Notas iniciais
Agradecimentos á Iachiro e Nephélibate.

Neliel subiu no cavalo de madrugada, quando todos estavam dormindo. Sentia que as sombras da noite iriam cobrir seus rastros, ou pelo menos assim esperava. Não queria que todos soubessem de sua saída e por um segundo se sentiu culpada por deixar todos assim preocupados. Mas Rangiku Matsumoto fizera isso. E, pela primeira vez, Nell entendia o porquê. Era muito mais fácil simplesmente sumir — sem despedidas, sem lágrimas. Só você, seu cavalo e a noite infinita quase sem estrelas. Fugas eram emocionantes.

O motivo daquilo tudo não fora Grimmjow, claro. Neliel nem sentia raiva dele, na verdade. Só pena. Grimmjow fora criado em um ambiente doentio e assim era: doente. Como ela poderia sentir raiva de alguém que fizera as coisas em razão de sua doença? Como poderia cobrar respeito de alguém que fora desrespeitado e corrompido pelo próprio pai a vida inteira? Não, Neliel não podia sentir raiva de Grimmjow — embora um monstrinho sussurrasse coisas em seu ouvido e destruísse e corrompesse seu coração toda vez que ela pensava nisso.

Estava na estrada não porque estava fugindo de algo, mas porque decidira enfrentar algo. Neliel tinha um objetivo. Parara de ignorar e finalmente aceitara que tinha uma doença mental. Iria se internar em um hospital psiquiátrico e faria isso sozinha.

Pensou ver Matsumoto Rangiku com o canto do olho. Mas, quando fixou o olhar, ela não estava mais lá. Talvez fosse apenas o escuro — ou, mais provavelmente, sua mente lhe pregando peças.

///

Ichigo sentiu que sua mão se esfarelava e voava com o vento. Que percorria planícies e chegava ao topo de montanhas, tocava a neve e também as folhas das copas das árvores. Imaginou se Deus se sentia assim — onipresente.

De repente, sentiu que sua consciência foi chamada a outro lugar. Percorreu o tempo e se viu recém nascido, junto com sua mãe e seu pai. Depois, viu gigantes poderosos na Babilônia. Viu o dilúvio destruir todos, ondas maiores do que estes homens maiores que toda a gente.

Neplhilim. Nephilim. Nephilim.

Viu anjos no céu, rugindo a palavra. Viu seres celestes caindo, como estrelas. Fogo, sangue e desejo. Mas, quando as imagens mudaram para sua mãe correndo na chuva, grávida, viu amor também. Seu pai riu, a beijou na testa e correu com ela para dentro de casa.

Ichigo mergulhou o rosto na água gelada. Em vez de enxergar um fundo, viu o reflexo de uma outra pessoa — a mesma mulher do outro sonho. O anjo de gelo.

— Sou Sode No Shirayuki — A mulher alada falou, os lábios soltando um milhão de bolhas, que estouravam antes de chegar a Ichigo. Mas a voz da mulher, apesar de tudo, soava clara como a água em que Ichigo mergulhava a cabeça. — Fui amiga de sua mãe.

Ichigo tentou falar algo, mas quando abriu sua boca, a água invadiu seus pulmões e ele foi obrigado a fechá-la. Bolhas irrompiam de seus lábios e de seu nariz. Os cabelos ruivos flutuavam e se espalhavam, como se estivessem vivos.

— O Céu não quer te ajudar, por você ser filho de quem é — ela disse, e os olhos de um azul gelado estavam quentes. — Estou tentando convencê-los, mas tudo depende, no final das contas, de Miguel.

E Deus?, Ichigo quis perguntar, mas ficou calado. Não conseguiria falar nada legível, de qualquer forma.

— Sobreviva, por favor — Uma lágrima de Sode No Shirayuki escorreu por seu rosto e caiu na água, fazendo com que seu reflexo ficasse turvo. — Por Masaki.

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Os outros ouviram Ichigo atentamente. Yoruichi balançava a cabeça de tempos em tempos, comentando e esclarecendo certas partes do sonho. Ichigo se sentia nervoso, ao mesmo tempo com medo e com esperança. Estavam todos na biblioteca — Byakuya, Rukia, Yoruichi, Urahara e Ishida — e pareciam olhar para ele como se o julgassem. O cheiro dos livros que ele tanto amou era acre naquele momento. E a biblioteca, que Tatsuki acabara de limpar, parecia poeirenta e suja.

— Eu já esperava por isso — disse Yoruichi, quando Ichigo terminou o relato. — Eles não vão nos ajudar.

— Mas Sode No Shirayuki disse... — Ichigo replicou, mas foi interrompido.

— Sode No Shirayuki não vale de nada — rebateu Yoruichi, os olhos afiados e um pouco cruéis. — O Céu todo está contra nós.

Ichigo abaixou a cabeça. Suas esperanças foram reduzidas a pó, mas ele estava conformado. Se tivesse que fazer aquilo sozinho, Ichigo faria. Tinha que ser forte. Tinha que ser forte para todos — para o mundo, para seu pai e suas irmãs e também para Rukia.

A princesa saiu rápido do recinto, e Ichigo pôde ver por uma fração de segundo que ela chorava. Byakuya fez questão de correr atrás dela, mas Ichigo o impediu com um gesto de mão.

— Você não sabe como é — ele afirmou, os olhos cintilando.

Correu atrás dela, mas não a encontrou em lugar nenhum. Percorreu os corredores, chamou-a pelo primeiro nome. Começou a pensar no quanto estava abandonado e a deriva — pensou que Deus o tinha abandonado. Prendeu um soluço na garganta, mas se recusou a chorar. Isso não iria ajudá-lo.

Rukia, do outro lado do castelo, apertou os passos. Os sapatos faziam barulho no piso. Temia que alguém a encontrasse. Não queria que ninguém a encontrasse. Estava desistindo e se sentia egoísta por isso. Não era corajosa como Ichigo.

— Rukia, o que está acontecendo?

Rukia fungou, levantou os ombros como se pudesse esconder-se, e limpou as lágrimas e o nariz com os cantos das mãos. Ela conhecia essa voz.

— Rukia? — Toushiro a chamou novamente.

Ele sabia do mundo sobrenatural. Mas não sabia que sua vida dependia da irmã postiça que estava prestes a desistir. E não seria justo estragar ainda mais a vida de Hitsugaya contando-lhe isso. Seria cruel tirar-lhe a benção da ignorância.

Ela virou, olhando para Toushiro. Abriu um sorriso dolorido. Lembrou-se de quando ele era pequeno e energético e inteligente e criativo e inocente e ingênuo. E lembrou-se do massacre que havia tirado tudo isso dele.

— O que está acontecendo, Rukia?

Ela prendeu um soluço na garganta.

— Nada. Só estou estressada e um pouco triste.

— Por quê? O que aconteceu?

Ela segurou as lágrimas.

— Não conte para ninguém que eu te contei.

Ele fez que sim com a cabeça. Parecia preocupado e um pouco aterrorizado.

Rukia se aproximou dele um passo, como se fosse sussurrar em seu ouvido.

— Acho que eu tenho histeria.

Eu vou morrer. Eu vou morrer. Eu não quero morrer. Sou fraca. Estou sozinha. Estou desistindo.

— Mas então você precisa se tratar, Rukia.

Ela balançou a cabeça. Histeria era uma doença que cobria tudo que pudesse sentir: medo, tristeza, raiva. Era a mentira perfeita.

— Me trato quando estiver pronta. — As pupilas de Hitsugaya, e suas íris turquesas, se moveram. — Certo?

Ele assentiu. Rukia o abraçou.

— Nosso segredo. Só nosso.

E saiu pelo corredor.

///

Uma mulher de cabelo cor de palha dedicava-se a olhar para seus dedos finos, que não combinavam com o resto do corpo. Ela os mexia e balbuciava alguma coisa, como se houvesse mágica ali. Havia um garoto que fazia barulhos estranhos com a boca, como se fosse um bebê ou como se tivesse uma mordaça que o impedia de falar. E também havia um homem idoso dormindo com a boca aberta, e uma mosca que pousava em sua língua e explorava seu nariz cheio de pelos.

A apresentação do hospital psiquiátrico havia sido ótima — a atendente mostrara um quarto muito decente e pacientes pintando.

— Tentamos mostrar que eles são muito mais que as doenças mentais — a enfermeira dissera. — Veja como são talentosos!

Se não fosse por isso, Neliel não iria se internar naquele hospital psiquiátrico. Os pacientes pareciam estar sendo bem-cuidados, pareciam estar se curando. Neliel conseguiu os enxergar como possíveis amigos. Até se animou com aquela ideia. Amigos de hospício, pensava e ria. Compartilhariam as alucinações e os remédios.

Mas a enfermeira deixara de acrescentar que aquele tratamento era só para os que tinham dinheiro.

Para os pobres, o que sobrava eram lençóis com cheiro de mijo, roupas precárias e sujas. Em vez de passear nos lindos jardins do hospício, eles viviam aprisionados naquelas paredes e em suas próprias mentes, o escuro e a loucura os engolindo cada vez mais.

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Rukia pegou Sebastian do estábulo e cavalgou. Precisava espairecer, renovar as ideias. Passou pelo manso senhorial, cavalgou até onde os agricultores trabalhavam, sempre contornando de bem perto a Floresta Proibida. Antes, custava passar perto daquele lugar — agora, não tinha mais medo. O vento batia em seu rosto, soltando os cabelos negros.

Pela primeira vez hoje, pensou na ausência de Neliel. Ela não aparecera a manhã inteira. Onde será que estava? De qualquer modo, era até melhor para as duas. Rukia precisava deste tempo sozinha e Neliel precisava sair um pouco do castelo. Já estava na hora de ela arranjar uma vida — talvez casar e constituir uma família.

Rukia cavalgou até seu corpo doer e o vento secar suas lágrimas. Deixou Sebastian no estábulo novamente, agradecendo e fazendo carinho em seu focinho, e foi até o campo onde Ichigo e ela já haviam treinado.

O dia estava claro, com algumas poucas nuvens. Yoruichi e Ichigo e Urahara estavam treinando e conversando. O vento balançava suas roupas e cabelos. Era um vento gelado, mas bom. Uma coisa refrescante, que limpava sua mente.

— O que vocês estão fazendo? — ela indagou.

Ichigo estava suado e vermelho. Parecia irritado e cansado. Yoruichi parecia decepcionada, mas continuava a exigir de Ichigo.

Urahara foi quem respondeu, o único que continuava simpático ali.

— Ichigo está treinando.

Yoruichi revirou os olhos.

— Isso não é bem um treinamento. Ichigo não está se esforçando.

O ruivo bufou. Sua roupa estava quase encharcada — manchas de suor se espalhavam pelas costas e axilas.

— Se eu soubesse como fazer, eu faria!

Ele rosnou e chutou o ar. Estava frustrado.

— O que está acontecendo? — Rukia perguntou, confusa. Não se lembrava de Ichigo se mostrar tão irritadiço em algo como um treinamento.

— Yoruichi quer despertar o nephilim que há em Ichigo — Urahara respondeu, achando graça da semântica da frase.

— Quero que Ichigo desperte e controle todo esse poder — complementou Yoruichi. — O poder, aliás, foi aquele que salvou vocês no Samhain passado.

Rukia estava acabada: as lágrimas borraram a maquiagem, o vento bagunçara seu cabelo, a cavalgada desalinhara seu vestido. Mas, mesmo assim, ela conseguiu se impressionar e ter esperança. Talvez o poder nephilim de Ichigo salvasse sua vida.

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Neliel olhava o papel de parede bege, listrado, e imaginava que cada listra daquela era uma barra de sua cela. Tentava quebrar as grades, mas estava presa. Presa no papel de parede. Presa naquele hospício. Presa em sua mente. Presa naquele mundo. Tentava se libertar, mas seus pulsos estavam acorrentados e presos firmemente. Pensou e pensou, e viu que a melhor alternativa para a liberdade era correr e correr até ficar bem longe de tudo isso e cair pela beirada do mundo. As serpentes iriam devorar sua loucura e ela flutuaria pelo Céu, saudando os anjos e pulando e pulando de estrela em estrela.

A mesmice a cansava. Seu quarto era sujo e mofado e abafado. Os lençóis estavam suados e tinham cheiro de mijo. Ela acordava todo dia cedo, comia um pão duro e tomava seus remédios — que, aparentemente, só serviam para deixá-la sonolenta e enjoada. Depois, deixavam que ela passeasse no pátio dos fundos do hospício, cheio de ervas daninhas — muito diferente do jardim da aula rica, cheio de flores e árvores frondosas. Mas, de qualquer maneira, ela se sentia grata pela luz do sol, que queimava sua pele e iluminava seus cabelos e secava suas lágrimas e purificava-a. Depois, almoço — sempre a mesma sopa de restos de vegetais e carne seca. E, novamente, os remédios que a adoeciam. Trabalhava na padaria do hospício e limpava seu dormitório. As vozes ficavam falando o tempo todo, mas ela já estava acostumada. Já conseguia distinguí-las. Inventava nomes para elas, e pensava nelas como amigas. Eram, afinal, as únicas que não haviam abandonado-a. Os pacientes tinham a hora de lazer, onde vegetavam e escutavam sempre o mesmo tipo de música — era alguma coisa instrumental, barroca, que estressava Nell. E depois, ela era enxotada cedo da noite para o quarto. Deitava na cama e ficava olhando para o teto escuro e manchado. E ficava assim até amanhecer — ela nunca se lembrava do sono, porque tudo era escuro e os remédios a deixavam quase sem consciência.

Pensava em martelar sua cabeça até que mandassem-na para outro lugar.

Sentia falta de sua antiga vida — do castelo, de Rukia e de Orihime. Sentia falta das histórias que Rukia contava, num cantinho da biblioteca, sussurrando como se aquilo fosse um segredo só delas. Sentia saudade da preocupação de Inoue e também de suas risadinhas abafadas. Sentia falta da imponência de morar em um castelo, e de limpar seus lençóis até que ficassem cheirosos e branquinhos.

Viu o enfermeiro passando, ajeitando uma ampola de remédio nos seus dedos gorduchos e desajeitados. Ele não sabia o que estava fazendo. Neliel também não.

Ela se levantou em um pulo do sofá encardido e velho e acertou-lhe um soco no queixo. O enfermeiro caiu, surpreso, e deixou a ampola com o remédio cair no chão. Neliel deu um chute em suas costelas, e montou nele, batendo em seu rosto nojento. Depois, com os aplausos e urros dos outros pacientes, injetou a ampola com aquele veneno que chamavam de remédio.

Neliel foi puxada com força por outros enfermeiros, que a xingavam de vadia louca enquanto deixavam marcas roxas em seus braços. Ela olhou em volta, os cabelos azuis caindo por seu rosto — os pacientes urravam e aplaudiam de suas cadeiras, levantavam e faziam baderna. Ela havia, finalmente, quebrado o padrão. Sentia-se insana, e, pela primeira vez, sentiu-se orgulhosa por isso.

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Neliel foi presa a uma cadeira, enquanto esperneava e estapeava a todos. Um dos enfermeiros, com o rosto arranhado por suas unhas, a deu um tapa tão forte que Neliel perdeu o ar por alguns instantes.

— Não deveríamos chamar o médico antes de aplicar a terapia eletro convulsiva nela? — questionou um dos enfermeiros, que parecia novo no lugar e assustado com tamanha barbárie.

Neliel não sabia o que significava “eletro convulsiva”, mas já antipatizava com o termo.

O outro enfermeiro prendeu sua cabeça com tiras de couro, e a impediu totalmente de se mover.

— Que nada. Isso nem funciona. — Ele deu algo para que Neliel mordesse. — É só uma forma de manter os loucos em seus lugares

O enfermeiro que ela havia agredido, que tinha um hematoma no pescoço e um corte no queixo, foi até um painel. Ligou algo, e fez uma careta maligna.

— Você vai ter que ser tão forte quanto pensa que é. Irá ser transferida pra parte dos loucos violentos.

Neliel respirou fundo. Estava tremendo e morrendo de medo. Não sabia o que iriam fazer com ela. Seus punhos doíam — estavam inchados e sangrando.

O homem puxou uma alavanca, e uma descarga elétrica percorreu todo o seu corpo. Neliel tremeu, sentindo algo queimar tudo o que tinha por dentro. Ela perdeu o controle das pupilas, sofrendo de espasmos de dor. Sua consciência ia e voltava — via o enfermeiro novinho morder os lábios, horrorizado, ouvia xingamento dos outros dois e gargalhadas, mas não se preocupava muito com as questões terrenas. Só pensava que as vozes haviam evaporado e que sua mente havia fritado. E Neliel, que por alguns prazerosos instantes havia fugido de sua cela, estava novamente presa no papel de parede.

Notas finais
Desculpem quaisquer erros. Comentem, por favor. A opinião de vocês é importante. Sinto falta das piadinhas dos meus leitores