Notas iniciais
Personagens principais apresentados, tá na hora de apertar um play definitivo na história, uhu. Boa leitura!

Bixano correu como nunca. O mais rápido que podia. Estava assustado. Céus, e como estava assustado. A rua parecia ser do centro da cidade. Estreita, coberta de prédios, escura pelos postes sem luz e amarrotada de andantes. O jovem garoto corria.

Um furgão preto o perseguia com faróis baixos. Cantava pneus toda vez que virava uma esquina. Apesar da cena exótica, nenhum presente se mexia. Uma das regras daquelas ruas era deixar o problema para quem o tem. As panturrilhas de Bixano ardiam como fogo e pareciam que iam travar a qualquer momento. Seu fígado doía por causa da respiração errada, que já estava mais ofegante que a de um obeso tentando levantar-se o sofá. E o medo percorria cada cantinho da sua mente. Os milhões de buracos na rua atrapalhavam sua fuga e faziam seu tornozelo chiar.

Ia perdendo velocidade cada vez mais.

Até que tropeçou e caiu de cara no asfalto de tanta exaustão. E lá ficou. O furgão parou próximo dele. Bixano respirava como um carro afogado que engasga com o próprio oxigênio. Estava suado até o dedão do pé. Duas pessoas saíram do veículo e foram até ele. Uma pegou pelos braços e a outra pelos pés. Jogaram-no dentro do furgão e partiram.

— — -

Oliver poderia simplesmente fugir por fugir, por revolta; passar alguns dias perambulando na rua e chocar os pais, desesperá-los, atordoá-los, fazê-los sofrer e por fim chantageá-los para conseguir o que quisesse ameaçando fazer tudod e novo. Mas gostava de planejar as coisas, mesmo que não as fosse seguir. Não gostava de dar passos sem imaginá-los e calculá-los antes, visando as consequências. Sabia que o melhor da experiência seria se deixar levar pelo destino, mas mesmo assim montou tudo em sua mente para não perder o costume. Queria mesmo, desta vez, partir e tomar as decisões no calor dos momentos.

Quando o relógio da mansão ecoou o sino da meia-noite pelos enormes corredores para alimentar os cômodos, Oliver saltou da cama, colocou uma roupa grossa, uma capa de chuva, apanhou algumas frutas, salgadinhos, embutidos e doces que havia estocado no armário, recolheu a mochila e foi para a sacada de seu quarto. A chuva havia parado há poucos minutos, mas as nuvens noturnas estavam baixas e sopravam um vento metodicamente frio. Agarrou-se sobre o parapeito da mureta e se jogou do segundo andar da casa sobre uns arbustos. Pinicando, levantou-se e passou pelos jardins escuros calmamente. Logo a frente chegaria à estrada que levaria para a entrada do terreno da mansão e seguiria pelo seu acostamento. A pé, o percurso até lá demoraria uns 15 minutos. Alcançar o subúrbio da zona oeste demoraria mais que isso. Pegou um táxi.

— — -

A noite era quando os jovens do Formigueiro tinham sua verdadeira vida. Apenas alguns estavam recolhidos para dormir ao redor das fogueiras cintilantes que iluminavam tudo. As caixas do grupo do Capulgo ainda vomitavam músicas estridentes no local e a maioria dos garotos e garotas estava alvoroçada conversando e se preparando para sair. Lince entrou pela porta de metal novamente após receber todas as instruções do Mentor. Estava ansiosa pela sua recompensa, apesar do acordo do Mentor ser um pouco estranho. Animada também por “subir de cargo” com o receptor principal do Formigueiro; poderia algum dia distante, quem sabe, entrar para a elite dos Lobos – os militantes de rua da máfia Montanhense – e ganhar muito dinheiro por isso.

Passou ao lado da ala dos drogados e doentes e observou Mario sentado se alimentando de uma sopa rala e transparente. Ficou feliz pelo amigo ter acordado, mas ele tinha uma aparência horrível. Estava pálido, com olheiras grossas, olhos caídos, magro e remelento. Iria até ele, mas estava com pressa para falar com Mía e partir fazer guarda no local onde Mentor indicara estar o seu precioso colar, no norte da cidade – bem longe do Formigueiro.

— Mía.

A garotinha estava apagando a fogueira que havia feito mais cedo.

— Oi Lince. Conseguiu algo pelo relógio?

— Consegui – Lince colou o corpo com o de Mía e retirou algumas notas de dinheiro da sua jaqueta sem que ninguém visse e colocou no bolso de Mía. – Toma, pra você. Compre algo pra comer amanhã e depois. E alguma blusa de frio. Dizem que vai esfriar nos próximos dias. Vou sair hoje e não sei quando vou voltar. Cuidado com esse dinheiro.

— Obrigada – ela soltou junto com um sorrisinho. Era rara aquela expressão no rosto de Mía. Lince retribuiu o sorriso com vontade e abraçou-a.

— O Bixano voltou?

— Não.

— Ok. Tudo bem. Você sabe se virar. Agora tenho que ir. E fiquei longe do Capulgo.

— Ele saiu tem um tempo.

— Ótimo, melhor ainda. Agora tenho que ir. Se cuide.

— Não vai dormir?

— Não. Dormir atrapalha meus pensamentos.

Lince seguiu a pé pela Avenida Orlequim – a principal da zona leste -, desviando dos maloqueiros e assaltantes noturnos. Chegou à estação amarela, que estava um pouco deserta e consumida apenas por andantes em busca de locais quentes para dormir e alguns mauricinhos disfarçados de garotos de rua para curtirem as festas regadas a drogas daquele bairro. Como de costume, o instinto de Lince dizia que a garota estava sendo perseguida. Em Alpha, você sempre é alvo de algum assaltante ou mal-intencionado. Lince usava essa sensação para se manter alerta e arisca. Desconfiança era essencial para andar por Alpha.

Pegou o último trem da madrugada e seguiu para o norte da cidade. O vagão estava um pouco vazio, então se recolheu próxima a ultima porta; colocou o seu gorro e ali permaneceu para não chamar a atenção. Por precaução, guardou o dinheiro que lhe restava dentro da roupa íntima. Subitamente, teve a leve sensação de que uma das pessoas do vagão a observava.

Depois de meia hora, desceu na estação amarela-norte, que estava mais vazia que a do leste. O norte era levemente menos perigoso que o leste e era um terreno não tão conhecido por Lince. A versão do Formigueiro da zona Norte, o chamado Pulgueiro, ficava apenas a algumas quadras dali. Lince conhecia algumas garotas de lá, mas não era bom visitá-las nos últimos meses, pois havia começado a vender mais de seus produtos furtados para o grupo do leste.

Seguindo pela rua deserta, Lince caminhou calmamente na calçada. Seus passos ecoavam solitários pelo concreto, até que a garota notou que outros passos atrás dela começaram a fazer companhia aos seus.

Olhou por cima do ombro, mas não havia ninguém atrás dela e os passos cessaram. Prosseguiu e segundos depois os passos retornaram — desta vez mais sorrateiros. Lince apressou-se e virou a esquina, e os passos seguidores copiaram seu ritmo mais intenso. Sua mente ficou mais atenta para disparar em corrida a qualquer momento, mas de repente um som de gatilho estalou atrás de sua cabeça, destravando a arma que uma pessoa corpulenta e encapuzada segurava.

Os pelos da garota eriçaram e sua respiração parou.

— Calma ai, gatinha... – o garoto armado que rendia Lince pelas costas disse sorrateiramente. Lince reconheceu sua voz na hora. Era Capulgo. Ele colocou a outra mão sobre o ombro esquerdo dela e começou a massageá-lo com força. – Quero que venha comigo até ali, sem estresse...

Notas finais
E ai, meu caro leitor? O que tá achando? Sei que já pedi antes, mas queria reforçar: seu comentário é muito importante para mim. Na verdade, decidi postar essa história aqui para poder acompanhar a opinião e crítica das pessoas enquanto escrevo a história - é delicioso poder fazer isso! Então se você, pessoa fofa, está gostando do que tá lendo até aqui, deixe um oizinho, um bom dia, uma opinião. E você, que não está gostando tanto assim, mas ainda está aqui, também é uma pessoa fofa e pode deixar uma crítica construtiva legal c: