O Segredo dos Caçadores
1 A Caçadora
Notas iniciais
Com uma determinação irritante e uma lapiseira, Lucelin rabiscava seu pequeno caderno velho de capa preta, música agitada ecoava pela boate, as luzes piscavam e alteravam de cor, estava escuro, barulhento e fedia a bebida e velas perfumadas.
Estava sentada no balcão de frente para o bar, seu copo cheio mal havia sido tocado, na verdade nem se quer sabia o motivo de estar ali, fugindo novamente de casa, o que se tornou um hábito incontrolável.
Seus olhos dançavam pelo rápido desenho sendo formado na folha em branco a sua frente, liberando toda a ansiedade e angústia acumulada com os movimentos do pulso. Uma pausa, havia acontecido novamente, o desenho que ela estava rabiscando mudou enquanto ela passava o grafite por cima da folha, imaginando uma coisa e criando outra, era frustante de fato.
Lucelin fechou o caderno com certa raiva, ignorando o maldito desenho negro que surgiu no centro da folha. Desde de pequena, a garota não conseguia decifrar tais desenhos, como os pesadelos que a atormentavam. Respirou fundo. Abriu o caderno, virando uma página de cada vez, em algumas, desenhos comuns como de seus amigos e Ergus, alguns esboços da faculdade, paisagens e cenários diferentes, mas, na maioria das páginas, um rabisco negro, criando formas diferentes, com garras, dentes afiados e olhos completamente negros, alternando posições e cenários, porém, sempre olhando em sua direção. A criatura era de certa forma assustadora.
Um Demônio.
Lucelin não teve uma infâcia fácil e adorável como a maioria das pessoas, na verdade, detestava se lembrar. Desde pequena, ela é perseguida por tais criaturas, em seus sonhos, desenhos, espelhos, no meio da rua e até em sua própria casa.
Talvez a vida estivesse apenas brincando com ela, talvez nada disso fosse real, provavelmente era só mais um de seus terríveis pesadelos, porém, a cicatriz em sua cintura dizia o contrário, era real, e sempre seria, tão real quanto o medo de sua própria existência. Por que justo ela dentre milhares de pessoas tinha que passar por aquilo?
Lucelin então piscou, percebendo o motivo de ter ido àquela boate, era tão obvio, a garota era levada inconscientemente aos piores lugares. Como se fosse atraída por eles e essa era a maldição de ser uma caçadora.
E la no canto mais escuro e afastado da boate estava o maldito motivo, agarrando-se com uma garota que no máximo tinha quinze anos, o homem aparentava ter uns vinte e cinco anos ou mais, ele a puxava violentamente pela cintura a beijando ferozmente. Lucelin sentia repulsa apenas por observá-los, ainda mais porque ela podia ver quem ele realmente era, por de trás da mascara de um humano comum, ele era de fato nojento, seu rosto literalmente corroído por pecados, desgastado e provavelmente alguns mil anos mais velho que qualquer um naquele lugar.
A caçadora sentiu seu sangue ferver quando ele começou a morder a pobre garota, sugando aos poucos a alma da coitada. Ele jogou-a contra a parede, forçando-a a ficar quieta.
Lucelin voltou-se para o caderno, que estava aberto em uma página em branco, esperando ser preenchida, abaixando os olhos o fechou novamente, envolvendo-o em um elástico preto e o guardou dentro de seu casaco.
Após um longo suspiro, Lucelin se levantou, caminhou passando por entre várias pessoas, que dançavam e se enroscavam umas nas outras, ignorando o que acontecia do outro lado. A garota loira chorava, mal tinha forças para ficar em pé, quanto mais para gritar por ajuda.
Lucelin tocou o ombro do homem, que sibilou para ela soltando os dentes do ombro da garota.
– Solte-a – Lucelin ordenou, a voz abafada pela música.
Os olhos totalmente negros do ser a sua frente giraram-se em sua direção, repletos de fome.
– Esta se oferecendo no lugar dessa humana, caçadora? – Sua voz era como um coral de gatos arranhando um quadro negro. Ele soltou a garota que caiu de joelhos no chão – Esta sozinha, o que acha que pode fazer contra mim caçadora insolente?
– Se eu fosse você, imploraria para continuar vivo ao invés de tentar me subestimar – Lucelin estalou os dedos de uma das mãos.
Ele segurou a garota pelo pescoço e caminhou para trás lentamente.
– Você é muito confiante para quem esta sozinha, se quer mesmo salvar a vida dessa humana venha pegar! – logo em seguida, ele disparou contra a porta dos fundos, tão rapidamente que Lucelin nem sequer piscou.
A caçadora correu, temendo pela vida da garota loira.
Assim que saiu pela porta encontrou-se em um beco escuro e sem saída, onde havia apenas latas de lixo e caixas de papelão molhado. O único som era das gotas de água que pingavam formidavelmente do alto do prédio da boate. Lucelin caminhou afastando poças d'água com seus coturnos, olhava para o céu, um azul escuro salpicado com tinta branca, formando as estrelas.
– Muito lenta – Lucelin virou-se na direção do homem , ele a observava encostado em uma parede de tijolos laranjas, os braços cruzados e um risinho cínico – Me diga garota – Ele caminhou, parando à alguns metros a sua frente – O que pretende ganhar com isso?
– Onde esta a menina? — Lucelin perguntou antes de avistá-la inconsciente em uma poça d'água – sabe de uma coisa, você conseguiu me irritar – Lucelin concentrou-se, invocando Kami, uma longa katana prata, que surgia das poças de água que a garota estava pisando, apontou a lâmina na direção do homem, o fitando em desafio.
O homem ergueu os braços, feliz por alcançar seu objetivo. O chão tremeu, Lucelin se manteve em pé observando-o invocar um enorme ser quadrúpede de um buraco no chão, um hibrido de leão com morcego, pelo menos era isso que parecia para a garota, o céu tornou-se denso e completamente negro, contando apenas com alguns relâmpagos para iluminá-lo.
A caçadora girou a espada nas mãos, Kami trazia consigo os espíritos da natureza, assim que invocada seu dono teria acesso aos poderes dos quatro elementos da natureza, poder concebido por divindades para os caçadores de demônios, porém, era um poder limitado, e poucos caçadores conseguiam os quatro elementos de uma vez.
Lucelin esquivou-se do quadrúpede, ele tinha uma força imensa e ao julgar por seu pequeno poder definitivamente era um demônio de classe média, a garota correu, invocando o único elemento do qual tinha controle, a água, formando um espiral de gelo ao redor da espada, atingindo-o tão rapidamente que foi jogado contra o muro sem nem sequer perceber, instantaneamente o demônio se explodiu em pó e faíscas. Um de classe média não tinha nem graça.
O homem gargalhou do outro lado do beco.
– Isso vai ser divertido – Ele juntou ambas as mãos e as separou lentamente, invocando entre elas um curto machado negro.
Lucelin segurou firmemente Kami entre os dedos, partículas de neve flutuavam ao seu redor.
O demônio gritou e correu em sua direção erguendo o machado no alto de sua cabeça, a caçadora jogou-se para o lado, desviando da enorme pancada que rachou o chão. Ele sibilou irritado. Lucelin sorriu, o desafiando.
– Muito lento – debochou.
O gelo cobria suas mãos, subindo de Kami por seus pulsos formando linhas brancas, agarrando-se ao redor de seus ante-braços. Um caçador não escolhe sua arma, é escolhido. Lucelin foi escolhida por Kami em seu aniversário de dezesseis anos, quando pela segunda vez foi atacada por um demônio, além de Kami, ganhou também a cicatriz de três linhas paralelas na cintura e uma amiga.
Ainda focada em sua luta, Lucelin jogou uma rajada de neve na direção do demônio distraindo-o, correu e o atacou, ele defendeu com o cabo de seu machado, mostrando os dentes e sibilando algo em alguma língua demoníaca.
O demônio a chutou à alguns metros de distância. jogada contra uma poça d'água a garota arquejava de dor. Ela apoiou-se sobre um dos braços, o homem parou a sua frente, apontando o machado contra sua cabeça, ameaçando-a. Aqueles olhos totalmente negros, sem pupila a fitaram, e ela hesitou, todos seus pesadelos vieram a tona, bagunçando sua cabeça, perdendo a concentração.
– Eu sei quem você é caçadora – Ele estava mexendo com sua cabeça – É a filha de Kyla Mayfraid.
– Como sabe sobre minha mãe? – Lucelin cerrou as mãos, a água ao seu redor se agitava.
– Todos sabem sobre a renegada, que traiu todos os caçadores e blá blá – Ele gargalhou – Tenho pena de você.
A raiva tomou conta de seu corpo fazendo seu sangue ferver, em um movimento rápido de mãos Lucelin o atingiu com estacas de gelo tão rapidamente que ele voou e ficou fincado em um dos muros do beco, o gelo perfurou seu peito, barriga e ombro. Ele ficou parado, talvez apreciando a dor, ou talvez surpreso de mais para morrer. Ela se levantou e colocou a ponta de Kami em baixo do queixo ensanguentado do demônio quase morto.
– Você, sua criatura nojenta, nunca mais ousará falar assim de Kyla Mayfried – Suas mãos tremiam, o coração acelerado.
– Híbrida, você é como ele, exatamente como ele, e perecerá da mesma forma que seu pai, por amar tanto sua querida mãe – Ele sorriu, os dentes podres ensanguentados a mostra antes de Lucelin atravessar sua garganta com a lâmina prata de Kami.
A caçadora ficou observando o gelo tomar todas as veias do homem, o sangue negro escorrendo pelos novos ferimentos e pela boca, os olhos saltados e sangrando, uma cena horrível, até ele se esfarelar e virar pó.
Suspirou, deixando Kami virar neve e sumir até que precisasse dela novamente.
– O-oque aconteceu? – A voz de uma garota surgiu as suas costas, Lucelin andou até ela pegando o celular dos bolsos da garota – Quem é você?
– Sou apenas uma estudante, você escorregou e bateu a cabeça – Lucelin chamou uma ambulância antes de entregar o celular a ela e ajudá-la a se sentar direito.
– Não, eu estava com ele – A menina apoiava as mãos na cabeça – Espera, onde ele...?
– Você estava sozinha, bebeu muito e escorregou, foi apenas isso – Lucelin disse confiante, e a garota confusa apenas assentiu – você vai ficar bem.
Ela olhou para Lucelin.
– e você ? Não me parece bem, também esta bêbada?
A caçadora sorriu levemente.
– Eu vou ficar bem.
Lucelin a deixou quando a ambulância chegou e caminhou em direção a sua casa.
A caçadora olhava para os seus pés, sua mente em uma eterna bagunça, odiava todos que falavam mal de Kyla, por mais que nunca a tivesse conhecido, Lucelin sentia que ela era uma boa pessoal, ou talvez estivesse enganada, talvez Kyla fosse uma pessoa horrível capaz de ter abandonado sua única filha em um orfanato à dezoito anos atrás.
Fechou os olhos, realmente esperava que estivesse certa.
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