Antes pensava que o medo lhe pregava peças, agora não mais. A Floresta claramente os observava. Mesmo Eiren perguntou se estavam sendo seguidos, pois uivos soavam baixo na escuridão ao redor deles, cada vez mais perto. Como quando Soter apareceu, porém, agora pertenciam a mais que um dono.

Antes eles conseguiam dormir até amanhecer, agora não passavam mais que duas horas no mesmo lugar. Ansiosos e exaustos por noites maldormidas, aproveitavam cada pequena oportunidade de descanso.

Quando viu novamente um daqueles olhos nas árvores, Ascian sequer pensou em prudência. Estava cansado demais para isso. Como sempre, o olho desapareceu em segundos, deixando para trás apenas a dúvida de ter sido real. Com uma pedra, Ascian golpeou o tronco repetidas vezes. Não era apenas um ato impensado. Ascian tinha raiva, sim, a Floresta brincava com eles. Mas pela primeira vez, ele admitiu para si mesmo que mais do que temer, queria conhecer. Saber o que os observava, o que os perseguia, eles tinham ao menos esse direito.

Ascian deixou a pedra cair quando a casca arrancada do trono revelou um rosto no escuro. Mal compreendeu o que via e uma mão o agarrou pela abertura, a pele áspera como o tronco da árvore, assim como o rosto da criatura. Uma dríade.

A mão apertou seu pescoço e Ascian não conseguiu recuar. Encarava os olhos verdes dela, visíveis mesmo na escuridão. Apesar do medo e do ar que começava a faltar, Ascian pensou apenas em Soter.

— Você… era uma… pessoa?

Um dedo arranhou a pele ao alisá-lo, a pressão aumentando. Ascian engasgou por ar, tentando se desvencilhar. Inclinou-se, o tronco abrindo-se para capturá-lo, a expectativa de um segredo revelado. Expectativa quebrada por um estalar alto e um grito da dríade, que se escondeu novamente na árvore, e por Hernan puxando-o para longe.