O Senhor das Florestas
26 Como a Chuva

O único reflexo que teve foi agarrar por impulso uma pedra no tempo que a dor se fez sentir, e antes que a serpente deslizasse de volta para as folhas, golpeou-a na cabeça até ver que não se mexia mais. Largou a pedra com um suspiro nada aliviado, afundando o rosto nas mãos e quase cedendo à vontade desesperada de apenas desistir de tudo. O ferimento doía, mas não era sua maior preocupação, Ascian tinha medo de pensar sobre o problema real. Até que o silêncio fora de sua mente lhe chamou atenção muito mais do que a agitação dentro dela, e ele ergueu o rosto para o olhar aterrorizado de Eiren, cheio de dúvidas.
— Estou bem, Ren! – garantiu. E apenas para tranquilizá-lo com mais convicção foi que se forçou a encarar a serpente, sentindo que a imagem tirou um peso maior de seu peito do que o que Eiren deveria estar sentindo. – Estou bem, veja. É uma cobra normal, não uma criatura da Floresta.
— Não é venenosa?
Ascian nem tinha cogitado a possibilidade, seus medos ultimamente eram outros. Mas conferiu novamente antes de negar. Uma ideia surgiu quase lhe dando esperanças. Lembrou de invernos difíceis, quando as bruxas apareciam cada vez menos para comprar as ervas da Floresta que seu pai vendia. Por princípios, ele não fazia negócios com feiticeiros, que eram os únicos outros interessados em seus serviços, então sua mãe precisava ser criativa para que tivessem comida na mesa todos os dias.
— Precisamos de fogo.
— Não é perigoso acender?
— Precisamos de fogo, a menos que consiga comer carne crua. – Eiren se encolheu no lugar e Ascian se arrependeu imediatamente pela rispidez em seu tom. Ele também estava aterrorizado, a fogueira os denunciaria. Ainda não conseguia pensar direito no que estava a sua frente, mas sabia que não teriam forças para continuar andando, já não sabia há quanto tempo não comiam, e Eiren era quem mais sofria com isso. Mesmo assim, o garoto olhou para a cobra com desconfiança. – A cobra apenas entrou aqui, Eiren, ela não é da Floresta. É como a água da chuva.
— É como a gente…
— Não, não é. Nós vamos sair – respondeu, apesar de achar que não foi nesse sentido que Eiren falara. Dessa vez, Ascian quase conseguiu acreditar no que dizia.
Ao redor, viu muitos galhos e folhas que poderiam ser usados para o fogo, mas também percebeu que toda a caminhada levara-os de volta ao rio. Ascian suspirou. Aquela água nem mesmo era confiável para beber, será que poderia limpar os pequenos ferimentos deixados pelas presas da cobra? Mas não foi pensando nisso que Ascian se aproximou da margem.
Uma mulher estava sentada na margem oposta, com os pés na água e um olhar distante. Ela estava muito diferente de antes, os cabelos pareciam ter perdido a cor, sendo os traços suaves de castanho entre os fios brancos os únicos vestígios da cor antiga. Seu rosto não estava pintado dessa vez, tudo nela tinha uma aparência pálida e fria e estéril. Os cogumelos tinham desaparecido, mas a tiara de galhos permanecia, embora não exibissem nenhuma folha ou flor, apenas o branco da neve. Ele sabia quem era ela, e não se surpreendeu com a mudança em sua aparência. Deuses ligados à terra mudavam constantemente.
A Senhora da Boa Terra tinha retornado a seu refúgio.
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