Notas iniciais
Boa leitura!

A porta de madeira maciça desgastada rangeu bastante ao se abrir. Por ela passou um rapaz de mais ou menos 25 anos, baixo, de cabelo ralo com sinais de calvície, vestindo um terno surrado com shorts e nike shox. No seu rosto e pernas, manchas pálidas de diversos tamanhos pintavam a pele negra. Andou até o outro lado do cômodo, onde haviam três sofás em forma de U ao redor de uma televisão com mais de 50 polegadas pregada na parede sem reboco. Em um dos sofás estava Mentor, vestindo roupas largas que exibiam as logos das marcas. Assistia na TV um terceiro jogando algum jogo de tiro que parecia emocionante.

— Fala, Dois Amores – Mentor disse sem olhar para o garoto.

— Fala – ele respondeu sentando-se no outro sofá. Olhou para os três seguranças de pé nos cantos do cômodo. Também eram jovens e seguravam fuzis. Na mesa de centro havia diversos pacotes de salgadinhos abertos. Os sons de tiro da TV incomodavam. Estava quase no último volume.

— Cê descobriu algo? – Mentor perguntou alcançando um enorme copo de refrigerante na mesa.

— Muitas tretas – ele respondeu. – O negócio do oeste com os cientistas, a rota de distribuição, onde armazenam, o próximo plano deles, tudo. Descobri tudo.

Mentor pigarreou e soltou um riso muito contente. Sua risada lembrava um porco de afogando na lama. – É disso que tô falando, cara!

— A merda é grande, mano. Tô falando. Se nóis quiser tirar proveito dessa merda toda... tem que ser logo.

— Então desembucha.

O terceiro cara, que parecia mais velho entre todos ali, pausou o jogo e começou a prestar atenção em Dois Amores.

— Meu consagrado infiltrado no oeste descobriu que o comando tava transportando a mercadoria porque é o comando mais perto de onde produzem os corres tudo – Dois Amores começou a explicar. — O serviço é foda, grande, mas bem simples. A rota é sempre a mesma, só os caminhos que não. Eles tavam recebendo carregamentos bem maiores nos últimos dias. Tavam bem suave, tava rolando tudo firme. Mas dai ontem as pulgas do norte baixaram no comboio. Elas são mercenárias pra caralho cara, tô falando. Armadas e preparadas. Não sei como descobriram o esquema, mas levaram quatro caminhões com elas.

— Filhas da puta... – Mentor retrucou baixo. – Mas tudo susse. O oeste deve tá putasso com elas. E isso é bom pra gente. Na real, é perfeito, mano. Agora a gente precisa cutucar o norte.

— Por que o norte? – o terceiro cara perguntou.

— Pra pensarem que é vingança do oeste, ué – Mentor explicou. – Eu sei como as pulgas do norte funcionam. Não levam desaforo, não. Se ficarem putas com o oeste de volta, aí sim vai ser top pra gente.

— Cê vai levar pra frente essa ideia de... como é a palavra memo? – indagou o gamer.

— Especu... – Mentor tentou resgatar a palavra.

— ...lação – Dois Amores completou.

— Especulação – o líder reafirmou.

— Ah, tá. Não acha arriscado demais? – o terceiro interviu novamente. Mentor deu uma bufada de impaciência e respondeu:

— Caralho, mano. Eu sei o que eu tô fazendo, porra. Já passei por todos os comandos, conheço cada rua dessa cidade e sei como essas merdas funcionam.

— E tem mais – Dois Amores anunciou. – Os cientistas finalizaram uma etapa do trabalho deles e vão precisar de mais pra começar a etapa nova. A merda vai ser bem maior. Aqueles caras são pirados, mano. Vão precisar de muito. Muito mais do que podem conseguir aí pelas ruas.

— Tá vendo? – Mentor levantou-se dando gargalhadas e apontando para o cara do videogame.

— Faz sentido... – o cara confessou. – Eles pegarem direto das ruas tá chamando atenção demais. E os caras do centro não tão curtindo esse rolê, não. O Tavião, lá da praça vermelha me disse esses tempos que tava perdendo quase tudo no centro. Vão precisar de uma fonte maior, real.

— E vai ser a gente! – Mentor respondeu. – Só precisamos foder o oeste pro norte. E aí eles vão precisar também. E vendemos pra quem pagar mais. Somos o comando que mais tem desses bostinhas. É agora, meus manos. É agora que a gente bota fogo nessa porra toda e come o cu de todo mundo.

— Só precisamos tomar cuidado pras pulgas não desconfiarem que é a gente por trás do esquema, senão vai melar tudo – o cara se intrometeu de novo.

— Tá de boa. – Mentor respondeu — Já cuidei disso. Mandei alguém menor pra começar o esquema, não vão reconhecer. Vai ser rápido, indolor. Mas do caralho.

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Lince não possuía tempo para pensar, para marinar seus sentimentos e medos, e nem ao menos para calcular suas ações. Simplesmente agiria por instinto.

— Barato como sempre, Capulgo – ela disse virando o rosto calmamente para o garoto e deixando o corpo ereto, sem movimentos bruscos. A pistola automática estava apontada no final de sua nuca. – Ações baratas, apelativas... Acho que você deveria aprender a conquistar uma garota sendo mais romântico. Se bem que nem com flores, chocolates e palavras fofas você conseguiria.

Enquanto dizia, Lince deixava o nervosismo escorrer pelo seu corpo, livrando-se dele. Respirava com calma para limpar a mente.

— E você precisa aprender a ser mais obediente, garota – ele disse com raiva, mas por fim esboçara um sorriso de vitória. – Cê não vai me enganar com baboseiras de novo, Lince. Vamos. Vamos comigo. Tenho uma surpresa para você.

Capulgo era alto, tinha 16 anos, magricelo de ombros largos que o deixavam corpulento. O rosto era pequeno e com algumas cicatrizes abaixo dos olhos castanho-claro, da mesma cor que o cabelo emaranhado. Seu sorriso era muito amarelado e emanava um hálito de abutre.

— Tenho coisas mais importantes pra fazer... – ela disse com calma. – Inclusive pro seu chefinho.

— Eu não quero saber! – ele pressionou mais o cano da arma contra a nuca da garota enquanto falava estressado.

— Uau. Acho que ele não gostaria de saber que o soldadinho é tão desrespeitoso com as ordens dele...

— Cala a boca. Sem mais um piu.

— Você se exalta muito rápido. Acaba não prestando muita atenção nas coisas – após terminar de falar, Lince desviou seu tronco para direita, tirando-o da direção do cano da pistola. Rapidamente, passou os braços para cima e agarrou a arma. Colocou a mão esquerda sobre o cano e a mão direita sobre a mão de Capulgo que segurava a arma e apertou-as, puxando a arma e o braço dele para frente ao mesmo tempo que chutou a canela do garoto, fazendo-o perder o equilíbrio para facilitar o golpe.

Ao puxar as mãos, arremessou Capulgo desequilibrado para frente, desarmando-o. A pistola voou para a rua e o garoto caiu de joelhos no chão. Lince não resistiu e chutou-o no meio das pernas.

— Você vai precisar de muito mais pra tomar o lugar do Mentor um dia, seu bosta – ela murmurou com ódio.

— Sua filha da puta! – ele gritou enquanto se remoía na calçada.

Lince olhou para ele com desprezo e saiu correndo em direção do local indicado pelo Mentor.

— Vai acabar que nem a sua irmã! – o garoto gritou – E dessa vez eu mesmo que farei com você!

Queria voltar para dar um soco bem dado na cara de Capulgo, mas precisava ir embora.

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Decidira tirar a tentativa escrota de Capulgo da cabeça para não se atrapalhar em sua tarefa. Três quarteirões dali notou uma movimentação estranha de vans pretas se direcionando para uma rua. Seguiu-as por cima de alguns prédios, mas eles acabaram. A rua que as vans usavam tornou-se uma pequena estrada que entrava em uma mata. Lince desceu do ultimo prédio e seguiu a pé pela borda das árvores. Alguns passos depois chegou a um galpão na beira de um rio. Era ali onde a gangue do norte armazenava suas armas e produtos, e também onde provavelmente estava o colar.

Ficou por volta de duas horas nas sombras observando a movimentação do galpão. As três vans descarregavam caixas enormes de madeira e eram escoltadas por dois homens armados. Elas foram embora e os guardas permaneceram ali, mas revezavam a escolta da porta principal a cada 30 minutos, e o outro permanecia nos fundos. Lince não precisava entrar lá naquele dia, mas a noite pareceu-lhe o horário de segurança mais fraca no local, e procurar o colar naquele galpão poderia ser uma tarefa que exigiria muito mais tentativas, então aproveitaria a oportunidade inicial.

Notou que a cada troca de turno, os guardas iam até dentro do galpão e saiam alguns minutos depois. Seria sua deixa para conseguir se aproximar da construção, escalar até o seu teto e entrar pelo duto do ar.

Lince esperou os guardas fazerem a troca e entrarem no galpão para sair do meio das árvores e correr em direção da cerca de arame que defendia o seu terreno. Ela a escalou com facilidade e sem fazer barulho, o que exigiu muita força nas mãos, que doíam em contato com o material. Passou pelo arame farpado no topo da cerca sem se ferir e saltou silenciosamente no chão. Rumou até a lateral do galpão com velocidade, subiu em umas caixas e agarrou-se a lateral do telhado de material ferroso, escalando até o teto. Foi até o centro da cobertura onde estava o duto giratório de ar. Ela esperou ouvir a porta do galpão se fechar em sinal de que os guardas haviam saído, agarrou a abóboda e a torceu para o lado com força, mas com delicadeza a fim de evitar sons indesejáveis, arrancando-o.

A garota olhou para dentro do galpão. A altura do teto até o chão não era tão crítica, então pulou sem pensar muito, caindo de joelhos dobrados. Seus pés arderam um pouco com a queda e estavam vacilantes, mas a menina já estava analisando o local com afinco em busca do colar. O galpão não era tão grande e possuía quatro enormes pilhas de caixas de madeira lacradas nos quatro cantos, formando dois corredores perpendiculares em forma de mais.

No final de um desses corredores havia uma enorme mesa de ferro com várias armas enormes desmontadas; parecia uma espécie de laboratório feito para estudá-las; era todo o material que haviam roubado do Mentor. Foi até a mesa e olhou-as com mais atenção. Quando bateu os olhos em uma pequena caixa de vidro entre as armas, seu coração parou. Lá estava o colar. Lindo e cintilante. Ela pegou-o com cuidado enquanto o admirava. Colocou no bolso da jaqueta e voltou-se para o corredor.

Rapidamente começou a puxar algumas caixas e empilhar outras abaixo do duto de ar por onde entrara, formando uma escada improvisada até ser o suficiente para dependurar-se na sua saída sem muita dificuldade. De volta ao telhado do galpão, seu coração acelerou. Sair de lá sem ser vista seria uma tarefa mais difícil.

Foi até a extremidade do telhado e virou-se para a outra. Preparou as pernas e começou a correr para pegar impulso. Quando chegou à outra borda do telhado, saltou.

Lince voou sobre uma altura grande, ultrapassou a cerca e caiu no meio das árvores após dar de cara com suas folhas e galhos. Caiu rolando no chão; até tentou fazer um pouso mais limpo, mas por fim tropeçou e bateu levemente a costela esquerda em um tronco de árvore. Se tivesse pego mais velocidade, acabaria tendo dado de cara com aquela árvore.

Ouviu uma movimentação e falas dos guardas vindas do fundo. Provavelmente ouviram o barulho dos galhos e estariam indo até lá para verificar. Lince levantou-se e correu para a cidade pelo meio da mata escura, desviando cegamente dos troncos. Logo avistou a luz de uma rua e seguiu-a, entrando por um beco estreito e úmido. Correu mais algumas quadras e se escondeu novamente em um beco para recuperar o fôlego. Sentou-se no chão enquanto recuperava as energias e lá ficou.

Minutos depois, levantou-se. Deparou-se com uma forma humanoide sombreada e deu um pulo de susto. Seu coração quase saiu pela boca e ela hesitou para trás, tropeçando de costas.

— Por favor... – a silhueta disse aproximando-se de Lince, revelando ser um garoto sujo, com cabelos bagunçados e alguns cortes sangrando no rosto. O sangue misturava-se com as lágrimas volumosas que saíam de seus olhos inchados e abatidos – Me ajude.

Notas finais
Finalmente nossos dois migos se encontraram. O que acham que essa nova mizade pode gerar? :)