O Senhor das Florestas
25 Memórias Persistentes

Ascian parou apenas quando Eiren já não conseguia dar mais passo algum. Sabia que era injusto exigir que ele acompanhasse seu ritmo quando mesmo normalmente ele não conseguia, e agora Ascian andava a passos largos quase desejando correr, mas sem nunca soltar a mão dele. Apenas queria se afastar. O máximo que conseguisse, o mais rápido possível. Afastar-se da armadilha, da sentença, da cena que não deveriam virar para olhar. Mesmo andando há horas, Ascian continuava sentindo como se Hernan ainda estivesse bem a suas costas. Como se a gravidade na fatídica clareira fosse mais forte, tentando empurrá-los de volta para o lugar, cansando-os muito mais que o natural quando tentavam se afastar.
Mas não era cansaço. Ascian não sentira fadiga até finalmente parar, e então suas pernas cederam como se o corpo tivesse subitamente despertado para todo o esforço. E mesmo com as costas no chão, sem conseguir sequer virar o rosto para Eiren ao seu lado, a exaustão física ainda parecia uma parte pequena de tudo, esquecida no canto da mente, ofuscada pelos pensamentos turvos e memórias persistentes. As imagens, os sons… O peito subia e descia com a respiração descompassada, Ascian cobriu o rosto com as mãos tentando se controlar, embora tentar já o enchesse de culpa. Ainda achava frieza ter virado as costas, e agora tentava não se deixar afetar e seguir em frente para salvar a própria pele e o irmão que ainda tinha. Uma frieza egoísta ainda mais, pois o que mais queria era que sua mente parasse de atormentá-lo com aquelas imagens que não queria ver, gritos que não queria ouvir, e verdades que não queria lembrar.
“Foi culpa minha.”
Hernan e Eiren só estavam ali por sua causa.
Ascian já tinha sentido desespero antes. Antes mesmo de estar na Floresta, medo tingido de raiva de uma forma que o mundo lhe parecia inalcançável. Hernan era quem melhor sabia tirá-lo disso, lançando-lhe palavras de conforto que Ascian nunca ouvia de verdade, mas faziam efeito porque ele estava na sua frente, a mão em seu ombro, mostrando-lhe um caminho de volta para uma calmaria frágil. Ascian agora tentava com todas as forças encontrar sozinho esse caminho, mas a celeuma de seus pensamentos ainda nublava sua atenção. Não ouviu o silvo baixo perto de si, nem o aviso assustado de Eiren. Percebeu o movimento nas folhas logo antes do bote, sem tempo para recuar quando a serpente avançou.
Fale com o autor