O Sexto Comando
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Oliver tinha razão. Lince era uma enorme egoísta e ignorante. Se não tivesse fugido assim que encontrara com o perigo e tivesse alertado todo o Formigueiro sobre suas suspeitas, todas aquelas crianças estariam distantes de qualquer risco do Mentor. Mía, Mario, Jango... Agora todas estavam de cara com a morte ou exposta à um perigo possivelmente mortal. E Lince poderia ter evitado, assim como poderia ter evitado a morte de sua irmã.
A garota deixou Capulgo e partiu em disparada ao predinho abandonada que estava escondida. Entrou nele com desespero e começou a procurar por Oliver no segundo andar, mas o local estava deserto.
Seu coração apertou. O menino tinha ido embora porque ela foi otária, e todos que gostava estavam em perigo porque ela foi otária. Agora estava sozinha. Desceu para o andar térreo e, para sua surpresa, Oliver estava saindo por lá. Ela correu até ele e chamou-o pelo nome. Ele se virou, estranhando.
— Pensei que tivesse ido embora – ele disse rispidamente.
— Não — Lince foi até ele e pegou em sua mão. – Precisamos voltar pro Formigueiro.
Ela contou tudo que descobrira com Capulgo de uma forma que o garoto entendesse melhor como a manobra do Mentor arriscaria o desequilíbrio de todas as zonas de Alpha e a vida de todos os adolescentes do leste.
— E o que vamos fazer? – Oliver perguntou um pouco afobado. Nunca havia passado por algo desse tipo na vida.
— Precisamos chegar lá e dispersar todas as formigas... Bem. Cê vai querer voltar pra casa, não é? Posso te deixar perto de um ponto de ônibus, ou dar dinheiro pra um táxi.
— Não. Não precisa. Você tá ferida. Pode precisar de mim. Eu vou contigo.
— Precisar de um mauricinho pra quê? – ela debochou – Cê sabe limpar o próprio bumbum?
— Você precisa ser inconveniente o tempo todo?
— Tá ok, desculpa. Cê que sabe, mas temos que ir. Antes que o Mentor faça algo pra conseguir levar todos para o oeste, ou sei lá como ele vai fazer essa venda.
Lince parou por um momento, reflexiva. Em seguida retornou a falar:
— Preciso passar em um lugar antes.
E ela arrastou-o por mais cinco quarteirões enquanto o sol se punha.
Chegaram à parte escura do centro da cidade. Ironicamente, essa área ficava logo atrás do centro cívico e da maior delegacia de polícia de Alpha. As ruas eram mais estreitas e dominadas por andantes, vendedores ambulantes, carcaças de carros antigos e pouquíssima luz. O cheiro de urina era o dominante. Ruas e mais ruas dispersas como veias de um corpo tornavam o local facílimo de se perder. Estavam no marco zero da cidade.
Oliver já sentia seu arrepio e medo convencional, pois aquilo era mais outra coisa que havia nunca visto, outra parte de Alpha que não conhecia. Apesar de as pessoas jogadas no chão, andantes e drogados não encararem os jovens cara a cara, o garoto sentiu um enorme temor. Não era para menos. Aquilo era o submundo em sua pior essência. Na frente havia um amontoado de pessoas aglomeradas no chão com cobertores e fogareiros pequenos. Murmuravam feitos zumbis em busca de apenas mais uma dose de qualquer droga que os dopassem por completo.
Viraram várias esquinas, passaram por lojas com fachadas suspeitas, moradias improvisadas, pessoas correndo e gritando. Oliver olhou para cima e notou que a luz do sol tinha dificuldade para alcançar o chão por causa dos altos prédios que eram completamente tomados pela pichação, sem exceções. Em suas janelas havia roupas penduradas; eram prédios tomados pelas pessoas que viviam ali. No alto de um dos edifícios, o garoto notou uma inscrição vermelha enorme. “A Zona Morta existe”.
Lince parou em frente a uma loja pequena. Sua fachada deixava claro que era um bar, e estava quase lotado. Oliver temeu que ela entrasse naquele ambiente fétido e cheio de homens suspeitos e bêbados, mas foi justamente isso que fizera. O bar até era arrumado, relembrando algo dos anos 60, ou talvez fosse mesmo. Lince costurou por meio dos homens que estavam em pé e seguiu até o fundo do estabelecimento, onde encontrou uma mesa vazia.
— Fique aqui – ela disse enquanto puxou Oliver para sentar-se. Ele tinha uma cara de assustado até engraçada.
— Onde você vai? – perguntou com medo. Não queria ficar ali com aqueles caras que cheiravam a bebida e merda.
— Eu vou ali atrás. Preciso buscar algo – respondeu séria, tirou duas notas de dinheiro de seus sapatos e colocou sobre a mesa. – Compre algo para nós comermos. Não saia daqui.
E ela entrou em uma porta atrás da mesa sem dar tempo de Oliver contestar. Inseguro, o garoto pegou o dinheiro e ficou olhando ao redor.
Uma música estranha alimentava o ambiente junto com as conversas animadas das vozes roucas e ásperas dos homens. Apesar de o exterior ser tomado por andantes, o bar recebia gente que parecia não ter uma situação de vida tão ruim. Tinham roupas meramente limpas e não tão rasgadas. Não eram andantes. Eram pessoas da rua, que vivam dela, e não nela.
— Algo para beber?
Uma mulher apareceu ao lado de Oliver, assustando-o. Ele olhou com os olhos esbugalhados; tinha um visual meio gótico e uma pele estranhamente muito clara. Notou uma bandeja em sua mão, então deveria ser realmente uma garçonete.
— Ahn... – ele engasgou sem muito saber o que responder -, me traga qualquer coisa de comer. Duas – e deu o dinheiro para ela, que o encarou meio “o que essa garoto está fazendo aqui?”, mas assentiu e se retirou. Minutos depois voltou com dois salgados assados.
Aquilo tinha um gosto péssimo e estava frio. A fome era maior que seus escrúpulos alimentares, então devorou. Lince retornou quando Oliver estava na segunda mordida. Ela carregava uma sacola de papel. Pegou o salgado em cima da mesa e começou a comer.
— Vamos – sussurrou no ouvido dele.
Oliver se sentiu muito aliviado por sair daquelas ruas fedidas e escuras. Agora estavam nas ruas do centro comercial de Alpha, que pareciam até glamourosas perto daquela tal Zona Morta.
— Precisamos voltar para o Formigueiro. Fica perto daqui, no limite do centro com o leste. Os policiais não gostam de crianças de rua desse lado da fronteira – Lince girou o corpo e seguiu até um beco. Já estava completamente de noite.
— O que há na sacola? – Oliver finalmente perguntou.
— Custou tudo o que eu tinha, mas fazer o que, né? – e retirou duas pistolas de dentro da sacola.
— Mas que porra é essa? – indignou-se quando a garota entregou-lhe uma das pistolas automáticas – Você está louca?
Talvez essa tenha sido a primeira vez que o menino soltou um palavrão tão sincero desde que o conhecera. Foi um pouco cômico.
— Não. Não tô – ela o encarou. – Espero que saiba usar, e não tenha medo de usar quando precisar. E vai. Não estamos lidando com gente que brinca em serviço – ela apontou para o curativo sobre seu ferimento de bala no ombro. – Tome aqui. É munição. Coloque em seus bolsos.
Oliver não se sentia bem perto de uma arma, mas aprendera a usar melhor no último verão com seu tio-avô. Tinha matado pombas e gansos – uma experiência horrível; realmente não entendia o motivo daquilo ser um hobbie para o parente. Quando pequeno, o tio-avô levou-o para um desses passeios pela primeira vez e deu para ele atirar uma arma comprida que lembrava uma escopeta. Tinha o cano amadeirado e era linda. Sua beleza era equivalente à potência. No primeiro tipo, Oliver caiu para trás com a força do impacto do tiro porque posicionou mal a coronha abaixo do ombro. Como resultado, uma clavícula deslocada e muita dor. Sua mãe demorou uns anos para deixar que ele saísse com o velho para atirar. Com muita insistência, tempos depois a mãe cedeu e nunca mais acidentes aconteceram.
Lince olhou para trás e Oliver a imitou. O fim do beco em que se dirigiram dava em um campo seco e depois para um armazém. Fora ali que Lince havia sido atingida pela bala enquanto fugiram. O Formigueiro ficava logo atrás do armazém abandonado. – Se morrermos, saiba que você foi um péssimo companheiro.
Oliver enfiou a arma na cintura de sua calça e cobriu o volume com a jaqueta para que ninguém notasse. Não conseguia esconder o nervosismo, mas se forçava para ter foco e ficar consciente do perigo à esmo. Aquela era a segunda arma que precisava comprar. A primeira não tinha nem munição. Servia apenas para deixar na mochila e ameaçar pessoas que tentavam a roubar pelas ruas, caras tentando tirar proveito da sua idade e tamanho, coisas do tipo.
Estavam atravessando o barracão velho. O prédio do Formigueiro estava logo à frente.
— Se dermos sorte – Lince sussurrou para ele -, todos estarão lá dentro ainda e a salvo. Tento entrar de boas, aviso sobre o plano do Mentor e peço pra eles passarem a notícia uns pros outros. Se forem inteligentes, eles se dispersam e fogem daqui. Se nós dois nos desencontrarmos, venha para o barracão. Nos encontraremos aqui. Se der tudo errado... corra.
Entraram em silêncio no recanto das crianças de rua. Um arrepio subiu pelo corpo de Lince. Queria que tudo estivesse normal e que Mentor não tivesse vendido as crianças ainda. Queria que seus amigos estivessem bem.
Esticou o pescoço para olhar no pátio interno do prédio, onde as crianças ficavam, e aliviou-se. Estavam todas lá, vivendo suas vidas esdrúxulas de sempre. Se drogando, beijando, conversando, brigando, fazendo trocas e negócios. Lince desceu e correu até onde Mía ficava, ansiosa para reencontrá-la. Oliver seguiu-a.
— Mía! – Lince gritou ao ver a pequena garota e abraçou-a com força – Precisamos sair daqui, precisamos tirar todos daqui – disse afobada. — Estamos correndo perigo.
Notou um garoto atrás de Mía, Mario. Lince abriu um sorriso para ele, que retribuiu. Estava feliz que ele estava finalmente bem e curado.
— Atenção, cambada! – uma voz ecoou pelo Formigueiro muito alta. Era a voz de Capulgo. Todos se viraram para onde vinha o som. Capulgo estava sobre um tablado na entrada do prédio. Ele segurava um enorme rifle e tinha uma expressão muito animada no rosto – Quero que todos, em silêncio e com calma, ajoelhem e coloquem as mãos sobre as cabeças enquanto um por um é algemado. Aqueles que se mexerem ou tentarem qualquer tipo de gracinha serão devidamente punidos.
Lince segurou a arma na cintura de sua calça. Queria sacá-la e estourar os miolos daquele filho da puta de uma vez por todas. Puxou a pistola para atirar nele, mas notou movimentações estranhas vindas dos cantos do pátio e hesitou. Em cada ponta dele se posicionaram dois garotos do grupo de Capulgo, todos segurando mais rifles e apontando para os jovens. Todos murmuravam e encaravam tudo com estranheza e inquietação. Algumas crianças lá da frente começaram a correr na direção de uma das saídas, mesmo que estivessem bloqueadas por garotos do Capulgo.
O som ecoou pela mente de Lince de uma forma horrível. O som dos tiros e dos gritos. Corpos amoleciam e caiam no chão, mortos.
— Calem a boca, seus merdas! – Capulgo gritou irritado e todos pararam de gritar. – Alguém mais quer levar bala, hein?! Vamos, porra! Todos ajoelhando.
Pouco a pouco, perplexos, as formigas ajoelhavam no chão olhando com temor para Capulgo. Ele tinha algo no rosto que demonstrava estar amando ter todo aquele poder, e isso irritava Lince. Ela não queria se submeter à ele por nada nessa vida. Viu todos o obedecerem e não queria ser mais uma.
Por fim, sobrou apenas ela de pé. Oliver a olhava com receio, mas os olhos dela se concentravam em Capulgo.
Eles se encaravam. Ele se divertindo, ela odiando. Olhava-o como uma onça olha para a presa, desejando dilacerar sua carne.
— Sabia que ia voltar pra casa salvar os amiguinhos – Capulgo disse lá de cima. Ele ergueu sua arma e apontou para a garota de cabelos ondulados. – Ainda bem que também fui rápido.
Seu dedo deslizava sobre o gatilho, prestes a apertá-lo.
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