O Senhor das Florestas
28 O Sussurro do Vento

Para seu temor, Ascian percebeu que estava começando a relaxar. Os dois dias anteriores tinham sido um borrão de pura urgência, tanto para o corpo quanto para a mente. Agora que tinham parado um pouco para descansar e enganado a fome com a serpente, o corpo começava a abandonar o estado de alerta, enquanto a mente ainda lutava sozinha. Ascian estava perto da fogueira, cujas chamas não eram suficientes para o ar frio da noite. Todo o seu corpo estava pesado e dolorido pela tensão, implorando por um descanso de verdade, não apenas uma pausa.
Eiren se remexeu ao seu lado, abrindo os olhos sonolentos por um instante. Apoiava a cabeça na perna de Ascian, que descansava a mão em seu ombro.
— Você não vai dormir também?
— Daqui a pouco – respondeu. Estava cansado, mas tinha medo do que aconteceria se dormisse. Porque algo estava para acontecer, ele podia sentir.
— Você está preocupado? Eu posso ficar acordado um tempo – Eiren sugeriu, tentando disfarçar um bocejo com a mão. Percebendo que não tinha sido convincente, ele fez uma careta emburrada para si mesmo. Quando eram três, Ascian e Hernan se revezavam em vigilância, mas Ascian não pediria a Eiren que ficasse acordado para que pudesse dormir.
— Você não precisa, Ren. Eu estou bem, vou dormir depois. E sou eu quem tem que cuidar de você.
— Eu não disse para parar. – Ele mostrou um sorriso fraco. – Quero poder cuidar de você também, Cian.
Ascian apertou de leve seu ombro, uma tentativa falha de afago, e tentou sorrir como se dissesse para esquecer as preocupações e voltar a dormir. Mas Eiren conhecia o irmão que tinha, e não desviou o rosto, esperando o que mais aquela conversa tinha a oferecer.
— Eu… estou com medo, Ren – disse, por fim. Geralmente, Ascian não compartilharia seus receios. Queria que o irmão olhasse para ele e visse apenas confiança, mas estava cansado demais para conseguir disfarçar como habitual. Eiren pareceu um pouco mais desperto, já que era incomum que qualquer um dos três admitisse ter medo de algo. Em casa, admitir era sempre pior. A lembrança de que um pensamento parecido foi o motivo pelo qual Eiren o acompanhou até aquele lugar em vez de voltar para a segurança de casa pesou em seu peito. Era uma postura que nunca fez bem algum a nenhum deles. Talvez precisasse olhar para os próprios medos em vez de fingir que não existiam, mesmo assim, a frase não passou de um murmúrio fraco que Eiren não compreendeu direito: – Se eu fechar os olhos e você não estiver aqui quando eu os abrir novamente…
Da última vez em que passou por uma calmaria parecida, Ascian tinha adormecido em uma clareira aparentemente segura e acordado no meio daquela emboscada da Floresta. Não tinha motivos para achar que não aconteceria de novo.
— Eu não escuto mais os animais, Cian, devemos estar bem longe deles.
Ascian também tinha pensado assim por um momento, mas ele permanecia atento. Antes eles escutavam uivos distantes e outros sons ainda piores, como se as criaturas sempre estivessem em seu encalço. Agora a Floresta era silenciosa como uma sala vazia, mas não podia ser real. O vento ainda agitava as folhas com delicadeza, a grama ondulava calmamente, tudo era muito suave para os olhos. Depois de ter sido ferido, Hernan às vezes ficava quieto quando a Floresta sussurrava daquela forma, como se ouvisse uma língua muito próxima da deles, que por pouco não conseguia entender, eram segredos que nunca esteve em seu destino conhecer. Ascian não entendia as leis daquele lugar, mas estudava seus sinais. O sussurro do vento era quase um alerta legível no ar.
“A Floresta conhece seus caminhos.”
Todas as criaturas eram a Floresta, e se ela estava silenciosa, era porque queria. Ela não poderia se perder em si mesma.
Eiren pegou no sono novamente. Sem a sensação de perigo iminente alimentando seu corpo e com o canto sussurrado das folhas ao vento, sua atenção se desprendeu. Apenas a fogueira se agitava no centro de sua visão, e logo a escuridão também a engoliu.
Ascian só percebeu que tinha adormecido quando acordou.
Sozinho.
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