Notas iniciais
Depois de dar duro das obrigações da faculdade, uma estranha reviravolta bagunça mais ainda a vida da nossa caçadora. ~Boa Leitura ♥

Dylan bufava, acordou irritado por causa de um pesadelo. Sua mãe gritando seu nome, pedindo socorro e sendo consumida por chamas até desaparecer por completo. Em suas mãos, Dylan brincava com fogo, fazendo uma pequena chama vermelha dançar entre seus dedos. Cerrou o cenho, era de fato irônico, seus pais terem sido queimados até a morte na frente de seus olhos, um garotinho que controlava o fogo e mesmo assim não conseguia fazer nada.

Estava no terraço do prédio de Artes, observando as coisas lá de cima, seu lugar preferido. Havia se passado uma semana desde o último dia que havia conversado com Lucelin, na bagunça dos bastidores da exposição. Muitas pessoas estranhas adentravam o campus, para a exposição que ocorreria naquela tarde nublada. Inclusive Lucelin e Anna, que caminhavam conversando e rindo.

Lucelin havia se afastado, parecia estar em algum conflito interno, melhor dizendo, alguma batalha com canhões e explosões. Pois sempre que alguém lhe perguntava o porque de estar com aquela cara estranha, a garota corava e parecia prestes a explodir.

Por mais que quisesse esconder estava na cara, Lucelin não sabia mentir e suas expressões a deduravam. Havai acontecido algo entre ela e Connor, e isso definitivamente irritava Dylan.

***

– E digo e repito — Lucelin puxava a orelha de Anna — Foi apenas um beijo, nada de mais. Além do mais faz uma semana que aconteceu.
Anna se afastou, esfregando a orelha.

– Claro Lucy, e eu finjo que acredito nessa sua cara — Anna continuou caminhando — Faz uma semana por que Connor voltou para aquele castelo no mesmo dia em que vocês se agarraram — Ela ergueu os ombros — Se ele estivesse aqui eu não duvido nada que te agarraria toda noite.

Lucelin cruzou os braços olhando para o céu. Sentia falta de Connor, mas, ainda estava confusa sobre o beijo, não sabia se vê-lo lhe faria bem ou não.

Caminhavam para o ateliê, finalmente era o dia da exposição e aquele lugar estava lotado. Muitos rostos diferentes e pessoas de várias idades observavam suas pinturas. Anna a elogiou sobre todas e caminharam pelo ateliê, o grupo de música que estava em cima de um pequeno palco improvisado, tocavam vários instrumentos com melodias diferentes, uma atrás da outra.

Lucelin virou-se até a área dos fotógrafos, Dylan não estava la. A caçadora caminhou até alguns quadros pendurados na parede, fotografias do gorato, junto de mais alguns outros alunos. Lucelin observou, muitas eram em preto e branco, como florestas a noite e a sombra de algumas pessoas no pôr do sol. Porém uma lhe chamou atenção, haviam galhos desfocados nos cantos da imagem, como se tivesse sido tirada de cima de uma árvore, e embaixo, um lago de cor clara com uma ponte atravessando-o. A ponte onde encontrou Dylan no inicio do mês. Na descrição da imagem estava escrito: Travessia Solitária.

Lucelin sorriu.

– Muito dramático — Ela disse trocando o peso de uma perna para a outra quando sentiu alguém se aproximar — É assim que você se sente? Sozinho?

Dylan olhou para a fotografia, pensamentos longe.

– Não, na verdade só coloquei isso para chamar atenção das garotas, dizem que adoram um lobo solitário — Ele disse, exibindo-se.

– Você não tem jeito — Lucelin suspirou pelo nariz — E onde está a foto que você tirou de mim?

– Na minha coleção particular — Ele disse em seu ouvido, sussurrando.

Lucelin corou e desviou o olhar, porque com Connor era diferente? Quando seu amigo dizia qualquer coisa, ela o olhava nos olhos, mas, quando Dylan a provocava, Lucelin sempre desviava o olhar ou então debochava do garoto.

"Está com ciúmes?" Skarlet riu na mente de Dylan.

"Acha que sou o que? Uma criança? Porque ficaria com ciúmes dessa garota?" Dylan respondeu, olhando para Lucelin que virava levemente a cabeça observando suas fotos.

"Diga isso para si mesmo, não para mim"

– Pare de falar besteiras Skarlet, sua maldita saia da minha cabeça! — O garoto disse em voz alta fazendo uma careta.

Lucelin recuou surpresa e logo começou a rir, apoiando as mãos contra a barriga. A sua expressão era contagiante e o seu riso o fez sorrir.

– Deixe eu adivinhar, seu guardião? — A garota respirava fundo — Agora sei por que Anna vive rindo da minha cara.

– Guardiã, irritante como uma irmã mais velha — Dylan cruzou os braços.

– Ergus é pior, fala coisas pela metade e depois desaparece! — Lucelin dizia frustada.

Dylan abriu a boca para falar algo, mas foram interrompidos por um arrepio em suas nucas.

– Sentiu isso? — Dylan perguntou.

Lucelin assentiu com a cabeça, relutante.

"Lucelin" A voz de Ergus surgiu em sua mente "Vá, rápido!"

– Finalmente um pouco de diversão — Dizia Dylan.

– O que houve Ergus? — Lucelin conhecia o tom de voz assustado de seu guardião perfeitamente.

"Vá, eu sinto a aura de Kyla!"

Lucelin arregalou os olhos e atravessou o ateliê correndo.

– Hey! — Dylan corria atrás da garota — O que foi?

A névoa branca de Ergus surgiu a sua frente, correndo com suas longas patas mostrando o caminho para o pequeno bosque atrás dos prédios. Ergus parecia tão nervoso quanto a própria garota. Sua respiração falhava, o coração a mil e se sentia perdida.

Lucelin desviou de árvores e raízes enquanto corria atrás do grande lobo cinza e preto.

"Kyla..." Ouviu Ergus dizer, sua voz estava triste.

Até que Ergus parou, estavam de frente para um homem. Ele era alto, bonito e exalava enxofre, mas, seus olhos não eram completamente negros. Ele definitivamente não era um demônio comum.

– Quem é você? — Lucelin perguntou invocando Kami.

"Ela esta aqui, tem que estar" Ergus repetia em sua cabeça "Sua aura, sua essência, eu sinto Kyla"

O homem sorriu, e Lucelin sentiu um medo enorme tomar conta de seu corpo, a garota soltou a espada e curvou-se colocando as mãos sobre a cabeça. Todos os seus medos, os seus pesadelos passavam um atrás do outro, o medo de ficar sozinha, de perder Marie e Ergus e assim nunca mais sentir como é ter uma familia, a dor de todos os ferimentos que os demônios fizeram ao longo de sua vida. Lucelin gritou, caindo de joelhos no chão, imagens rápidas passavam em sua cabeça, Anna, Connor e até Dylan mortos. Ela olhou para suas mãos e gritou, havia sangue escorrendo por entre seus dedos, porém Lucelin sabia que aquele sangue não era seu.

– Ei, desgraçado! — A voz de Dylan soou longe e Lucelin sentiu uma onde de ar quente passar por cima de sua cabeça.
Tudo parou, Lucelin enfim conseguia respirar, mas chorava e tremia.

Dylan se abaixou a sua frente, tocando seu rosto e afastando os cabelos da frente de seus olhos.

– Lucelin? — Era a primeira vez, a primeira vez que o garoto a chamava pelo nome, ele a olhava preocupado — Você esta bem?

Lucelin ainda via as imagens em sua cabeça, todos mortos. Ainda tremendo segurou a mão de Dylan que estava em seu rosto.

– Não morra — Ela disse, a voz trêmula — Não me deixe sozinha.

Dylan sorriu tristemente, sabia o que demônios que não tem olhos completamente negros eram capazes de fazer. O garoto a ajudou a se levantar quando sentiu a presença dele novamente. Dylan a abraçava contra seu peito, Lucelin podia sentir o calor que emanava de seu corpo e seu cheiro de certa forma acalmava a garota.

– Entregue a chave, hibrida — O homem apareceu atrás de Dylan — Meus subordinados falharam, mas eu não irei.

– Do que você está falando? — Dylan virou-se, colocando Lucelin atrás de seu corpo, a garota aos poucos retomava a consciência completamente.

– Minhas preciosas gárgulas — O demônio se aproximava, ele usava uma túnica preta, mas tinha longos cabelos loiros, os olhos eram pretos e duros como pedra. A forma humana, apenas alguns demônios possuíam a forma totalmente humana, e eram chamados de principes das trevas. Eram conhecidos por sua força sem limites e imortalidade — Entregue-me filha do traidor.

"Onde está?" Ergus dizia em sua mente "Eu a sinto, onde ela está?"

"Ergus" Lucelin chamou, mas não teve resposta, Ergus não a escutava. O lobo apenas encarava o demônio.

– Você está me irritando — Dylan disse, e rapidamente envolveu-se na névoa de Skarlet, desaparecendo e reaparecendo no mesmo segundo na frente do demônio, sua lâmina atravessando o peito do homem.

– Quem você pensa que é? — O homem segurou a lâmina e com a maior simplicidade a retirou de seu peito, sem deixar nem sequer um arranhão. De repente, o demônio segurou Dylan, ou melhor, seus dedos atravessavam a pele do garoto, na altura do coração.

Dylan se debatia, tentando se soltar. O garoto chutava, xingava, mas, nada acertava ou fazia efeito no demônio.

– Dylan! — Lucelin havia conseguido se focar no garoto, procurando por Kami.

Quando o demônio o soltou, Dylan ficou parado, imóvel. O brilho de seus olhos havia desaparecido, a expressão sarcastica e o sorriso sádico agora davam espaço para um uma expressão dura, sem vida.

– Você matou minha preciosa gárgula — O demônio disse — Agora, você irá pegar a chave para mim.

Dylan virou-se para Lucelin, erguendo a espada negra. Os olhos focados no braço de Lucein, em seu relógio.

– Dylan? — A garota chamou, apertando o cabo de sua espada — Você está bem?

O garoto a atacou, sem ainda mostrar feição alguma, Lucelin defendeu com Kami. Dylan continuou, atacando e atacando sem hesitar.

– Hey seu idiota! — Lucelin se abaixou, desviando de mais um ataque e ao se levantar o socou — Sou eu, pare com isso.

– F-fuja — Dylan tentou dizer, suas mãos tremiam lutando contra a hesitação.

– Dylan, acorde! — Lucelin gritava, mas o garoto continuava a atacar.

"Onde está minha Kyla?" Ergus atacou o demônio, que nem fazia questão de notá-lo.

– Ergus, não! — Lucelin gritou. Seus olhos se arregalaram quando sentiu a lâmina de Dylan atravessar sua pele, perfurando seu ombro. Lucelin caiu no chão, sua visão estava turva. Mas não tirava os olhos de Ergus. O gosto do sangue era horrível.

O lobo correu, atacando o demônio, que desviou e ordenou para que Dylan o matasse. Lucelin queria fechar os olhos e acordar daquele pesadelo terrível. A garota queria gritar, mas tudo o que conseguiu fazer, foi ficar observando seu guardião e Dylan lutarem.

Connor veio em sua mente, onde ele estaria? Porque não havia permanecido ao lado da garota? Mas, ao menos ele e Anna estrariam a salvo.

Ergus estava fora de controle, Lucelin não conseguia se comunicar com ele. Dylan relutava em atacar, mas quando o Lobo saltou, a caçadora pôde ver o exato momento em que a espada do garoto atravessou seu corpo e o guardião caiu no chão.

Lucelin perdia a consciência conforme o sangue deixava seu corpo, lágrimas rolavam por seu rosto. Ergus era um espirito, mas, na forma de guardião poderia morrer e Lucelin nunca mais o veria.

– Você vai voltar para o mundo dos mortos — O Demônio se aproximou erguendo uma longa lança na direção do lobo.

"Me desculpe Kyla" Ergus disse fracamente "Eu não fui capaz de cumprir minha promessa"

Lucelin ficou parada, observando a névoa de Ergus desaparecer aos poucos, quando a lança atravessou sua cabeça. Dylan estava de pé, olhando para a garota enquanto o demônio se aproximava dele com a lança em mãos.

Tudo havia acontecido tão rápido e a dor apenas aumentava, pela primeira vez em toda sua vida Lucelin desejou morrer em paz. Sua visão desfocada e torcida se fechava, até que viu dois pares de botas escuras na frente de seus olhos, alguém se abaixou e tocou seu rosto. Lucelin piscou e viu, um homem alto e com duas asas negras ao redor do corpo. Um demônio. Ele sorriu quando a tocou.

E essa foi sua última visão antes de desmaiar.

***

O cheiro de flores era agradável. Lucelin abriu os olhos lentamente, a luz a atingiu com força. A caçadora respirou com dificuldade, à sua frente um enorme campo com infinitas flores de todas as cores preencheu sua visão. A garota estava deitada, alguém mexia em seus cabelos e cantarolava uma canção desconhecida. Uma voz feminina. Lucelin não queria se mexer, queria continuar ali, ouvindo aquela doce voz.

– Meu pequeno anjo — A voz disse e continuou a cantarolar e acariciar sua cabeça — Está na hora de você acordar.

Lucelin se virou para a mulher, e tudo o que viu foram longos cabelos brancos e um sorriso acolhedor. Uma ansiedade tomou conta da garota, seu coração saltava e ela sentiu os olho arderem com lágrimas.

– Kyla? — Ela perguntou, e assim que falou seu ombro doeu, a dor era tão insuportável que a garota gritou e tudo a sua volta começou a desaparecer — Não! Kyla! — Ela gritava colocando a mão sobre o ombro.

– Lucelin — Uma voz distante a chamava — Lucelin acorde!

O campo de flores desapareceu em um segundo e tudo a sua volta se clareou, Lucelin se sentou como se acordasse de um pesadelo.

– Lucelin! — A voz ainda estava longe, mas à sua frente estava um homem, Lucelin não sabia quem era, nunca havia visto aquele rosto em sua vida, nem se quer parecia com o que tinha longas asas negras — Me desculpe — O homem disse abraçando-a.

A caçadora podia ouvir sua voz, alta e clara.

– Ergus? — Ela perguntou se afastando.

– Sim, Lucelin — A voz de Ergus fez seus olhos lacrimejarem — Sou eu.

Lucelin o olhou, sem acreditar no que estava vendo.

– Você está...

– Vivo? Humano? — Ele sorriu — Sim, não me pergunte como ou porque, estou tão confuso quanto você.

Lucelin tocou seu rosto, Ergus era bonito, aparentava ser alguns anos mais velho que a garota e tinha longos cabelos negros. A garota chorou.

– Eu achei que tinha te perdido — Ela o abraçou, Ergus foi o único que ficou ao seu lado durante toda a sua vida , mesmo que Lucelin não soubesse que ele era seu guardião, sempre que ouvia sua voz a garota não se sentia sozinha. Lucelin olhou em volta, esperava alguma risada sarcástica, uma frase debochando dela. Nada.

Lucelin se afastou.

– Onde ele está? — Sua voz saiu baixa.

Ergus ajeitou-se ao seu lado e balançou a cabeça. Ele vestia algumas roupas antigas de batalha, com ombreiras de ferro, uma armadura simples e nela havia sangue.

– Quando acordei nessa forma, só encontrei você — Ele disse, olhando para suas mãos, movimentando os dedos — Mas, você deveria perguntar, onde é que nós estamos.

Lucelin o encarou, e com sua ajuda se levantou. Havia escurecido e definitivamente estavam no mesmo lugar, no bosque atrás da faculdade, mas, havia alguma coisa errada.

– Eu cuidei de seus ferimentos e fui procurar ajuda — Ergus explicava enquanto a ajudava a andar até a faculdade — Mas, não encontrei nem uma alma sequer na cidade inteira.

Lucelin soltou-se dos braços de Ergus e caminhou até o campus deserto.

– Onde estão todos? Anna? Connor? — Lucelin ajoelhou-se — Dylan... — A garota apertou a blusa, seus cabelos caíam em ondas sobre seu rosto.

Ergus se abaixou ao seu lado e afastou o cabelo da garota, prendendo-o com uma fita.

– Eu estou aqui — Ergus disse sorrindo — E seja lá onde é ou o que é "aqui", você não está sozinha. Vamos dar um jeito de te levar para casa, eu prometo.

Notas finais
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