O Segredo da Meia-noite
7 Primeira vez
Notas iniciais
São Paulo, 09:42
29 de maio
Assim que chegou em casa, Vit foi para a sacada, admirar a paisagem. Ela fazia isso com sua mãe regularmente, olhando a cidade de um jeito belo e até esperançoso para os lugares não tão bonitos assim. Ela sentou-se na rede instalada ali, e começou a pensar sobre essa última turbulenta semana. Tinha muitas perguntas e temas a serem debatidos, e os faria todos hoje. Queria saber tudo sobre sua vida, tudo o que lhe fora ocultado por tanto tempo.
O primeiro debate era seus poderes. Bem, um fato era indescutível: ela precisava treinar e domar o tempo o quanto antes. Ela sabia como fazer, do jeito mais demorado, e essa semana seria usada para aprimorar o controle desse jeito. Semana que vem, começaria o jeito rápido e eficaz. Vit olhou para as pessoas andando na rua: poucas, com roupas pesadas, próprias para o frio, e se abraçando, na tentativa de obter algum calor. Por mais que Vittoria gostasse do tempo frio e úmido (embora estivesse seco naquele momento), ela estava se cansando de tanto frio. Então, resolveu usar seus poderes pela primeira vez: aquecer a região.
Se concentrou e começou a usar os ensinamentos da primeira fase. Quando achou que estava pronta (cerca de dez minutos depois), começou a usar o que sabia sobre a segunda, que se resumia a explicação do velho. Ficou nesse estado de profunda concentração, pensando em calor, por um tempo que ela achou ser indeterminado.
- Vittoria! — chamou André, tirando-a do estado de meditação.
- O que foi? — perguntou, alarmada
- Você não vai almoçar? Eu pedi yakisoba. Já chegou.
- Almoçar? São dez horas da manhã, André.
- São uma e meia da tarde.
Ela se levantou da rede, desnorteada. Olhou de relance para a paisagem: um sol que tentava se aninhar entre as nuvens, proporcionando calor, pessoas com roupas um pouco mais leves, e uma brisa suave. Ela sorriu: havia controlado o tempo pela primeira vez.
Depois do almoço, ela e André sentaram-se no sofá e começaram a conversar.
- Eu tenho que te dizer uma coisa, André.
- Hum?
- Eu já tive dois sonhos lúcidos com a minha mãe, a gente conversando sobre minha vida. Você acha que isso pode ser real, ou é só um sonho?
Ele ficou em silêncio, refletindo sobre a pergunta dela.
- Bem... Eu não posso afirmar nada, pois isso é um tema pessoal, mas... Você já perguntou a ela, nesses sonhos, isso?
- Sim, e ela disse que são. Que ela está conversando comigo de verdade.
- E você acredita nisso?
- Eu sinto que são reais, eu sempre acordo com essa certeza.
- Então são. Quando acordamos, em geral levamos algum tempo para assimilar o ambiente em que nos encontramos. Se você acorda com alguma certeza sobre algo, é porque isso é importante, e talvez até real, depende do que você acordou pensando e da perspectiva.
- Mas... — a pergunta morreu em seus lábios.
- Eu acho que você está passando por algo muito complicado para os seus dezoito anos. Sua mãe acabou de falecer, você é perseguida por um assassino e é iludida por um garoto.
- Quantos anos você tem mesmo? — perguntou, sarcástica.
- Dezoito.
- Desculpe então, Senhor Experiência!
- É diferente. Minha mãe não morreu, não sofro de distúrbio das personalidades múltiplas e não fui enganado.
- Você disse que ela era como se fosse uma mãe para você.
- E os outros dois itens?
Ela ficou em silêncio. Quando se passou tempo suficiente para ser sutil, mudou de assunto.
- Você sabe como ir para a Consolação, não sabe?
- Por que a pergunta?
- Porque o velho que me ajuda a controlar meus poderes mora na Rua Bela Cintra.
- Ela cruza com a Avenida Paulista, não?
- Cruza.
- Então sei. Se quiser, te levo depois da escola.
- É claro que quero! É aí que eu queria chegar nessa conversa. Amanhã eu vou para a escola, e saio meio-dia. Esteja lá.
- Vou estar.
- Vou tomar um banho. Preciso me arrumar para a missa.
Ele sorriu e ligou a televisão na série que ele assistia: Heroes, primeira temporada, episódio dezessete.
Quando eram cinco e meia da tarde, eles entraram na igreja, e sentaram-se a frente. O culto não começara, então o local não estava totalmente cheio. Por enquanto, não havia ninguém que ela conhecia ali, e ela nem esperava ver alguém. Afinal, ela não sabia onde estava seu pai, nem a família dele, e da parte da sua mãe não restava mais ninguém.
Eles esperaram, ela chorando por sua mãe e ele consolando-a.
O padre chegou com um pouco de atraso, mas começou a missa rápido. Além da Missa de Sétimo Dia de Cleide, ainda haviam duas missas de um mês e uma missa de três anos. Era um dia muito movimentado nas igrejas, os domingos.
Durou uma hora e vinte minutos, e eles saíram de lá as sete e meia.
De volta para casa, ela fez um sanduíche natural, tomou outro banho e foi dormir. Nessa noite, embora ela quisesse, não teve nenhum sonho com sua mãe, não pôde perguntar mais a ela sobre quem Vittoria era de verdade ou quando a mesma teria controle perfeito sobre o tempo.
Essas perguntas teriam que ser feitas mais tarde... Nessa noite, Vit teve dificuldades de dormir
São Paulo, 06:15
30 de maio
Finalmente a noite passara, e era hora dela voltar para a escola. Sentia saudades de Caroline, sua BFF.
André a levou de carro para lá, dizendo que voltaria a tempo de levá-la para o velho.
Infelizmente, o calor que Vit tinha feito havia se dissipado, talvez por causa da predominância do frio ou por causa que ela não fizera direito. Cogitou a primeira hipótese.
- Vittoria! — chamou Carol, assim que ela entrou no átrio.
- Oi! — Vit lembrou que deveria ter convidado Carol para a missa. — Desculpe, mas eu esqueci de te convidar para a Missa de Sétimo Dia da minha mãe!
- Tudo bem, Vit. — isso não diminuiu o sorriso dela.
- E seu pai, está bem?
- Eu não o vi nesse finde, amiga... — isso diminuiu o sorriso dela.
- Que pena... E sua mãe, teve notícias dela?
- A última foi aquela... Ela se casou em Buenos Aires e mandou felicidades. Sabe, às vezes eu gostaria de ter outra família ao invés dessa...
Vit abraçou-a.
- Você tem a mim.
- Oh, Vittoria, eu não sei o que seria de mim se eu não tivesse te conhecido, há dois anos e meio...
- Você teria superado sozinha. Você é forte, embora não queira admitir isso para si mesma.
- Eu admito que você é mais. Bem, sem querer estragar o clima, mas vamos para a aula?
- Claro.
Depois da aula, André fez o que prometeu, e a levou para a Consolação.
Lá, o velho continuou a segunda etapa, dando-lhe instruções.
- Eu fiz calor ontem. — Disse Vittoria.
- Eu sei. — disse, soturno.
- Eu já passei pela segunda fase, não?
- Você sabe fazer calor. Agora deverá aprender a fazer frio, chuva, raio, nuvens e vento. Quando souber fazer todos esses elementos, estará pronta para a terceira etapa.
- Então o tempo se divide em seis tipos?
- Não. Mas se você conseguir fazer esses elementos, não terá problemas com os outros.
Ela estava prestes a começar, quando o velho chamou-a.
- Vittoria, tente fazer frio somente nessa sala.
- Por quê?
- Além de te ajudar a controlar melhor seus poderes, evitará chamar a atenção para mudanças repentinas de clima.
- Mas esta não é São Paulo, a cidade em que hora está ensolarado e na hora seguinte está chovendo?
- Para a maioria das pessoas sim, mas para meteorologistas, que sabem de onde vem cada massa de ar quente e frio, seria estranho ver ondas de calor e frio surgirem dos arredores da Paulista.
Ela acenou com a cabeça, concordando. Então, fechou os olhos e se concentrou em frio extremo.
André passou para buscá-la as cinco e meia, assim como havia prometido. Nessa tarde, ela havia conseguido fazer uma temperatura de 8ºC no quintal nos fundos da loja de itens de macumba do velho, medidos por um termômetro trazido por ele mesmo.
- Foi bem? — perguntou André, assim que ela entrou no Prisma e deu um beijo na bochecha dele.
- Sim. Já consigo fazer frio e calor. O velho disse que eu estou progredindo rápido.
- Mas isso não faz parte do Segredo? Ajuda a dominar o tempo?
- Não — sorriu ela.
- Achei que sim. — Brincou novamente.
Ela olhou o caminho, enquanto eles partiam por um emaranhado de ruas e avenidas, até a casa dela.
- Depois preciso te dizer uma coisa — disse André.
Ela olhou para ele, e percebeu um leve toque de malícia. Achou ser coisa de sua mente, talvez até cansada.
- Espero ter mais sonhos lúcidos com a minha mãe. — disse, enquanto abria a porta de casa.
- Ouvi dizer que quanto mais se foca a cabeça no presente, deixando de lado o passado e o futuro, mais fácil é. E meditação é um excelente exercício.
- Ótimo! Vou tomar um banho. Estou cansada.
- Eu fiz um picadinho de frango com legumes que sua mãe adorava. É minha especialidade.
- Estou mesmo faminta.
- Eu também.
Ela entrou no chuveiro. A água quente acariciou sua pele, numa mistura de sensações que a deliciavam. Vit adorava tomar banho, não só por isso, mas também porque eles ajudavam-na a refletir sobre a vida.
Depois do banho, ela foi jantar.
- O cheiro está delicioso — disse ela.
Ele sorriu, congratulado.
Eles fizeram a maior parte da refeição em silêncio, até que ele resolveu quebrá-lo.
- Eu estive pensando, e... Bem, eu não sei como dizer isso, mas eu gosto de você.
- Também gosto de você — disse ela, automaticamente.
- Não so jeito que você está dizendo.
- Então qual? — fez uma cara de sonsa.
- Eu... Me sinto atraído por você.
Ela sorriu, voltando o olhar para o prato.
- E você? — pressionou ele.
Ela fez uma pausa dramática antes de responder. Depois falou, contrangida:
- Também...
Ele voltou seu olhar para a parede, com seu ego visivelmente inflado, como um homem fica ao saber que tem uma garota na dele.
- Eu quero fazer uma coisa com você — disse ele, assim que terminaram de jantar.
- O quê?
Ele a beijou ardentemente. Ela ficou sem fôlego alguns instantes, apesar de já estar esperando isso desde o início dessa conversa estranha. Depois, retribuiu o beijo.
Eles ficaram se beijando durante alguns minutos. Ela achou que André estava com medo de começar o striptease e ela rejeitá-lo, mas ele tirou a camisa sem perguntar.
Vittoria olhou para o abdômen liso dele. Não era musculoso, pois ele não fazia academia nem nada do gênero, mas era perfeito.
André começou a levá-la para o quarto, enquanto tentava tirar a blusa dela. No início ela ofereceu resistência, mas após um certo tempo permitiu que ele tirasse as peças de roupa recém colocadas, até que ela ficasse apenas de soutien e calcinha, e ele de bermuda (ela não tinha certeza se ele usava cueca ou se ele já tinha programado um possível sim para ela dizer). Bem, isso ela só saberia mais tarde, quando começasse.
André usava, mas não por muito tempo...
Foi a melhor experiência da sua vida, em todos os sentidos. Ela sentiu-se pela primeira vez uma mulher poderosa e amada, até adulta, enquanto eles transavam. Vit aproveitou cada sensação que o sexo lhe proporcionava, desfrutou cada momento de prazer intenso, principalmente quando ela atingiu o orgasmo.
Dormiram agarrados um no outro.
São Paulo, 03:43
31 de maio
- Vit... — uma voz ecoava ao longe.
Ela viu a cena que se desenrolava ali. Como sempre, um ambiente claro, bonito e desconhecido, e sua mãe defronte a ela.
- Mamãe... — falou, meio constrangida, meio ansiosa.
- Não tem problema, querida. Já está na hora de você entender que é adulta, meu amor. Já faz uma semana que você é.
- E um dia — corrigiu, sorrindo.
- Claro...
- Qual o assunto desta vez?
- Vim te dizer que você está se saindo muito bem sem mim... Quanto suas escolhas, seus poderes, a administração que você está fazendo da sua vida... Ainda bem que eu só parti após você ser legalmente maior de idade.
- Mãe, que assunto!
Ela sorriu.
- Eu ainda te farei muitas visitas, meu amor, para te dizer algumas coisas importantes para sua vida... Conselhos, diremos.
- Mamãe, e o Daniel, ele estava falando a verdade na última conversa?
- Ele abriu os olhos, mas lamento ter sido tarde demais. O André sempre foi um rapaz muito inteligente, você sabe. Praticamente você cresceu com ele...
- Mamãe, você sabe quando nos veremos novamente? — perguntou, após um tempo.
- Isso, minha querida...
- Só o tempo dirá — completou Vit, melancolicamente.
- Não disse que você fez progresso?
- É, disse sim — concordou.
Cleide abraçou-a, e depois deu-lhe um beijo na testa.
- Se cuide, meu amor. As provas mais difíceis ainda nem começaram... E a próxima está muito mais perto do que você imagina. Meu conselho é: tente ver as coisas de um ponto de vista diferente, porque você não está vendo-as da maneira que elas são — sussurrou.
Vittoria apertou o abraço, até que sua mãe deu o aviso final:
- Tenho que ir, querida. Até a próxima!
- Tchau, mamãe!
Houve o clarão habitual, e Cleide desapareceu, assim como toda a cena.
Vittoria acordou, no meio da noite, abraçada com André. Estava suada, e ofegante. Ela já sabia exatamente de que sua mãe falara, enquanto sussurrava em seu ouvido.
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