O Senhor do Tempo

Nova York, dezembro de 2007.

Catarina Loss havia acordado assustada por conta da mensagem vinda do Labirinto Espiral “há essa hora? Deve ser algo sério, ou só algum feiticeiro velho que perdeu a noção do tempo”. Havia sido um longo dia no hospital Beth Israel, não queria olhar a mensagem diretamente, poderia ser algo sério e precisasse sair logo após lê-la, precisava estar preparada para tal. Foi ao banheiro de seu apartamento e olhou no pequeno espelho que ficava logo acima da pia, seus cabelos, brancos como flocos de neve estavam emaranhados e sua pele azul escura estava levemente amassada onde estivera dormindo.

Após ter feito uma rápida toillete se dirigiu à cozinha onde olhou o relógio, marcavam duas horas e dezessete minutos, virou para a mesa onde a carta com o selo do Labirinto Espiral acabara de se materializar com um estrondo que parecia um show pirotécnico, quebrou o selo, abriu-a e finalmente começou a ler:

Catarina,

Houve um grave erro no geas do Labirinto, há um feiticeiro nas ruas de Nova York que deveria estar registrado, normalmente pediria a Magnus, entretanto, ele está fechado em Idris e minha mensagem não chegou a ele, não sei onde se encontra, só sei que atende pelo nome de Matthew White, sua marca de feiticeiro é uma mecha branca em seus cabelos. Desculpe não fornecer mais informações, mas precisamos muito que esse feiticeiro seja encontrado e trazido para cá o quanto antes.

Sua amiga, Theresa Gray.

Catarina ficou preocupada, não conseguir falar com Magnus era a mesma coisa que não achar uma agulha rosa cheia de lantejoulas e brilho num palheiro. Decidiu mandar uma mensagem de fogo para seu amigo Ragnor Fell, mas logo se lembrou de que fora morto há pouco tempo em sua casa próxima à Alicante. Era uma sensação estranha, já passaram décadas sem trocar uma palavra, mas dessa vez era diferente, não haveria o prazer do reencontro, não haveria a troca de palavras e nem as promessas de se verem mais vezes. Em outras circunstâncias estaria triste, mas depois de viver centenas de anos a morte não passava de uma brincadeira do destino à quais todos participavam menos eles- os feiticeiros.

Revirou-se na cama por um tempo até que desistiu de voltar a dormir. Colocou uma jaqueta simples por cima de uma bata cor marfim e um jeans simples e surrado, calçou sapatilhas brancas também –quando se trabalha em hospitais por mais de 300 anos é comum que acabe se adquirindo o hábito de usar roupas claras- e saiu de seu pequeno apartamento.

Começou a vagar pelas ruas de Nova York com a esperança de achar um feiticeiro explodindo coisas e, pela primeira vez, ela não estava procurando Magnus. Chegou até uma parte mais abandonada da cidade onde sentou em um banco e olhou para frente, depois de um tempo se lembrou de que, naquele lugar, há algum tempo atrás, Magnus jogou um fanático pelos ares.

Continuou andando até chegar ao Taki’s, um restaurante de comida chinesa que era frequentado por membros do Submundo, sentou-se em um canto e pediu um café simples- o de sempre. Encontrou Maia, uma licantrope integrante do bando de Luke Garroway, ela, misteriosamente, sentou-se à sua frente e disse:

–Catarina Loss, não?

–Sim- respondeu ela com rispidez, nunca havia falado com ela, como ela sabia seu nome? Depois de algumas centenas de anos de vida era comum que várias pessoas te conhecessem, ainda mais quando você era a curandeira mais requisitada de Nova York, ainda mais por lobisomens que adoram se meter em encrencas sobrenaturais.

–Magnus falou de você para o bando, disse que na ausência dele deveríamos te procurar. –Disse Maia.

Catarina sorriu e sentiu suas bochechas se aquecerem, normalmente, uma pessoa ficaria vermelha, no caso dela, ela ficou mais azul.

Maia era uma moça muito bonita, não tinha perfil de alguém que podia se transformar em um feroz lobo, tinha a aparência rígida de todo licantrope, mas ao mesmo tempo, era delicada como uma garota comum da idade dela, usava uma camiseta de algum tipo de Dungeon & Dragons, um jeans simples e all-star, ficou tentada em perguntar como uma moça daquela havia sido mordida e infectada por um lobisomem, mas assim como feiticeiros não gostam que comentem suas marcas, os licantropes também não gostavam de compartilhar esse tipo de história.

Percebeu que havia encarado a menina por um tempo muito longo então resolveu abaixar a cabeça e murmurou:

–Desculpe.

–Está tudo bem Catarina? Sei que está sempre ocupada, quase não tem tempo de sair, o que a trás aqui, tarde da noite?

–Não é nada, é só que, me avise se vir qualquer coisa errada, principalmente se tiver algum feiticeiro envolvido. –Ela pegou sua jaqueta, colocou uma quantia bem a mais de dinheiro em cima da mesa e rumou para a porta, deixando Maia encarando o espaço vazio que ocupava a mulher com pele azul.