O Sexto Comando
19 Capítulo 19
— Amely tá esperando vocês no andar 18 – uma voz surgiu atrás de Mirella de repente. Era o garoto que levou Lince até a ala hospitalar, o Onze. As duas meninas se entreolharam assustadas com o timing do surgimento do garoto.
— Essa menina tem ouvidos no prédio todo? – perguntou para Mirella.
— Quase isso — respondeu.
Mirella puxou Lince novamente para o elevador. No caminho, alcançou uma caixinha de analgésicos e mocou no bolso.
— Tome – disse estendendo a caixa para a formiga. – Pro ferimento no braço.
E subiram.
Dessa vez, o andar não era bem tratado como a ala onde estavam. As paredes estavam no concreto cru e também tinham desenhos e escritas pichadas por toda a parte. No lugar das janelas, tapumes e placas de madeira. A luz vinha de bulbos no teto e das telas dos computadores espalhados pela ampla sala. Fios e cabos grossos percorriam por todo o solo, indo de mesa pra outra para alimentar os computadores, das tomadas para mesas, subiam nas paredes, contornavam os tetos. As máquinas não eram das mais modernas – algumas ainda tinha CPUs enormes de caixas branca/amareladas, e também monitores de tubo que pareciam pesados.
O som ambiente era de teclas sendo batidas e mouses clicando. Pareciam ser umas cinco mesas com computadores no total. Nas telas, linhas de códigos, vídeos e coisas estranhas. Lince não lembrava direito a última vez que vira um computador. Talvez na escola, na aula de informática.
Meninos e meninas estavam sentados usando os computadores em silêncio. Ao lado de um deles, Amely aguardava em pé, encostada na mesa.
— Venham cá – ela disse assim que as duas meninas entraram pelo elevador. Em seguida, aumentou a voz para falar com todos os presentes: — Saiam todos. Por favor.
Em menos de um minuto, todos se levantaram e saíram da sala pelas escadas, ficando apenas uma jovem de cabelo extremamente curto que estava sentada na mesa que a dona do comando estava.
— Mandou chamar? – Mirella perguntou.
— Sim. Preciso que vejam uma coisa aqui – anunciou apontando para a tela do computador. Lince e Mirella foram andando até a mulher. – Quando disse que havia salvado algumas formigas, Lince, não tinha imaginado como.
Na tela rodava vídeo que Lince reconhecera na hora. Parecia imagem de câmeras de segurança, um pouco acinzentadas e chuviscos. Mas dava para ver nitidamente. Um ônibus interrompendo o percurso de outro, fazendo-o se chocar contra si mesmo. Segundos depois, saíram dois jovens de dentro dele. Lince e Oliver.
— É você ali? – Mirella perguntou um pouco chocada.
— Sim – respondeu vidrada no vídeo. No momento, ela estava encostada no ônibus falando com Oliver.
A tela estava dividida em quatro, com imagens de ângulos e posições diferentes da mesma rua. Em duas delas dava para ver as crianças algemadas pulando das janelas dos ônibus para tentar escapar. Ficou atenta para ver se nenhuma delas era um de seus amigos, mas as imagens estavam borradas demais. As formigas realmente pareciam formigas nas imagens, apenas pontinhos velozes.
— Muito bem – Amely. – Corajosa. Estúpida, mas corajosa.
Lince não sabia se ficava agradecida ou ofendida.
— Por que tá me mostrando isso? – Lince perguntou.
— Porque achei uma possível prova para não desconfiar totalmente de você. Tem passe livre para ficar no Vespeiro – respondeu séria. Lince não gostou do tom. Parecia estar escondendo algo. Estava nítido no seu olhar também.
— Amely, sobre isso – Mirella anunciou -, precisamos falar com você.
— Vejo que a conversa com o rapaz lá embaixo foi produtiva – a líder respondeu indo até o elevador. – Venham, vamos subir.
— — -
Chegando no último andar, Mirella pediu para que Lince esperasse do outro lado do enorme cômodo aberto enquanto dirigiu-se até a mesa de Amely. As duas começaram a conversar baixinho e Lince não conseguia entender as palavras, mas depois de um tempo vieram gritos e a Formiga hesitou.
— Ignorância, Amely. Ignorância! – Mirella gritou alto primeiro. Logo em seguida, a líder do comando tomou a voz em um tom muito mais forte e superior que a da vespa.
— Eu não preciso de uma garota me ofendendo em minha própria sala. Lembre-se que uma das primeiras regras desse local é o respeito!
Apesar da força e imposição de Amely, Mirella prosseguiu:
— Você precisa parar de olhar para o próprio umbigo!
— Próprio umbigo? Olhe ao seu redor, garota! Esse prédio todo, esse bairro todo, essa zona toda – o volume de sua voz aumentou. Até Lince ficou acatada. — Tudo o que tá abaixo dos meus pés sou eu quem mando e organizo. Acha que isso é ser ignorante? Me poupe!
— Sim. É ignorante, sim! Só pensa no dinheiro que recebe, no sistema perfeito que criou. Não se importa nem com as vespas de verdade. E faz isso só porque elas são a garantia de seu poder, elas são seus peões. E mesmo assim... – Mirella estava arfando.
Houve um silêncio. Lince ficou aflita, esperando a resposta da outra. Quando veio, soou uma voz mais calma:
— Olha, Mirella. Te acolhi aqui com todo o carinho. Por consideração. Pela nossa família. Por favor, não me faça desconsiderar tudo.
— Eu sei disso. Só tô te falando pra não cair no limbo da liderança de um comando. Todos que já passaram por salas iguais a essa, em todos os comando da cidade... Eles só pensam no poder, no dinheiro. Não olhe pra essas pessoas embaixo da gente desse jeito. Não sinta que já fez muito por elas só dando comida, casa, abrigo. Você pode fazer muito mais por elas. Por nós.
Amely não respondeu. Lince daria seu braço para ver a expressão dela.
— E você tem que me ajudar – Mirella continuou. — Quando eu cheguei aqui com o Bixano ferido foi eu quem cuidou dele. Cuidei no chão da enfermaria. Não usei seus equipamentos, seus remédios. Não precisei ocupar seus enfermeiros... nada! Tudo porque ele não era um de nós e... isso é.... ridículo! Vamos, Amely – Fez uma pausa. – Vamos... Seja humana pelo menos dessa vez. Dê apoio pra essa missão. Nós precisamos. Você precisa. Vai ser útil pra você também, pra informações sobre a Patrulha, você sabe.
— Você... – Amely disse com uma raiva grandiosa na voz. – É tão.... Irritante!
— Acha ela irritante porque sabe que ela tá certa – Lince disse saindo de trás do elevador e caminhando até as duas. Não aguentava mais ouvir tudo calada.
Amely a encarou por um momento e disse:
— Mal chegou e já está causando, garota.
Lince não respondeu, apenas ficou olhando para ela enquanto se juntava à Mirella.
Amely respirou fundo e sentou em sua cadeira. Quando levantou a cabeça, olhou diretamente para Lince e ficou encarando por um tempo.
— Tenho uma proposta – a garota de voz imponente anunciou.
— Qual?
— Vocês podem ir. Mas, quando voltarem, vamos dizer que... Terão uma dívida comigo. Lince terá que ficar aqui no Vespeiro. Vai trabalhar para mim.
Então era isso. A intenção no olhar de Amely quando mostrou os vídeos. Queria usar a formiga.
— E é bom que voltem vivas. E com informações úteis. – finalizou a líder do comando do oeste.
As duas meninas de entreolharam meio perdidas. Não tinham opção. Lince engoliu a seco e respondeu:
— Fechado.
— Ótimo – Amely sorriu. — Passe livre na sala de armas. E levem Onze com vocês.
— Obrigada... – Mirella respondeu. Lince sentiu que havia uma pressão social para que ela também agradecesse, mas suas regras pessoais não permitiam que pedisse obrigado para quem ela na verdade queria mandar tomar no cu.
— E, garotas. Não preciso dizer que estarei de olho, uhn? Qualquer deslize, comportamento suspeito... Eu saberei. Não vão querer me trair ou ramelar a promessa.
— — -
— Aquilo foi... do caralho! – Mirella surtou dentro enquanto desciam as escadas. – Lince, nunca pensei que veria viva a Amely se desdobrando por alguém daquele jeito.
— Pois é – reagiu meio cabisbaixa.
— Ah... Tá preocupada com a promessa?
— Um pouco.
— Olha, não se preocupa, não. Sei que ficar presa aqui pode não ser das coisas preferidas suas, mas a Amely não dá ponto sem nó. Deve ter visto potencial em ti. Não vai te usar como boneca sexual, nem nada do tipo. Ela só quer bons soldados por perto, os melhores entre todos os comandos. Nós somos importantes pros comandos. Somos as engrenagens deles.
Lince não respondeu. Seguiu de cabeça baixa. Era um sacrifício que teria que fazer. Tinha uma chance de ajudar seus amigos ou de no mínimo de encontrar mais informações que contribuíssem pro cenário.
Não conseguia deixar de imaginar as situações narradas por Bixano na pele das formigas que gostava. Quando Mía vinha em sua mente o coração apertava. Havia prometido para si mesma tomar conta da menina, mesmo que de longe. E agora provavelmente estava na mãos de pessoas mal intencionadas por culpa sua.
Lince e Mirella desceram mais ou menos dez andares e começaram a andar por vários corredores feitos de tábuas e chapas de ferro. Todo o prédio era realmente diferente do Formigueiro. Era um pouco sujo, desarrumado. As paredes sem pintar e o mofo davam um verdadeiro aspecto de abandono, mas a movimentação de crianças aliviava um pouco. Elas pareciam estar sempre ocupadas, indo e vindo com algo, dando razão ao nome que recebiam, diferente das encostadas formigas.
— Vamos organizar as coisas, me fale os fatos – Mirella pediu enquanto elas andavam. – Muita coisa que o Bixano te disse ele nunca havia comentado comigo.
— Bem, a Patrulha tá embaixo de nós fazendo experiências genéticas com as crianças e as usando de cobaias, mas também têm os caras que pegaram o Bixano, os soldados, as vans de sequestradores pelas ruas... Todas são articuladas da Patrulha. A Patrulha é tudo isso, uma organização com organizações, pelo que parece, entende? E no centro tão esses caras fazendo experiências genéticas. Eles querem as crianças de rua de Alpha porque elas simplesmente não existem por lei, isso é óbvio. Somos fantasmas ignorados. Um tempo atrás eu levei um tiro e um comerciante me acolheu. Minutos depois ele me trancou e já chamou a Patrulha pra me vender a ela... Quer dizer... Um mísero comerciante tinha uma semente da Patrulha plantada na sua cabeça.
— É um pouco ruim pensar nisso. É como se o mal tivesse no ar que a gente respira. Me dá um arrepio terrível. Sempre penso nessas coisas. Às vezes me deparo com umas vans estranhas pelas ruas durante a madrugada. Ultimamente, nas minhas guardas noturnas, eu notei muitas delas andando em círculos. Sorte que todas as vespas que fazem guarda por perto do Vespeiro se escondem muito bem, mas mesmo assim muitas desapareceram no último mês.
— Bom, é isso. Pessoas sequestrando crianças e vendendo para a Patrulha. Uma delas são alguns Patrícios que o Bixano disse.
— Olha. Seja o que for que eles fazem, é cruel. Inumano.
— Certamente...
— Chegamos.
As duas pararam de frente a um enorme cofre de metal. Lince ficou boquiaberta.
— As histórias sobre como conseguiram colocar esse cofre gigante aqui dentro são hilárias – Mirella comentou.
Onze estava parado ao lado do cofre junto com mais dois outros garotos.
— Espero que não estejam me metendo em confusões – ele disse para elas. – Enfim, já estou a par da missão. Temos passe livre no arsenal, mas peguem armas leves e fáceis de esconder; não precisamos ser tão ofensivos. A sua arma tá aqui comigo, Lince.
Era um pouco estranho pensar que no vespeiro as informações chegavam mais rápido que pessoas. A maioria delas tinha aqueles walkie talkies enroscados na cintura. O garoto ruivo, alto, gordinho e cheio de espinhas esticou o braço e entregou-a a pistola. Quando a tocou, lembrou instantaneamente de Oliver.
— Obrigada.
— Parceiros, por favor... – Onze disse aos outros dois que estavam de pé em frente ao cofre. Eles giraram o segredo e puxaram a enorme alavanca, revelando o que havia lá dentro. Era imenso e repleto de armas, tantas que Lince nem sabia quais eram a maioria. Mirella entrou seguida de Onze, que passaram a vasculhar. Lince foi logo em seguida um pouco abobada, mas dirigiu-se rapidamente para a parte de lâminas. Havia até espadas, machados...
Sua mão tocou uma faca com uma lâmina de mais ou menos dez centímetros e extremamente fina e pontiaguda. O cabo era de um couro um pouco acinzentado. Pegou-a e enfiou na cintura junto com sua pistola. Onze juntou-se a ela com duas pistolas deserts eagle em mãos.
— Confesso que adoro uma AK-47, mas me contenho com essas duas.
Mirella surgiu atrás dele segurando uma Glock .40 dizendo:
— Pode não parecer, mas o Onze é um dos melhores tiras desse lugar.
Lince não se sentia tão à vontade com armas de fogo. Pareciam exalar muito poder para suas mãos pequenas, mas tinha que assumir que aquilo era muito excitante, ainda mais com o ódio que estava dentro de seu peito contra a Patrulha e os Patrícios. Os três se entreolharam com confiança.
Fale com o autor