O Segredo dos Caçadores
6 A Cicatriz
Notas iniciais
Lucelin cruzava os braços e batia o pé irritantemente no chão. Dylan parecia estar começando a se irritar com a garota, ele estava sentado em baixo da árvore que Lucelin costumava sentar e desenhar, mexendo em sua câmera sem olhar para a garota.
– O que quer? — Perguntou abaixando a câmera.
– Você esta no meu lugar — Disse a garota.
– Quantos anos você tem? — Ele a fitou, ela vestia uma jaqueta preta por cima de uma blusa colorida, os cabelos pratas caíam em ondas sobre os ombros.
– Ela acordou de mau humor — Anna se aproximou tocando o ombro da amiga — Parece que ontem acabei atrapalhando ela e Connor de se... — Anna foi interrompida pela mão da caçadora que tampava sua boca.
– Anna! — Lucelin fazia uma careta, corada.
Dylan sorriu debochando da garota.
– Porque ainda está aqui? — Lucelin o fitava.
– É só uma árvore — Dylan apontou.
– Não, porque ainda está aqui na faculdade? — Lucelin dizia com raiva, por que todos lhe faziam essa pergunta? — Você sabe que eu sou uma caçadora certo? E sabe que se um renegado como você ousar ameaçar qualquer pessoa por aqui, as ordens são de levá-lo em custódia ou até mesmo matá-lo.
Dylan suspirou e se levantou.
– Parece que andou estudando sobre mim — Dylan se aproximou, como se a desafiasse — Ou melhor, Connor lhe contou tudo não é mesmo? — Ele bufou entediado — Caçadores, sempre tão fieis às ordens dos cavaleiros, você por acaso é capaz de pensar sozinha? O que vai fazer caçadora? Me matar?
Lucelin o fitava, estava com raiva e confusa.
– Está bem, já chega — Anna segurou os ombros de Lucelin quando a caçadora estava prestes a explodir — Vamos, ou vocês vão acabar de destruir o campus.
Dylan abaixou os ombros quando Anna levou Lucelin para outro lugar, e voltou a se sentar. Lucelin queria encher a cara dele de porrada, estava tão irritada que seria capaz de congelá-lo e jogá-lo de cima de uma ponte.
– Lucelin — Anna chamou sua atenção, estavam sentadas nas mesas de madeira — Eu não vou te dar outro lápis.
Anna apontou, Lucelin havia quebrado mais um lápis com sua mão, era o sexto naquela semana, seu estoque já estava acabando. A caçadora suspirou e largou os restos do lápis na mesa, sua cabeça estava confusa e doía. As histórias que Connor havia lhe contado sobre Dylan faziam sentido e ela definitivamente confiava nele, mas, seu instinto dizia que faltava algo. Dylan não iria lhe contar, ainda mais se o que Connor disse fosse completamente verdade. Teria que esperar para saber mais.
As aulas começaram e Lucelin foi pega de surpresa quando disseram que haveria uma exposição na faculdade, o que ajudaria a cobrir os custos que as janelas quebradas haviam causado, havia se passado quase duas semanas desde que foram atacados pelas gárgulas e apenas alguns andares dos prédios tiveram suas janelas substituídas. Sua sala era exceção como muitas outras, o inverno estava começando e para os outros seria impossível estudarem no frio.
Lucelin quase quebrou mais um lápis quando o professor dissera que o curso de Artes, Música e Fotografia teriam que se juntar para a exposição.
– Só pode estar brincando — Disse em voz alta.
– Na verdade não senhorita Valentine — O Professor de cabelos com dreads disse apontando um pincel para a garota — isso será uma ótima oportunidade para vocês aprenderem coisas novas. Será divertido. Eu espero que gastem todas as suas energias para criarem obras de arte.
Lucelin encostou-se na cadeira, frustada. Além de Dylan estudar na mesma faculdade ainda teria que passar um tempo com ele. A caçadora bufou. O professor os levou até um enorme ateliê próximo à um bosque atrás dos prédios. Era uma construção alta e com grandes candelabros de teto e espelhos com enormes molduras cor de ferrugem, usavam aquele lugar para festas e coisas do tipo. O objetivo era montar um lugar adequado para as três materias, já que ambas são do mundo da Arte, ficaria bem melhor tudo junto de forma que quem visitasse aproveitasse um pouco de cada coisa.
– Tudo bem, isso tudo eu entendo — Disse ela quando terminaram de explicar sobre a exposição — Mas, por que você tem que estar aqui?
Dylan estava abaixado montando alguns aparelhos e tripés em um dos cantos do ateliê.
– Você não se cansa de me odiar? — Ele disse olhando em seus olhos.
Lucelin desviou o olhar cruzando os braços e batendo os pés. Se pelo menos Anna estivesse participando também, mas, os cursos de saúde e bem estar assim como outros estariam se preparando para dar palestras sobre os assuntos.
A garota cerrou os punhos e caminhou até seu grupo, precisava arrumar seus materiais. Decidiram fazer próximo à uma janela, onde pendurariam suas obras na parede branca. Lucelin arrumava por ordem de aluno cada desenho e escultura em uma grande e comprida mesa.
No intervalo, todos se espalharam pelo ateliê, Lucelin havia se sentado do lado de fora, aproveitando o ar fresco, debruçou o corpo sobre um pequeno muro que rodeava a construção e fechou os olhos.
Alguém sentou-se ao seu lado, esbarrando em seus braços.
– O que você quer? — Perguntou ela.
– Estou descansando — Dylan olhava para o céu claro, seus olhos verdes quase cintilavam com a claridade do sol.
– Precisa ser aqui? — Lucelin esticou os braços se espreguiçando.
– Seja gentil comigo — Dylan tocou em seus cabelos e a garota se afastou institivamente. O garoto segurava uma folha amarela, provavelmente havia caido de uma árvore nos cabelos de Lucelin — Você tem tanto medo de mim assim? — Ele girava a folha entre os dedos.
– Eu não tenho medo de você — Lucelin sentou-se no muro.
– Então porque se afasta e é tão má comigo? Não vai me dizer que é por causa das coisas que Connor lhe contou.
– Você não sabe o que ele me disse, e não se faça de coitadinho — Lucelin dizia — Tenho meus motivos para ser assim.
Dylan suspirou.
– Ele te contou o que houve a nove anos, estou errado? — Seus olhos se encontraram — Mas me diga, você realmente acreditou em tudo?
Lucelin cerrou o cenho, ignorando o olhar sério do garoto, se sentia estranhamente dividida.
– Eu sabia — Ele saltou do muro e se colocou a sua frente — Você se questiona sobre essas coisas não é mesmo? Você quer saber mais, porque à dois anos quando se tornou caçadora, você apenas se jogou de cabeça.
– Espera, como sabe sobre isso?
– Sobre o que? — Dylan virou levemente a cabeça.
– Sobre dois anos atrás — Lucelin o fitava, Dylan estava escondendo alguma coisa.
– Não sei do que você esta falando — Ergueu os ombros e começou a caminhar de volta para o ateliê.
– Dylan! — Lucelin o seguiu.
– Lucelin, aqui — Carla, a garota loira que estudava em sua sala a chamou — Me ajude com essas esculturas por favor.
A caçadora cerrou os punhos, como aquele garoto sabia sobre aquilo? Como sabia sobre ela? Lucelin se virou e caminhou até Carla, ajudando-a a carregar algumas esculturas pesadas. A caçadora observava Dylan conversar com outra aluna, de cabelos castanhos e olhos azulados. Ela era muito bonita, provavelmente estudava com o garoto, mas, ele sorria para ela de uma forma diferente, sem sarcasmo.
Lucelin só o viu sorrir assim uma vez, na ponte do lago.
– Hey, cuidado ai em baixo! — Um garoto gritou, estavam segurando um grande globo de vidro pendurado por uma corda fina em cima de algumas vigas no telhado, o globo havia se soltado e voava na direção de Lucelin e Carla que carregavam as esculturas. A caçadora só teve tempo de empurrar Carla e se encolher. Uma batida, alguns sons de vidros se quebrando e Lucelin abriu os olhos.
– Você esta bem? — Dylan perguntou, ele havia parado o globo com as mãos, alguns pedaços de vidros haviam caído no chão e outros entravam em suas mãos. Lucelin olhava para as costas de Dylan, os cabelos pretos e a expressão preocupada de certa forma eram familiares.
Lucelin colocou a escultura de lado e foi até o garoto, muitos outros alunos se aproximavam.
– Venha comigo — A garota segurou seu braço — Vou levá-lo para a enfermaria! — Gritou para os outros alunos.
– Nós nos curamos rápido, sabe que não preciso ir até a enfermaria.
Lucelin olhava para baixo enquanto o puxava.
– Eles são humanos, você precisa aparecer com essas mãos enfaixadas — Lucelin abriu a porta da enfermaria que ficava dentro de um dos prédios e pegou um kit de primeiros socorros — Por que fez aquilo?
– Te salvar? — Ele olhou para o lado — Talvez eu não seja uma pessoa assim tão horrível — Disse com ironia em sua voz.
– Eu ia desviar — Lucelin fez uma careta, tirava alguns cacos de dentro dos ferimentos do garoto, sua mão era quente e estava sangrando muito, Lucelin fez tudo o que Anna lhe ensinou para limpar os machucados.
Dylan a encarava.
– Droga — Disse ele olhando para a própria roupa — Minha blusa! — Sua camiseta cinza estava manchada de sangue.
Lucelin terminou de fazer os curativos e se levantou.
– Espere — Ela caminhou até o armário da enfermaria, onde tinha várias roupas para casos de emergencia — essa camiseta está limpa — Entregou a ele, uma camiseta branca com o simbolo do time da faculdade.
– Ótimo — Resmungou. Dylan retirou sua camiseta manchada, mostrando seu abdomem. Lucelin desviou o olhar, porém, a cicatriz lhe chamou atenção. A garota encostou na parede, observando a enorme cicatriz que atravessava suas costelas, costas e barriga do lado esquerdo, como três garras de um demônio. Lucelin sentiu sua própria cicatriz doer, e tudo passou como um flash em sua cabeça, Dylan a protegendo de costas para ela, as cicatrizes. A garota colocou a mão na cabeça.
– Não pode ser — Ela disse, Dylan ergueu uma sobrancelha e caminhou até a caçadora — Como conseguiu essas cicatrizes? — Sua voz saiu baixa.
Dylan sorriu.
– Faz um tempo, mas, uma vez eu me meti em uma luta que não era minha — Ele disse — E falhei em salvar uma estranha garota de cabelos castanhos — Ele se aproximou, colocando a mão sobre a cintura da garota, em sua cicatriz — E ela acabou se machucando tanto quanto eu.
Lucelin o encarou, surpresa, assustada e extremamente confusa.
– V-você — Lucelin olhava em seus olhos, hesitante — Porque?
– Não sei, por tédio? — Ele ainda apoiava a mão enfaixada em sua cintura.
– Não, por que não me disse antes?! — Lucelin segurou em seu braço, apertando-o — Você salvou a minha vida naquele dia, por que não me disse nada?
– Quando eu te vi naquela ponte — Ele disse, passando a mão por seu cabelo — Eu não tinha certeza de que era você, afinal, você mudou muito — Ele mostrou uma mexa de cabelo prata para a garota — Mas, depois de um tempo te observando, eu soube que era você.
Lucelin sentiu seu coração acelerar, Dylan estava falando serio, sem aquela cara debochadora de sempre, aqueles olhos verdes a fitavam.
– Agora — Ele continuou — Você não vai mais escapar de mim.
Lucelin o afastou com as mãos, completamente corada.
– C-certo — A garota caminhou para a porta — Vamos ou os outros vão ficar preocupados! — Sua voz falhava, e a caçadora gaguejava.
Dylan olhou para ela e assentiu sorrindo, aquele sorriso raro e sincero.
***
Lucelin organizava alguns pinceis e tintas sentada no chão com outros colegas de classe. Sua cabeça estava longe, Dylan a salvará em seu aniversário, ou quase, já que ambos tem uma cicatriz, porém, a dele era muito maior que a da garota, afinal, se ele não tivesse se colocado a sua frente, Lucelin estaria morta.
Cerrou o cenho e mordeu o lábio.
– O que foi Lucelin? — Carla perguntou — Parece estressada desde que voltou da enfermaria com aquele garoto — A menina se sentou ao seu lado — Falando nisso, obrigada por me empurrar naquela hora, mesmo que quem se machucou foi ele.
– Não é nada, estou bem — A garota disse — Ele vai ficar bem — Prometeu.
– Eu nem te perguntei mas, você conhece ele? — Carla cruzou as pernas — Ele não para de te encarar.
Lucelin olhou para trás, Dylan segurava sua câmera e olhava fixamente para a caçadora. Quando seus olhos se encontraram, ele riu baixo desviando o olhar e debochando dela. Lucelin cerrou as mãos, se tivesse segurando qualquer coisa atiraria bem em sua cabeça.
– Não! Não tenho nada a ver com aquele idiota! — Lucelin se virou para frente. Carla riu de sua expressão.
– Mesmo? Porque ele correu só para salvar a sua vida? — Carla o observava.
– Sinceramente eu não sei — Lucelin cruzou os braços, tocando em sua cicatriz.
Lucelin olhou para trás mais uma vez, aquela garota de cabelos castanhos estava com Dylan novamente, ela tocava as mãos de Dylan, provavelmente perguntando sobre os ferimentos.
Dylan sorriu e com a mão livre afastou as dela e voltou a mexer em sua câmera, praticamente ignorando a menina.
***
As aulas haviam terminado tarde, Anna já tinha ido para casa mais cedo e estava escurecendo, Lucelin acenou para Carla e caminhou para a saída do campus. Dylan estava sentado na grama, na mesma árvore de hoje cedo. Sua câmera estava ao seu lado, apoiada no chão. O garoto olhava para o céu com pensamentos perdidos.
Seus olhos se viraram para ela quando Lucelin se aproximou.
– O que? Vai brigar comigo de novo por causa da árvore? — Ele colocou os braços atrás da cabeça.
– Obrigada — Ela disse retirando as mãos nos bolsos da jaqueta e sentando-se na grama — Eu não agradeci por hoje, e nem pelo outro dia — Ela tocou sua cicatriz — se bem que não adiantou muito, você se feriu também.
Ele abaixou os braços, surpreso.
– A culpa não foi totalmente minha — Ele pegou sua câmera — Mas, você pode me agradecer de outras maneiras.
Lucelin virou levemente a cabeça.
– Como?
– Que tal, se você fosse a minha modelo pessoal — Ele tirou uma foto da garota.
– Hã? O que você tem na cabeça? — Lucelin se afastou corada.
–Qual é o problema? Não custa nada — Ele sorria com malicia.
– Calado, seu pervertido.
Dylan tirou outra foto da garota.
– Pare com isso! — Lucelin se curvou tentando pegar a câmera das mãos do garoto.
– Parar com o que? — Dylan erguia a câmera acima de sua cabeça, rindo.
Lucelin desistiu, sentando-se com as pernas cruzadas.
– Você é um idiota — Ela sorriu.
– Ai está — Ele levou a câmera aos olhos e tirou outra foto.
– O que?
– É a primeira vez que você sorri assim para mim — Dylan disse, e pela primeira vez Lucelin o achou realmente atraente.
***
Em sua casa, Lucelin foi surpreendida por Connor que a aguardava na varanda de seu quarto. Ele estava extremamente sério e isso era preocupante. A caçadora jogou suas coisas em cima da cama e foi até ele, suas cortinas de seda cinza sacudiam com o vento que entrava.
– Por que demorou tanto? — Connor perguntou.
– Não nos deixaram sair até que terminássemos... — Lucelin foi interrompida pela mão de Connor que tocou levemente seu rosto.
– Anna me contou — Ele a olhava em seus olhos, Connor não tinha um pingo de sarcasmo, no entanto Dylan tinha mais que o necessário — Você passou o dia com ele não foi?
– Com ele, Dylan?
– Não quero isso — Connor a abraçou — Não quero perder você para ele.
Lucelin corou, seu coração palpitava forte, lembrou-se da noite passada onde quase se beijaram e seu coração deu um salto violento. O cheiro de Connor invadia seu espaço, o toque de suas mãos em seus cabelos e cintura lhe davam arrepios.
– Connor, eu...
– Não diga nada — Ele se afastou, agora tocando sua nuca — Apenas, não diga nada.
Lucelin sentiu seu corpo inteiro erijecer quando Connor a beijou.
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