O Sexto Comando
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Só havia uma coisa que ainda fazia-a estar acordada ali. Encontrar seus amigos. Eles apareceriam. Ela sabia disso. Eles viriam. Mía. Mario. Jango. Oliver. Mirella. E até mesmo Bixano.
Lince ficou sentada na sarjeta da avenida por vários minutos. Estava esperando Oliver retornar. Verificara os corpos estirados no asfalto no mínimo umas quatro vezes. Havia dez crianças mortas no total e apenas quatro soldados. O cansaço estava derrubando a garota. Seus olhos mal conseguiam ficar abertos, seus músculos palpitavam, tinham uns espasmos às vezes, e ficavam sempre formigando e desobedecendo a garota, que estava com uma cara péssima. O sangue seco na nuca evidenciava mais ainda seu estado deplorável, os braços ralados e cheio de poeira, a roupa rasgada e suja...
Sirenes tocaram ao fundo, houve uma movimentação e Lince levantou-se para caminhar sem rumo para longe dali.
Eles não voltariam.
Dois dias haviam se passado desde o episódio dos ônibus.
Nas TVs e jornais a desculpa era sempre mais do mesmo: gangues rivais se confrontam e deixam feridos.
Nas ruas, medo, boatos e dúvidas.
Nas casas e apartamentos, indignação e um bom jantar.
Nas mansões do oeste, a alta do dólar.
Lince ficou no edifício abandonado que comportava o Formigueiro esperando que Oliver aparecesse por lá com os outros. Tomou um banho rápido para se livrar do sangue e refazer os curativos. Buscou entre os lixos deixados pelas crianças alguma roupa que prestasse.
Encarou as antigas fogueiras das formigas, seus pertences jogados no chão, entre isqueiros, drogas, seringas, roupas, objetos pessoais. E também alguns corpos, vítimas da violência dos meninos do Capulgo na hora de imobilizar os moradores do local. Arrastou-os para fora e deixou perto das caçambas de lixo do armazém depois do pátio. Queria dar algo mais digno para eles, mas não tinha forças.
Virou-se para a ala dos feridos, onde Mario havia ficado por muito tempo, e também a parte em que Mía costumava ficar.
Encontrou uma camiseta masculina cinza que lhe servira perfeitamente, uma calça jeans preta e uma jaqueta bordô desgastada. E esperou o resto do dia.
Mas não havia dúvidas. Eles foram capturados.
No dia seguinte, caminhou sem rumo pelo centro de Alpha.
Não estava com uma roupa adequada. Normalmente, quando ia para lá, tentava vestir-se com roupas de aparência mais nova para conseguir passar despercebida, assim, conseguia furtar relógios e carteiras com mais facilidade. Agora algumas pessoas a reconheciam como garota de rua e olhavam feio para ela, evitavam passar perto e coisas do tipo. Se fosse em outra zona, seria como algo banal que faz parte do cenário. Seria ignorada normalmente, mas no centro era um pouco diferente. Lá era a concentração das pessoas de negócios que, mesmo apressadas, arranjavam um tempo para fitar os estranhos na rua. Mas não importava agora; não estava com a intenção de roubar ninguém e não precisaria se camuflar.
Seus passos a levaram para uma praça perto de uma das principais avenidas da cidade, dentada com os maiores prédios e arranha-céus repletos de escritórios, salas de reuniões e computadores. Vagou pelos caminhos no pequeno ponto verde dentro da cinza Alpha. Sentou-se em um banco e ficou por alguns minutos, respirando ar fresco e gélido enquanto observava pombas bicarem o chão.
Pensava apenas que poderia ter evitado tudo aquilo. Não podia evitar de se culpar por causa do colar, primeiramente, e depois por não ter abandonado Oliver.
Ele acabaria voltando para sua casa. Ou então ela mesma o mandaria embora. Um garoto rico ficar nas ruas era completamente estúpido. Ele, ao contrário de todas as formigas, possuía um local seguro e aconchegante para viver. Deveria aproveitar isso.
Por fim, não devia ter o encorajado a lutar. Se tivesse ficado escondido deixando Lince tentar resolver tudo, ele estaria seguro. Talvez ela morta, mas ele seguro.
Era esse tipo de sentimento que sempre tentava evitar. Ele acerta o lado mais sensível da sua irracionalidade. Como um elemento alérgico que atinge o organismo e o desequilibra enquanto o segundo tenta expulsá-lo a todo custo. Agora sim podia afirmar que nunca na vida tinha se sentido tão impune.
O orgulho de Lince não a permitiu ficar se lastimando e culpando-se por tudo por muito tempo. Se fosse fazer ou sentir algo, seria para ir para o mais longe disso tudo. Fugir e buscar segurança. Nos últimos dias sacrificou o pescoço mais do que o necessário por um maço de dinheiro. Muito mais. Agora aprendera a lição e ficaria longe de problemas como esse.
Naquele momento, Lince se odiou ao máximo.
Respirou fundo e tentou clarear os pensamentos. Faziam apenas três dias que estava totalmente sozinha e já sentia falta de contato humano seguro. E também tinha Oliver. Ter contato com ele fora algo estranho e rápido, porém forte. Talvez o choque de como ele se fora mexera mais com ela e tornara as coisas mais difíceis de digerir. Precisava passar por aquele processo para se lembrar da importância de Oliver para ela, e também para ter certeza de que ela devia se concentrar em salvar todos as formigas das garras da Patrulha. Das mãos de pessoas desconhecidas com objetivos e intenções desconhecidas.
Essa era a pior parte.
Podiam estar do outro lado do país, ou sendo usados como soldados, ou torturados. Ou apenas eliminados.
E foi naquele momento que se lembrou.
O comando da zona do leste, dominado pelo falecido Mentor e estruturado pelas formigas, não era o único comando da cidade a ser formado por crianças de rua “indefesas”, com exceção do centro – que era constituído por moradores de rua mais velhos, andarilhos.
Havia outros comandos com mais crianças de rua à mercê da Patrulha. Todos eles também poderiam ser alvos e ter o mesmo fim do Formigueiro. Pela primeira vez, Lince sentiu que o esquecimento das crianças de rua pela cidade estava se esvaindo. Elas eram alvos agora, não estavam mais na margem da sociedade sem serem notadas. Soaria bom se fosse diferente, mas nesse caso era péssimo. Precisava avisar os outros comandos e buscar ajuda neles, ou pelo menos em um qual se familiarizasse mais.
Lince desceu ao metrô, pulou a catraca rapidamente e correu para os trilhos. A estação central de Alpha tinha um aspecto mais moderno, mas era a única; as demais nunca viram uma cor de tinta nova desde que foram construídas, há uns quinze anos atrás. Pegou um trem levianamente lotado. Dez minutos depois desembarcara na estação oeste, no bairro que fazia fronteira entre a zona do centro e a do oeste. Alguns bairros e muitas casas depois dali, depois de bosques e vários muros guardados por milícias, a mais ou menos uns sete quilometros, estava a mansão da família de Oliver.
Depois seguiu a pé. Não ia até o comando do oeste há muito tempo, mas recordava-se de onde ficava. Aquela zona lembrava um pouco o centro. Muitos prédios, mas a maioria deles era mais antiga e residencial, e suas ruas eram largas. O Vespeiro, por ficar numa região com muita população de famílias, tinha que tomar certos cuidados. O crime não poderia acontecer de forma explícita. As crianças dele não tomavam tanto as ruas como ocorria no leste, onde a maioria delas andava livremente por cada canto da zona.
As vespas eram mais ariscas, furtivas e sempre estavam à espreita. Além disso, tinham uma capacidade maior de organização, coisa que o formigueiro menos apresentava. E isso agradava Lince de certa maneira. Mas sabia que jamais iria se adaptar àquele local. A garota poderia ser mais independente, liberta e não dar satisfações a ninguém. Ao contrário das vespas. Elas estavam lá, mas poucos conseguiam ver.
Lince seguiu pela avenida principal do bairro. Estava movimentada. Muitos carros e pedestres passavam. Andou por sete enormes quarteirões e em todo momento se sentiu vigiada. Sabia que o Vespeiro já fora informado da aproximação de uma criança não pertencente àquele comando nas redondezas. O Vespeiro era atento e cauteloso, mas pelo menos pacífico, até certo ponto.
Virou à esquerda e andou mais quatro quarteirões, afastando-se da avenida. A rua foi diminuindo e sendo afogada por árvores enormes. E enfim chegou.
Parou de frente para o prédio de vinte andares abandonado. Era largo, robusto e alto. Não chegara a ser pintado, então era acinzentado e tomado por um mofo preto tradicional de construções abandonadas, misturado a diversas pichações em seu corpo; a maioria era grupos de três listras amarelas e pretas enormes na diagonal, símbolo das vespas. Apenas os cinco últimos andares possuíam vidros nas aberturas das janelas. No topo, uma enorme cobertura. O Vespeiro era cercado por um muro ríspido e sério, também pichado e com listras. Não havia nenhuma movimentação aparente, não em sua frente, pelo menos.
Um braço vindo de trás passou pelo lado direito de Lince e posicionou uma faca em seu pescoço. Lince endureceu o corpo para tentar não hesitar.
— Quietinha aí – disse uma voz feminina no pé de seu ouvido.
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