O Sexto Comando
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Lince e Oliver correram até o pátio atrás do Formigueiro, mas tiveram que parar subitamente e manter certa distância. Um dos ônibus ainda estava lá. Os demais não. Um homem estava agachado ao lado de uma das rodas. Parecia ter acabado de trocá-la.
— Quando eu saí daqui os caras do Capulgo estavam embarcando as formigas num ônibus como esse – Oliver disse baixo para Lince. – Já devem ter partido e esse ficou.
— Aquele cara seria o motorista? – Lince refletiu em voz alta.
— Acho provável. Os caras que escoltaram são só uns dois anos mais velhos que nós né.
— Consegue ver se tem crianças dentro do ônibus?
— Não, e você?
— Não, né.
— Grossa...
— Vamos, acho que tenho um plano – ela completou ignorando a reclamação do menino. — E precisamos daquele cara vivo pra que ele guie a gente até onde levaram as formigas, ok? Nada de violência com ele, por enquanto. Só preciso saber se tem mais gente no ônibus.
— Ok. Eu vou tentar me aproximar pelo lado esquerdo do pátio e tentar ver dentro do ônibus. Te mando um sinal.
— Tudo bem – Lince assentiu e Oliver seguiu agachado pelo canto, esguiando-se para não ser visto por ninguém em potencial. Lince percebeu que não estava com receio pelo garoto se arriscar daquela forma; parecia que estava confiando mais nele, perdendo a visão de menino frágil e mimado da classe alta.
Ele escondeu-se atrás de umas latas grandes e enferrujadas na outra extremidade do pátio e ergueu a cabeça para tentar enxergar algo dentro do ônibus. Lince esperou ele mandar o sinal. Logo em seguida retornou com a mesma cautela de antes até Lince.
— Há crianças lá dentro e uma pessoa em pé no corredor. Provavelmente um capanga e armado. As formigas devem estar algemados ainda – anunciou.
— Tudo bem. Vamos. Fique atrás de mim e mantenha-se sério. Vamos fingir que somos capangas também e abordar o motorista. Deixe que eu falo. Fique calado e apenas faça cara de cara badass. Sei que é difícil pra você, mas vamos lá.
— Engraçadinha...
E os dois seguiram andando até o motorista. Oliver manteve-se atrás de Lince e fazia uma cara de mau segurando seu rifle. Lince manteve o semblante de convencida e séria natural.
Quando chegaram perto, o motorista ouviu-os e levantou-se. Lince estudou bem seu rosto e pôde notar que ele não reagiu estranhando a aparição dela e do garoto, então disse:
— Nos mandaram como reforço. Algumas coisas ficaram feias...
Antes que ele respondesse e pudesse levantar dúvidas que estragassem o disfarce deles, Lince continuou falando.
— Está tudo pronto? Podemos prosseguir?
— Podemos – o homem respondeu olhando-a dos pés a cabeça. Oliver deu uns passos à frente a segurou o rifle bem a frente de seu corpo para distrair o olhar do motorista de Lince e tirar da cabeça desconfianças. – Já arrumei a roda.
— Ótimo, então vamos – Oliver disse sério e o motorista fez que sim com a cabeça, subindo para o ônibus seguido dos dois adolescentes. Ele tomou seu posto no acento da frente. Eles precisavam agir rápido antes que o capanga os notassem e fizesse algo. Lince foi na frente e avançou para o corredor do veículo. No final dele estava o capanga.
Oliver seguiu atrás dela, mas virou-se para o motorista e apontou sua arma para a cabeça dele e ele rapidamente ergueu as mãos, se rendendo. No mesmo instante que Lince surgira, o capanga a notara. Ele empunhou sua arma para ela, mas a garota fora mais rápida e atirou. A bala acertou seu pescoço e ele caiu para trás. Todas as formigas gritaram de susto.
— Ok, todo mundo cala a boca e me escuta! – Lince gritou e a maioria deles se calou. Ela olhou atenta para o rosto de todos para verificar se entre eles estava Mía, Mario ou Jango. Infelizmente nenhum deles estava ali no meio das formigas algemadas. – Saiam do ônibus e fujam daqui, fujam para a zona mais longe que puderem. Busquem refúgio em outro Comando. Vamos! Corram!
— E você – Oliver disse com uma voz ameaçadora para o motorista enquanto aproximava mais a ponta da arma em sua cabeça -, fique aqui...
As formigas levantaram desesperados de seus assentos e saíram correndo para fora do ônibus e depois pelo pátio. Lince se sentiu ótima por no mínimo ter conseguido salvar algumas das crianças, ver o brilho da liberdade nos olhos delas assim que chegou. A garota concentrou-se de volta à sua missão e foi até o corpo do capanga, pegou o rifle dele e guardou a pistola em sua cintura. Voltou à frente com Oliver.
— E agora? – o garoto perguntou.
— Dirija até onde você levaria essas crianças – Lince disse brava para o motorista – o mais rápido que você conseguir. E não tente nos enrolar que eu vou estourar seus miolos sem hesitar, tá me entendendo?
— E-estou... – ele respondeu gaguejando.
Aquela quantidade de crueldade ainda mexia com Oliver. Ele arrepiou-se e olhou para a arma que segurava, uma máquina de matar que usara para estourar a perna de um garoto minutos atrás. Agora a apontava para um homem. Se não tivesse fugido de casa estaria confortavelmente com seus pais, provavelmente passando as férias em outro país. As formigas ainda estariam sendo capturadas, mas ele estaria a salvo dentro de sua zona de conforto. Um garoto promissor filho de uma família rica estava agora nas ruas com crianças ladras e sabe-se mais lá o que. Balançou a cabeça para espantar os pensamentos egoístas e fracos para focar na situação.
— Ande, dirija – Oliver ordenou.
O ônibus seguiu por dez minutos em ruas estreitas e esburacadas na margem do centro da cidade. Eram ruas vazias que garantiam que chegasse rápido ao destino. Lince ressaltou várias vezes ao motorista que não a enganasse tentando fazer outro caminho ou uma viagem mais longa para não revelar o local de entrega das formigas. A garota até ficou com pena dele, pois tentou tirar informações sobre a venda das crianças, sobre a Patrulha e o Mentor, mas dissera não saber definitivamente de nada. Era apenas mais um cidadão de Alpha metido diretamente nos trambiques sórdidos dos criminosos sem ao menos saber o que estava acontecendo direito.
Uma pontada de dor surgiu no braço esquerdo da garota.
— Lince – Oliver chamou a atenção dela com uma voz preocupada -, seu ferimento tá sangrando!
Ela olhou para o curativo encharcado de sangue. Havia se movimentado muito bruscamente nas ultimas horas, mas pelo menos conseguia usar o braço. O curativo era grosso e tão bem feito que a garota nem se incomodava com dores até agora. Caso Lince não limpasse logo o ferimento, o sangue secaria no curativo e poderia infeccionar o buraco da bala.
Um arrepio subiu no corpo de Oliver, um arrepio que o destruiu levemente por dentro. Era sono. O garoto descansara os olhos somente duas vezes desde que fugira de casa; a primeira no depósito da loja e depois no pequeno prédio abandonado que ele estava acomodado quando Lince o abandonara por dez minutos. Sua determinação e adrenalina eram muito altas, assim, o sono não o derrubaria por hora, mas era um incômodo a mais para se considerar, além do cansaço extremo.
Seus músculos da perna ardiam em chamas. Sentou-se no primeiro banco da primeira fileira perto do motorista, e Lince continuou em pé. Aquela garota não parava. E o tempo passou. Mais ou menos quarenta minutos. Já estavam ficando inquietos.
— Estamos bem na região periférica do norte de Alpha, mas esse caminho parece ser para a saída da cidade, pela via expressa – Lince comentou.
Ali a cidade tinha um aspecto mais abandonado, seco e ríspido, muito diferente do centro e do leste, repletos de arranha-céus misturados com prédios históricos e ruelas perigosas onde vidro e metal dominavam. Nem se compara com a rica e charmosa parte do oeste.
Já no norte havia pouquíssimas árvores e o chão mais arenoso, bege; o asfalto das ruas parecia ser coberto por uma camada de poeira bem farelenta. As construções eram mais antigas, raramente os edifícios passavam de mais de quatro ou cinco andares e eram menos conservados. Parecia que aquela região fora construída por uma população de baixa renda dos anos 70 e nunca mais fora retocada, deixada para envelhecer lentamente. O concreto, com o tempo, ficou ríspido. O vento pesado e áspero que vinha das indústrias desgastava as paredes por fora e criava rachaduras finas e longas, inclusive no asfalto antigo.
— Lá fica um bairro industrial, não é? – Oliver complementou.
— Sim. Depois disso a região metropolitana.
— Ficamos de entregar as crianças em um barracão pouco antes da cidade industrial – o motorista finalmente desembuchou. Parecia estar menos nervoso e aliviado. – De lá, pegariam outro meio até o destino final.
— Provavelmente a Patrulha pegará as crianças lá e levará elas para seu covil, ou seja lá o que for – Oliver raciocinou em voz alta.
— Não sabemos o que ou quem são a Patrulha, se são realmente perigosos, despreparados ou algo do tipo... – Lince foi mais para o lado do motorista e disse com determinação: — Eu tive uma ideia, mas é arriscada. Já estamos à frente dos outros ônibus?
— Provavelmente sim. Eles devem estar na avenida paralela a que estamos, saindo da via expressa – ele respondeu em colaboração, mas o nervosismo voltara em sua voz aos poucos. – É um caminho mais lento, mas mais seguro.
— Ótimo. Vou ficar de olho na avenida ao lado pra ver se consigo ter noção de quanto estamos na frente deles, ou se realmente estamos. Talvez a gente consiga parar eles por fora.
— Como? – Oliver perguntou.
— Jogar o nosso ônibus em cima deles.
— Sério? Você tá louca? Vamos nos ferir! E as formigas também.
— Relaxa, sei o que fazer. Vai ficar tudo bem. Se tiver uma ideia melhor, seria lindo.
Era mentira. Estava arriscando mesmo. Mas que era boa em cálculo, Lince era. E muito.
— Vocês sabem que depois disso... – o motorista engasgou – Eu serei morto. Não é?
— Como assim? – Lince perguntou sem entender nada.
— Eu não cumpri o serviço... As pessoas que me contrataram... Acho que não deixarão a limpo, não perdoarão...
— Você sabe quem são elas? – Lince perguntou friamente para pegar informações.
— Não... Mas eu sei, e-eu sei que não são pessoas boas... Eu tenho filhos, esposa... – ele parecia começar a chorar.
Lince ia abrir a boca para responder, mas Oliver tomou sua frente e disse:
— Mas nós somos as pessoas boas, e o que você está fazendo agora é salvar várias vidas inocentes – o garoto estava preocupado. Se o cara surtasse ali, poderia botar tudo a perder, desistir, parar o ônibus ou algo assim.
— Se for para morrer, que morra fazendo o que é certo – Lince comentou. Oliver olhou para ela com uma cara de sério? Isso não ajuda muito.
— E... – ele tentou corrigir a garota – se está com medo, depois daqui, fuja. Fuja para bem longe e não se meta mais em “empregos” desse tipo. Pode parecer difícil, mas dá para tentar ver onde se pisa...
Enquanto ele falava, Lince olhava para a direita, atenta nas ruas perpendiculares à avenida que estava.
— Agora! – Lince o interrompeu – Agora! Vire à direita, rápido! E mantenha a velocidade, depois acelere o máximo que puder.
O motorista respondeu aos estímulos do comando da garota e converteu para a direita em alta velocidade. O ônibus quase tombara, mas depois as quatro rodas voltaram a girar no asfalto e seguiram reto pela rua. Alguns metros depois alcançariam a avenida, mas nenhum ônibus aparecia. Antes, estavam andando paralelamente aos outros ônibus. Agora, na perpendicular. Prontos para uma colisão.
— Ei, Lince, seremos sortudos se sobrevivermos à hoje, então queria dizer obrigado por ter me salvo naquele dia.
— Tá.
— Tudo bem.
— Agora! – Ela anunciou. – Corram para o fundo do ônibus, sentem, coloquem o sinto e tentem se proteger!
Os três seguiram para o fundo e fizeram o que a garota disse. O ônibus seguiu o caminho. Todos olhavam ansiosos para frente. Se o outro ônibus com as crianças aparecesse cedo demais ou tarde demais, tudo daria horrivelmente errado. O coração de Oliver quase pulava de seu peito. Iria colidir dois enormes automóveis propositalmente.
— Isso é loucura... – o motorista comentou desesperado.
Tudo balançou e estremeceu. O barulho foi horrível. Pior que ele, apenas o balançar estonteante. Som de metal retorcido e vidros se quebrando. Oliver sentira apenas uma enorme dor na cabeça e na barriga. Logo depois veio o sangue.
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