O Sexto Comando

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Capítulo extra da semana. Enjoy!

O Mentor estava estirado no chão à sua frente. Parecia que havia tido uma queda de cara com o piso como a de um dominó que estava de pé. Sangue desenhava seu contorno no chão e uma enorme poça do líquido vermelho nascia de sua cabeça. O tiro fora certeiro, no meio da testa. Lince levantou a visão.

Ereto, atrás de onde estivera o Mentor, um homem com um sobretudo preto segurava uma arma e sorria para a garota assustada.

Ela fixou os olhos nele. Conhecia-o de algum lugar. Na verdade, conhecia-o da cidade toda. Aquele era Monteniere, o maior mafioso da todos. O Corleone de Alpha. O homem que mandava nas ruas e no prefeito. O dono da cidade.

— Quando nossos peões demonstram sinais de rebeldia – ele disse fitando a garota -, você deve pessoalmente livrar-se deles.

Por um breve segundo, achou que o homem estava se referindo à ela, mas rapidamente se tocou sobre o que queria dizer.

Lince olhou ao redor. Os dois guardas do Mentor também estavam mortos. Junto com Monteniere, haviam entrado no cômodo mais quatro homens fortemente armados, todos com caras de poucos amigos, mas o senhor de sobretudo era o que mais exalava poder e amedrontava a garota.

Ele era muito alto, tinha por volta de 1,90, ombros largos e nariz comprido. Era careca e somente um pouco de cabelo grisalho rodeava sua cabeça. Apesar de aparentar ter idade avançada – uns sessenta anos – não possuía nenhuma ruga no rosto, apenas marcas do tempo, como pequenas cicatrizes. A característica mais marcante do homem estava nos olhos: eram de cores diferentes. Um verde e o outro azul.

— Levante-se, garota. Não há mais o que temer – sua voz rouca e grossa anunciou para Lince. Ela demorou a reagir. Nem tinha percebido que estava ajoelhada no chão; provavelmente em algum momento sentira fraqueza demais pelo medo e não conseguira sustentar-se de pé mais. Não sentia isso desde quando assistira sua irmã mais velha ser morta na sua frente. Mas ainda sim não abaixara a guarda. Montaniere poderia matá-la.

— Matar crianças não é muito humano, ainda mais as que trabalham para nós – Lince tinha achado afável a forma como iniciou a frase, mas logo lembrou-se que ele estava ali para acabar com o Mentor, e não salvá-la. Seu interesse em não matar crianças era puramente comercial, pois todos os mafiosos de alguma forma usavam os serviços das crianças de rua de Alpha, principalmente a máfia montanhense. Direta ou indiretamente.

Um arrepio correu pelo corpo da garota. O homem à sua frente era o culpado pelos maiores crimes, corrupções e mortes na cidade pelo menos há 10 anos. Talvez culpado até mesmo por Alpha ser desse jeito. E ele demonstrava isso em seus olhos com frieza.

— Não sei por que ele queria te matar, mas você tem sorte de não ter sido levada com as outras crianças – ele completou afastando-se da poça de sangue que tentava alcançar seus pés. – Esse filho da puta não podia ter feito isso sem me consultar, vender vocês para as pessoas que tão tirando meus jovens da rua.

Então era isso, Lince pensou. O Mentor criou uma incitação de guerra para aumentar o preço das formigas e assim vendê-las para a Patrulha.

Seus amigos estavam em perigo e ela nem sabia qual seria ele. As motivações da Patrulha sempre foram um mistério, o que a cercava como uma intrigante e obscura lenda urbana.

Ele esperou alguma resposta, mas ela não conseguia fazer nada além de olhá-lo com medo e receio. Estava aliviada por estar viva e pela maior ameaça de sua vida estar morta, mas problemas maiores estavam surgindo.

— Bom, garota, realmente um milagre aconteceu com você — Montaniere disse sério. — Escapou de duas enrascadas seguidas, mas já seus comparsas... Estão fora de meu alcance. Não me meto em sujeiras de rua. Não tenho mais o que fazer além de repovoar essa zona com novas crianças.

Os guardas dele começaram a vasculhar todo o local, revirando as caixas. Um deles agarrou o colar e entregou à Montaniere, enquanto outro saiu da casa e retornou rapidamente com um galão de plástico. Abriu-o e começou a espalhar o líquido por todo o local, principalmente nas caixas com armas, drogas e joias. Logo o cheiro de gasolina chegou ao nariz de Lince.

— Se você for esperta, fugirá para bem longe daqui e retornará quando as coisas se acalmarem – Montaniere disse dando um pequeno sorriso. Ele caminhou lentamente até a garota, desviando do corpo e sangue do Mentor. Lince sentiu seu corpo endurecer de medo. Ele levantou a mão e ofereceu a ela um isqueiro. – Queime depois de sair.

Ele acenou para seus capangas e todos foram até ele. Montaniere deu uma última olhada em Lince, na frágil garota ensanguentada e virou-se para sair pela porta de trás seguido de seus homens. Não havia notado antes, mas o homem levava consigo o colar de diamantes.

Lince finalmente conseguiu sentir o alívio processar em seu corpo. Esteve cara a cara com uma arma apontada para sua cabeça e depois com o chefe do tráfico da cidade. E estava viva.

Mas, de repente, seus pensamentos transbordaram.

Mía. Mario. Oliver. Segurou forte o isqueiro de metal. Nesse momento eles e todos do formigueiro estavam nas mãos da Patrulha. Lince recompôs-se com determinação e foi até o corpo de um dos guardas mortos do Mentor para pegar sua pistola. Uma AK-47 chamou sua atenção, mas tinha a mínima ideia de como usá-la. Ainda tinha a sua guardada, mas sentia que precisaria de duas.

— Filho da puta – Lince disse fitando o corpo do Mentor. Acendeu o isqueiro, jogou em cima dele e o fogo o consumiu, assim como toda a gasolina pelo chão e paredes rapidamente. A garota saiu correndo e deixou para trás a casa em chamas.

Correu pela rua, passou em frente ao prédio onde se hospedava o Formigueiro e virou na ruela ao lado dele. Parou de repente quando ouviu um tiro seguido de gritos horríveis vindos de lá. Recuou antes de terminar a curva. Assustada, empunhou uma das pistolas e ficou atenta aos sons, notando se passos viriam do local do tiro, de dentro da ruela, em sua direção. Mas o que ouviu foi:

— Não saia daí.

E logo em seguida os passos vieram, mas já estava completamente aliviada. Virou para a ruela e deparou-se com Oliver segurando um rifle. Não conseguiu conter o sorriso.

— Você está vivo.

— Você está viva.

Eles se aproximaram e se abraçaram. A mente de Lince estava um turbilhão, tomada de felicidade por ver que Oliver estava seguro.

— Esse sangue... é seu? – ele perguntou preocupado e também um pouco enjoado.

— Não, não.

— Eu estava indo te salvar, mas vejo que você deu um jeito – ele disse olhando a casa em chamas no final da rua.

Lince deu um tempo para responder e repentinamente ficou séria. Não gostava de demonstrar tanto suas emoções assim.

— E os outros...? – Perguntou com medo da resposta de Oliver – Só você conseguiu fugir?

Ele também assumiu uma expressão mais séria.

— Infelizmente sim – Oliver fitou a garota.

Um som distante surgiu nas costas de Oliver. Eles se viraram e entraram na ruela novamente. O garoto deu um pulo de susto. Capulgo havia sumido. Devia ter aproveitado o momento de distração dos dois para se arrastar. Um rastro de sangue seguia para o outro lado do beco e desaparecia no escuro.

— Era o Capulgo. Ele conseguiu fugir.

— Pelo jeito você deu uma lição nele – Lince comentou observando o sangue. – Mas é, ele é durão. Não importa agora. Pela quantidade de sangue ele vai morrer rapidinho.

— Espero que sim...

Lince virou-se para o garoto lívido.

— Oliver. As formigas foram vendidas para a Patrulha.

Ele arregalou os olhos e respirou fundo.

— O que fazemos agora? – perguntou à ela. Eles tinham que tentar salvar todas as crianças levadas, mas queria ouvir isso da boca dela.

Poderiam fugir para longe, ir para outra zona, recomeçar a vida em um outro comando e esquecer tudo, principalmente ele, que poderia voltar para a segurança e mordomia de casa.

— Você não precisa fazer isso. Sabe, né? – disse para ele sinceramente. Ele pensou um tempo. Estava nitidamente trêmulo, nervoso. Depois de toda a ajuda que recebera, não podia deixar a garota lidar sozinha com aquela situação.

— Acho que, no fundo, era isso que eu queria. Mas não posso prometer não me cagar inteiro.

— Então vamos – ela disse. — Salvá-los.

Oliver segurou firme seu rifle e Lince sacou as duas pistolas de uma vez. O braço machucado incomodava bastante, não conseguia levantá-lo além da altura da cintura, mas a mão já tinha mobilidade completa. O garoto mimado e a garota egoísta partiram juntos.