Ascian parou apenas quando Eiren já não conseguia dar mais passo algum. Sabia que era injusto exigir que ele acompanhasse seu ritmo quando mesmo normalmente ele não conseguia, e agora Ascian andava a passos largos quase desejando correr, mas sem nunca soltar a mão dele. Apenas queria se afastar. O máximo que conseguisse, o mais rápido possível. Afastar-se da armadilha, da sentença, da cena que não deveriam virar para olhar. Mesmo andando há horas, Ascian continuava sentindo como se Hernan ainda estivesse bem a suas costas. Como se a gravidade na fatídica clareira fosse mais forte, tentando empurrá-los de volta para o lugar, cansando-os muito mais que o natural quando tentavam se afastar.

Mas não era cansaço. Ascian não sentira fadiga até finalmente parar, e então suas pernas cederam como se o corpo tivesse subitamente despertado para todo o esforço. E mesmo com as costas no chão, sem conseguir sequer virar o rosto para Eiren ao seu lado, a exaustão física ainda parecia uma parte pequena de tudo, esquecida no canto da mente, ofuscada pelos pensamentos turvos e memórias persistentes. As imagens, os sons… O peito subia e descia com a respiração descompassada, Ascian cobriu o rosto com as mãos tentando se controlar, embora tentar já o enchesse de culpa. Ainda achava frieza ter virado as costas, e agora tentava não se deixar afetar e seguir em frente para salvar a própria pele e o irmão que ainda tinha. Uma frieza egoísta ainda mais, pois o que mais queria era que sua mente parasse de atormentá-lo com aquelas imagens que não queria ver, gritos que não queria ouvir, e verdades que não queria lembrar.

“Foi culpa minha.”

Hernan e Eiren só estavam ali por sua causa.

Ascian já tinha sentido desespero antes. Antes mesmo de estar na Floresta, medo tingido de raiva de uma forma que o mundo lhe parecia inalcançável. Hernan era quem melhor sabia tirá-lo disso, lançando-lhe palavras de conforto que Ascian nunca ouvia de verdade, mas faziam efeito porque ele estava na sua frente, a mão em seu ombro, mostrando-lhe um caminho de volta para uma calmaria frágil. Ascian agora tentava com todas as forças encontrar sozinho esse caminho, mas a celeuma de seus pensamentos ainda nublava sua atenção. Não ouviu o silvo baixo perto de si, nem o aviso assustado de Eiren. Percebeu o movimento nas folhas logo antes do bote, sem tempo para recuar quando a serpente avançou.

Notas finais
Ascian é o responsável pela própria segurança e a do Eiren há um dia e já tá tropeçando nos obstáculos. Será que ele pega o jeito? ;-;