Notas iniciais
Um mundo onde todos os seus medos são reais.

Dylan abriu seus olhos lentamente e afastou a sensação de enjoo que percorreu seu corpo quando se sentou encostando em uma árvore. Percorreu a mão sobre seu peito que doía, uma nova cicatriz havia formado na direção de seu pescoço.

Maldito demônio. Olhou ao redor, estava em uma floresta densa e escura, sozinho

– Caçadora? – Perguntou com tom de deboche esperando alguma bronca ou alguma coisa sendo atirada em sua cabeça – parece estou sozinho, Skarlet, tem algo a dizer sobre isso?

Nenhuma resposta.

– imaginei que não – se ergueu apoiado ao tronco. Ao ficar de pé, formou uma pequena chama na mão, para iluminar o caminho.
Não havia nada naquele lugar, nem se quer um maldito inseto. Algo caiu aos seus pés e se abaixou, era o precioso relógio de Lucelin, porque estava com ele? As imagens daquela tarde passaram por sua cabeça, aquele desgraçado dos príncipe das trevas o havia conseguido controlar, fazendo-o machucar gravemente Lucelin e seu guardião. Cerrou o cenho. Como pode se deixar ser controlado tão facilmente? Por acaso era idiota?

Andou por um longo tempo, desviando de galhos e troncos até ouvir o som de uma cachoeira. O garoto chegou ao pico de um penhasco que em sua base havia um pequeno campo verde e escuro, coberto com musgo e água da cachoeira que caia do outro lado. Provavelmente estaria à uns 60 metros de altura se comparado à cachoeira que ainda estava à alguns metros abaixo do garoto.

Dylan olhou ao redor, não havia nada, nem sequer um prédio ao alcance de sua visão. O garoto coçou a cabeça, confuso e irritado

– Mas onde diabos eu estou?

Sem pensar duas vezes, Dylan decidiu descer o penhasco, não iria dar a volta nem ferrando, não queria ficar mais uma hora sequer naquele lugar. Precisava encontrar Lucelin, Skarlet ou qualquer mosca que lhe dissesse que não havia morrido. Seu peito ainda não havia se curado por completo, afinal, o demônio loiro o atingiu com aquela lança em cheio.

– Dylan — Uma voz o chamou, estava longe e era quase um sussurro. O garoto teve que se segurar com força em uma rocha para não cair daquela altura. Olhou ao redor, não havia ninguém, e ele também não sentia qualquer aura. Suspirou, só podia estar imaginando coisas.

Quando voltou a olhar para cima, se assustou, havia fogo por todos os lados, queimavam a floresta acima de sua cabeça, o fogo descia pela terra, rochas e cipós onde o garoto se segurava. Rapidamente tentou desfazer o fogo com seus poderes, mas, apenas piorou, e as chamas aumentaram e cresciam em sua direção.

– Socorro — Alguém gritou, e de repente uma mão surgiu da terra a sua frente, agarrando-se ao braço do garoto.

– Mas que merda...?– Era a mão de uma mulher e estava completamente apodrecida, suas unhas velhas e sujas furavam a pele do garoto, fazendo-o se desequilibrar e despencar penhasco a baixo.

***

Ergus trocava os curativos dos ferimentos do ombro de Lucelin, pelo que o guardião dissera, a garota havia passado dois dias inconsciente. Lucelin olhava para a janela sentada em uma cama na enfermaria da faculdade. Estava tudo tão calmo, quieto, era tão estranho. Lucelin estava preocupada, o que aquele demônio fez com sua cidade? Isso se aquele lugar realmente fosse sua cidade.

Cerrou os punhos. Ergus olhava para o ferimento da garota.

Me perdoe — Ele disse, sentando-se a sua frente — Eu fui tão idiota — Ele colocou a mão sobre os cabelos escuros.

– Não foi sua culpa — Lucelin olhou para o guardião, se ao menos a garota fosse mais forte, nada disso teria acontecido.

– Eu me deixei levar — Ergus colocou as pernas em cima da cama, dobrando os joelhos — Achei ter sentido Kyla, era como se a aura dela rondasse aquele demônio, talvez fosse só minha imaginação.

A garota lembrou-se de seu sonho, o campo de flores, a mulher cantarolando.

– Você a conheceu certo? — Lucelin perguntou, abraçando suas pernas — Como ela era?

Ergus a olhou sorrindo.

– Eramos amigos de infância, eu não me lembrava na forma de lobo, mas agora, me lembro de tudo, nós crescemos juntos, treinamos juntos. Kyla, sua mãe, era uma pessoa maravilhosa — Ele se levantou, arrumando alguns kits médicos em uma mochila — Ela vivia para proteger as pessoas, Kyla era capaz de ver o lado bom em todos, e todos admiravam tanto isso nela que acabavam mudando, se tornando pessoas melhores — Ergus dizia cada palavra com dor — você me lembra muito ela, mas sua mãe não se metia tanto em confusões e nem era tão teimosa- Ele bufou — Kyla tinha os cabelos completamente brancos como a neve. Sua espada, Kami, pertencia a ela.

Lucelin observava Ergus, ele parecia triste e seus pensamentos estavam longe. Aquele olhar, de quem perdeu muito no passado, um olhar repleto de dor, era o mesmo que Dylan tinha. A forma como Ergus pronunciava o nome de Kyla, e o quão bonito seu nome se tornava quando dito por ele. Com certeza ele a amava.

– Você... — Lucelin suspirou, voltando atrás com a pergunta — é bem jovem — disse ela sorrindo.

– Esperava algum velho caquético com cabelos grisalhos e uma experiencia de vida decente? — Ele cruzou os braços e sorriu — Eu morri cedo, em uma missão com sua mãe. Precisávamos destruir um príncipe das trevas que andava causando problemas no castelo — Ele ergueu os ombros — Mas, tinha um exercito de demônios, eram muito mais fortes e acabei morrendo.

Lucelin abaixou as pernas, cruzando-as. Ergus havia passado por tempos difíceis, morrer e ainda voltar a vida para proteger a filha da mulher que ele ama. Provavelmente era doloroso.

A garota olhou pela janela e seu coração saltou. Lucelin correu, atravessando a porta e o pátio aberto.

– Connor! — Ela gritou. O garoto estava à alguns metros, olhando para baixo. Lucelin sentiu seu coração disparar e os olhos lacrimejarem. Era Connor, ele estava ali, à sua frente. Lucelin correu para o garoto, queria abraça-lo, beija-lo.

Connor ergueu os olhos e Lucelin parou, aquele olhar, o mesmo de quando era expulsa por todas as escolas e pelas famílias adotivas, o olhar de desprezo, aquele olhar que fazia Lucelin se sentir um próprio demônio.

– Lucelin? — Ergus gritou da porta da enfermaria, Lucelin olhou para o guardião, mas quando voltou a olhar para frente, Connor havia desaparecido. Lucelin apertou a blusa na altura do coração — O que aconteceu? — Ergus se aproximou, carregando uma mochila.

A garota respirou fundo, suas mãos ainda tremiam, se sentia perdida, insegura.

– Eu pensei ter visto Connor — Ela disse, tentando convencer a si própria — Mas, foi apenas minha imaginação.

Ergus passou a mão em seus cabelos, de forma acolhedora.

– Venha, criança — Ele a chamou de forma doce, como sempre fazia em sua mente — Vamos sair daqui.

Ergus a levou até um carro branco que estava parado no estacionamento da faculdade, a chave estava na ignição. Logo estavam voltando para sua casa, em uma rua afastada do centro da cidade.

Lucelin olhava pela janela aberta do carro, debruçada sobre os braços cruzados. A cidade estava tão calma, silenciosa. Tudo estava tão em paz que por um segundo se questionou se realmente estava viva.

***

Ergus estava sentado no telhado da casa, ele olhava fixamente para o céu escuro da madrugada. Lucelin havia ido se deitar, mas o guardião não conseguia dormir, ele olhou para suas mãos, ainda incrédulo de que estava vivo e humano de novo, sentia-se culpado por tudo.Como podê deixar Lucelin se ferir daquela maneira? Como podia ser tão fraco quando se tratava de Kyla?

O rosto sorridente da mulher percorria seus pensamentos.

– Você sempre esteve ao meu lado — Ele disse baixo — e por minha fraqueza eu morri e te deixei sozinha.

Estreitou as sobrancelhas lembrando-se de tudo o que havia acontecido naquele dia. Como um pesadelo, as memórias atiravam-se a sua frente. Porém, eram como fragmentos, Ergus não conseguir se lembrar de tudo.

"Estavam perseguindo um grupo de demônios, o líder deles era conhecido como príncipe das trevas e já fazia algum tempo que esse demônio não os deixava em paz.

Ergus já havia gasto todos os seus poderes, suas forças já não serviam, e soube que era o seu fim quando seu guardião morreu na sua frente, ele gritou e tentou correr para impedir um demônio de devorar seu melhor amigo, mas já era tarde de mais.

Quando o demônio de asas negras e cabelos compridos apareceu em sua frente, Ergus apenas suspirou e ergueu a espada, ele nunca desistiria de lutar, muito menos, morreria por nada. Mas foi tudo em vão, o demônio levantou uma espada e com apenas um golpe o atirou longe, deixando uma longa cicatriz em seu peito. Ergus podia sentir o gosto do sangue em sua boca e uma claridade repentina cegava seus olhos, ele não podia enxergar e sabia que estava morrendo.

Ergus não respirava mais, porem a ultima coisa que ouviu foi a voz dela, Kyla corria em sua direção gritando e chamando seu nome, ele não a via, mas conseguia imaginar seu rosto de desespero perfeitamente. Engasgando com o próprio sangue, Ergus tentou falar:

– Ky-la — Foi tudo o que conseguiu pronunciar, mas, sabia que era o bastante.

Assim que fechou seus olhos, sua vida passou como um flash, um curta metragem em que ele era o personagem principal. Abriu os olhos, a dor havia passado, conseguia enxergar.

– Não! — A voz de Kyla surgiu em suas costas — Por favor, não!

Ergus se virou e paralisou. Ele estava ali, parado, vendo Kyla abraçando o seu corpo morto. Olhou para suas mãos, eram tão solidas e ao mesmo tempo quase invisíveis. Engoliu seco ao olhar ao redor, sua vida inteira, lhe ensinaram que caçadores não tem um lugar para ir depois que morrem, mas que tinham um paraíso próprio de cada um.

– Esse é meu paraíso? — se perguntava indignado — Ser fadado a vagar por ai não é a melhor morte que imaginei pra mim.

Kyla apertava o peito do seu corpo contra o dela, gritando e tentando com todas as forças reviver o amigo. Ergus se aproximou, abaixando-se a sua frente. Ela estava arrasada.

– Kyla — Chamou Scott, um companheiro de batalha — que estava parado ao seu lado apertando o braço esquerdo que estava machucado — Temos que sair daqui.

– Não! — Kyla gritou — Eu não vou deixá-lo

Kyla passou a mão sobre seu rosto e murmurou.

– Não posso deixá-lo — lágrimas rolavam por suas bochechas — Ergus, por favor, volte.

Ergus levantou sua mão, tentando alcançar o rosto de Kyla, mas quando o tocou, era como um vazio, e ele sabia que Kyla não podia sentir.

O caçador olhou ao redor, uma confusão só, era luta pra todo lado, porem agora podia ver, luzes brancas e roxas que subiam lentamente para o céu, seriam almas? Mas então por que a dele não foi?

Ainda com a mão no rosto de Kyla, Ergus suspirou e disse.

– Kyla, eu te amo, sei que já disse isso, mas não me importo, direi quantas vezes for necessário, mas é por que te amo que você deve ir embora, saia daqui e se proteja — Ergus sorriu — Você me disse uma vez que estava apaixonada e que sabia que não daria certo, pois era um amor proibido, mas, que se dane, lute com todas as forças para que de certo — Ele olhou para o céu escuro — Lute pelo que você ama e construa uma família, não se preocupe comigo já aceitei que estou morto, Kyla, apenas, continue viva.

Naquela hora, Kyla prendeu o ar e suspirou fundo, se curvou diante do seu rosto e deixou seus lábios se tocarem"

Ergus sorriu. Aquela foi a última vez que viu o rosto de Kyla. Dois anos após sua morte, Ergus reviveu na pele de um lobo, suas memórias haviam sido quase apagadas por completo e no mesmo dia, Lucelin nasceu. Ele a encontrou enrolada em uma coberta azul, a mesma cor de seus olhos. Era um dia frio e nevava, a garotinha estava em um tipo de cesta feita com várias cobertas, na frente de um orfanato. Ela chorava e parecia estar com raiva, ao seu redor vários flocos de neve se agitavam. Ergus se aproximou deixando que a garotinha tocasse deu focinho, ela riu e o abraçou. Naquela época Ergus não sabia de quem Lucelin era filha, mas, quando a garota começou a crescer e seus poderes começaram a aparecer. Não restaram dúvidas.

Quando a garota acordou no hospital, em seu aniversário de dezesseis anos. Ergus lhe contou a verdade, Lucelin era uma caçadora assim como sua mãe.

Ergus desceu as escadas da casa da garota e a encontrou deitada no sofá, encolhida e abraçando seu caderno de desenhos. Ergus pegou uma coberta e a colocou por cima da garota.

"Eu vou sempre protege-la" Prometeu "Você nunca estará sozinha"

***

O cheiro de panquecas o fez abrir os olhos, Dylan olhou para o teto completo de Posters e se levantou surpreso. Estava em seu quarto, tudo estava no mesmo lugar que deixou quando tinha dez anos. Os Posters de bandas e jogos cobriam as paredes, as revistas, quadrinhos e mangás estavam espalhados por toda parte, em uma de suas paredes, sua estante com coleções de armas antigas de caçadores que admirava cintilava de tão polida.

Era tudo tão nostálgico, como antes de...Dylan ouviu uma porta se fechar no andar de baixo e sentiu seu coração para. Logo o garoto correu, atravessando sua casa em um segundo, até chegar na cozinha.

– Olha só quem resolveu acordar, sabe que horas são? — Um homem de cabelos negros ajeitava-se na mesa de jantar, carregando um jornal do mundo humano — Juce vai te matar por ter faltado no treino.

Dylan respirava com dificuldade, seu coração acelerava e seus olhos ardiam.

– Querido, não seja tão cruel — Uma mulher alta e de cabelos avermelhados colocou uma bandeja de sucos em cima da mesa, e logo em seguida retirou seu avental branco — Bom dia Dylan, dormiu bem?

Aquele sorriso. Dylan cobriu a boca com a mão.

– Sim — Lágrimas escorriam pelo seu rosto — Mãe.

– Viu Madeleine — O homem zombou — Você fez o garoto chorar.

– Calado Elliot! — Madeleine fez uma careta e caminhou até o garoto — Porque está chorando querido? — Suas mãos tocaram o rosto de Dylan, eram quentes e aconchegantes.

– Não é nada — Dylan disse, sua voz falhava e o garoto tocou o próprio rosto, limpando as lágrimas, balançando a cabeça e cerrando o cenho — Eu só tive um pesadelo horrível. Acho.

– Sobre o que era? — Madeleine o guiou até a mesa de jantar.
Dylan se sentou, algo lhe dizia que havia esquecido alguma coisa.

– Eu não me lembro — Admitiu.

Notas finais
perdidões *-* Coments?