O Sexto Comando

11 Capítulo 11


Notas iniciais
Mais um pra conta :)

Quando chegou perto de Mentor, Lince o encarou seus olhos. Queria fitá-lo do jeito mais provocante possível para irritá-lo, mas ficou com uma cara estática por causa do medo. Não sabia o que pensar e nem definir o que estava sentido. O homem de cabelo ensebado virou-se para a saída do Formigueiro enquanto dois de seus guardas agarravam os braços de Lince e a guiou atrás dele. A garota nem contestou. Os dois permaneceram em silêncio.

Minutos depois estavam andando na rua em direção da casa do ladrão. Passaram pela porta e foram até os fundos, no covil do Mentor, onde Lince estivera dias atrás sendo comprada para roubar o colar que dera origem a toda aquela situação. Lince havia se vendido para a morte.

O Mentor sentou-se em sua mesa. Os guardas posicionaram Lince na frente dele, afastaram-se e ficaram apontando suas armas para ela não reagir a nada, mas não estava disposta a hesitar. Ficou de cabeça baixa até que alguém quebrasse o silêncio.

— OK, acho que tá tudo susse – o Mentor disse sério. – O norte tá fodido com o oeste, o centro se pá vai entrar na treta e colar com o norte. E dai ofereci as formiguinhas pra quem desse mais. O capitalismo é muito daora – ele poluiu o ambiente com sua risada.

— Eles vão morrer nessa guerra – Lince comentou irritada. – Eles não são soldados, não são um exército.

— Mas não te preocupa, não. Quem deu o maior lance não tá interessado nessa treta. Enquanto isso, com grana na mão, vô assistir os manos dos comandos tudo se quebrar inteiro até sobrar só carniça. Tá ligada? Eu sou o urubu.

O Mentor levantou-se de sua mesa, foi até uma das caixas de madeira da sala e retirou uma pistola dourada. Foi caminhando lentamente até Lince.

— Eu até podia aliviar pro teu lado, mina. Pra quê teve que ser tão metida? Ouvir conversa... Cê sabe que ia ficar ligada tudo nisso depois, né? Cê tava comigo agora. Todos os bons do leste tão colados comigo. Reuni todos os bons, os que vão me ajudar a partir daqui a terminar as paradas todas. Filtrei eles, tá ligada? Mas, sabe, não podia deixar ponta solta por aí não. Arriscado demais.

Ela não respondeu. Continuou cabisbaixa, sem encarar o rapaz.

— Por que tu voltou? – ele quebrou o silêncio.

— Pra avisar eles.

— Saquei – ele pensou um pouco e destravou a arma. — Que milagre. A garotinha atrevida tá sem palavras hoje... Nunca imaginei que viveria pra ver essa cena – riu pateticamente. – Enfim, acho que cê aprendeu a não desrespeitar quem manda em você. Pensei que soubesse o seu lugar no mundo, Lince. Pra tá do meu lado de verdade, tem que acatar. Pelo menos me decepcionei com você o mais cedo possível pra tu não quebrar minhas pernas depois, né.

Ele agora estava na frente dela. Com a arma apontada para sua cabeça. Lince respirou fundo.

— Em Alpha se obedece. Pena que cê aprendeu a abaixar tua bola pra mim só uns minutos antes de encher tua cara de furo.

O corpo de Lince deu um breve pulo sem sair do lugar e arrepiou-se todo. Tiros.

— — -

Oliver perseguiu Capulgo lentamente pelo beco do lado do Formigueiro. O bandidinho andava espreitado com sua enorme arma em mãos. Sua guarda não abaixava em momento algum. Parecia estar procurando por Oliver, mas estava um pouco desiludido, já que imaginava que o fugitivo já havia corrido para o mais longe possível. Capulgo ia dar mais um passo em sentido para a rua, mas um som o fez hesitar. Eram tiros. Vinham daquela mesma rua, mas estavam abafados. Provavelmente surgiram de dentro de uma das casas. Da casa do Mentor. Capulgo sorriu. Era o som da morte de Lince. Mesmo que não fosse por suas mãos, a garota estava morta.

Já Oliver ficou paralisado. Teve o mesmo raciocínio de Capulgo, mas não queria acreditar. Queria pensar que Lince tivesse conseguido fugir a tempo; ela era habilidosa e jamais abaixaria a bola para o Mentor. Apesar de ter esperança nela, o garoto ficou nervoso. Precisava ir até lá e garantir que Lince estivesse bem. A coragem e determinação preencheram seu peito. O garoto saiu de trás da lata de lixo com a arma apontada para Capulgo, mas ele ouvira.

No mesmo momento Capulgo virou-se para Oliver com seu rifle apontado para ele. Ambos estavam prontos para atirar, mas nenhum fizera. Ficaram se encarando feio por uns segundos até Capulgo abrir a boca:

— Você é realmente estúpido, mano. Devia ter fugido e voltado pra tua casa.

— Eu fiquei pra te matar – Oliver disse secamente. Nem era esse o motivo, mas achou maneiro dizer. Mal acreditou que estava confrontando um psicopata que segurava uma arma dez vezes maior que a sua. Caralho, e ele tinha uma arma! Um mês atrás estava apanhando de outros garotos em seu colégio.

Capulgo riu – Me matar? Primeiramente, cê não teria coragem. Pensa que não sei quem cê é? De onde você veio?

Oliver arrepiou-se. Sua mão estava suando. Queria segurar a pistola mais firmemente, mas ela escorregava, assim como a sua determinação.

— Cale a boca.

— Aqui não é lugar para você, garotinho. Eu devia te matar pela atitude escrota, mas não posso fazer isso. Sabia que seus paizinhos tão desesperados atrás de você? Cê tá em todos os jornais, na TV, no rádio. Tem uma recompensa enorme até mesmo por uma mísera notícia de seu paradeiro, Oliver. Sabe o que eu vejo na minha frente? Um cagão que vale milhões. Vamos, abaixe essa arma e se renda. Te levo até sua família, pego a grana e todos ficamos na boazinha.

Oliver sentiu uma pontada no peito quando ouviu seu nome. Lembrou-se de seus pais. Realmente estavam preocupados com ele? Jamais demonstraram nenhum afeto pelo garoto. Não tinham tempo.

— Ok... – Capulgo disse sério — Você tá bem nervosão, mas vamos com calma. Vou abaixar minha arma e você abaixa a sua. Tudo vai ficar bem e ninguém vai sair daqui ferido.

O garoto ficou quieto por um momento, mas respirou e fez que sim com a cabeça.

— Tudo bem... – respondeu baixo. Desenhou uma feição de tristeza e conformação no rosto.

Capulgo sorriu e foi abaixando sua arma vagarosamente. Seguido dele, Oliver fez o mesmo.

Quando o bandido estava com a guarda suficientemente baixada, Oliver levantou sua arma de volta para frente de seu rosto e atirou. Capulgo não teve tempo de reagir. Caiu para trás com o tiro que o acertara no ombro. Soltou o rifle. Na mesma hora Oliver correu até ele e o roubou.

Manobra arriscada fingir-se de rendido para depois atacar de surpresa, mas Oliver notara que Capulgo não o mataria sendo que sua cabeça viva valia tanto dinheiro.

— Devia filtrar mais as informações que você solta, Capulgo – Oliver disse em pé ao lado do garoto. — Elas podem foder você.

— Seu merda! – gemia de dor, arrastando-se para a parede se apoiar.

Oliver apontou o rifle para a cabeça de Capulgo, mas desistiu de matá-lo. Sua raiva estava controlada agora apenas por tê-lo derrubado de forma estratégica. Entretanto, mirou para a perna direita do garoto e atirou bem em sua canela. Ele soltou um grito horrível e Oliver evitou olhar o ferimento, mas não resistiu em dizer:

— Não saia daí.

E correu em direção da casa do Mentor.

— — -

O som dos tiros seguiu-se de uma sensação esquisita para Lince. Sangue jorrou em seu rosto em uma grande quantidade. Um pouco do líquido atingiu seus olhos e ficou preso em seus cílios, deixando sua visão turva e avermelhada. Seu nariz e boca também foram atingidos. O gosto e cheiro eram de algo metálico, levemente viscoso e quente. No primeiro momento hesitou em levar as mãos ao rosto para limpar-se, pois achava que aquele sangue era seu, de seus miolos estourados pelo Mentor.

Após notar que seu corpo estava intacto, limpou os olhos para conseguir enxergar e entender o que havia acontecido. Seu coração parou.

Notas finais
Novos momentos de tensão. E aí, o que achou do capítulo?