O Sexto Comando

20 Capítulo 20


Notas iniciais
Olá, olá. Primeiramente me desculpem pela demora do capítulo. Tive duas semanas bem atípicas, mas na próxima tudo volta ao normal. Mas finalmente cheguemos no capítulo 20! Estou muito empolgado porque acho que nunca fui tão longe com uma história minha aqui no Nyah ou em outro qualquer outro site. :) Boa leitura!

Depois da sala de armas, Onze e Mirella foram com Lince até o sexto andar do prédio. Seguiram pelas escadas novamente. Elas eram até um pouco mais largas que o normal, mas abafadas, escuras e muito movimentadas. Mirella comentou que a locomoção por elas no começo era bem exaustiva, mas tinha a finalidade de fortalecer as vespas, então várias delas subiam e desciam incansavelmente para irem de um andar ao outro. Umas iam desesperadamente, carregando caixas, armas, roupas; e outras iam com mais calma, conversando em mais um dia normal de suas vidas.

Descer era mais fácil e os três adolescentes chegaram rápido ao destino. O sexto andar era outro que não possuía nenhuma parede ou divisória. Era totalmente aberto e bem iluminado como uma clareira, apesar de ser bem cheio. Havia mesas de metal e plástico para todos os lados, aquelas típicas de bares, com logos de marcas de cervejas plotadas em cima, preenchendo o local.

Crianças e adolescentes repousavam nas cadeiras das mesas enquanto se alimentavam e conversavam. O som das conversas e falas atravessadas lembravam a de uma colmeia.

— Vamos comer logo pra sairmos cedo – Mirella comentou aos dois e depois virou-se para Lince. – O Vespeiro dá comida de graça pras vespas que são treinadas. Se quisermos comer algo que sustente mais, temos que comprar lá do outro lado.

Mirella apontou para a extremidade esquerda do andar. Era a única parede que estava com as aberturas das janelas tampadas e acomodava várias barracas que juntas lembravam uma feira de rua.

— Amely nos deu dinheiro pra comer – Onze comentou.

— Ótimo – Mirella respondeu.

Os três seguiram até as barracas. Lince foi direto para uma que parecia servir massas. Dentro dela duas garotas preparavam as comidas em um fogão industrial e em panelas enormes enquanto outra atendia os clientes. Após comerem, seguiram para o primeiro andar.

— Qual o endereço que o Bixano indicou? – Mirella perguntou enquanto chegavam à rua.

— Rua 15 com a Avenida Lemos. Uma rua sem saída – Lince respondeu. O sol já indicava que era mais ou menos umas quatro ou cinco da tarde.

— Bom, seguindo daqui, fica logo após a Feira de Inverno que tá tendo naquela região – completou Onze. – Vamos tentar poupar tempo. Não é legal ficar andando pelo bairro chinês de noite.

— — -

Os três pegaram um ônibus duas ruas depois do Vespeiro. Em dez minutos desceram em um ponto numa avenida larga e muito movimentada de carros. Suas margens eram repletas de barracos improvisados espalhados pelas calçadas. Os estabelecimentos ao redor pareciam ser todos abandonados, sem exceções. Havia muita movimentação e muita fumaça surgindo dos cachimbos dos locais. Não pareciam humanos, nem nada do tipo. O estado daquelas pessoas era deplorável.

— Essa é a Avenida Lemos – Onze disse –, e mais pra frente ela faz uma curva. Acho que é para aquele lado que ficam as ruas de 10 a 20.

— Não é perigoso seguirmos por aqui? – Mirella perguntou um pouco aflita olhando para as margens.

— Realmente... – Lince murmurou.

— Olha, nenhum caminho que a gente fizer vai ser muito seguro. Bem, se seguirmos por dentro do bairro, conseguimos desviar de tudo e chegar do outro lado da avenida e aí encontrar a rua. É melhor que passar por uma cracolândia cheia de adultos.

Após todos concordarem, seguiram pelo caminho indicado. Era um bairro comum, mas com poucos prédios. Já estava anoitecendo e uma brisa fria e úmida chegava aos seus corpos. Lince fechou sua jaqueta vermelha para se esquentar, mas não parecia ser o suficiente. Depois de uns quatro quarteirões, finalmente chegaram a um local com sinal de vida. Era muito iluminado e cheio de gente.

Naquele momento o frio já estava mais intenso. Ao olhar para cima, podia-se ver uma enorme e espaçosa nuvem preenchendo todo o céu de Alpha. A fumaça branca que saia das barracas de comida enfileiradas subia e se misturavam no ar, dando a sensação de que o vapor flutuante estava mais perto do solo que o normal.

Era engraçado como as noites nubladas da cidade grande nunca eram totalmente escuras. Apesar de normalmente serem mais frios e úmidos, esses dias se tornavam mais seguros de circular por aí. As luzes dos postes e prédios refletiam na superfície mais baixa das nuvens, criando um tapete luminoso alaranjado no topo do céu. Até mesmo uma ruela sem iluminação nenhuma ficava mais clara.

Costuraram entre os frequentadores da feira. Eles olhavam e compravam roupas, temperos, comida e artesanato. Mesmo a maioria das barracas sendo de asiáticos, os visitantes eram bem aleatórios. Pareciam pessoas de classe média, saídas de um dia difícil no trabalho e encontrando ali uma comida confortável antes de encerrar o dia. Havia também famílias aqui e ali.

A cor vermelha predominava. Por cima da rua passavam várias luminárias chinesas ornamentadas e dragões feitos de papel. As pessoas iam de barraca em barraca felizes. O cheiro de fritura vinha em ondas ao nariz de Lince. Aquele tipo de comida era de longe uma de suas favoritas. Não tinha costume de frequentar as freiras do Chinliú já que a estação de metrô mais próxima dali não era um bom local para ela frequentar.

Enquanto se entretia olhando para o que cada barraca vendia, Lince sentiu um cutucão no seu ombro direito. Olhou logo em seguida e notou Onze com a boca próxima do ouvido dela. Lince virou seu ouvido para escutar o sussurro do garoto.

— Esses caras sem camisa e tatuados, tá vendo?

— Onde? – ela perguntou tentando entender para que lado Onze estava olhando.

— Ali, na frente daquele bar laranja. Os únicos caras sem camisa aqui.

— Ah, sim – encontrou-os na frente do bar. O estabelecimento tinha um enorme neon em sua fachada com um letreiro em mandarim. Piscava quase freneticamente, soltando aquele sonzinho irritante de carga elétrica falhando. Sua luz alcançava a calçada repleta de mesas de madeira. Em uma delas tinha um grupo de homens carecas e de músculos descobertos sentados, conversando e bebendo em copos pequenos. Pela agitação, com certeza era álcool.

— Os com tatuagem de dragão – Onze continuou sussurrando discretamente – são da Mafinesa. Não encare eles.

Lince fez um sinal com a cabeça para comunicar que havia entendido. Ao longo de percurso viu mais caras como aqueles. Boa parte deles ficava atrás das barracas, segurando armas e com vista atenta para tudo ao redor. Todos exibiam tatuagens enormes de dragões. Eram diferentes uma das outras. Algumas eram maiores e preenchiam outras partes do corpo além das costas, mas tinham um mesmo padrão de “espécie” do animal místico e poucas delas eram coloridas.

— Pode não parecer, mas aqui é um dos maiores locais de venda de cocaína de Alpha – Onze disse baixo para as duas garotas atravessando o meio da feira.

— E lámen – Mirella brincou.

A nuvem parecia descer cada vez mais. Se estivessem no centro, certamente teriam dificuldades de enxergar o topo dos prédios mais altos. A brisa gelada começou a penetrar os tecidos das roupas da Lince, incomodando-a. Na próxima barraca de roupas que passou, parou e começou a namorar com as pontas dos dedos alguns casacos que estavam expostos em cabides.

— Saiam daqui, animais!

A voz surgiu do nada por trás das peças. Lince deu um pulo de susto e se afastou em um passo para trás. Era uma senhora que saiu da penumbra por trás dos cabides.

— Vão, saiam! Não gosta de vocês aqui! – era tão enrugada que devia ser difícil ler a expressão facial que a velha fazia, mas, naquele momento, a raiva e ódio estavam estampados em sua cara. Alcançou em cima do balcão um cabo de vassoura e começou a balançar na frente de Lince e Mirella.

— Xô! Vai, xô! Embora! Imaturos sujos, aqui não!

Mirella puxou Lince pelo braço:

— Vem logo, caramba. Deixa a velha em paz.

— Ora, mas que afronta! – ainda dava para ouvir a velha resmungando ao fundo — Eles falou que vocês ia sumir das ruas! Prometeram! Aqueles patifes. Xô!

— Mas que porra de lunática era aquela? – Lince perguntou desentendida.

— Velhas, Lince. Ninguém entende velhas.

Sem entender direito o que a comerciante queria dizer, os três seguiram até o final da feira. Viraram à esquerda quase no fim das barracas e voltaram para mais uma rua larga e mal iluminada do subúrbio do oeste.

A formiga olhou para uma placa na esquina e disse:

— Estamos na rua 16. A do lado é a 15?

— Sim – Mirella respondeu -, era para ser no lado esquerdo, mas o quarteirão desse lado é enorme e parece não acabar nunca.

— Se a 15 é sem saída, então sua única entrada deve ser pela avenida – Lince completou.

Chegando na Avenida Lemos novamente, eles viraram para procurar pela rua 15, e lá estava ela. Não era comprida, tampouco movimentada.

— Fiquem atentos. A rua tá deserta e o Bixano nunca falou com muita simpatia desses caras... – Mirella disse baixinho.

— Certeza que não preferem voltar ao amanhecer? É mais seguro – Onze sugeriu.

— Certeza – Lince respondeu. Estava ali, finalmente com uma pista sobre a Patrulha. Não podia esperar mais nem um segundo.

— Tudo bem...

Mirella e Lince sacaram suas armas e deixaram coladas ao corpo para não serem notadas facilmente. Onze apenas colocara a bolsa que carregava ao lado direito do corpo para ficar mais fácil de sacar sua enorme arma de lá de dentro.

Entraram na rua e seguiram pela calçada no lado mais escuro. Olhavam tudo com muita atenção. Havia apenas casas antigas com portões baixos e quintais largos, nada demais. Mas pareciam estar todas vazias. Algumas delas tinham os vidros das janelas estourados e várias pichações pelos muros.

— O Bixano disse que foi levado pra uma garagem. A única coisa que parece ser uma garagem aqui é aquele portão cinza do outro lado – Lince apontou para o final da rua. Havia um pequeno galpão e sua única forma de entrada parecia ser uma enorme porta de ferro.

— Sim...

Surgiram passos pesados na entrada da rua. Em súbito, os três se jogaram para o lado e se esconderam atrás de uma enorme caçamba de entulhos. Lince ficou com a cabeça espreitada para fora a fim de ver quem se aproximava. Estava escuro e não conseguia distinguir quase nada. Era uma pessoa alta; pelo menos vinha pelo outro lado da rua, e parecia usar umas roupas largas e... uma capa?

Ela continuou caminhando com certa pressa até alcançar o portão cinza. Lince torceu para que ela entrasse lá. Seria mais fácil para descobrirem o que havia no galpão.

Por pura sorte, a pessoa se abaixou diante ao portão e o levantou de baixo para cima. Infelizmente estava escuro lá dentro também e Lince não conseguira ver nada.

A garota virou-se para os dois parceiros e sussurrou:

— O cara entrou na garagem, mas não consegui ver nada lá dentro. Acho que ela tá aberta, não tá trancada.

— Tá sugerindo que a gente entre? – Onze perguntou baixinho e um pouco aflito.

— Não, é muito arriscado. Estou pensando...

— Esperar que a pessoa saia de lá pra depois entrarmos é ideia burra, não é? – Mirella sugeriu.

Lince fez que sim com a cabeça. A pessoa podia demorar para sair. Ou poderiam ter mais lá dentro.

— Ok...

Um barulho surgiu e Lince voltou a observar a rua. A pessoa havia levantado a porta da garagem novamente e saído. Estava de pé em frente ao local, de costas para onde os três estavam.

— Ela saiu. – Lince voltou a cabeça para Mirella e Onze para informar-lhes. Virou para a rua e seu peito apertou por causa do que viu. Na verdade, pelo que não viu.

A pessoa não estava mais em frente a garagem e aparentemente em mais nenhum lugar da calçada oposta.

— Merda – Lince comentou para si mesma. Segurou firme sua pistola e virou-se para Onze e Mirella, ficando de pé. Naquele momento um estalo surgiu. Os dois também haviam se levantado, mas Mirella já caíra direto no chão novamente com o corpo totalmente endurecido após um estalo estranho.

Meio segundo depois, Onze tentou sacar sua arma dentro da mochila, mas um cano de ferro atingiu-o no rosto, fazendo seu corpo rodopiar e depois tombar para cima da caçamba até escorregar no chão.

Lince apontou a arma para frente e atirou à cega. Depois que Onze tombara, pôde ver de onde vieram os ataques. Por instinto, ia atirar mais uma vez antes mesmo de tentar reconhecer quem estava ali, mas foi tudo rápido demais. Seu coração estava acelerado e confuso. O dedo indicador namorou o gatilho, mas era tarde.

Uma luz azulada surgiu da pessoa de pé a sua frente seguido de um barulho de energia. Sentiu uma pontada no pescoço. De repente, todo seu corpo foi consumido por uma corrente e enrijecera.

Todos os seus músculos estavam travados, duros feito pedra. Os nervos estremeceram e obrigaram o corpo a se chacoalhar freneticamente. Os músculos, que tentavam ficar estáticos e contraídos ao máximo, foram obrigados a se mexer, remoendo a garota de uma dor terrível. Do dedo do pé até a ponta das mãos. Não tinha mais controle de nada. No lugar, dor e escuridão. Desmaiou tão profundamente que não sentira se chocar contra o chão duro.

Tudo que pôde ver foi uma máscara de gás.

Notas finais
Não esqueça daquele comentário maroto para dizer o que tá achando da história! :)