O Segredo dos Caçadores
2 Memórias
Notas iniciais
Lucelin estava machucada, de joelhos e sua vista completamente turva. "Levante-se" uma voz familiar e preocupada ordenava em sua mente, "Levante-se Lucelin" a voz de Ergus.
Lucelin se levantou, abrindo os olhos. À sua frente, uma densa floresta, não, um parque.
– Socorro! — Alguém gritava — Socorro Lucy — a voz de Anna ecoava por entre as árvores.
A garota sentiu seu braço direito pulsar, e gritou de dor quando longa e esguias linhas brancas passeavam em torno de sua pele, como uma tatuagem. Ao chegar à palma de sua mão a dor aumentou e uma onda de água e gelo saiu de sua mão, formando uma longa espada. Kami, seu nome era sussurrado em sua mente.
"Lucelin, vá!" Assim que Ergus ordenou, a garota correu na direção da voz de Anna.
Quanto mais a garota corria, mais a voz de Anna se afastava. Precisava correr, precisava salvar sua amiga. Uma sombra ultrapassou seu corpo, cobrindo-a com uma terrivel escuridão. Lucelin virou-se repentinamente e viu-se diante de um enorme demônio, ele erguia as garras na direção da caçadora. A garota apenas ficou o encarando, presa no chão por suas pernas trêmulas. Quando o demônio a atacou, algo entrou a sua frente, um garoto. Lucelin o viu gritar alguma coisa, mas não ouvia nada. As garras do demônio atravessaram sua cintura.
A caçadora acordou gritando de dor e curvando-se sobre a barriga. Estava ofegante e assustada.
– Lucy! — Anna estava com os cabelos curtos bagunçados e usava seu pijama de ursinhos que ganhou do irmão mais velho — Você esta bem?
Lucelin respirou fundo e passou as mãos nos cabelos, afastando-os do rosto.
– Sim, estou bem, não se preocupe.
Anna suspirou e encostou na porta.
– Não podemos dizer o mesmo de seu quarto — Cruzou os braços.
Lucelin olhou em volta, tudo estava congelado, desde as paredes até as janelas. Flocos de neve flutuavam, parecia que uma tempestade de neve havia passado por ali.
A garota se concentrou e com um movimento dos braços tudo se desfez, sem deixar muitos danos.
– Seus pesadelos estão começando a piorar — Anna sentou-se ao seu lado.
– Não foi um pesadelo normal, foi uma memória — Lucelin se levantou, sua cicatriz doía — meu aniversário de dezesseis anos — A garota ergueu a blusa na frente de um grande espelho, observando a cicatriz, três linhas quase paralelas, as garras do demônio.
Anna suspirou.
– Eu me lembro — Ela apoiou a mão na perna — Quase perdi essa belezinha aqui — Ela sorriu — Mas você me protegeu.
– Se eu não tivesse te metido naquilo tudo, hoje em dia você não seria capaz de ver os demônios ou seria atacada por eles.
– É verdade — Anna disse, a caçadora olhou para a amiga pelo espelho — Mas, pelo que eu me lembro, eu me meti naquilo sozinha, mesmo com você me mandando ir embora, eu fiquei, e por causa disso você se machucou — Anna se levantou espreguiçando-se — Mas, vejamos pelo lado bom, se não fosse por tudo aquilo, se naquele dia você não tivesse se metido em uma briga e sido expulsa da escola — Ela contava nos dedos — pela milésima vez — continuou — não teríamos sido atacadas e seu sangue de caçador não despertaria, e você ainda teria uma vida fugindo dos demônios e dos orfanatos.
Lucelin riu.
– Claro, devemos agradecer àquele demônio.
– Idiota, mas pense bem, Lucy — Ela apontou para o espelho — Seus olhos e cabelos ainda seriam castanhos! — Anna levantou-se — nossa, agora que eu me lembrei, a dois anos você era completamente diferente, parecia até uma pessoa normal.
– Eu me parecia com Marie, e agora nem sei a quem eu sou parecida — Lucelin lembrou-se do rosto sorridente de sua mãe adotiva. Marie Valentine tinha cabelos compridos e castanhos assim como os olhos escuros, uma pessoa doce e sensível. A única mulher de dezenas que passaram por sua vida, a única que a fez sentir como é ter uma família.
– Ora, você se parece com você, quem mais nesse mundo tem cabelos naturalmente prateados? E olhos tão azuis que até parece violeta! — Anna a encarava — Quem dera meu cabelo muda-se de um dia pro outro e começasse a nascer, quem sabe, azul.
Lucelin riu da imaginação da amiga.
– Ah! quem sabe você também tem algum sangue de caçador correndo em seu corpo, talvez seja por isso que você adora meter a gente em confusão — A caçadora disse.
– Uau! imagine só — Anna sonhava acordada — e Felix seria meu guardião.
Ao ouvir seu nome o gato amarelo surgiu sorrateiramente pela porta.
– Não acho que esse preguiçoso e folgado daria um bom guardião.
– Felix, me salve! — Anna fingiu estar morrendo, o gato apenas virou-se e saiu.
Lucelin debochou rindo.
– Eu avisei!
Anna fez uma careta, olhou para o relógio e soltou um grito.
–Ja é tão tarde! daqui a pouco estaremos atrasadas.
Lucelin concordou e ambas foram tomar seus banhos. Como estudavam na mesma faculdade, dividiam uma grande casa, herança de familia de acordo com os registros dos caçadores. Talvez fosse de seus avós, ou até mesmo de Kyla.
Sacudiu a cabeça, não iria pensar em Kyla hoje.
***
Lucelin nunca soube o real significado de nada em sua vida, para ela, tudo era uma página deixada em branco, assim como o pequeno relógio de bolso quebrado que girava entre os dedos, uma peça faltando talvez, mas, sabia que nunca a encontraria.
O objeto menor que a palma de sua mão, tinha algumas inscrições antigas em suas costas, e vários símbolos diferentes em toda sua volta, a cor marrom enferrujada dava-lhe um ar de antiguidade, era pesado e feito de algum material desconhecido pela garota, a corrente que o prendia era fina e levemente decorada. A caçadora jurou tê-lo encontrado quando tinha sete anos de idade, em um sonho e no dia seguinte acordara com ele entre as mãos, mesmo vivendo entre caçadores e todas as coisas que antes não acreditava, ainda tinha dúvidas de que era realmente um sonho. Durante anos Lucelin manteve o relógio quebrado em suas mãos, talvez ele não significasse nada, talvez fosse apenas um objeto decorativo, mas, mesmo assim ela o guardava enrolado em seu pulso, como uma pulseira dourada.
O Campus estava surpreendentemente cheio naquela manha ensolarada, haviam mais pessoas do que Lucelin estava acostumada. Bem, nada ali era costume para a caçadora, estar em uma faculdade por mais de três meses era completamente estranho. Por durante toda sua vida, nunca passou mais de algumas semanas até ser expulsa ou suspensa por mal comportamento. A culpa não era dela, mas, ninguém nunca acreditou que o motivo de estar gritando, fugindo ou até mesmo batendo em alguém, era por causa dos demônios que a perseguiam.
Depois de tudo, Lucelin começava a perder a fé em si mesma, desistindo de ir à escola e de estudar, até encontrar Anna, que a forçava a estudar e viver sua vida adolescente.
– Sabe, as vezes achou que essa faculdade é feita especialmente para mim, olhe quantos garotos bonitos — Anna disse arrumando as roupas brancas.
– Não, você que é cega mesmo — Lucelin concordou consigo mesma.
– Você é exigente de mais Lucy, me diga um garoto que você ache bonito.
– Anna, você sabe que eu não tenho tempo para esse tipo de coisa.
– Lucelin Valentine, você tem dezoito anos, é a hora perfeita! -
Anna suspirou fundo.
Um alto e forte sino tocou, três badaladas.
– Preciso ir! agora é a aula do Sr. Jasper — Ela soltou o curto cabelo e o sacudiu com as mãos — Pareço uma futura médica respeitável?
– Esta mais para cantora de rock dos anos oitenta — Lucelin bagunçou mais o cabelo de sua amiga.
Anna pensou por um momento.
– Acho q ele vai gostar — sorriu e correu na direção do prédio de paredes brancas, onde estudava medicina.
Médica respeitável, combinava perfeitamente com ela. Ajeitou a alça de sua bolsa e foi para o prédio de paredes coloridas por seus estudantes de Artes.
***
Lucelin sentou-se em baixo de uma árvore no jardim do campus, muitos estudantes sentavam-se nas gramas para almoçar e estudar. Anna estava na biblioteca, revisando os conteúdos que o amado Sr. Jasper havia passado esta manhã.
Estava com seu caderno de capa preta, que carregava consigo onde quer que fosse. Virava as páginas, faltavam poucas para que o caderno acabasse de vez.
Começou a rabiscar, deixando que sua mente liberasse o que desejasse, fosse um desenho comum, ou algum maldito demônio. Os traços repetitivos faziam as sombras. As costas de alguém, o cabelo preto e ombros largos. apenas isso.
– Mas, o que? — perguntou-se frustada, até se lembrar, ja havia visto essa imagem, em seu sonho da noite passada. Alguém que a salvou de ter sido morta pelo demônio, mesmo que tenha ganhado as cicatrizes, sabia que era para ter sido muito pior.
De repente o ar a sua volta se tornou denso, dificil de respirar. Lucelin levantou-se, o sentimento desesperador de sempre a cercou e um estrondo tomou conta do campus. Antes que pudesse dar um passo, todas as janelas, lâmpadas e espelhos da faculdade se explodiram. Os alunos gritavam e fugiam assustados, alguns foram atingidos e machucados.
– Mas o que foi isso? — Uma menina chamada Carla que estava próxima a Lucelin gritou, elas estudavam na mesma sala.
– Carla, ligue para os bombeiros, precisamos tirar os alunos de dentro dos prédios! — Lucelin ordenou.
A caçadora sabia que era um demônio, mas, onde ele poderia estar? Ela correu, ajudando alguns alunos a sairem do prédio de Artes.
"Anna" pensou ela e imediatamente foi para a biblioteca, o cheiro de enxofre tomava conta do lugar, mas, ela não podia sacar Kami com todos os estudantes ali. Ao chegar na biblioteca assustou-se. Além dos vidros quebrados, algumas estantes de livros haviam caído.
– Anna! — gritou.
– Aqui Lucy, me ajude — Anna estava atrás de uma escada, tentando levantar uma estante de cima de duas alunas.
– Você esta bem? — Lucelin segurou a estante.
– Sim, estou, mas a Sasha esta inconsciente — Anna estava com os olhos cheios de lágrimas, ela odiava ver as pessoas se machucando e não poder fazer nada para ajudar.
Lucelin usou toda a sua força para erguer a estante enquanto Anna retirava as garotas.
– Precisamos sai daqui — Lucelin disse, ajudando a carregar a garota inconsciente.
Enquanto corriam, Lucelin sentiu que algo caia em sua direção e rapidamente empurrou Anna e as meninas para longe. Ouviu o estrondo de quando o ônibus caiu, porém, uma névoa branca a envolveu, protegendo-a.
– Lucy! — Anna gritou.
– Ergus — Lucelin disse observando as longas patas que abriam caminho pela névoa, um enorme lobo preto e cinza, seu guardião — Obrigada.
"Precisamos tirar os humanos daqui, não é seguro" Ele disse em sua mente, a voz suave parecia alarmada.
– Certo — Lucelin se levantou, afastando-se de trás do ônibus.
Anna a olhava preocupada até avistar Ergus e suspirar.
– Anna leve-as daqui — Lucelin ordenou ao avistar que havia jogado o ônibus — E se esconda.
A amiga assentiu hesitante e ajudou as garotas a irem para fora do campus.
Lucelin olhou ao redor, todos que ainda estavam por ali, ja estavam correndo para fora da faculdade. A caçadora invocou Kami, dividindo-a em duas e manipulando o gelo para se transformarem em longas facas de caça. Ergus a acompanhava.
"Destruindo mais uma escola" Ergus bufou, "Marie vai lhe dar um sermão novamente"
– Esse maldito me paga — Lucelin rosnava de raiva.
O demônio estava em cima do terraço do prédio de artes, observando-a com olhos vermelho-sangue. Tinha a forma de uma gárgula, feita totalmente de pedra, talvez fosse do tamanho de um carro nada mais de isso, porém a aura que emanava de seu corpo era assustadoramente forte.
Ele saltou, voando na direção de Lucelin. A caçadora não desviou, apenas saltou na direção do demônio segurando ambas as facas de Kami acima de sua cabeça. As laminas atingiram seu longo braço de pedra, arrancando-o fora. Lucelin pousou apoiando-se em seu joelho. A gárgula urrava de dor.
"Arranque a cabeça" Ergus ordenou.
Lucelin correu para atacá-lo novamente, porém o demônio saltou. Ergus corria muito rapidamente e com suas garras e caninos foi capaz de atravessar o peito da gárgula, deixando-o com um grande buraco. A gárgula caiu no chão.
"Ele é rápido" Ergus reclamou.
– Vamos, mais uma vez! — Lucelin o atacou, mas, foi surpreendida, Anna corria em sua direção, segurando um pedaço de madeira. Antes que Lucelin pudesse gritar para que a amiga ficasse longe, foi atacada pela cauda da gárgula, que a atingiu e a jogou à alguns metros.
"Lucelin!" Ergus chamou.
"Maldito demônio" Lucelin pensou tentando se levantar "Estou bem, tire Anna daqui Ergus!"
Lucelin ficou de pé, olhando para Anna. Sua guarda estava baixa, e quando se deu conta a gárgula estava a sua frente, correndo para atacá-la. A caçadora ergueu as facas de caça.
– Opa! — Uma voz familiar surgiu acima da gárgula — Te achei.
De repente uma longa lâmina atravessou a garganta do demônio, cortando fora sua cabeça horrível de pedra.
Era impossível não reconhecer a voz de Connor Wayne, ela tinha aquele tom carismático que Lucelin tanto gostava. A gárgula caiu no chão, Connor estava em cima de seu corpo decepado, segurando a espada e olhando para Lucelin.
– Desculpe a demora, Lucy — Ele disse sorrindo.
Fale com o autor