrivelmente, mas é um pouco doloroso. — Hizashi conta — É difícil por que se têm que ficar imóvel.

— Está pronto, Neji? — Naruto pergunta ao mais jovem.

— Não quer descansar um pouco? — Ao seu lado, Hinata sussurra ao seu ouvido.

— Não, sinto que se parar agora, não vou conseguir depois. — O Uzumaki responde, já assumindo sua posição.

— Bem, estou pronto. — Neji responde, assumindo o lugar onde seu pai estivera antes, respirando profundamente.

Como antes, após um grande suspiro, Naruto faz selos de mãos, talvez um pouco mais lento que antes devido ao grande cansaço físico e mental que infligira-se, mas ainda rápido o bastante para que ninguém pudesse visualizar quais eram, ou quase ninguém; no limite aceitável de aproximação, Hinata mantinha seus poderosos olhos prescrutando as linhas e o fluxo de Chakra de seu parceiro, e seu coração doía-lhe imensamente, pois diferente dos demais, assim como o tio já recuperando-se, ela conseguia ver a terrível paga que o usuário daquele selamento reverso sofria.

Assim como o receptáculo, o agente de selamento enfrentava uma dolorosa penúria, toda a musculatura corporal de Naruto se estava rompendo e regenerando quase que instantaneamente, a causa de sua linhagem e da própria Kyuubi, portanto, seu coração estava constantemente entrando em taquicardia e retornando, afetando inclusive seu sistema circulatório; a causa era a enorme necessidade de condensar o Chakra, tornando-o potente o suficiente para que apenas uma pessoa fosse capaz de desfazer o que, anteriormente, cinco realizaram.

Do mesmo modo que antes, as runas brilharam intensamente, a ventania poderosa fez estragos no espaço fechado, e então Neji começara a grunhir em desespero, e pressentindo que ele talvez iria mover-se Naruto prendera-o, revelando aos demais outra herança de seu clã; quando as Correntes Adamantinas subjugaram o Hyuuga, apenas três pessoas as identificaram imediatamente, duas delas foram tomadas por recordações de tempos distantes, e uma sombra anuviara suas expressões.

Ao final deste segundo ato, que levara o dobro de tempo do anterior, Neji mal podia manter a consciência, e vendo seu estado, Hizashi correra em seu auxílio, verificando que o filho também estava livre do selamento do Pássaro Engaiolado; próxima aos dois, Hinata usara de sua engenhosidade para criar uma situação favorável, e invocara um subordinado.

— Tenente. — Sem saber o que ocorria, o jovem Tomoe atende o chamado.

— Parece importante, vamos a nossa sala para ouvir. — Quase mecanicamente, Hinata estende a mão a Naruto e o ajuda a erguer-se.

Os dois deixam a sala sendo seguidos pelo jovem que não atrevera-se a questionar nada, dos presentes, apenas Sakumo e Kakashi pareciam ter percebido que algo estava errado, mas não poderiam segui-los e alertar os outros; sabiam instintivamente que Hinata não queria isso, então limitaram-se a permanecer onde estavam.

— Pode retirar-se, Hayabusa. — Antes de entrarem no corredor que leva até seu escritório, a Hyuuga dispensa o jovem cadete.

— Tenentes! — Tomoe despede-se dos dois sem compreender o propósito de tudo aquilo.

Quando finalmente estão sós, Naruto desaba de joelhos, arranca sua máscara de raposa e escupe sangue até criar uma poça, seu rosto pálido e sudoroso revela-se terrivelmente doentio para Hinata, e chorando a copos, ela passa a tratá-lo imediatamente, enquanto chama pelas duas únicas pessoas em quem tinham total confiança naquela situação; não demora muito até que Tora e Karasu apresentem-se, e graças às máscaras em seus rostos, suas expressões de pavor permanecem ocultas, nunca, nenhuma vez em oito anos de convivência, Shikamaru vira Naruto naquele estado, e Sai pensara estar passando por algum teste que causava alucinações.

— Me ajudem a carregá-lo. — Hinata pede, num fiapo de voz, sem deter o tratamento.

Os dois rapazes apressam-se a erguer o ofegante e quase desmaiado Uzumaki, que continuava a cuspir sangue, e assim correram com ele até a sala pertencente aos Tenentes; em prantos, a Hyuuga seguia tratando-o, queria dizer-lhe que pedisse ajuda a raposa, mas desde que descobriram que essa regeneração acelerada encurtaria sua expectativa de vida, fazia todo o possível por impedi-lo de utilizar esse recurso. Era um alívio que a própria Kyuubi, agora consciente deste fato, pudesse finalmente ter algo de controle sobre seu Chakra, graças ao seu contínuo treinamento com seu Jinchuuriki, e deste modo, unira-se a pequena Hyuuga nesta empreitada; Kurama não interferiria, a menos que a vida de Naruto estivesse em perigo.

— Hi… na… — Depois de algum tempo, Naruto finalmente recuperara algo de força.

Seus olhos estavam fundos em seu rosto, sua pele esverdeada e opaca, mas ao menos já não escupia sangue e sua respiração normalizara, e mais importante ainda, seu coração voltara a bater ritmadamente; após restaurar as veias e artérias danificadas pela densidade do Chakra, Hinata pudera deter o choque hemorrágico, e assim fazer seu coração voltar a bater em ritmo sinusal. Agora que via-se deitado no sofá de couro de sua sala, Naruto percebe em seu braço esquerdo uma intravenosa e ao seu lado um suporte com três sacos de fluídos, em seu braço direito, outra intravenosa o conectava a uma bolsa de sangue, enquanto sua cabeça repousava no colo de sua amada garota; o relógio de parede marcava cinco da tarde, significando que estivera inconsciente por muito tempo, e somando isso ao rosto cansado e os olhos inchados da adormecida Hinata, ele soube que preocupara-a.

Quando pensa em levantar-se, sente a presença dos outros dois, que por ainda estar desorientado, não vira que mediam seus sinais vitais e ajustavam os cateteres conectados a ele; seus rostos também estavam preocupados e tão sérios como o Uzumaki jamais vira.

— O que…? — Queria perguntar o que ocorrera, mas sua voz ainda era fraca e o gosto de sangue em sua boca era asqueroso.

— Aqui, gargareja com isso, bem devagar. — Instruindo-o em voz baixa, Sai aproxima um canudo de seus lábios, e logo aproxima uma pequena vasilha estéril — Pode cuspir.

— Não pode se mexer ainda, e pode ser doloroso tentar. — Shikamaru diz-lhe, anotando algo em uma prancheta — A Hina dormiu faz pouco tempo, ela está exausta, e só por que prometemos ficar de olho em você, então seja um bom paciente e colabora!

— Um isotônico de cristaloides já terminou, faltam dois. — Sai informa, já retirando o saco vazio do suporte e conectando o seguinte ao cateter — Pensa positivo, ao menos você está sendo tratado no conforto do colo da sua namorada, outros não têm essa sorte toda!

A forma de animar de Sai era tão inusitada e fora de lugar, que Naruto quase gargalhara, quase, se não fosse pela dor descomunal em seu diafragma, como Shikamaru dissera; suspirando alto, ele tentara erguer uma mão para acariciar o rosto de Hinata, mas até mesmo esse simples movimento, era doloroso. Antes que ele possa tentar perguntar outra vez o que ocorrera, a porta da sala fora aberta, e em seguida o Hokage, Kakashi, Sakumo e Yamato passam por ela; as expressões sérias e os olhos sombrios preocuparam Naruto, que quase tentara levantar-se outra vez, quando percebe que aqueles olhares angustiados e assustados estavam fixados nele e antes que possa tratar de apaziguá-los, outras três pessoas invadem seu local de trabalho.

— Shikamaru, onde está o Naruto? — Afoito, Neji pede ao Nara.

Da porta não era possível vê-lo deitado no sofá, mas antes que os outros dois também desatem a fazer perguntas, Shikamaru faz-lhes um sinal de silêncio e aponta para o lugar onde seus Tenentes encontravam-se; é quando Hizashi, Neji e Hiashi — este último um pouco desajeitado — notam os outros quatro que chegaram primeiro, todos encarando o móvel que servira como cama hospitalar no momento. Os Hyuuga’s juntam-se aos outros recém chegados, e avistam Hinata escorada em uma das guardas profundamente adormecida, com muitas almofadas às suas costas, enquanto seu colo e seu pequeno corpo serviam de travesseiro ao Uzumaki; este último com uma aparência doentia exageradamente impropria dele, causando espanto, além é claro, do cheiro e das numerosas flanelas estéreis amontoadas num canto, impregnadas de sangue.

— O que aconteceu? — Como superior imediato dos quatro, além de ser o responsável por permitir a entrada dos Hyuuga’s naquele local, Yamato é quem questiona.

— Mendokusē. — Xingando baixinho, Shikamaru suspira antes de explicar.

Pela hierarquia, estava há mais tempo na ANBU que Sai, e na ausência ou incapacidade de seus superiores como era o caso, cabia a ele relatar os fatos; tampouco poderia se fazer de dormido e confiar na capacidade distorcida de comunicação de Sai.

— A Tenente poderá fazer melhor, mas de acordo com o que sabemos até agora, a anulação do selo amaldiçoado dos Hyuuga’s deveria ser executada por ao menos cinco pessoas que abundem Chakra. — O Nara tenta soar respeitoso e revelar suas deduções de modo que os outros pudessem compreender a situação geral — É um Fuinjutsu que exige uma sobrecarga física de alto risco ao agente de selamento, causa danos severos e pode deixar sequelas.

— Qual a situação atual? — Preocupado, Yamato foca seus olhos em Naruto.

— A Tenente reverteu o quadro de choque hemorrágico a tempo, o sistema circulatório foi completamente restaurado e as paradas cardíacas sessaram, apenas a recuperação da musculatura será algo lenta. — Shikamaru sabia que Neji poderia acabar sentindo-se mal, mas tinha de dizer a verdade — Em resumo, é um Fuinjutsu que cobra vida, e, portanto, vamos catalogá-lo como um Fuinjutsu Proibido.

— O quê?! — Espantado, Hizashi não consegue conter-se e intromete-se.

Preocupado, Shikamaru olha para Naruto, que concorda em revelar-lhes e então invoca dois de seus muitos pergaminhos e entrega-os ao amigo, aquilo era algo que mais cedo ou mais tarde teria de ser discutido, e melhor que fosse naquele momento, em que todos os que deveriam envolver-se estavam juntos; ainda temia o que aconteceria se fosse adiante, como quando recebera os pergaminhos do seu clã, que sua mãe deixara-lhe como herança, mas era necessário, logo seria de conhecimento público o que ocorrera ali naquela tarde.

— Como vocês devem saber, Naruto criou esse Fuinjutsu através do estudo e da pesquisa do Selamento Amaldiçoado do Pássaro Engaiolado imposto a ramificação secundária do clã Hyuuga. — Descontente com ter mais coisas para explicar, Shikamaru prossegue — Esse selamento foi originado e criado pelo clã Uzumaki de Uzushiogakure há algumas décadas, a pedido do conselho do clã Hyuuga, que temia que as constantes guerras e invasões pudessem arrebatar informações sobre seu Doujutsu, ao menos, segundo os relatos oficiais do próprio conselho Hyuuga.

— O que é isso? — Finalmente Hiruzen questiona, vendo um dos pergaminhos aberto.

Estava repleto de runas indecifráveis e escrituras antigas, completamente incompreensível.

— Herança... Okaa... — Essa simples frase entrecortada de Naruto, fora suficiente para todos entenderem.

— Este pergaminho foi passado a Uzumaki Kushina-sama por Uzumaki Ashina-sama, por intermédio de Uzumaki Mito-sama, após a queda de Uzushiogakure, provavelmente por ser a única descendente do clã original de quem sabia-se o paradeiro. — Shikamaru revela — Contém os verdadeiros registros sobre o selo amaldiçoado, assim como o motivo para sua criação e explicações detalhadas de como o Fuinjutsu funciona, e como podem ver, apenas membros legítimos do clã conseguem interpretá-lo.

— Então foi através deste pergaminho que você criou uma forma de reverter o selamento, Naruto? — Impressionado, Kakashi questiona.

Era impressionante e sem precedentes por que, diferente de seu pai, que estudara e aperfeiçoara técnicas e selamentos que já existiam, aquele garoto havia criado um novo Fuinjutsu, como os antigos membros do clã, nos tempos em que Uzushiogakure era tão grandiosa como Konoha.

— Essa é a diferença, o pergaminho de Uzushio relata e detalha apenas o Fuinjutsu usado na ramificação secundária dos Hyuuga’s, não existia uma forma de desfazê-lo. — Percebendo o estado nada favorável do Nara para continuar explicando, Sai toma a frente — Naruto criou um novo Fuinjutsu capaz de anular outros.

— E como podem ver, pelos danos severos causados ao usuário, será classificado como Proibido, é claro que isso só foi possível de catalogar, depois de podermos estudar os efeitos e as causas. — Inesperadamente, é a voz calma de Hinata que termina o informe.

Surpresos, todos viram-se para vê-la, encontrando-a bem desperta, mas o que impressionava desta vez em seu belo rosto, era o cansaço mais que evidente; e não somente Hinata, todos estavam absurdamente exaustos, e os últimos dias de infindáveis trabalhos, e a constante vigilância a que submeteram-se contribuíam enormemente para o esgotamento de todos os envolvidos naquela missão.

— Mas..., segundo o que disseram antes, há uma divergência de informação entre esse pergaminho e os registros do clã Hyuuga, ou estou enganado? — Receoso, sem saber se poderia falar algo ou não, Hiashi é quem ressalta esse detalhe.

Satisfeito por alguém finalmente perguntar a respeito daquele estranho relato, Naruto entrega mais um pergaminho a Shikamaru, desta vez o conteúdo seria legível e todos poderiam compreendê-lo em seguida; era chegado o momento de revelar o que havia descoberto.

— Como demonstrado até agora, Naruto teve que estudar muito os Fuinjutsus do seu clã, e precisamente esse selamento usado no clã Hyuuga, para poder chegar a uma fórmula capaz de equalizar e então, anulá-lo por completo. — Shikamaru explica, abrindo o terceiro pergaminho — Foi por essas investigações, que muitos registros antigos foram revisados e ele fez uma descoberta desagradável, para dizer o mínimo.

Ao lerem as informações contidas no pergaminho, todos os presentes sentiram um calafrio percorrê-los, a atmosfera torna-se sufocante e uma opressão desnorteadora tomara conta.

— Isso... — Sakumo tenta expressar suas dúvidas, mas teme dizer algo que agrave mais aquela situação.

— Sim, depois de alguns dias investigando, foi descoberto que os então conselheiros do clã Hyuuga, logo de obter a fórmula para o selo amaldiçoado, uniram-se a facção de Shimura Danzou, e foram os grandes responsáveis pela aniquilação de Uzushiogakure! — Apesar de saber o que sua declaração causaria, Hinata sentira que deveria ser ela a falar — Eles financiaram e instigaram os ataques cometidos por outras aldeias, até que o clã Uzumaki esteve quase extinto.

Aquela revelação tremendamente avassalante, além de impactar, representava a denúncia de um crime — já passado, contudo, ainda era um crime — era a exposição da corrupção que estivera enterrada nos muros de prosperidade de Konoha; não seria tão perturbador, caso fosse outra Vila, no entanto, Konohagakure orgulhava-se de, ainda nos dias atuais ostentar o símbolo da amizade com Uzushiogakure em seus uniformes. E agora que essa grande traição fora escancarada, que impacto teria para as alianças que a Vila ainda mantinha? Que seria das alianças futuras? Como a história trataria àquele incidente? Todas essas questões eram importantes, mas havia algo ainda mais sério a considerar.

— Naruto, o que pretende fazer a respeito? — Envergonhado, Hiruzen pede.

Como um dos últimos descendentes daquele grande clã, o Uzumaki fora um dos atingidos pelas consequências dos atos passados, e, portanto, seria sua a palavra final.

— A dissolução do conselho Hyuuga, a grande maioria dos conselheiros mais velhos de hoje, eram jovens recém nomeados que participaram dessa conspiração há época, quero que essas pessoas paguem por isso! — Por fim podendo falar outra vez, ainda que sua voz soasse arrastada, Naruto revela sua intenção — Vão encontrar uma lista de nomes, e todos os detalhes da investigação, as provas, tudo nesses pergaminhos.

— Tomarei providências à respeito! — Sério, Hiruzen inclina-se diante do Uzumaki, para surpresa dos demais.

Logo, Hizashi, Hiashi e Neji fazem o mesmo, estavam assustados e abalados com aquela descoberta, mas haviam compreendido a atitude do Sandaime; seu clã fora responsável pelo extermínio de pessoas inocentes, e muitas delas provavelmente, pertenciam à família materna daquele rapaz que agora fitava-os pacificamente. Era justo que Naruto exigisse que todos os implicados pagassem por seus crimes, seria justo que ele também os odiasse e ressentisse, afinal, foram Hyuuga’s com quem compartiam laços sanguíneos que destruíram a chance que o Uzumaki tinha de ter de alguma forma, uma família; talvez, se não houvesse ocorrido aquela tragédia, quando seus pais foram mortos ao defender a Vila, Naruto poderia ter sido entregue à sua família materna em Uzushiogakure e teria tido uma vida, uma infância muito melhor.

No entanto, o destino poderia ser um tanto gracioso às vezes, Naruto não só não os ressentira, como também dera seu coração a uma Hyuuga, descendente direta das mesmas pessoas que cometeram tal atrocidade; ou, também poderiam dizer que esse desfecho “tranquilo”, era o resultado da infinita bondade do Uzumaki, assim como sua absurda racionalidade, e a capacidade de ver tudo para além das vendas das emoções.

— Hina, vamos para casa. — Erguendo-se sem ouvir seus protestos, Naruto retira ele mesmo, os cateteres de seus braços, e então segura Hinata pela mão — Vejo vocês depois!

Antes que os outros possam dizer-lhe algo, a dupla some de suas vistas num Shunshin, ninguém teve coragem de falar algo após sua partida, em seu lugar, todos os presentes passaram a estudar todo o material deixado pelo Uzumaki; seus dois pupilos encarregaram-se de catalogar o novo Fuinjutsu, enquanto iam preenchendo as lacunas nas explicações e inteirando os mais velhos de como Naruto chegara a criar aquele selo, e como investigara o passado e o final trágico de seu clã.

***

Na cabana, já era manhã outra vez, e como sempre, naquele mundo encantado, a parte dos problemas e dos perigos que se avizinhavam, a paz reinava absoluta; pássaros cantavam alegremente, e o vento fresco da manhã criava uma melodia calmante, ao farfalhar as folhas verdes das árvores, era quase fim do verão, mas diferente do calor sufocante da Vila, ali parecia ainda ser primavera. Diferente da calmaria exterior, no interior da cabana, uma tarefa esteve sendo executada ferozmente desde a madrugada anterior, quem a visse a encontraria monótona e repetitiva, mas para a garota que movia suas mãos e braços com delicadeza e cuidado, impregnando de carinho cada pequeno ponto, era de suma importância; talvez, mais do que qualquer um, Hinata estava muito consciente de que estavam chegando ao final do verão, e por isso mesmo estava a trabalhar dedicadamente em uma das tarefas que considerava mais importante do ano.

Já era o segundo dia de folga que ganharam, merecidamente, e seu segundo dia de produção, estivera atrasada e agora tentava repor o tempo perdido ao trabalhar antes do amanhecer, ou melhor, antes que Naruto despertasse, o que com sorte e graças ao cansaço físico e emocional do rapaz, ocorreria um pouco passado das dez; na manhã anterior, ele despertara antes, por sentir sua falta na cama e fora buscá-la, obrigando-a a abandonar o trabalho antes de cumprir a meta do dia, por isso, a Hyuuga arriscara e trouxera-o escondido para o quarto na noite passada, para que sua ausência não despertasse o namorado antes da hora, e assim, pudesse ter um pouco mais de tempo. Seu prazo era de cerca de um mês, e apesar de a escolha daquele ano ter sido algo muito mais elaborado e que normalmente sua confecção tomaria muito mais tempo, Hinata sentia-se confiante, ela conseguiria fazê-lo; infelizmente, naquela manhã, talvez por estar mais descansado ou por pressentir sua agitação ao seu lado, Naruto despertara abruptamente, pegando-a de surpresa e ela não tivera tempo de esconder devidamente o cardigã que tecia.

— O que está fazendo, namorada? — Rouco e sonolento, Naruto escora a cabeça em seu ombro, sobressaltando-a.

— Hic... Naruto! Não me assuste assim! — Tentando aparentar normalidade, Hinata pensa no que dizer — Estou fazendo umas meias de frio para a Nabi.

— É assim? Não parece um pouco grande? — Não acreditando nem um pouco, Naruto insiste.

— É de propósito, sabe, crianças crescem rápido e quero que dure alguns anos. — Hinata fora habilidosa em sua desculpa, pensara engenhosamente rápido.

O único problema fora que Hinata não sabia mentir, ou melhor, não sabia mentir para Naruto, assim que ele imediatamente descobrira, mas como ela parecia-lhe desesperada por ocultar o que era, o Uzumaki decidira fazer-se de desentendido por enquanto; em lugar de seguir perguntando, abraçara Hinata pela cintura com um braço e puxara-a para deitar-se ao seu lado, enquanto tomava-lhe as agulhas, a peça, e o novelo com a outra mão, deixando-os a um lado.

— Naruto! — Ralhando sem muita convicção, Hinata deixa-se levar.

— Estou carente da minha namorada, Hina. — Ele logo ataca-a com seus olhos de cachorro perdido, sabendo que venceria — Tenho te dividido com tanta gente, vamos ficar assim um pouco.

Estiveram tão ocupados, tão preocupados e cheios de trabalho desde o início dos Exames Chunin, talvez até antes disso, que a última vez que puderam ter um momento de preguiça e ser apenas um casal, fora durante início do namoro; e agora, quase quatro meses depois, enfim chegariam ao ponto de partida.

***

Distante dali, a leste da clareira, Kakashi caminha a passos lentos, extremamente cansado depois de uma manhã estressante com seu orgulhoso e inconsequente aluno; havia deixado Sasuke no Campo de Treinamento n.º10 com um pequeno desafio, capaz de mantê-lo entretido por boas horas, e de ensiná-lo a não ser tão afoito e pensar bem antes de agir. Agora liberto, o Hatake ia em direção à clareira, para entregar o resultado final das investigações de Konoha iniciadas três dias antes, bem como as punições e as penas dos envolvidos; o Sandaime lhe havia encarregado diretamente desta tarefa, e Kakashi agradecia imensamente pela folga, desde o final da terceira etapa dos exames estivera trabalhando incansavelmente com o Uchiha, de modo que agora inclusive ele, conhecido pela gigantesca paciência, estava atingindo o limite de suas capacidades.

Foi durante sua caminhada desanimada, como um velho de oitenta, que Kakashi vira um cenário que chamou-lhe a atenção, tanto pela mudança brusca da paisagem da floresta a sua volta, quanto pelas possibilidades nada venturosas que surgiram em sua mente ao ver tal destruição; seu único olho visível arregalou-se diante da inusitada visão, árvores frondosas caídas e despedaçadas, o solo com pequenas crateras e algumas persistentes nuvens de poeira causadas pelo estrago. Pensando tratar-se de um lugar onde ocorrera alguma disputa ou algo que necessitasse de uma breve investigação, dado o eminente confronto pelo qual Konoha passaria a futuro, o ex-ANBU desvia-se de sua rota e analisa o local com cautela, busca em seus equipamentos uma arma para defender-se; estava a ponto de concluir sua inspeção, quando descobre a razão.

— Que surpresa. — Sentando-se ao seu lado, à sombra de uma das árvores que resistiram, Kakashi observa a garota dormir com um grosso livro aberto sobre o peito.

Sakura estava dormindo tranquilamente ao ar livre, seu rosto sereno, seus braços e mãos, e inclusive suas pernas estavam repletos de arranhões e alguns pequenos cortes, seu uniforme sujo de terra e havia folhas e um que outro graveto emaranhado em seus cabelos; ao vê-la, o Hatake concluíra que a garota estivera trabalhando duro sozinha, durante os dois dias de folga de Hinata, e sorrira ao constatar a evolução de ao menos um de seus alunos. Pensando em reprochá-la mais tarde, por estar sozinha na floresta nesses tempos perigosos, Kakashi permanece ao seu lado, como que velando por seu sono um bom tempo; aproveitara para ler outra vez seu velho e surrado livro, enquanto também tomava um breve descanso.

A Haruno não demorara a despertar, talvez pelo aumento de temperatura próximo ao meio-dia, ou pela fome descomunal após gastar tanta energia, seus olhos abriram-se cheios de preguiça; havia sido uma árdua manhã, mas muito proveitosa e gratificante para ela, que conseguira atingir outra meta. Sem notar ainda que não estava só, a garota passa a massagear os músculos doloridos de seus braços e pernas, para logo espreguiçar-se e aprumar-se para ir até a Vila por algo de comer; ela ria e cantarolava satisfeita, planejando o que faria pela tarde, alheia a Kakashi ao seu lado.

— Você não devia dormir sozinha no meio da floresta, Sakura. — Finalmente, ao perceber que ela não notara-o, Kakashi denuncia-se.

— Hic...! — Pega desprevenida, Sakura grita e salta para trás — Aiai!

Tamanho fora seu susto, que a garota batera a cabeça na árvore que usara como abrigo antes, causando um barulho impressionante e uma chuva de folhas com a força do baque; ela lacrimejava e massageava a cabeça, encolhida o mais longe possível, quando reconhece seu sensei.

— Deixe ver. — Kakashi larga seu livro, e passa a examinar por entre os cabelos dela, em busca de um corte — Começou a inchar, mas por sorte não tem sangue, vai ter que descansar por hoje!

— Tá tudo bem, sensei, é só uma batida pequena. — Sakura responde, tensa com a proximidade de Kakashi.

Estava suada e suja, tinha vergonha de estar com mau odor, ainda mais quando a pessoa que estava examinando-a era seu sensei, conhecido por ter um sentido do olfato tão bom quanto o clã Inuzuka; apesar de não ser a Sakura vaidosíssima de antes, ainda era uma garota que presava por uma aparência digna, e ao menos, estar respeitavelmente limpa fazia parte disso.

— Então, o que me diz dessa sua irresponsável ideia de dormir aqui, no meio do nada? — Kakashi volta a ralhar-lhe, demonstrando como estava bravo, mas não afasta-se dela, todavia, pelo contrário, continua próximo e passa a retirar as folhas e gravetos de seus cabelos.

Queria ter feito isso antes, mas não encontrara decente, mexer em uma garota enquanto dormia, mesmo que fosse somente em seus cabelos.

— Desculpa, eu não pretendia dormir, sentei um pouco para ler o livro e pequei no sono. — Incapaz de fugir da bronca, Sakura admite logo.

— E ainda veio treinar sozinha, mesmo ciente do que acontece na Vila! — Mas o Hatake não parecia estar satisfeito ainda.

— Eu tive cuidado quando escolhi o lugar, e já não sou mais tão fracote, posso me virar bem contra outros Genins, e saberia... — Sakura retruca deste vez, irritara-se com a contínua reprimenda.

— Não existem apenas Shinobis no mundo, Sakura! — Kakashi a interrompe, decidido a por algum juízo em sua cabeça — Também existem pessoas maliciosas, e se não fosse eu quem tivesse te encontrado? E se fosse algum depravado? Você sequer se dá conta de que é uma garota?!

De olhos muito arregalados, Sakura finalmente compreende a preocupação de Kakashi, e o motivo para tratá-lo como uma criança imprudente, antes de ser uma Kunoichi, ela ainda era uma garota que mal cumpriria quatorze anos dentro de alguns meses, e mesmo que tornara-se um pouco mais forte agora, ainda era instável e inexperiente; atualmente, poderia vencer alguns Genins, e com algo de planejamento, Chunins inexpertos, mas o que faria contra um homem adulto com más intenções? Poderia defender-se, se um grupo de aliciadores a tivesse encontrado?

— Desculpe, não vou mais fazer isso. — Cabisbaixa, Sakura murmura.

— Se entendeu, está bem; agora vem, vamos encontrar um lugar para almoçar. — De volta a sua costumeira tranquilidade, Kakashi fica satisfeito.

O Hatake a puxa com facilidade do chão, inconscientemente demonstrando a Sakura, como ela sequer poderia resistir, se pega desprevenida em uma situação de perigo, e agora um pouco amuada, a garota caminha em silêncio ao lado de seu sensei; quando chegam a uma pequena casa de chá a beira dos limites da Vila, ela volta a sentir-se desconfortável por seu estado. Notando seu incomodo, Kakashi sugere uma mesinha do lado de fora, onde também seria mais tranquilo e fresco, além de não ser tão concorrido e abarrotado; assim que senta-se a mesa, Sakura esmorece, suas pernas estavam trêmulas e uma fraqueza absurda tomava conta de seu corpo, de modo que até respirar era cansativo. A garota nem conseguia ouvir direito o que o Hatake estava conversando com o meseiro, seus ouvidos zuniam e sua visão enchia-se de pouco em pouco com milhares de pontinhos pretos; quando suas mãos e seus lábios começaram a formigar gélidos, Sakura teve medo do que quer que fosse, que estava passando-lhe.

— Tome isso devagar, vai repor um pouco da sua glicose. — Ela ouve a voz tranquila de Kakashi próxima.

Surpreendera-se quando sentira as bordas de um copo encostar em seus lábios, então um líquido doce e refrescante descera por sua garganta, parecia uma expeça mistura de frutas, agradável e apetitosa.

— Obrigada. — Sakura agradece, sentindo aquela péssima sensação dissipando-se.

— Você deveria saber que mesmo agora, usar demasiado Chakra estando exausta é perigoso. — Kakashi acaba ralhando com a garota outra vez.

— Eu sei, acho que ainda não consigo mesurar adequadamente o que uso e minhas reservas. — Ela responde, ainda mantendo os olhos fechados e a cabeça escorada na mesa.

— Bem, se você sabe onde está a falha, basta corrigir. — O sensei aconselha — E também tem que descansar direito a partir de agora.

Sakura queria dizer-lhe que faria isso, mas lhe dava desgana alegar o óbvio, e então, depois de assentir em concordância a Kakashi, que questionara se poderia pedir pelos dois, a Haruno simplesmente permanecera em silêncio, recuperando-se e bebericando vez que outra a deliciosa batida; estava entretida observando o movimento do lugar, vendo as pessoas entrando e saindo da pequena tenda, o meseiro recolhendo pratos e servindo os clientes, quando uma comoção inusitada captara sua atenção e curiosidade.

— Kakashi-Kyun! — Abruptamente, o Hatake é literalmente agarrado por uma mulher fazendo voz de criança.

Pasma, Sakura arregala os olhos e ergue o rosto da mesa, endireitando-se de golpe na cadeira, e quase caindo em consequência; a garota permanecera aparvalhada, durante todo o tempo em que durara aquele assalto. Ela via seu sensei enfezando suas expressões, enquanto empurrava e tentava desvencilhar-se da mulher, que seguidamente voltava a agarrá-lo sem a menor cerimônia; e Sakura sentiu-se absurdamente constrangida, quando num instante daquela estranha luta, Kakashi tivera seu rosto agarrado fortemente, e logo a mulher abraçara-o impetuosamente, enterrando sua face em seu peito como se fosse sufocá-lo.

— Nunca mais faça isso, Kaori-san! — Irritadíssimo, Kakashi sibila a ordem, depois de conseguir finalmente livrar-se dela.

Ouvindo seu nome, Sakura pensa como combina com ela, uma mulher de rosto formoso e curvas sensuais como jamais vira, parecia muito segura de si e tinha uma atitude altiva, exatamente como se soubesse que poderia pôr a qualquer um aos seus pés; tinha um cabelo belissimamente sedoso e comprido, e os olhos tão roxos quanto uma pedra ametista.

— Espero que os meus fiquem assim também. — Murmurando enfeitiçada, Sakura apalpa os próprios seios involuntariamente, desejando ferventemente ter um par como aqueles.

— O que disse? — Envergonhado por permitir que sua aluna visse uma cena daquelas, Kakashi vira-se para Sakura.

— Que dia quente, né... hehe... — Sakura desconversa, rindo nervosa e baixando as mãos de supetão.

A Haruno vira o rosto inibida, temendo ter sido ouvida, e decide fingir ler seu livro outra vez, para dar-lhes espaço, e vez ou outra fitava-os de esguelha, e a cada olhadela, seu sensei parecia mais furioso; por fim, a mulher chamada Kaori gira em seus calcanhares e sai dali irritadíssima.

— Desculpe por isso. — Assim que estão sós, Kakashi ergue-se e então inclina-se diante de Sakura.

— Kakashi-sensei não devia se desculpar. — Sakura responde sorrindo — Eu entendo completamente, os adultos têm vida além de ser nossos senseis, e talvez fosse melhor ir atrás da sua namorada.

— Eu não tenho namorada, Sakura! Kaori-san é uma conhecida do meu tempo de Academia, ela e o irmão são os donos desse lugar. — Imediatamente, Kakashi começa a dar explicações, não querendo ser mal-entendido — Sempre foi muito ousada, Kurenai e Asuma tiveram muitas brigas por causa desse jeito dela.

— Wou, isso, sim, que é personalidade forte! — Sakura comenta, recordando todo o potencial daquela mulher, então seu rosto revela uma expressão de lástima — Mas sensei, se você não se apressar, vai virar um solteirão, pelo que sei, somente você e Gai-sensei continuam solteiros; pelo menos da sua época. Até Naruto e Hinata ganharam de vocês neste ponto!

— Para sua informação, Haruno, eu sou um partido muito popular na Vila, e ainda estou no auge dos meus vinte um anos! — Incomodado com a forma como era visto com pena, Kakashi passa a vangloriar-se embaraçosamente — Os outros é que são precoces e não sabem aproveitar a vida, estar solteiro e ser sozinho são coisas diferentes!

Imediatamente se arrepende de ter dito aquilo a uma adolescente, agira por impulso por não queres ser chamado de velho.

— Bem, então aproveite que é popular e case logo, quando ficar mais velho, pode ser que esse encanto acabe. — Debochada, Sakura provoca sorrindo grande, fazendo o Hatake entender que era brincadeira.

Lógico que não estava falando sério, somente fazia aquilo para que Kakashi deixasse de sentir-se mal, de se desculpar e dar explicações sobre o ocorrido como se tivesse cometido um crime; já havia ouvido alguns mexericos a respeito de seu sensei, de como ele era todo um conquistador, e quando ele fora designado como o responsável pelo seu time, supusera que algo assim poderia suceder, sem falar que não era nenhuma criancinha para não entender o que havia ali. Quando o meseiro traz seu pedido, Sakura esquece todo o resto, concentrando-se na comida deliciosa a sua frente, devorando tudo sem torcer o nariz para nada; havia notado como seu apetite aumentara ultimamente e se tivesse analisado detidamente este seu novo comportamento, teria ficado acanhada, mas isso só viria a incomodá-la alguns anos depois.

— Deixe que eu pago. — Kakashi dispensa, quando ela faz menção de pagar a sua parte, e quando a garota ia protestar, acrescenta — É um prêmio pelo teu esforço e bom desempenho!

Contente, ao estar bem alimentada e ter sido reconhecida, Sakura concorda sorrindo e enquanto esperava o retorno de Kakashi, repara o quanto estava sendo fácil e divertida a convivência com os demais, e como ela sorria e sentia-se feliz com facilidade agora; e tudo por ter tido coragem de mudar, agora entendia como somente ela poderia ser responsável por sua felicidade, ninguém mais.

— Agora, vá para casa e descanse até que Hinata retome as suas aulas! — Kakashi ordena-lhe nem bem retorna, talvez por que adivinhara que a garota iria continuar o que deixara pela manhã.

— Mas já estou bem, sensei, e minha cabeça nem dói. — É claro que ela protesta em seguida.

— Sakura, você quer que Sakumo fique sabendo que anda saindo da Vila sozinha? — A persuasão sempre havia sido seu forte.

— Obrigada pelo almoço, Kakashi-sensei, pode deixar que eu vou juntar meu salário pelos próximos vinte anos, e assim vou poder te dar uma gorda mesada de casamento como agradecimento! — Sem querer sair perdendo, Sakura alfineta e sai correndo e gargalhando.

— Garota insolente. — Divertido com sua brincadeira, Kakashi fica vigiando-a até sumir de vista.

Queria ter certeza que ela não seria imprudente e voltaria, então esperara um tempo antes de retomar o caminho que interrompera naquela manhã, e durante o caminho até a cabana o Hatake rira dos absurdos que Sakura dissera-lhe, impressionado com o quanto sua real personalidade poderia ser agradável; ao despontar no final da desgastada trilha por entre os choupos, Kakashi sente a presença de mais uma pessoa que seguia em sua mesma direção, mas sequer detém seus passos.

— Yoh, quanto tempo? — Kakashi saúda o rapaz que agora caminha ao seu lado.

— Realmente, faz um bom tempo, Kakashi. — Itachi responde.

— Suponho que eles acharam por bem te chamar. — Kakashi especula.

— Bem, por como estão as coisas agora, eu não teria feito diferente, mas creio que serei uma peça incógnita no momento. — Itachi comenta, acompanhando o outro com a mesma calma.

— É, vai ser complicado. — Suspirando alto, o sensei para a observar o quadro a sua frente.

A frente da cabana, Konohamaru e Hanabi brincavam juntos, empinando uma enorme pipa vermelha de carpa, enquanto próximos aos dois, Naruto e Hinata estavam descansando em uma bonita toalha quadriculada estendida pelo gramado; os dois pareciam estar lendo algo, o Uzumaki com a cabeça escorada no colo da Hyuuga, que cantarolava uma melodia, e ia mexendo suavemente nos cabelos dele. Aquela imagem dos dois sendo apenas adolescentes, era tão feliz e melancólica para Kakashi e Itachi, que ambos não tiveram coragem de mover-se por alguns minutos, não querendo quebrar aquele sossego encantado; sabiam que aquele quadro de felicidade pura e genuína não poderia durar para sempre, não em seu mundo de perdas constantes, onde a linha entre harmonia e caos era quase inexistente. Naquele lugar indescritivelmente belo e tranquilo, a sombra da morte rondava ansiosa, aguardando um mero descuido, para satisfazer sua fome infinita, observando as vidas de suas presas com olhos de avareza; naquele jogo perigoso, o Hatake e o Uchiha já sabiam que nunca se ganha por inteiro, para manter-se jogando, sempre perde-se algo em troca.