O Sexto Comando
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A garota desceu por um cano até alcançar o chão. Desviou de alguns dos jovens que fumavam. Encostados à parede da direita, havia indivíduos que ficavam estirados nos cantos dopados por drogas ou adoecidos. Lembrava uma mistura de pátio escolar no intervalo com uma feira de peixe e banho de sol numa prisão. Avistou de longe uma menina de cabelos emaranhados e foi até ela. Quando a menina viu Lince, abriu um sorriso largo e abraçou.
— Lince!
— Oi Mía. Como cê tá? – Lince perguntou contente à menina. Ela era pálida feito neve e tinha cabelos ruivos; aparentava ter uns 10 anos e estava muito suja. Seu pavor por água justificava seu estado.
— Tô bem – respondeu com uma voz suava e delicada, mas que não condizia com sua feição fria e sem perspectiva: uma criança incompleta. – Conseguiu algo hoje?
— Descolei só um relógio. Vou ver se consigo trocar por algumas roupas com o Mentor. E você, saiu hoje?
— Não. Eu fiquei aqui com o Mario.
— Ele tá melhor? – Lince se colocou mais perto de uma pequena fogueira que Mía havia feito a fim de se esquentar.
— Não. A Mirella disse que a febre tá muito alta. Ele respira fraco. O Jango conseguiu fazer uma sopa pra ele e um garoto que teve overdose, mas o Mario não acordou pra comer.
— O Bixano não conseguiu os remédios?
— Não. Ouvi falar que apanharam ele. Tão dizendo que foi a polícia.
— Acho difícil – Lince respondeu cética. – O Bixano tinha conseguido um cargo bom para um dos traficantes do Montanha. A polícia não ia querer encontrar problemas com a máfia Montanhense. E ele é rápido e esperto, não vai ser pego fácil.
Mía deu de ombros e sentou numa pilha de tijolos atrás dela.
— Tão falando de tirar o Mario daqui do Formigueiro. Dizem que ele pode ter algo contagioso e que da última vez que isso aconteceu deu muito ruim – ela olhou para a amiga com aqueles olhos que Lince detestava, de súplica. — Eu não quero que ele vá embora, Lince.
— Vai dar boa. Ele vai ficar bem. Prometo. Ninguém tem o direito de tirar ele daqui. Quem é que tá dizendo essas coisas? – Lince perguntou intrigada.
— O grupo do Capulgo.
— Não ligue... – Lince olhou com ódio para os garotos altos que cercavam o rádio. Uma vez um daqueles garotos tentou abusar dela a força. Estava saindo do Formigueiro e se deparou com Capulgo no caminho. Ela deu meia volta para contornar, mas ele correu até ela, puxou seus braços e arrastou-a para o galpão do terreno ao lado. O rosto da garota ficou totalmente ralado, criando um rastro de sangue no caminho. Ele ia algemá-la, mas Lince conseguiu chutar entre suas pernas e fugir. Melhor maneira de lidar com homens. Foi um golpe baixo para o orgulho do garoto, tanto que ele olha para ela com uma feição selvagem até hoje, esperando a próxima oportunidade. — O Capulgo e os amigos dele são uns idiotas. Eles pensam que mandam no Formigueiro, mas são só um monte de espinhentos.
— O Mentor é quem manda aqui, a última palavra sobre quem fica e sai é dele – disse um garoto corcunda atrás de Mía. Lince nunca tinha o visto por ali. Após dizer, ele levantou-se e saiu.
— Espero – os olhos mortos de Mía davam pena em Lince ao mesmo tempo em que davam raiva por causar nela aquele sentimento, uma espécie de sensação que ela não possuía com os demais, nem com Mario, mesmo sendo um antigo companheiro e estando doente. Lince via em Mía a consequência perfeita das imperfeições da cidade de Alpha.
Um garoto alto e magricela se aproximou das duas com uma cara fechada. Sua voz grossa disse:
— Lince, o Mentor quer te ver ainda hoje.
— Ótimo. Tenho negócios pra tratar – ela sorriu para o garoto desconhecido e para Mía enquanto segurava o relógio dentro do bolso.
— — -
Na zona oeste de Alpha as coisas eram um pouco diferentes. Após alguns bairros suburbanos — e até mesmo dispersos condomínios fechados -, mansões imensas em seus colossais terrenos florestados se apossavam das enormes campinas ao redor da cidade e na beira dos vários lagos que se formavam ali. Longe do caos urbano, os moradores das antigas e magistrais mansões tinham uma vida calma, tranquila e luxuosa para recompensar seus ardilosos trabalhos de superfaturamentos, acordos perigosos, esquemas de corrupção e coisas do tipo.
Em uma das construções mais antigas morava a família Albuquerque, lendários empresários da cidade de Alpha. Donos de um renomado laboratório farmacêutico, construíram seu império através de gerações e gerações, mas o poder e dinheiro sempre foram concentrados neles desde o começo. O único herdeiro, entretanto, preparava-se para fugir de casa naquele anoitecer.
Oliver pediu para se retirar mais cedo da mesa do jantar. Com permissão da mãe, subiu para o quarto e lá se trancou. A mochila para a fuga estava sendo preparada há dias. Algumas roupas já estavam sendo estocadas gradativamente para não causar estranhamento nas empregadas e no mordomo do garoto. Escolheu roupas variadas para se precaver de situações imprevistas e também recolheu muito dinheiro para guardar na mochila, nos bolsos das roupas que usaria na fuga e nos pés. Antes de ir para o quarto, passou pelo banheiro recolher alguns remédios, como para dor de cabeça, colocou na mochila e escondeu-a novamente de baixo da cama.
Seu coração estava desregulado e seu corpo demonstrava todos os sinais de ansiedade. O nervosismo também corria em suas veias, mas os pensamentos positivos os mascaravam; queria ir embora dali e nunca mais voltar. Seja para lá onde fosse, estaria melhor. Não aguentava mais a vida pacata e ultraprotegida que os pais criaram para ele. Queria aventura.
Seu plano inicial era fugir com um amigo e encontrá-lo no centro, mas o garoto desistira na última semana. Os dois passariam alguns dias por lá mesmo para sentirem a experiência da tão sonhada liberdade e independência dos adultos rabugentos e controladores. Depois disso, seguiriam para a casa de campo da família Albuquerque, que ficava a menos de quarenta quilômetros ao leste de Alpha, em uma cidadezinha onde a calma existia. A partir dali, apenas incertezas deliciosas restavam na cabeça idiota de Oliver.
Ele tomou o terceiro banho quente do dia. Sempre tomava um antes do jantar, mas queria aproveitar mais um antes de partir. Além disso, era no banho que sua mente fervilhava ideias e se acalmava. Afundou na banheira e por lá ficou uns bons trinta minutos em silêncio.
Mais cedo, na escola, se envolvera em uma briga pela primeira vez na vida. Antes de partir, queria tentar revidar os insultos de um garoto chato da sua sala. Mais tarde percebeu que também havia feito aquilo por um pouco de emoção. Ele gostou bastante da adrenalina correndo pelas suas veias e levando uma energia forte para cada célula de seu corpo.
Sanchez decidiu irritar Oliver enquanto o garoto ia para o banheiro. O encurralou enquanto ainda estava no sanitário, com a braguilha aberta. O herdeiro apenas ficaria parado e aceitaria seja lá o que o valentão faria com ele, como sempre. Oliver era baixo e franzino. Mas dessa vez instantaneamente empurrou Sanchez contra a pia. Ele bateu nos espelhos, que racharam completamente. E revidou enfurecido.
Quando levou o primeiro soco do valentão, mal sentiu dor. Estava excitado demais com a situação. Quis retribuir o soco, mas Sanchez segurou sua mão fechada antes de ser atingido com tanta facilidade que Oliver ficou surpreendido. Oliver tentou chutá-lo na canela, e acabou escorregando no chão. Todos os presentes riram, mas o jovem tinha conseguido muito mais do que achava que seria capaz de fazer.
Sabia que depois de serem notificados das atitudes violentas de Oliver, seus pais começariam a pensar em levar o garoto para o internato onde seu pai fora educado. Eles detestavam qualquer saída de linha do garoto e eram totalmente intolerantes com atitudes adversas. O jantar fora tenso, em silêncio. Seu pai queria repreendê-lo duramente, mas a mãe insistira para que agisse racionalmente.
Oliver ficou diante do espelho após sair do banho. Era lívido como um garoto nunca exposto ao sol, dava um aspecto frágil junto a pouca largura dos seus ombros. Estava ansioso. Era um rebelde agora.
— — -
Lince subiu para o telhado do prédio do Formigueiro, pulou para o prédio vizinho e desceu novamente para a rua. Quando chegou ao cruzamento, virou para uma rua sem saída, que em sua extremidade comportava um sobrado com aspecto sujo. Bateu quatro vezes na porta dos fundos repetidamente, e depois mais duas vezes devagar. Alguns segundos e a porta foi aberta por um garoto de uns 20 anos que usava roupas pretas. Lince se dirigiu para dentro da casa até uma espécie de sala de estar repleta de caixas e quinquilharias diversas. No meio do cômodo havia uma mesa de escritório e um garoto de também uns 20 anos sentado nela.
Lince foi até a mesa e colocou o relógio sobre ela.
— Boa noite, Lince – disse o garoto da mesa. Ela era um pouco rechonchudo, com as bochechas largas, cabelo descolorido curto, e óculos escuros espelhados enormes. – Direta como sempre...
— Boa noite, Mentor — a garota cruzou os braços e encarou o garoto. Ele empunha uma autoridade muito forte, mas Lince ignorava-a por completo para provocá-lo e conseguir melhores preços em suas trocas. – Quanto você dá nesse relógio? Sei que ele não é pouca coisa.
Atrás do Mentor havia dois outros garotos de preto. Ambos seguravam enormes armas. Também eram jovens, mas mais novos que o líder.
— Sabe, Lince, cê é uma das minhas melhores clientes. Só traz coisa top— ele disse desviando um pouco do assunto -, e uma das minhas favoritas do Formigueiro, vô confessá. Sabe que eu cuido muito bem dos seus brothers de lá em troca de alguns favor, e como você sempre me traz mercadorias boazonas e é muito aberta aos negócios, eu quero fechar algo grande com você. Acho que tá na hora de cê avançar um pouco.
— Estou aqui para trocar o relógio. Vamos falar disso primeiro.
Mentor olhou para o relógio com afinco e disse:
— Cinquenta.
— Cem – Lince o encarou.
— Cento e cinquenta.
— Trezentos.
— Tá loca, princesa?
Lince o encarou novamente e pegou o relógio de suas mãos. Um dos homens atrás dele hesitou e apontou a arma para ela, mas Mentor fez sinal para que ele se acalmasse.
— Fechô.
Lince devolveu-o o relógio e ele deu o dinheiro para ela – Sorte sua que eu tô de boassa hoje, e que tenho planos para você.
— Será que dá para ser um pouco mais direto?
Ele riu – Só precisa melhorar esse teu jeitinho metidão. Não que seja ruim né, pra se garantir por aí. É que, bem, é irritante para mim.
— Prefere os que te obedecem?
Ele não respondeu, apensa deu um risinho com seus dentes metálicos.
— Cê é um completo caso perdido, mina... Mas continuando, isso não atrapalha a minha proposta contigo por enquanto. Se aceitar e se dar bem, podemos trabalhar no seu gingado fervoso depois – ele relaxou na sua cadeira. — Vamos falar de notas, dinheiro, grana, cash... É o que cê quer, não é?
— É o que todos querem.
— Exatamente... Ouvi dizer que as pessoas por ai até matam pra conseguir dinheiro, mas são só boatos... – ele grunhiu aquela risada asquerosa de novo em deboche e ironia.
— Fazem coisas piores – ela respondeu séria e um arrepio percorreu o seu corpo quando algumas memórias alcançaram sua mente, mas respirou fundo e ignorou-as.
— Fazemos – abriu um sorriso novamente, encarando a jovem. – Lince, eu tenho alguns negócios aqui que são minhas prioridades. Os caras do norte foram meio filhos da puta comigo. Roubaram e destruíram um depósito meu. Quero revidar e cê vai me ajudar.
— As pulgas do norte?
— Sim. E nós aqui do leste não gostamos das pulgas, o que piora o rolê todo. Eles me roubaram pouco, não me importo com os valores, mas fizeram isso para me provocar e deixar puto. Conseguiram.
— Então por que você mesmo não retribui?
— Porque tão rolando uns corre que precisam de minha atenção. O troco vai ser de boas. Vou te explicar pra cê entender melhor. Naquele depósito tinha uma parada muito importante pra mim. E cê vai pegar de volta. Meus mano já rastrearam a parada. É um colar de diamantes. Precisa ser logo, antes que eles vendam ou sei lá, enfiem nos seus cús. Cê é rápida, passa despercebida. Perfeita pro corre. Entra, pega e sai. Simplão.
— Que colar é esse? Por que é especial?
— Não te importa, mas tá aqui uma foto dele para te ajudar – o Mentor retirou uma fotografia do bolso e entregou para Lince. Ela observou a joia. Era um colar de ouro com uma pedra azulada do tamanho de um polegar rodeada de outras menores, diamantes.
— O que eu ganho com isso?
— Muito. Cê vai ganhar muito, Lince. Eu também.
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