O Senhor das Florestas
15 O Futuro Enevoado

Aquele era um dia atípico.
Mesmo na Floresta Profunda era perceptível, como se algo estivesse acontecendo lá fora, afetando o mundo inteiro. Os irmãos, porém, estavam alheios à causa dessa sensação. Eiren segurava a mão de Hernan, enquanto Ascian, sempre inquieto, andava à frente, não conseguia desacelerar, queria achar logo a saída. Estavam ali por sua causa, e havia risco atrás de cada árvore. Ascian não esquecera aquela íris brilhante no tronco, e tinha a impressão de ter visto mais vezes. Se não era o medo lhe pregando peças, e a Floresta realmente os observava, ele temia seus motivos para segui-los. Afinal, Hernan tinha ferido Soter quando foram atacados.
Ascian não gostava de pensar nisso.
Então, de repente, ele parou, vendo as águas da corrente larga e funda.
— O rio mudou de lugar – falou, quase um sussurro.
— Por que acha isso?
— A terra subiu no caminho que fizemos, mas o rio ainda segue reto na mesma direção…
— Podemos só ter chegado mais perto da fonte.
— Como, se seguimos o caminho da Senhora da Terra? Nos perdemos de novo ou o rio se moveu!
— Ascian, acalme-se, isso é…
— Ruim – Eiren falou. Mesmo uma criança entendia a consequência. Eiren apontou para a outra margem. – Porque ela disse que o caminho era por ali…
— Isso se ainda estivermos no caminho certo – resmungou Ascian. – Ela bem que poderia aparecer agora, ela não vive aqui?
Mas aquele era um dia atípico.
Os irmãos não tinham como saber que algo acontecia lá fora. Que o dia amanheceu sem um sol, e a noite não trouxe lua ou estrelas. Meldrie não estava na Floresta, pois todos os deuses se reuniram por um crime jamais imaginado, e conforme o sangue prateado manchava as águas do Lago Primordial, cada um deles enfrentava algo que deuses nunca esperaram sentir.
Luto.
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