O Senhor das Florestas
27 Tempos Sombrios

— Parece que você se perdeu. – Em um piscar de olhos, Meldrie estava na sua margem do rio, com as pernas encolhidas junto ao peito, observando o brilho da água com um olhar desinteressado. Seu tom era monótono, como se ela já esperasse por aquilo, mas, ainda assim, estivesse decepcionada. Ascian se perguntou se ela sabia o que tinha acontecido com Hernan; caso sim, a forma como falava lhe trouxe ressentimento. Se ela percebeu sua inquietação, ignorou. Os dedos da deusa brincaram na água, filamentos de magia desprenderam-se em um tom brilhante de azul. – Não estava pensando em limpar isso no rio, estava? Não entendeu da primeira vez? Corpos humanos não têm o necessário para suportar águas que fluem do Lago Primordial. Magia age sobre magia.
— Eu não iria. Não precisa me explicar sobre isso.
Ascian desviou o rosto, cobrindo o ferimento com a outra mão. Sua mãe chamava de fagulha, aquilo que faltava aos humanos e a razão de serem um povo sem magia. Podiam tocar o Lago, mas nunca beber de suas águas ou deixar que se misturassem com seu sangue.
— Você é inesperadamente orgulhoso para uma coisinha tão jovem. Só avisei porque já vi humanos arderem por dentro por subestimarem a energia do Lago. Deveria tê-lo deixado mergulhar… – Ela estreitou os olhos com um ar travesso rompendo a máscara de apatia por um rápido instante. – Acalme-se, estou brincando.
Ele estava calmo. Já a encarava com suspeita e desconfiança, então o comentário não o alarmou. Da primeira vez que conversaram, ele sentia que seus sorrisos não eram sinceros e que ela duvidava que eles chegariam a qualquer lugar. Ele ainda sentia isso, mas o desânimo no semblante dela era novo. Sua mente, porém, estava cheia demais para pensar em qualquer detalhe.
Eiren se aproximou, querendo ajudar com a fogueira, e entregou a Ascian um galho verde demais para que conseguissem queimar. Ascian passou a mão em seus cabelos, agradecendo mesmo assim, mas insistiu para que descansasse. Então, com a naturalidade das crianças, Eiren virou-se para a deusa reclusa e perguntou:
— A senhora estava chorando?
Ascian não sabia que deuses choravam, mas depois que Eiren perguntou, os sinais em seu rosto eram claros, os olhos inchados em um rosto cansado. Meldrie abriu um sorriso triste e assentiu com seriedade.
— Eu perdi alguém que era muito querida para mim, e ainda não entendo muito bem o que significa tê-la perdido – disse, estendendo a mão para a marca no braço de Ascian, fazendo-a desaparecer como se o ataque da serpente nunca tivesse acontecido. – E acreditem, a perda não é só minha. Sem Calisthea… Tempos sombrios começaram para os mortais.
— Calis…— Ascian se interrompeu, quase esquecendo que não era adequado usar a Língua Natural. – A Senhora da Justiça?
Compreendendo que ela falava de outra deusa, seu humor escureceu ainda mais. A fala de Meldrie não lhe sensibilizou como no primeiro momento, quando pensou que ela falava de morte. Mas não podia ser morte, podia? Deuses eram eternos, não passavam por isso, e qualquer que fosse a perda a qual Meldrie se referia, não era tão extrema ou definitiva quanto a que os mortais vivenciavam todos os dias, talvez fosse só algum desentendimento que poderia ser remediado com o tempo.
Mais uma vez, ele pensou que a Senhora da Boa Terra podia sentir suas emoções, pois seu aspecto abatido deu lugar a uma severidade régia caindo sobre ele.
— Tem algo a dizer, criança?
Ascian sabia que os deuses não eram seres para se contrariar. Porém, com a dureza no olhar dela, viu que até o silêncio podia ser perigoso.
— Duvido que tempos sombrios lhe preocupem – respondeu, por fim. A franqueza na resposta surpreendeu até a si mesmo. – Se a humanidade lhe importasse tanto assim, teria nos ajudado a sair daqui.
Em vez disso, ela havia ficado com a Floresta, deixado que ela agisse livremente, e o resultado estava às costas deles, um irmão perdido que eles sequer puderam enterrar. Uma perda real, não o que quer que fosse aquele drama deífico.
— Minha abstenção o ofendeu? Você me odeia porque não tirei vocês da Floresta? – Meldrie suspirou, aborrecida. – Eu sou filha da Vida e da Morte, e não vejo um acima do outro. Eu não mudaria minha escolha de não interferir, e mesmo assim, deveriam ser gratos. Minha irmã e eu temos sido sua única ajuda por aqui, quando até mesmo sua família já desistiu de procurá-los. Outros em meu lugar o fariam rastejar pela mera ousadia de exigir minha atenção. Seres como eu não devem nada a criaturas como você.
— Quer que eu agradeça por não ter nos destruído tanto quanto poderia? Por ter ficado apenas olhando enquanto seus monstros nos caçavam?
Deuses não eram seres para se contrariar… Mas ele podia se ver rasgando com as próprias mãos o que restara de seu bom senso. Só se calou porque viu o olhar preocupado de Eiren, e sentiu como se tivessem trocado de lugar. Quando encontraram Meldrie pela primeira vez, Ascian e Hernan temeram pela informalidade inocente com que Eiren falara com a deusa. Mas agora Ascian a questionava, e não estava sendo nada respeitoso. Não podia ser impulsivo até se destruir. Não era só ele ali para sofrer as consequências. Felizmente, Meldrie parecia disposta a relevar sua ousadia.
— Desde nosso primeiro encontro, você parece achar que está em alguma disputa comigo ou com a Floresta. Eu não sou a Floresta, e nós não estamos disputando. É por isso que continua vencendo. Você não teria chance alguma se eu quisesse algo de você, porque você é só uma criança, e eu sou muito mais.
— Vencendo?! – Os deuses deviam ter mesmo uma visão muito distorcida para que ela enxergasse alguma espécie de vitória, por menor que fosse. Tudo o que fizeram na Floresta foi perder. Era quase um desdém incrédulo, mas ao menos enxergou com clareza ainda maior: – Agora entendo que nunca foi sua intenção nos ajudar.
— Está enganado. Foi sim minha intenção, por um momento. Mas se essa é a ajuda que espera de mim, acho que mudei de ideia – revelou, com ar pensativo. Meldrie vinha repensando o significado dos últimos eventos nos salões divinos, os vazios na Criação. Vazios que sempre existiram e que eram criados constantemente. Eles não a entenderiam, mas decidiu revelar uma fração de seus pensamentos. – A Floresta não é meu reino, eu com certeza não a comando. Ela vive sozinha e não há quem a controle. Deveria haver, mas esse mundo ainda é muito novo. Nem todas as coisas estão onde deveriam estar.
Deixou que os irmãos seguissem seu caminho. Ela ainda tinha muito em que pensar.
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