O Sexto Comando
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Oliver bateu a cabeça no vidro da janela com tanta força que ele estourou. O cinto apertou sua barriga com uma força enorme.
Após a colisão, o ônibus girou para a esquerda, escorregou de costas na avenida, girou, bateu a traseira na fachada de um comércio ao subir na calçada e logo em seguida ricocheteou novamente para o meio da avenida, parando no meio dela em uma posição que interrompia o trânsito.
Por isso, tudo girou em solavancos.
Os sentidos de Lince estavam embaçados, desconectados com seu cérebro que não conseguia traduzir nada, mesmo quando as coisas ao seu redor pararam de se mover descontroladamente.
Ela reuniu forças para se livrar do cinto e levantar. Olhou para Oliver preocupada, mas ele estava fazendo o mesmo. Parecia estar com um ferimento na testa. Muito sangue escorria do canto do seu olho, mas ele estava lúcido, isso que importava.
O zumbido chato estava importunando os dois. Era confuso, não conseguiam olhar ao redor para entender o que realmente havia acontecido. Único ponto a ressaltar era que a frente do ônibus em que colidiram estava completamente destruída. Oliver virou-se para o vidro que estourara e puxara Lince, indicando-o. Os dois pegaram suas armas de volta e saltaram pela janela. A altura não era tanta e eles se saíram bem. Oliver nem tanto, pois caiu de peito. Demorou a recuperar a força nas pernas e ficar de pé.
Estavam na avenida. Agora as coisas pareciam mais claras, conseguiam notar o que estava acontecendo.
O ônibus de Lince e Oliver havia batido por pouco na frente do primeiro ônibus que vinha. Este, com a força do impacto, teve o percurso interrompido e arrastou-se para o lado, parando e formando um sinal de “mais” com a avenida. Os outros ônibus que seguiam atrás dele pararam bruscamente, mas acabaram colidindo um na traseira do outro. Para alívio de Oliver e Lince, várias crianças saiam correndo de dentro deles, fugindo com toda garra, mesmo estando algemadas. Umas quebravam as janelas, outras saíam pela parte de cima e por saídas de emergências. Quase todas do primeiro ônibus estavam escapando, mas houveram tiros nos ônibus de trás, e poucas conseguiam escapar deles.
A gritaria no local era imensa. Os curiosos pedestres que estavam por ali foram assustados por algo vindo da esquerda, e foram dispersos desesperadamente.
Ao lado esquerdo da avenida havia um enorme estacionamento vazio e um barracão velho atrás dele. De dentro da parte coberta saíam vários homens fortemente armados. Pareciam um exército.
— Crianças! – um dos soldados que estava à frente do batalhão disse num megafone – Se concentrem perto dos ônibus, é uma ordem! Encostem perto dos ônibus e aguardem!
Mas elas não obedeceram. Várias corriam para locais aleatórios enquanto outras ainda tentavam escapar de dentro dos automóveis.
O soldado virou para trás e disse ao restante deles:
— Peguem elas!
E eles entraram no meio da avenida entre as crianças e tudo se tornou um campo de guerra. Alguns tiros para o alto surgiram para chamar a atenção das formigas que escapavam. Os soldados tentavam cercar as crianças. Os que conseguiam, agarravam-nas, davam coronhadas em suas nucas e tiros com tasers de choque para desacordá-las, ou as arremessava com força no chão para atordoar.
Instantaneamente Oliver e Lince levantaram suas armas e começaram a atirar contra os homens.
— Precisamos nos dispersar – Oliver gritou para a companheira. – Mate quantos soldados puder e não os deixe ver de onde estão vindo os tiros!
— Procure pela Mía. A gente se encontra atrás do nosso ônibus pra fugir. Vá pra lá, não fuja pra outro lugar! – Lince ordenou ofegante. Oliver olhou para ela muito nervoso e fez um sinal de sim com a cabeça, partindo para o meio da confusão, continuando a atirar nos soldados. Mirava nos que estavam ferindo as crianças ou prestes a dominá-las, mas com cautela para não acertar os alvos errados. Nos filmes parecia muito mais simples fazer aquilo. A quantidade de caras do mal era grande, o que dava muito medo. Oliver se sentia de cara para um precipício, onde uma simples brisa poderia vir desavisada e empurrá-lo para a morte a qualquer momento.
Eram vários, em muito mais números, e várias crianças já haviam sido capturadas.
A adrenalina mais intensa da vida de Lince que corria pelo seu corpo. Ela também continuou atirando. A maioria dos soldados agora começava a arrastar as crianças detidas para dentro do estacionamento, e Lince mirou sua arma para eles. Uma nova leva de crianças havia conseguido tomar uma distância segura do local.
Seu braço tremia. Ao mesmo tempo tentava verificar se nenhuma das crianças pegas não eram seus amigos. Tiros vinham em direção da garota. Fora descoberta.
Rolou para longe e se escondeu atrás do seu ônibus. Tentou alcançar sua frente para ficar à esguio e atirar dali, mas sabiam que ela estava lá e vários homens atiravam contra a carcaça do automóvel.
Estava emboscada.
Teve que se conter e ficar ali por muito tempo, apenas ouvindo os gritos e tiros atrás dela. Não tinha para onde ir. Seu local era tudo menos estratégico.
Sua arma principal estava com as balas acabando.
Sons de passos rápidos e leves vieram atrás dela.
Lince sentiu a movimentação e virou-se para o lado onde sua visão do momento não estava alcançando. Deparou-se com um dos soldados.
Ia reagir ou ao menos tentar se jogar para trás e tomar distância para depois calcular se fugiria ou atacaria, mas não deu tempo.
Ele estava a menos de dois palmos da garota e já com o braço levantado segurando sua enorme arma com as duas mãos acima da cabeça. Estava esboçando dar uma coronhada na nuca da formiga, mas ela notara sua aproximação e ele teve que improvisar.
O soldado abaixou a arma rapidamente e investiu-a contra as costelas de Lince, que não pôde evitar o ataque. O baque no lado de seu torso doeu e empurrou-a para a parede do ônibus. Ela se apoiou e soltou um pequeno grito. O soldado já estava investindo em um novo golpe, mas, com raiva, Lince segurou o corpo da arma dele no meio do percurso, interrompendo-o de repetir o ataque.
Ela puxou a arma e ficou disputando-a com o homem como um cabo de guerra, tomando sempre cuidado para o cano da arma não ficar apontado para seu corpo.
Alguns segundos depois a força do homem ganhou a de Lince e ele conseguiu retomar a posse da arma, mas Lince fora rápida e sacou seu rifle para atirar no soldado. Tinha que mirar nos braços, pescoço ou cabeça, pois o resto estava protegido com coletes. A distância entre eles era péssima para a garota conseguir mirar a arma com perfeição, então apenas atirou várias vezes esperando atingir certo.
Sem sucesso.
As ultimas balas acertaram o peito do soldado, e ele apenas perdeu o equilíbrio para trás com a força dos disparos. Colocou um pé atrás do corpo para se manter em pé e com ele tomou impulso para avançar em Lince para socá-la. A garota conseguira desviar o rosto para a direita e evitar o golpe do punho. Sentira a mão dele passar raspando por sua bochecha.
Sem a garota perceber, o soldado, no momento em que preparava o soco, retomava a posição dos pés e desedenhava uma das pernas para derrubar Lince. Após desviar do soco, Lince sentira a rasteira em seus pés e desabara de costas no chão. Antes que pudesse raciocinar, ele já estava ajoelhado sobre ela, agarrando-a pela cabeça. Puxou-a e depois a forçou contra o chão.
A nuca de Lince ardeu em uma dor terrível ao se chocar com o asfalto duro e cheio de pequenas pedras. A sua visão ficou turva e os pensamentos nada claros. Ele ia bater a cabeça dela mais vezes até ela perder a consciência.
Lince tentava agarrá-lo com as mãos para afastá-lo. Seus dedos tateavam o rosto dele para tentar agarrar, mas ele resistia. Ela apertou suas unhas na pele de sua bochecha com a maior força que conseguira. Sentiu-as entrar na carne do homem e retirar sangue. Posicionou sua mão em sua testa e começou a apertar o olho direito dele com o dedo, tentando afundá-lo. Eram medidas desesperadas e a garota nem ao menos sabia o que estava fazendo. Ele gritou e reagiu:
Investiu mais um golpe, batendo a cabeça dela no asfalto, e Lince já sentia o sangue escorrer na sua nuca. Queria chorar de dor, mas parecia que seus nervos estavam corrompidos e os neurônios abalados demais para se conectarem e preparar qualquer reação fisiológica que não fosse dor. Sentiu algo gelado preso em sua cintura. Agiu por extinto. Sua mão direita tentou alcançar o objeto debaixo de sua roupa enquanto a esquerda ainda se agarrava ao rosto do homem, mas elas fraquejaram. Ela reuniu energia para tentar girar o corpo para o lado e se livrar do homem. Estava presa pelas pernas dele, por isso não conseguia.
O soldado agarrou a cabeça dela com mais força e foi puxá-la para dar o golpe final contra o chão. Dessa vez, a mão direita de Lince conseguiu se mover melhor e sacou a pistola que estava em sua cintura. Ela rapidamente colocou o cano dela o ombro do homem e atirou. A bala atravessou seu pescoço e saiu pelo outro lado, levando muito sangue. Ele fez um som agonizante com a garganta e tombou para o lado, saindo de cima dela.
Lince se arrastou levemente para lá e, sem cosegui impedir, começou a soluçar com falta de ar. Lágrimas quentes desciam pelo seu rosto cheio de sangue.
Sentiu um alívio extremo ao ver o corpo do soldado estirado no asfalto.
Quando cara a cara com o Mentor, esteve de frente com a morte eminente, mas agora fora diferente. Tinha a morte tomando seu corpo, sufocando-a, destruindo e ferindo seu corpo. Estava na sua pele, consumindo ela, tentando destruí-la fisicamente.
Soltou a pistola no chão e tentou se concentrar. Outro soldado poderia aparecer.
Suas mãos e pés tremiam, sua respiração estava atropelada com os soluços. A cabeça doía como se tivesse sido esmagada por um prédio inteiro. As coisas começaram a girar quando ela notara a quantidade de sangue que havia perdido pela nuca, mas o sangramento parecia ter diminuído.
Colocou as mãos no chão e tentou se concentrar em retomar uma respiração clara para conseguir se concentrar no local ao seu redor.
Os barulhos foram diminuindo na rua. A garota olhou por baixo do ônibus. Conseguiu ver no meio da avenida alguns corpos de soldados e alguns raros de crianças. Havia sangue escorrendo até a sarjeta. Poucos passos das botas dos soldados. Estava seguro.
Um som estranho surgiu bem ao fundo, mas longe. Eram realmente enormes. Ela levantou-se com dificuldade, escorando-se no ônibus e arrastou-se para além dele. Seu caminhar era complicado, mas aos poucos iam melhorando junto com sua visão.
Os sons eram de hélices. Quatro enormes helicópteros levantaram voo por de trás do galpão de onde os soldados haviam saído. Aquele era o segundo meio. Aquela era a Patrulha.
Lince foi até o centro da avenida, entre os ônibus, para ter uma vista melhor do local. De lá, procurou seus amigos, mas só via corpos. Assustada, tentou verificar se nenhum deles era conhecido. Não dava para ter certeza, e, logo após olhar, tentou ignorá-los para não ficar com repúdio. No fundo já não podia ver mais os fugitivos. Já deviam estar longe.
Não havia mais ninguém vivo por ali. Os soldados haviam levado as crianças detidas para o galpão e depois para os helicópteros. E eles já estavam no ar. Passavam por cima de Lince. Raivosa, ela gritou. Fora ignorada e eles foram embora com as formigas capturados.
E...
Oliver.
— Oliver! – Lince gritou o mais alto que podia. Sua voz falhava e rasgava sua garganta como poeira – Oliver!
Respirou fundo e seu peito puxou a maior quantidade de ar possível para depois soltar, gritando o nome do garoto novamente.
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