O Sexto Comando

1 Parte I: O Formigueiro - Capítulo 1


Notas iniciais
Olá, caro leitor. Aqui começa a jornada da Lince. E é realmente só o comecinho. A parte 1 servirá muito como uma espécie de prólogo, mas mais incorpadinho. Espero que goste da história e aproveite a leitura c:


A chuva caiu com força de chumbo nas ruas do comércio da zona leste de Alpha, pintando com água fria os arranha-céus fabulosos que comportavam homens de negócios; os pequenos prédios desgastados e antigos das lojas diversas; as instalações improvisadas com papelão e restos de materiais nas ruelas escuras e fedidas; os carros, ônibus e táxis nervosos e também a população mesclada de pais de família saindo do serviço, homens poderosos carregando suas maletas cheias de documentos importantíssimos, estudantes alvoroçados, mendigos, andantes, várzeas, vendedores ambulantes e perdidos. Os guarda-chuvas abriam-se para ampará-los da água e a pressa nos passos para prezá-los dos perigos que se espreitavam na noite que se aproximava.

Lince se esquivava na multidão apressada. Sua estatura era comum para uma garota de 15 anos, mas o suficiente para passar despercebida pelas pessoas. Em meio à impessoalidade e ignorância de todos — somada a sua exímia agilidade -, nem ao menos era notada, principalmente durante a noite. Quando as coisas ficavam mais difíceis, logo buscava um beco para despistar os perigos e escalava escadas de incêndio dos prédios. A garota colocou o gorro de sua jaqueta de couro para proteger os olhos da água e garantir visão perfeita de tudo ao seu redor; o estado dos seus cabelos castanho-claro cacheados não importava nada para a garota. Foi-se a época em que as madeixas recebiam cuidados. Sua mente visava o estômago vazio desde a manhã, que fora regada de nada menos que um mísero pão duro que uma amiga a oferecera. Lince vivia nas ruas, mas negava-se a comer a comida delas. Restos não eram seus preferidos: consumidos apenas em extremas emergências.

Quando estava no reformatório – que mais se parecia como uma prisão infantil -, havia duas refeições diárias e constantemente os alimentos se repetiam. Eram feitos ali mesmo, mas piores que restos. Ingeria-os forçadamente, sabendo da necessidade de se manter ao menos de pé. Na rebelião que resultou na sua liberdade — e de centenas de outros jovens agora moradores de rua — não teria conseguido escapar com vida se tivesse um pouco menos de força em seu corpo. Precisou correr como nunca, brigar como nunca, escapar paredes e socar guardas como nunca.

Geralmente era servida uma sopa rala com alguns pedaços de legumes tão descoloridos que provavelmente não possuíam meio grama de nutrientes sequer. Raramente tinha carne, e quando tinha era um verdadeiro desafio alimentar-se daquela massa esbranquiçada de algum animal desconhecido. Tudo o que a garota mais queria era um singelo pastel de feira com caldo de cana que sempre costumava comer antes de ser pega pela polícia. Foram dias de cão no reformatório, mesmo a situação atual não sendo das melhores, mas, definitivamente, era melhor do que estar trancafiada em uma cela com mais dez garotas, entre drogadas, psicóticas, choronas e jovens demais para conseguir sobreviver psicologicamente por aquilo que estavam passando.

A garota continuou em uma larga calçada repleta de pessoas e barracas de comida e feiras. A confusão gerada pela chuva grossa veio a calhar. Os feirantes recolhiam suas mercadorias e desmontavam suas bancas desesperadamente. A praça do desbravador – uma estátua gigantesca de um bandeirante fixado sobre uma fonte de água esverdeada e sereias de um metal escurecido – era um dos melhores lugares para ficar depois das seis da tarde, quando as pessoas iam saindo do trabalho. A maioria delas passava por ali para um lanche.

Lince girou o corpo ao lado de uma feirinha de frutas e lançou a mão direita tenuemente sobre a banca de maçãs, recolhendo uma delas para dentro do bolso da sua jaqueta. Jogou o corpo contra de um rapaz de terno e cabelos lotados de gel que andava ao seu lado e rapidamente passou a mão pelo seu punho, desfez o fecho de metal do relógio e agarrou-o. A partir disso, acelerou o passo e correu para fugir do homem quando ele se desse conta do furto.

Quando conheceu o verdadeiro lado das ruas de Alpha, Lince tinha apenas oito anos; o choque de realidade fora eminente, mas o espírito de sobrevivência falava mais alto. Roubar tornou-se um triunfo para que pudesse viver, e tempo depois algo banal. Tomar dos outros pelas ruas era tão sua função na sociedade quanto o emprego do homem que havia roubado.

A zona leste sempre fora sua parte favorita da cidade. Podia escolher o oeste, onde os ricaços viviam, mas o local era higienizado demais — não no sentido de limpeza, se você me entende — e até os moradores de rua eram mais elitizados. O leste era menos violento, tinha mais empresas, restaurantes e empreendimentos, o que tornava-o mais frequentado e movimentado por pessoas de classe média, principalmente empregados. Era uma parte da cidade com mais cara de centro e menos de subúrbio. Quando surgiu a oportunidade de se alojar no comando da região, não pensou duas vezes. Mas para não depender totalmente dos serviços pedidos pelo Mentor, o líder do Formigueiro, Lince ainda praticava pequenos furtos para descolar uma grana extra.

Correu sobre as poças de água até alcançar um beco escuro e vazio. Escondeu-se nas sombras atrás de uma enorme lata de lixo e ali ficou. Seus pés e pernas estavam completamente molhados. A jaqueta de couro poupou seu tronco da água, mas o frio começava a atingi-la. Precisava urgentemente de sapatos novos. Aqueles tênis esportivos que havia conseguido trocar com um garoto por uma pulseira de bijuteria estavam sujos e rasgando — o que acabava atrapalhando sua locomoção e lotando seus dedos de água quando chovia. Uma menina ágil e veloz não podia ter tênis ruins.

Observou o relógio que havia conseguido. Era bonito, grande e parecia ter sido caro. Entretanto, nas ruas, aquela prata valia uma mísera meia refeição. Trocou o relógio pela maçã do seu bolso e mordeu-a com prazer. O suco doce escorreu pela sua boca. Não era nada comparado as guloseimas que sempre namorava nas vitrines das confeitarias, mas estava completamente suculenta. Frutas eram boas. Saudáveis. Evitavam que a jovem ficasse doente com facilidade — o Formigueiro sempre foi um antro de bactérias e vírus — além de dar energia. Tentou tirar os doces da cabeça.

Depois que terminou a fruta, decidira sair do beco. A algumas quadras dali ficava a loja de um senhor que comprava tudo que fosse de ouro ou prata. Lince devia vender suas mercadorias apenas para o chefe do comando onde ela morava, mas conseguiria muito mais dinheiro com a loja de ouro. A chuva tinha diminuído e as calçadas estavam mais vazias, ao contrário das ruas. O trânsito estava infernal, lotado de pessoas impacientes e grosseiras. Lince detestava os motoqueiros. Costuravam entre as fileiras de carros buzinando aquele som agudo e chato para que abrissem caminho para eles, como se fosse a obrigação dos carros.

A loja ficava ao lado de uma grande outra de materiais de construção. Era uma portinha pequena que dava para uma escada escura, alta e traiçoeira. Na calçada, um cara vestindo pôsteres amarelos anunciava que ali se comprava ouro. Lince subiu os degraus de dois em dois, com bastante pressa. Virou à esquerda seguindo a placa “Compra-se Ouro”. Ela entrou no estabelecimento. Era quente e úmido. O ar que circulava ali vinha de um ventilador de teto que mal aguentava estar preso. Girava como se pouca energia passasse por ele. Ao lado da porta havia um cara alto e de feição fechada, uma espécie de segurança. Ele olhou Lince de cima abaixo e fez que sim com a cabeça, então ela prosseguiu até a bancada. A sala era tão pequena que dera uns três passos até chegar lá.

— Olha só – resmungou o senhor atrás do balcão -, o que posso fazer por você, querida?

Ele era realmente bem velho. Parecia ser baixinho, mas estava superior a Lince, dando a sensação de que ele estava sentado em algo que o deixava mais baixo. Sua voz era rouca, de fumante de longa data, e os olhos eram imensos devido aos seus óculos fundo de garrafa que pareciam duas lupas. Sua careca era reluzente e cheia de sardinhas.

— Quero vender esse relógio – Lince disse, dando mais um passo para deixar o objeto sobre o balcão. O velho se pôs a observá-lo minuciosamente. Arqueou as sobrancelhas e lentamente levantou o olhar para o segurança na porta. Ele recuou o braço, levando o relógio junto.

— É um belo material – ele disse com sua voz falha -, sem dúvidas. Vou ficar com ele.

— Quanto custa? – Lince perguntou tentando conter a ansiedade.

De repente Lince sentiu algo em sua cintura. Algo forte agarrando-a e puxando para trás. Ela rapidamente ficou em alerta.

— Vamos, menina – disse uma voz no pé do seu ouvido. A mão dele era pesada, mas não a segurava bem, como se não precisasse de tanta força assim para contê-la. O segurança tentou arrastá-la para a porta, mas ela segurou o braço dele em torno da sua cintura com as duas mãos e puxou-a para frente. Ela rodou o corpo para sair de seu domínio, mas o segurança a apertou com o braço gordo. Ela torceu-o e o cara resmungou. Podia quebrar o braço facilmente, mas decidira apenas chutar o segurança no meio das pernas. Ele caiu para trás após grunhir de dor.

Lince virou-se para o balcão. O velho estava descendo de sua cadeira para fugir. Ela andou alguns passos e puxou o relógio da mão dele.

— Acho que não gostei da sua proposta – ela disse irritada. — Velho de bosta.

Sentia-se mal ao perceber que nem em um velho gagá podia confiar. E também por ser tão subestimada.

A dez quadras dali, Lince contornou um armazém e caminhou até alcançar um prédio de quatro andares largo e completamente pichado. Aparentava estar abandonado há anos, e todas as suas portas e janelas estavam lacradas por tábuas de madeira pregadas. Ela foi para a lateral do prédio e escalou uma das escadas de incêndio. No último andar havia uma enorme porta de ferro na parede. Ela arrastou a porta e entrou no pequeno edifício, revelando uma enorme clareira repleta de adolescentes que se espalhavam para todos os lados. Era como se todos os andares tivessem sido removidos, preservando somente a rígida e alta carcaça do prédio para gerar um espaço que abrigasse bem todos que estavam ali, cerca de uns duzentos e cinquenta. Alguns estavam reunidos a fogueiras e montes de cobertas velhas enquanto conversavam; suas vozes se fundiam com uma música pesada que emergia de um enorme rádio no fundo que um grupo de garotos altos cercava dando risadas. O local, que cheirava a fumaça, suor e tristeza, dava à Lince uma sensação de segurança e conforto que nenhum daqueles garotos encontravam nas ruas.

A primeira vez que entrou no Formigueiro foi junto com um enorme grupo de crianças também foragidas – a maioria qual ainda permaneceu ali – um dia depois da fuga do reformatório. Um dos garotos mais velhos do bando guiou-os até lá. Era de madrugada, chovia bastante. Lince não soltou a mão de suas duas companheiras em momento algum. Não conseguiria perdê-las, mesmo sabendo que aquele tipo de sentimento não era benéfico para um sobrevivente. O prédio onde seu grupo se instalou era o mais próximo do reformatório Alphamonte, por isso muitas crianças menos capacitadas fisicamente e psicologicamente acabaram parando ali, por não conseguirem ir mais longe que aquilo.

Lince soube de grupos de outros jovens que foram perseguidos por muitas e muitas quadras pelos seguranças do reformatório e policiais, forçando-os a buscar abrigo em locais mais distantes na cidade. Esses grupos tiveram muitas baixas, pois diversas crianças não conseguiram correr e caiam pelo caminho, eram pisoteadas ou capturadas.

O grupo que liderou a rebelião fugiu para Oeste. Eles possuíam algumas armas brancas e estavam preparados para se rebelar dentro do reformatório tinha algum tempo. Infelizmente, nem todos estavam. Quando derrubaram os muros externos do prédio, correram rápido o suficiente, enquanto muitos jovens permaneceram para trás. A única maneira de garantir sorte na fuga era se separar em grupos. Foram mais ou menos sete.

Agora, pouco mais de um ano depois, estavam ali, contribuindo significadamente para o aumento da violência na cidade de Alpha. Ela nunca mais fora a mesma depois do Massacre do Alphamonte.

Notas finais
E ai, o que achou? A história tem futuro? kakaka