O Segredo da Meia-noite
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Notas iniciais
São Paulo, 03:58
31 de maio
Vit levantou-se da cama, e dirigiu-se a cozinha, para beber um copo d'água. Olhou no relógio numa das paredes da sala: 03:59 am.
Após beber a água e tomar um banho, para se livrar daquele suor nogento, grudado em seu corpo, em parte do sexo e em parte do sonho (apenas na última parte), ela sentou-se no sofá e começou a visualisar aquilo tudo.
Ela não estava dividida em Vit e Vittoria. Segundo a mãe, ela era bipolar, mas não do jeito que ela achava. Vit e Vittoria eram a mesma pessoa*. Mas, se ela era Vittoria, quem era a outra personalidade? Ela já teria aparecido? Teria feito algo? As respostas, quem as teriam era apenas sua mãe, que, neste momento, estava longe de uma visita.
Ouviu um barulho no quarto dela.
- Vittoria?
- Estou na sala — respondeu, sem vontade.
André começara a levantar, lenta e pesadamente. Ouviu-se uns passos longos, e ele surgiu, sonolento, apenas de cueca branca. Ele olhou para o relógio prateado na parede e disse, esfregaando os olhos:
- O que você está fazendo acordada as quatro horas e meia da manhã?
- Tive um sonho lúcido. Com a minha mãe. E ela me disse que há uma personalidade que eu não conheço. — Foi então que ela teve uma ideia. Perguntou: — Por acaso você já me viu, em estado diferente?
- Como assim?
- Eu já fiquei... Fora do meu estado comum, e você notou?
- Não...
Revirou os olhos.
- Vou voltar para a cama, porque eu estou com frio. Você vem?
- Mais tarde. Preciso pensar sobre isso...
- Tudo bem, então. Vou te esperar.
Vai nada, pensou. Ela tinha certeza que ele iria dormir. Observou ele voltar para o quarto.
Ela continuou ali por quase meia hora. Ao perceber que não obteria as respostas que procurava só de encarar a mesa da sala de jantar, desistiu e foi dormir com André.
Acordou uma hora depois, para ir à escola. Finalmente maio estava acabando, e logo começaria junho, o último mês antes das férias de inverno. Ela estava farta de acordar cedo de segunda a sexta-feira.
Acordou André, se arrumou e esperou ele a levar para a escola.
Assim que chegou, cumprimentou Carol, e foi para a aula mais chata que havia: química. Como se já não bastasse ter um professor mala e as colegas de classe chatas ainda tinha a matéria, que por si só era estressante e complexa.
Carol era definitivamente melhor que Vittoria em química. Talvez fosse a matéria que a amiga tinha mais facilidade, depois de inglês. A teacher Jaqueline vivia elogiando as duas, por serem as melhores da classe. Talvez ela falasse isso a todos com média acima de 6, para continuarem bem na matéria. Provavelmente sim.
Assim que o professor chegou, pediu para que os alunos se reunissem em duplas, para que cada integrante fizese um trabalho sobre um dos temas: oxigênio e ozônio. Carol e Vit formaram uma grupo, onde Carol ficou com oxigênio e Vittoria com o ozônio.
Depois de passar o trabalho, ele corrigiu as lições e finalmente começou a passar a matéria sobre a transformação do oxigênio em ozônio, através do raio.
Raio... Ela aprenderia a fazer um raio com o velho amanhã. Mas seria uma matéria muito perigosa, segundo o professor de química:
- Os raios possuem uma carga elétrica muito alta, pois para atravessar um centímetro na atmosfera, é preciso quinze mil volts...
Ela poderia destruir uma cidade, se fosse capaz de controlar uma tempestade com muitos raios...
- ... e o evento mais perigoso com raios é a tormenta elétrica...
Ela seria capaz de controlar uma tormenta elétrica? Talvez...
- ... e as partículas de oxigênio são quebradas. Depois elas se unem novamente, em grupos de três, para formar o ozônio, que sobe para altas camadas da atmosfera...
A camada de ozônio não está sendo destruída? E se Vittoria fizesse uma tormenta elétrica bem grande, para formar muito ozônio, a Terra não poderia ser salva?
- ... somente um raio produz ozônio, mas é em quantidade insuficiente para repor o que o ser humano destrói...
O resto do dia fora chato. As aulas não foram nada legais, exceto a aula de espanhol, que fora divertida. Depois, no treinamento com o velho, ela fez chuva sem nenhum problema. Então ele pediu para ela tentar fazer o tão comentado raio, para se adiantar mais ainda. Entretando, ela não conseguiu fazer uma cumulonimbus em pequena escala que fosse carregada o suficiente para quebrar o ar.
- Desculpe-me, mas acho que não vou conseguir — desistiu Vittoria.
- Como não?
- Um raio precisa de quinze mil volts para quebrar o ar, e como eu vou fazer toda essa voltagem e ainda conseguir manipulá-la em escala reduzida?
- Isso pode ser verdade... Então deixaremos o raio para um dia que esteja chovendo. Vamos passar para o próximo elemento: nuvens. Talvez eu tenha que alterar a ordem, e deixar o raio por último.
Ela conseguiu fazer nuvens sem problema, afinal, para se fazer chuva, precisa de nuvens. Eram quatro da tarde ainda, então o velho resolveu que ela deveria aprender a fazer vento ainda hoje.
Ela criou uma corrente.
- Agora, Vittoria, passaremos para a etapa número três. A diferença é que você não meditará, e fará os elementos em pouco tempo. Para isso, você deverá se concentrar normalmente. Apenas isso.
Ela assentiu. Estava prestes a começar o treinamento, mas André chegou nesse exato momento.
Quando chegaram em casa, ela foi tomar banho. Deixou que os problemas escorressem por seu corpo, junto com a água quente... A bipolaridade, o raio que ela não conseguia fazer, a morte de sua mãe, os sonhos, a noite com André... Ele tinha razão, afinal. Ela estava enfrentando mais problemas que poderia. Vittoria Dielo não tinha essa força toda, para enfrentar todos os desafios que a vida lhe impunha de uma única vez...
Saiu do chuveiro, secou-se e colocou roupas quentes. André estava na fila para o chuveiro. Na realidade, ele estava apenas com uma toalha enrolada na cintura, e entrou assim que ela saiu.
Ela foi ver o que ele preparara para o jantar. Comida chinesa comprada.
Sentou-se no sofá e zapeou pelos canais da televisão. Apenas jornal, novelas e desenho animado. Passou por um jornal com a manchete "Idoso morre na Consolação". Deixou no canal.
- Um idoso, de aproximadamente sessenta e cinco anos, foi assassinado na Consolação, em São Paulo. — Dizia o âncora do telejornal. A parte que chamou a atenção dela foi a seguinte: — Ele era dono de uma loja de itens de magia. Era viúvo e não tinha filhos. Morreu baleado, com um tiro na cabeça e dois no coração. A polícia não encontrou indícios de nenhum criminoso.
Será que... Era aquele velho?
Naquele momento, o telefone tocou, tirando-a do transe. Atendeu-o.
- Vittoria? — era Daniel.
- O quê? — disse, irritada.
- Meu pai. Ele mandou matar o velho que te ensinava a controlar o Segredo.
Mais uma morte. Aquele desgraçado já tirara a vida de sua mãe, e agora daquele homem?
- Por... Por quê?
- Ele não quer que você controle o Segredo, Vittoria. Agora ele tem uma máquina do tempo construída, para realizar o que ele deseja... Ele tem a data do primeiro teste: cinco de junho, a próxima segunda-feira.
- E por que você está me contando isso?
- Porque eu te amo, Vittoria. Você sabe disso.
Ela revirou os olhos.
- Tenho que desligar — falou ela, provocando ciúmes — Meu namorado está saindo do chuveiro. Adeus.
- Tchau...
Ela desligou o telefone bruscamente. Neste exato momento, André saiu do banheiro, sorrindo.
- Estava falando com quem?
- Com seu irmão.
- Dizendo que seu namorado estava saindo do chuveiro?
Revirou os olhos novamente.
- Vou escovar os dentes e dormir — disse ela.
- Não vai me esperar? — disse, maliciosamente.
- Hoje não.
São Paulo, 03:38
1º de junho
Ela tinha consciência de que era um sonho. Mas um sonho com um toque de realidade absurdamente grande.
Vit estava num restaurante. Sua mãe estava sentada a sua frente, com um cardápio.
- O que você acha de pedirmos um capelleti, meu amor?
Ela ficou em silêncio alguns instantes. Era um sonho qualquer ou era outro sonho que elas conversavam sobre Vit?
- Pode... Poder ser, mãe.
- Ótimo. Vou pedir.
Ela abaixou o menu. Cleide tinha o sorriso de sempre, com as piscadelas que ela costumava dar, quando tinha algo escondendo do restante das pessoas.
- Mãe, o que o Daniel me disse é verdade? — Pressionou.
- Que Daniel, meu amor?
- O Daniel, irmão do André, mãe.
Ela mostrou-se preocupada. Mas depois relaxou sua expressão, tão rapidamente quanto preocupou-se.
- Eu não conheço nenhum Daniel.
Ela olhou fixamente para sua mãe. Era apenas um sonho lúcido comum, nada de sonhos com o espírito da sua mãe.
- Preste atenção, querida — inclinou-se em direção a ela.
Neste segundo, o ambiente se desfez em pó. Tudo ao seu redor virou uma poeira colorida, que se reagrupou novamente em outra cena: um jardim florido, típico de uma casa de veraneio de pessoas extremamente ricas. Quase que uma mansão.
Nele haviam três crianças, de aproximadamente quatro anos de idade: dois meninos louros e de olhos verdes, brincando com carrinhos, e uma menininha morena, com uma boneca, olhando os dois brincarem. Mais ao fundo, próximo a entrada da casa, estava uma mulher na casa dos quarenta anos, e um homem, pouco mais velho que ela. Eles conversavam de forma urgente e desesperada. Vittoria se aproximou mais deles, para ouvir de que falavam. Não tomou cuidado nenhum, pois se era um sonho, ninguém a veria.
- Eu falei com ele — dizia a mulher. Vittoria tomou um susto ao perceber que ela era sua mãe.
- E o que ele disse? — perguntou o homem. Ele deveria ser o pai de André e de Daniel.
- Disse que é melhor esperarmos a hora certa de contar a verdade a ela.
- E quando vai ser isso?
- Eu não sei. Mas ele pediu para ser depois que ela completasse a maioridade, para ter idade o suficiente para entender o que está acontecendo com ela.
- Mas restam catorze anos até lá, Cleide.
- E vamos esperar. Ela é uma menininha ainda, mal sabe escrever e ler direito, quanto mais entender que ela tem poderes e pode ser a salvação ou a destruição do mundo!
- Talvez você esteja certa — disse ele.
- Quanto a minha filha, eu estou certa. Sempre estarei, por mais catorze anos. Até mais, se ela quiser ainda.
- Ela precisa saber desde já. Sabe que a maior parte das crianças adotadas, que seus pais escondem isso dela até que ela seja maior de idade, quando sabem disso tem raiva dos pais? Esconder um segredo nunca é bom. Ainda mais um dessa magnitude.
- Você tem seu jeito de pensar, Heitor, e eu tenho o meu. Ela não tem idade o suficiente, e quando ela tiver eu mesma vou dizer isso a ela.
- Tudo bem — cedeu. — Que seja do seu jeito, então.
- Ótimo — encerrou Cleide, deixando a conversa mais do que encerrada. Ela caminhou então em direção às crianças, e disse para a menina: — Vit, meu amor, vamos?
- Vamos — concordou. Elas sairam da propriedade. Vittoria estava prestes a segui-las, para onde quer que fossem, mas o sonho se desfez em pó novamente, dando origem a uma sala com móveis do período colonial.
Na sala, só havia duas pessoas: Cleide Dielo e Heitor Oliveira. Eles estavam bem mais velhos do que no primeiro segundo sonho, já que se passara provavelmente uns dez anos. Desta vez, eles não conversavam, e sim brigavam, pelo mesmo motivo da primeira: Vittoria.
- Agora ela já tem dezesseis anos! — exclamou o pai dos garotos.
- Dezesseis não é maioridade. Mas que tanta pressa você tem para que ela saiba sobre a verdade?!
- É o direito dela!
- Você escutou muito bem o que o senhor disse: quando ela tiver dezoito anos.
- Você vai continuar com esta ideia maluca?!
- Eu é quem deveria dizer isso!
- E por que não disse, porra?!
- Saiba você que André me apoia. Um de seus filhos quer que ela salve o mundo, e não o domine!
- Mas eu vou trazê-la para o meu lado, Cleide. Ainda vou fazê-la controlar o mundo para mim.
- Espero que consiga passar por mim primeiro, porque a partir de agora você e quem o apoiar estão fora da minha vida e da vida dela!
- Eu ainda sou o pai de André! Ele vai me respeitar!
- Não vai, não! Eu vou levá-lo para morar comigo!
Cleide saiu dali, estressada. Vittoria a seguiu até o jardim do sonho anterior, onde André e Daniel estavam esperando pela resposta dela.
- Vamos, André — foi o que disse. — Você vai ter que morar comigo um tempo. Passar bem, Daniel.
O sonho se desfez novamente. O que surgiu foi a sala de estar de Vittoria, mas quem estava lá era apenas sua mãe falando ao telefone. Não devia ter se passado muito tempo desde a última cena, porque Cleide estava quase a mesma.
- Você quer o quê? — Houve uma pausa, em que ela ouvia a resposta do outro lado da linha. — De jeito nenhum! Eu já disse que não! — Mais uma pausa. — Um encontro?! Tudo bem, mas que você vá sozinho! Nada de joguinhos ali!
Ela desligou o telefone bruscamente.
- Não sei porquê fui aceitar isso... — lamentou-se.
A cena se transformou em outra: um restaurante, mas não aquele do primeiro sonho. Nele, estava Cleide e Heitor. Este último estava visivelmente mais velho, com rugas mais definidas e a calvice mais adiantada. Ele estava sorrindo amigavelmente, talvez para convencer Cleide a aceitar a proposta que ele iria refazer. Aquele cara estava decidido a conquistar o mundo.
- E então? — perguntou Cleide.
- Bem, Cleide... Sua filha faz dezoito daqui duas semanas. E eu gostaria de... Voltar a ser seu amigo, porque todo esse tempo eu fiquei... Qual é mesmo a palavra certa? Ah, já sei! Todo esse tempo eu fiquei magoado por ter permitido uma discussão entre nós dois e permitido que meu filho saísse de casa... Sabe, pai nenhum deveria fazer isso.
Ela ficou em silêncio, pensativa. Ao ver que ela cedeu espaço, ele continuou:
- E eu gostaria também de estar com você, quando você for contar a Vittoria sobre o Segredo. Se você quiser, eu te darei duas semanas, até a meia-noite do dia 22 de maio, quando ela completa finalmente dezoito anos.
Cleide continuou pensando na resposta. Visivelmente ela estava dividida em dois. Vittoria gostaria de gritar para ela, impedir ela de aceitar a morte assim. Mas não importava o quanto Vit gritasse, ninguém ali dava a menor atenção, e nem percebia que ela estava ali, implorando para que uma pessoa não se matasse.
- Duas semanas? — Cleide pareceu tentar fazer um joguinho, mas o homem percebeu rapidamente que ela o fazia. Então decidiu pressioná-la para continuar. — Bem, eu aceito. Onde nos encontramos?
- Que tal na... Ponte do Tatuapé?
- Perfeito — respondeu ela.
Pronto. Estava feito. Cleide seria morta pelo pai de Daniel. Enquanto Vittoria observava os dois se levantarem, se perguntou o que teria acontecido se ela recusasse ali mesmo, onde haviam muitas testemunhas...
Novamente pó colorido, que formou a cena mais sombria de todas: uma ponte, por volta da meia-noite, sobre o Rio Tietê. Nela, o pai de Daniel esperava Cleide terminar a longa subida, enquanto falava ao telefone com a polícia. Ele a chamava, dizendo que uma mulher fora lançada no rio na ponte do Tatuapé agora pouco.
Já estava escuro. O velho estava fechando a loja, quando aquele Heitor se aproximou dele. Ele estava vestido todo de preto, e usava luvas pretas, de couro.
- Você continua ensinando-a, apesar de eu ter dito para não fazê-lo? — disse, ameaçadoramente.
- É o destino dela controlar o tempo. E o meu ajudá-la.
- Você está cavando sua cova.
Ele sacou uma arma com silenciador e atirou duas vezes no coração do velho e depois uma na cabeça. Assim que ele morreu, o homem terminou de fechar a loja e jogou a chave em uma boca de lobo. Depois, sacou um celular e ligou para a polícia.
Então era isso. Se Cleide tivesse recusado, o homem a perseguiria e a mataria, talvez até dentro da própria casa...
O sonho virou pó pela última vez, voltando ao restaurante. Sua mãe, ainda inclinada para ela, terminou:
- Isso responde sua pergunta?
Vittoria acordou, novamente eufórica. André dormia tranquilamente ao seu lado, com o braço em sua cintura. Ela foi tomar um banho para se livrar do suor, e pensar. Agora, seu professor estava morto. Os outros estavam em outros países, talvez até outros continentes. Ela teria que aprender sozinha a lidar com o Segredo.
*O alter ego de Vittoria passa a ser desconsiderado a partir daí. A partir deste ponto, existirá duas outras personalidades: Vit ou Vittoria e uma outra, ainda desconhecida para ela.
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