O Sexto Comando
10 Capítulo 10
Notas iniciais
O coração de Oliver batia tão forte que parecia que ia explodir. Um dos garotos mais inescrupulosos que já presenciara estava apontando uma arma enorme para a cabeça de Lince. Não queria ver a garota morrer desse jeito, apesar de bravamente ter sido a única com capacidade e coragem de enfrentar um cara estressado e armado. De qualquer maneira, o menino a influenciara um pouco a retornar para lá, coisa que ela não queria. Se morresse, ia se sentir culpado com toda a certeza do mundo.
Todos os jovens do local estavam tensos e ficavam girando a cabeça entre Lince e Capulgo. Mía alcançou a mão de Lince e ficou segurando com força. O garoto tinha uma sede de sangue nos olhos, e a garota havia trocado sua feição de ódio por uma vazia. Ele ia atirar e ela ia morrer.
Até que alguém entrou por uma das portas de emergência do Formigueiro. Era mais velho que todos dali e vinha seguido de quatro capangas com ternos surrados. Tinha um cabelo descolorido lotado de gel e usava óculos espelhados. Todos se assustaram, inclusive Capulgo, que desviou o olhar de Lince para poder ver quem entrara.
O climão de suspense aumentou. Estava escuro lá fora e as luzes do Formigueiro estavam acesas. Eram fracas e apenas algumas das lâmpadas espalhadas pelo teto estavam funcionando, mas eram o suficiente. Não ficavam ligadas há tempos por causa das costumeiras fogueiras que as crianças acendiam para iluminar e aquecer, mas nenhuma chama estava acesa atualmente para confortar as formigas.
— Não faria isso se eu fosse você — Mentor disse com um volume desnecessariamente alto para Capulgo, já que todos estavam em silêncio no local, então sua voz ecoou como se ele fosse um deus. – Eu dei ordens pra agrupar todos do Formigueiro, algemar e levar pros ônibus. Matar só se necessário.
O rapaz de óculos espelhado girou a vista para alguns dos corpos aos pés de Capulgo. Bufou e fitou Capulgo novamente, que engoliu em seco e abaixou a arma:
— Sim, senhor.
As duas palavras saíram ásperas por causa de seu orgulho sendo ferido na frente de um monte de crianças que sempre ameaçou e sentia ser superior.
— Ótimo – a voz de Mentor ecoou alta novamente e ele olhou para todas as crianças ajoelhadas. — E vocês, minhas formiguinhas, espero que gostem do passeio até o seu novo lar.
Todas murmurarem hesitantes, mas o Mentor as interrompeu:
— Lince, você vem comigo. Temos que resolver um rolê ainda.
A garota sentiu uma onda de alívio enorme, mas percebera que se livrara da morte agora para morrer daqui a alguns minutos nas mãos de Mentor. Ele esticou o braço na direção dela e fez sinal para que ela fosse até ele. Ela se virou e caminhou entre os jovens cuidadosamente. Suas pernas tremiam.
Oliver a viu caminhar em direção ao Mentor e seu coração voltou a bater forte. Queria fazer algo. Tinha que fazer algo, mas estava prestes a ser algemado por vários garotos armados para ser levado e vendido para o oeste. Ah, não acabava por ai, lembrou. Depois disso seria usado como soldado numa guerra causada pelo Mentor. Por que raios decidiu fugir de casa justamente naquele dia?
Não precisava pensar nisso agora. Não conseguia se concentrar. Lince já estava ao lado do Mentor e ele tomara sua arma. Segundos depois eles deixaram o Formigueiro.
— Muito bem – Capulgo disse lá em cima tentando recuperar sua dignidade com os capangas -, continuem algemando todo mundo. Não preciso falar de novo que quem se mexer vai levar bala sim.
E os capangas de Capulgo voltaram a algemar os meninos e meninas assustados um por um. Oliver estava no fundo do Formigueiro, então seria um dos últimos a ser algemado. Isso é um sinal, pensou. Tenho que fugir e salvar Lince.
— Preciso parar de ser bundão – o garoto arqueou a cabeça para baixo e disse baixinho para si mesmo. — Vamos, Oliver. Pense. Pense, porra.
Até o momento, Lince havia os salvado de tudo. Era inteligente e rápida. Oliver era apenas... o Oliver.
Mas tinha que ser Lince por um momento. Tinha que analisar o ambiente que estava, suas possibilidades e limitações. Estava em um prédio abandonado com um interior amplo, mas sem locais para se esconder e com o chão ocupado por muitas crianças. Lembrou do banheiro, mas as cortinas de plástico eram finas demais. Se atirassem lá, as balas o acertariam com facilidade. Inclusive, os caras do Capulgo, antes de começar agrupar as formigas, foram até o local e retiraram todos que estavam por lá, mesmo que nuas ou molhadas para juntar às outras.
Havia três saídas: a passagem secreta e as duas saídas de emergências laterais. A primeira era longe demais e Capulgo estava por perto dela. As outras duas estavam sendo escoltadas agora por um capanga cada. Não rolava fugir.
Tinha uma arma escondida na calça, mas não podia movimentar-se bruscamente para pegá-la, senão chamaria muita atenção. Além disso, não teria chances em um tiroteio contra oito caras bem armados. Droga. Não tinha como sair dali sem ser visto e causar a própria morte tão estupidamente.
Oliver fechou os olhos. Tudo ficou escuro. Escuro. No escuro ninguém me vê.
Igual Lince fizera no depósito do comerciante que queria vendê-los para a Patrulha, Oliver notou a luz. O Formigueiro estava sendo iluminado por luzes artificiais naquela noite e não pelas fogueiras. Precisava do escuro para fugir.
Ele abriu os olhos e mirou para as luzes no teto. O acabamento dos fios era externo, ou seja, todas as fiações das lâmpadas ficavam em tubos de ferro adjacentes ao teto e as paredes, e não dentro delas. Esses tubos finos carregariam os fios até o interruptor, mas um ambiente grande como o desse prédio não teria apenas um pequeno interruptor ou vários espalhados. Deveria haver um central. Como se tratava apenas da carcaça do edifício, por sorte estaria por ali.
Oliver contava com esse pensamento e seguiu com os olhos os tubos das lâmpadas. Todos em um certo ponto se encontravam e viravam apenas um tubo mais largo, que descia na parede perto dos banheiros improvisados. Ali estava ele, o interruptor central, parecido com uma caixa de ferro na parede a esquerda do garoto.
Tinha pouco tempo. A maioria das crianças já fora algemada e a sua vez estava chegando. Olhou para seu lado direito; a saída mais próxima foi a que o Mentor usara e ficava a uns seis passos em linha reta dele, em um caminho quase livre, e apenas um capanga a escoltava, mas nem tava tão próximo dela assim. Oliver levou a mão direita vagarosamente até a arma e a sacou. Em súbito, ficou de pé e apontou-a para a caixa de interruptor. Se seu plano desse errado, estaria morto. Estava totalmente dependente da sorte.
Atirou seis vezes seguidas na maior velocidade que conseguiu. Apenas dois tiros acertaram o metal e a caixa estourou em faíscas.
Capulgo e seus capangas já miravam suas armas para Oliver quando todo o local ficou escuro. Agradeceu aos céus pela sorte em executar um plano nada a ver. E correu como nunca na direção que analisara estar a saída torcendo para não tropeçar em nenhuma criança nem esbarrar no capanga. Ouviu tiros, mas seu corpo continuou intacto. Em passos largos, sentiu o vento úmido do exterior, da liberdade, e continuou a correr.
Olhou para trás e, ao contrário do que pensou, nenhuma outra criança aproveitou a oportunidade e fugira que nem ele, ou tentara e não conseguira, pois havia poucas ainda não algemadas. No momento os capangas já deveriam ter impedido as saídas novamente. Mas Oliver correu para longe, correu muito. Alcançou o armazém e se escondeu, ficando de olho no Formigueiro.
Sem luz, as crianças algemadas começaram a sair em fila indiana das duas saídas, mas não fugiam. Eram escoltadas pelos capangas e forçadas a se ajoelharem agora no exterior do Formigueiro, onde havia iluminação de alguns postes e da lua. Ao lado do armazém havia cinco ônibus estacionados.
Oliver se aliviou, pois notou que ninguém iria atrás dele, já que tinham que tomar conta das formigas. Uma adrenalina deliciosa tomou conta de suas veias, mas tinha que prosseguir. Percebeu que Capulgo saiu por último do prédio e aparentava estar muito irritado. Ao contrário do que esperava, não se juntou aos seus capangas. Estava indo em direção da rua. Se ele estava indo se encontrar com o Mentor para anunciar a fuga de Oliver, então Oliver deveria segui-lo para encontrar Lince.
Segurou sua arma firme e saiu pela parte de trás do armazém em rumo a uma distância segura para segui-lo.
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