O Sol Negro E A Lua Branca
34 O Beijo De Judas
Notas iniciais
Rukia rogava por orientação. Desistira de ficar ajoelhada, então agora se enfiava debaixo dos cobertores e sussurrava para Virgem Maria. A princesa não sabia o que fazer — Ichigo estava frustrado, Hitsugaya perdera a vida, seu irmão estava preocupadíssimo e Neliel simplesmente desaparecera. Guardas haviam sido mandados para procurá-la em toda a parte, mas nada fora encontrado — somente ausência de um cavalo no estábulo. Será que Nell havia a abandonado? Primeiro Matsumoto, agora ela. Rukia estava começando a pensar que havia algo de muito errado, que não notara algo importante que estava bem debaixo do seu nariz. Deveria ter prestado mais atenção em Neliel, mas com todo o estresse do sobrenatural — chega! Não existia desculpa para a negligência de Rukia para com a amiga.
De repente, escutou uma voz doce e solene como mel. Uma silhueta projetou-se no cobertor — uma mulher com um manto —, mas Rukia sabia que logo que se destampasse essa mulher iria desaparecer. Por isso, manteu-se coberta.
— Até mesmo o Céu perde a misericórdia em tempo de guerra. — A voz era maternal e gentil, mas ao mesmo tempo havia algo de divino nela. — Eu lamento muito por isso, minha filha. Os anjos guardam receios antigos em seus corações, mas a única coisa que meu filho e eu temos em nossos corações é amor.
Rukia tinha tanto a dizer para ela, mas a sua presença a deixava sem palavras.
— O que o Mal pretende é encher seu coração e o de Ichigo com os espíritos demoníacos dos falsos reis. Lilith e Lúcifer — informou a Senhora dos Céus. — Mas há somente um jeito de se prevenir: encha seu coração com amor, Rukia, porque o amor é mais forte do que a maldade. Encha-o de misericórdia e de perdão, porque o Diabo não está preparado para essas dádivas divinas. É a sua maior arma, esses sentimentos bons que os humanos espelharam do Divino. Não lute contra o seu amor.
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Fora necessário certo empenho, mas Grimmjow finalmente encontrara Neliel. Estava internada na área dos pacientes agressivos, num manicômio não tão longe do centro do Reino Kuchiki.
Quando Nell sumiu, Grimmjow sabia que ela se internara. Grimmjow a conhecia. E sabia que precisava encontrá-la o quanto antes, afinal o príncipe amava Neliel. Não podia mais viver em um lugar que não tivesse ela. Por isso, internou-se no hospício.
Não foi nada difícil passar para a área dos pacientes agressivos. Ele até se divertiu o fazendo — espancou um enfermeiro, o despiu e pegou a sua roupa. Mexeu no armário de remédios, drogou-se, urinou em alguém — Grimmjow não lembrava de quem, mas se lembrava nitidamente em fazer uma piada com o fetiche de urinar em alguém. Era bom ser louco, porque assim tinha uma desculpa para fazer o que se passasse em sua cabeça. Sentia-se livre em não precisar mais fingir que era são, não precisar decorar o nome de todas aquelas pessoas e controlar a sua boca e ter modos. Gostava dessa aleatoriedade. Gostava desse hospital psiquiátrico. Mesmo quando os enfermeiros o batiam com tacos. O príncipe ficava até mesmo excitado. Talvez a necessidade o tivesse tornado masoquista. E Grimmjow gostava de ser assim — Neliel podia machucá-lo do jeito que quisesse, e nada disso afetaria o amor que ele sentia por ela.
No primeiro dia em que Grimmjow a viu, o vento mutilava as paredes do hospital psiquiátrico. Ele soprava como o lobo mau derrubando as casinhas dos três porquinhos (Estranhamente, esse conto lembrava muito o seu pai, que costumava matar e comer humanos que chamava de porcos). Grimmjow foi inserido a um novo ambiente — nada de pacientes em estado vegetativo nem nobres que criavam uma doença a partir do tédio. Mas sim uma gama de loucos genuínos. Maníacos de olhos esbugalhados e tufos de cabelo na cabeça.
Neliel dividia o sofá com uma mulher de pescoço longo e cabelo cortado estilo channel. Vestia um vestido branco um pouco sujo e os cabelos estavam bagunçados e os olhos estavam mais profundos e confusos. Mas ainda sim estava linda.
— Nell — Grimmjow a chamou.
Neliel parou de conversar com a mulher, de repente. Passeou os olhos atentos por toda a sala, mas quando viu os cabelos azuis de Grimmjow fixou-os ali.
— Grimmjow... — ela sussurrou. — Mas o que você está fazendo aqui?
Ele abriu um sorriso. Neliel não tinha tido a reação que Grimmjow esperava, mas o príncipe atribuiu isto a surpresa e aos remédios. Correu e a abraçou. Era tão bom sentir o cheiro de sua amada novamente, mesmo que ele estivesse tão mudado. Antes, ela tinha cheiro de alguma flor. Agora, seu cheiro era tão impessoal e doente quanto de um hospital. Pelo menos, o corpo estava igual — os seios grandes encostavam-se em Grimmjow e o deixavam excitado. Ela estava rígida em seu abraço, mas estivera assim também em sua primeira vez. Na verdade, Grimmjow acreditava que todo toque era rígido assim — porque era assim que todas as mulheres reagiam aos toques de Grimmjow e, por sua vez, era assim que ele reagia aos toques do pai.
— Vim aqui para te encontrar, oras — respondeu. — Eu estava com muita saudade.
Encostou-se em Neliel novamente: cheirou seu cabelo e foi abaixando a cabeça até ela se encostar-se aos seios. Teve um vislumbre de fazer isso com sua mãe, só que sem nenhuma malícia. Grimmjow apostava que Barragan também o fizera, mas com malícia. Tinha saudade de um toque feminino e inocente em sua vida. Talvez Neliel conseguisse suprir essa necessidade.
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Rukia marcou de se encontrar com Ichigo no seu quarto. Pretendia contar o seu sonho para ele, que era o único que se encontrava na mesma situação que ela. Na frente do espelho, Rukia escovava os cabelos pretos até que ficassem lisos e macios. Ela usava um vestido bege de algodão e sapatilhas. Perdera o hábito de usar salto alto, com tantos treinamentos.
Ichigo bateu à porta. Rukia mandou-lhe que entrasse. Ele ficou parado atrás dela, olhando o reflexo da princesa pelo espelho. Rukia não se virou; apenas continuou a escovar o cabelo e a sorrir para o espelho visando sorrir para Ichigo.
Sentaram-se á cama. Não mais pairava aquela atmosfera estranha, e agora os dois já tinham uma relação estável e cúmplice. Fora tanto treinamento junto, que um já podia prever os movimentos do outro. Rukia contou tudo a Ichigo — sobre a visita de Virgem Maria e sobre seus sentimentos. Principalmente o medo e a insegurança. A princesa ocultou qualquer coisa que dissesse respeito a seu amor por Ichigo.
O ruivo ficou quieto por um longo período, ouvindo com atenção e percebendo ela e o quarto inteiro. Depois, finalmente disse:
— Também estou morrendo de medo. Mas o medo me deixa alerta.
Rukia olhou para os lábios do ruivo e aproximou o rosto. Mas, no fim, foi ele quem a beijou. E, desta vez, ela o correspondeu. As mãos de Ichigo, que passeavam por seu corpo e rosto e cabelo, não eram macias nem delicadas. Eram fortes e calejadas. Porque Ichigo era um guerreiro, e ela também — um era a âncora do outro.
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Adele colocou o cigarro na boca, tragou um pouco e depois soltou a fumaça, que sujava seu cabelo curto e repicado, cortado com faca. Ela tinha sido presa naquele lugar por comportamento histérico — que consistia, basicamente, em querer ser mais que uma dona de casa com o único objetivo de agradar seu marido. E também por sua personalidade forte demais — tanto que esfaqueou seu marido quando ele quis a estuprar — e sua inclinação a partes do mesmo sexo.
— Ele está te perseguindo.
Adele se referia a Grimmjow. Já estavam nessa há semanas — Grimmjow não largava de seu pé, dizendo que a amava. Neliel já tentara explicar que o sentimento não era recíproco delicadamente, mas era impossível. A ideia do amor dos dois estava tão fortemente pregada a mente do príncipe que era impossível tira-la de lá. Talvez, na cabeça doentia de Grimmjow, o que fizeram naquele dia era amor. Afinal, o pai o educara para que sexo forçado fosse considerado amor.
— Não está, não.
Neliel tentava defender Grimmjow, ser compreensiva com ele por causa do que havia passado na infância. Mas ela não conseguia. Grimmjow a fazia se sentir mal por querer esfaqueá-lo quantas vezes fosse possível antes do enfermeiro a tirar de cima dele.
— Eu vou falar para ele umas verdades — disse Adele.
Neliel tinha dois amigos no hospício: Adele e um esquizofrênico chamado Sebastian, que fora exorcizado — e quase morrido, por conseqüência — antes de ter vindo para lá. Os dois fizeram com que ela abrisse sua mente e revesse seus conceitos. A sociedade era tão injusta e desigual. A igreja vendava a todos.
— Não.
Nell tinha consciência que Adele estava apaixonada por ela. Mas simplesmente não sabia como lidar com isso. Neliel também não sabia se o que sentia por Adele era só amizade. Então, as duas mantiam um relacionamento sem rótulos. Seguravam uma a mão da outra, se beijaram certa vez — o que rendeu uma “terapia” eletro-convulsiva. Mas Adele nunca a obrigara a fazer nada, e isto era o mais importante. Neliel queria poder levar suas relações a seu tempo, sem ser pressionada ou forçada a nada.
— Ele te estuprou, Nell! — gritou Adele, e Neliel mandou que calasse a boca. Ela tinha falado muito alto e alguém poderia escutar. Grimmjow não estava longe; apenas conversando com um psicopata que havia matado a família e algumas meninas.
— Grimmjow não é o seu marido, Adele.
Sentadas no chão frio, encostadas na parede do corredor. Neliel parou de olhar para Adele.
— A única coisa que me arrependo daquela noite foi não tê-lo matado — revelou Adele, referindo-se agora ao marido.
Neliel juntou as pernas, os joelhos lado a lado.
— Grimmjow não é como ele — repetiu ela. — Grimmjow sofreu como nós. Ou ainda pior.
— Duvido muito — retrucou Adele, apagando o cigarro na parede.
— Grimmjow foi abusado. Várias vezes. Na infância. Pelo próprio pai.
Adele fez uma careta, rapidamente se arrependendo do jeito que falara de Grimmjow.
— Que foda.
E Neliel não pôde parar de pensar: E por que isso o dá o direito de machucar quem bem entender?
Ela viu Matsumoto por um momento, ensanguentada. Mas logo que piscou e reprimiu esse pensamento, Rangiku não passou de outra alucinação.
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O dia estava belo como a beleza de Helena de Tróia: perigoso e fatal. O sol brilhava forte no céu, marcando a pele de Ichigo, Yoruichi e Rukia com sombras. Era julho e o calor estava escaldante. O ar estava enjoativo, e não ventava o suficiente para mover as folhas das árvores. Parecia um deserto. A pele de Rukia queimava, pálida e vermelha, enquanto Ichigo adquiria um bronzeado bonito. Yoruichi, que já morara dezenas de anos no norte da África, continuava impassível.
Ichigo estava sem camisa, sentado na grama verde. Suas costas estavam vermelhas, descascadas. Suas pálpebras tremiam, mas estavam cerradas com força. Yoruichi pedira para ele imaginar seu poder nephilim, mas o calor fritava a pouca imaginação que o ruivo tinha. A luz do sol incomodava seus olhos.
Rukia, princesa que era, cheia de camadas de roupas, estava suada e exaurida. Um cheiro ruim emanava dela, enquanto se abanava com um leque. Ela desejou não ter esquecido a sombrinha no castelo.
Ichigo pensou em uma cachoeira — como seria bom se banhar em uma, gelada e refrescante. Então, alguém tomou conta de seus devaneios para transmitir uma mensagem.
Havia um anjo. Tinha cabelos castanhos claros, despretensiosamente cacheados, e pele morena. Vestia apenas um manto branco, e estava sentado em uma pedra de modo relaxado, despreocupado. Os respingos de água da cachoeira molhavam seu par de asas brancas e imponentes, que balançavam com o ritmo vagaroso do mundo no calor. Era simples e acessível. Ichigo já o considerava um amigo.
Ao virar a cabeça — antes, estava de perfil — e ao ver Ichigo, uma ruga de preocupação se formou entre as sobrancelhas. Tinha um rosto simétrico e perfeito, bonito demais para ser humano, mas real demais para ser faérico.
— Ichigo, eu sou Gabriel — falou, e pareceu mais uma apresentação entre amigos do que o que se revelava ser o arcanjo Gabriel, que dera a mensagem á Maria de que ela estava grávida do Filho de Deus. — Estou do seu lado.
Ichigo podia sentir os pés descalços na água, que refrescava e renovava seu ser.
— Eu conhecia sua mãe. Era um bom anjo. Não merecia aquele triste fim — Gabriel suspirou. Estava descalço, assim como Ichigo. Balançava seus pés na água. — Desculpe-me por permitir. Mas agora quero fazer diferente. Você é inocente e está lutando por uma boa causa. É corajoso. Temos que ajudar você e Rukia. Temos que deter os demônios. Mas Miguel...
— Por que ele não nos ajuda? — indagou Ichigo, antes que pudesse pensar. Suas palavras escorregavam sem pensar de sua boca. — Estamos salvando a Terra, afinal de contas.
Gabriel suspirou pesadamente.
— É muito mais complicado que isso. Meu irmão só quer proteger o Céu. Ele logo associa sua mãe a todos aqueles anjos, que caíram por motivo de luxúria não muito depois de Lúcifer.
— E Deus?
Gabriel fechou os olhos por um instante. Pareceu imensuravelmente triste.
— Deus está muito triste com que o mundo se tornou. Tantas pessoas que usam sua palavra para promover torturas... E Jesus está tentando ajudá-lo, mas concorda comigo. Assim que conseguirmos convencer Miguel...
Gabriel se levantou. Tinha braços fortes, porém pés delicados e leves que não afundavam na água. Colocou uma das mãos no ombro de Ichigo, e disse:
— Miguel é o meu irmão mais velho, e sempre foi a ele atribuída a responsabilidade de cuidar do Céu. Sempre teve que ser forte, e por isso pode ter endurecido... — O anjo baixou os olhos castanhos, mas depois tornou a olhar Ichigo nos olhos. — Mas eu sou o irmão mais novo, e a minha responsabilidade é lembrá-lo do amor e da piedade. Então, pode demorar, mas eu sempre vou olhar por ti, Ichigo.
Quando Ichigo abriu os olhos, viu que as folhas balançavam, viu que pequenas pedras encontradas no local flutuavam ao seu redor. Levantou, e viu tudo encoberto por uma nova aura de energia e poder — viu-se encoberto por uma nova aura, aliás. Ichigo havia descoberto sua forma de poder nephilim.
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Neliel estava andando pelos corredores, sem rumo. Flagrou o cervo e o seguiu — a única coisa bela que sobrara de sua antiga vida. Estava tensa, preocupada por algum motivo. De repente, ouviu sons vindos do fim do corredor. Ela se aproximou, segurando um candelabro que formava a silhueta do cervo na parede e nenhuma sua.
Conforme foi chegando perto, Neliel conseguiu distinguir palavras.
— Não, não! — uma voz de mulher protestava, parecendo a beira das lágrimas. — Eu não quero...
— Mas eu sim.
Era a voz de Grimmjow.
Neliel correu. Grimmjow agarrava uma copeira pelo pescoço, e lambia as lágrimas que caíam por sua face. Ele arrancou a touca da moça, e os cabelos compridos e cor de mel caíram como uma cascata por sua face.
— Você é minha, Valentina — Grimmjow disse, e sua voz soava cruel e impessoal. Não era a pessoa com quem Neliel conversara, nem a pessoa que a estuprara. Aquele Grimmjow era frágil e vulnerável. Já este Grimmjow era realmente mau.
Valentina se separou e transformou em fera. Grimmjow riu.
— Ora essa. Sua vadia. Você não passa de uma ômega. Vai querer me enfrentar?
De repente, a cena adquiriu uma visão de terceira pessoa. Neliel já não mais participava.
— Ela não, mas eu sim.
Era Rangiku Matsumoto, viva e em cores. Os cabelos ondulados escorriam por seu rosto, as mãos apertavam firmemente o candelabro e ela assumira uma expressão de pura ira que Neliel nunca vira em seu rosto.
Matsumoto avançou sobre Grimmjow, que se transformou em um lobo forte e de olhos gélidos. Ela acertou um chute em sua barriga; Grimmjow rugiu e lhe atingiu com as garras.
Neliel assistiu impotente aquela luta, aqueles chutes e arranhões e toda aquela violência e crueldade. Observou a pobre Valentina acertando com o candelabro a cabeça de Grimmjow, e Matsumoto assumindo o controle e esfaqueando a clavícula do príncipe. Mas também observou Valentina caindo, e Matsumoto sangrando e morrendo. Grimmjow havia assassinado-a.
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Na manhã seguinte, Neliel chamou Grimmjow a uma volta. Ele se mostrara surpreendentemente estóico para a sua condição de paciente de hospício. Utilizava o macacão como se utilizasse seus antigos ternos caros. Estava mais vaidoso do que Neliel jamais havia o visto no castelo Kuchiki.
— Para onde nós vamos? — Grimmjow perguntou.
Neliel sorriu para ele.
— Você já vai ver.
Andaram pelo corredor por algum tempo, se infiltrando no coração obscuro do hospital. Neliel tinha as chaves, que roubara de um dos enfermeiros sem que ele percebesse. No entanto, ainda era necessária discrição e silêncio por parte dos dois.
Ela abriu uma porta pesada e grande, de ferro. Uma placa dizia “ACESSO RESTRITO”. Grimmjow riu e explorou o local. Era uma sala grande e ampla, com um cheiro horrível. Tinha duas mesas de ferro compridas, e uma menor, cheia de instrumentos cirúrgicos. Ao lado, várias “gavetas”. No fim da sala, uma espécie de aparelho de metal com um buraco quadrado.
— Que lugar é esse? — Grimmjow perguntou, curioso.
Neliel ignorou propositalmente sua pergunta.
— Grimmjow, venha cá — chamou.
O príncipe, que inspecionava os instrumentos cirúrgicos, os largou e dirigiu sua atenção a Neliel. Ela aproximou-se dele, ele aproximou-se dela. Neliel colocou os braços no pescoço de Grimmjow. Tocou seu nariz no dele, carinhosa.
— Eu te amo.
Grimmjow sorriu de orelha a orelha.
— Eu também.
Os dois se beijaram. Carinhosa e intensamente. E, delicadamente, Neliel enfiou a mão no bolso de seu vestido, pegou uma seringa e espetou no pescoço de Grimmjow.
O príncipe gritou, mas caiu no chão, imóvel, logo depois. Neliel também roubara uma seringa paralisante do enfermeiro.
— Sabe o que é o mais divertido disso? — indagou Neliel, irônica. Pegou o corpo de Grimmjow pelas axilas e começou a arrastá-lo. — Você não consegue se mexer, mas está perfeitamente consciência. Consegue, inclusive, sentir dor.
Ela abriu um sorriso, enquanto Grimmjow produzia ruídos irreconhecíveis. Na cabeça de Nell, seu cervo duelava com o lobo de Grimmjow, empalava-o em seus chifres.
Neliel gemeu e usou toda a sua força até que, finalmente, conseguiu colocar o corpo pesado de Grimmjow no crematório. Aceitava ser machucada, mas nunca perdoaria o assassinato de Rangiku. Estava fazendo isso por ela.
Ligou o crematório e observou a cara de agonia, o olhar de dor, de Grimmjow com prazer. Observou sua pele derretendo, seus ossos se reduzindo à pó. Logo, elevou-se a uma nova espécie. Neliel não era mais humana, mas sim o que nascera para ser. Neliel, agora, era uma banshee. E não estava mais aprisionada a esse mundo.
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