O Segredo da Meia-noite
2 Noite sangrenta
Notas iniciais
São Paulo, 06:15
23 de maio
Vittoria Dielo acordou animada. Hoje ela finalmente se tornava maior de idade, completando dezoito anos. A partir de agora poderia comprar seu carro e dirigir...
Ela aparentava ser uma garota rebelde, explosiva. Tinha cabelos negros, que caíam até os ombros, com uma mecha roxa, lisos e sedosos. Olhos negros, como a noite, redondos e um pouco amedrontadores. Pele clara. Sua boca era fina, assim como o nariz. O rosto era afilado. Ela era magra, e adorava usar roupas modernas.
Seu psicológico também era comum para um adolescente: ela gostava de fazer compras, ir ao shopping, e estar com sua
melhor amiga. Ela também era bipolar, embora não admitisse isso pra quase
ninguém. Quase. Gostava de estar com a mãe e estudar, ler livros e fazer
passeios culturais e na natureza. No geral, ela era amigável, inteligente e não
muito popular, mas era o que queria ser.
Levantou da cama e foi para a cozinha.
- Mãe? — chamou, mas sem resposta. Sua mãe deveria ter saído mais cedo e não a acordado. Quando ela fazia isso, deixava um post-it na geladeira. Vittoria olhou para lá e lá estava o post-it.
Querida, saí quando você ainda estava dormindo e não quis acordá-la. Beijos, mamãe.
Ela largou o post-it e preparou o café da manhã: suco de laranja e um misto quente. Comeu, terminou de se arrumar e saiu de casa.
Vittoria pegou dois ônibus para chegar a sua escola, onde ela fazia o terceiro ano do ensino médio. Entrou no colégio, passando pelo jardim onde vários alunos se amontoavam, em grupos, conversando sobre mulheres, garotos, maquiagem, moda, futebol e outros temas juvenis. Vittoria sabia que, na realidade, aqueles alunos do colegial não queriam falar de verdade sobre algum assunto, apenas ter o prazer de serem ouvidos por alguém, para parecerem importantes e relevantes na vida de seu grupo social, o que no caso dela era apenas a falta de atenção de seus pais que trabalhavam mais de dez horas por dia em dois empregos para manter uma educação de qualidade e um futuro promissor a seus filhos ou, no caso dos pais donos de empresas de sucesso, ter pais ocupados demais com seu lucro para poderem ter o mínimo de atenção com seus filhos rebeldes e mães que se preocupam mais com o próprio corpo e a necessidade de parecerem mais jovens do que deles. Vittoria chamava-os de aca, adolescentes em crise de atenção, necessitando vorazmente dela. Mas no caso de Vittoria, aquilo não existia; o que realmente importava era a atenção de sua mãe e a de sua BFF (best friend forever, ou melhor, amiga para sempre), Carol.
Carol era uma menina com aca, já que sua mãe morava na Argentina e seu pai (divorciado dela) trabalhava em dois empregos, quarenta e oito horas a cada três dias e com cinco miseráveis folgas mensais, as exigidas pela lei, e um mês de trabalho. Vittoria sentia-se na obrigação de dar atenção a amiga, para que ela não vire mais uma dessas meninas em círculos sociais e em roupas de grifes, seguindo uma mimada central para apenas entrarem num grupo muito restrito de alunas, as bad girls do colégio.
Ela tinha cabelos louros, ondulados, olhos cor-de-mel, pele morena. Sua boca era carnuda, com o rosto redondo, encortinado pelos cabelos e pela franja. Seu nariz ela pontudo, diferente do nariz reto de Vittoria. Ela também era mais encorpada.
Era inteligente também, mas um pouco menos. Estudava menos que Vit também. Ela pensava de um jeito menos desenvolvido, mas era bem mais atraente. Ela era uma amiga e tanto, se você soubesse como chegar no coração dela. E Vit soube.
Vittoria passou reto pelos garotos que queriam uma ficante de qualquer jeito, e lhe lançavam cantadas muitas vezes ruins, para encontrar Carol no átrio do colégio.
- Oie! — disse Vit.
- Oi! Parabéns, amiga! — respondeu, com sua voz animada e doce, como sempre. — Tudo de bom para você!
- Obrigada.
- Estava te esperando.
- Deu para notar — às vezes Vittoria achava que Carol não necessitava de atenção, e sim da sua atenção. Ela não procurava as bad girls para nada, nem quando entrara na escola, dois anos e meio atrás, como 99,9% das garotas iniciantes faziam. Mas ela tentara se aproximar de garotas mais parecidas com ela, o que não deu muito certo, até que Vittoria resolveu fazer amizade com ela.
- Vamos entrar, Vit?
- Claro.
Elas passaram pelas portas que levavam ao pátio, onde a segunda grande massa de garotos e garotas conversava em seus círculos, que eram de
inteligentes, novatos e os nerds, em pequena quantidade e pessoas estudando para as provas mensais que se aproximavam com rapidez, esses em maior quantidade nessas épocas de avaliações. Contornaram o pátio e foram para as portas ao fim dele, onde estava a lanchonete da escola. Lá, uma pequena fração dos estudantes ficava, pois achavam o ambiente confortável ou para desjejuar mesmo.
- Você passou a noite bem? — perguntou Carol.
- Mais ou menos.
- O que aconteceu?
- Tive uns calafrios estranhos... Uns arrepios. Era meia-noite quando eles começaram. Aí eu virei para o lado, me enrolei nas cobertas e adormeci.
- Hummm... Teve um pressentimento?
- Foi só uma espécie de pesadelo.
Nesse momento, o sinal tocou, anunciando a primeira de cansativas seis aulas. Pelo menos seriam duas de física seguidas logo no começo. Vittoria e Carol seguiram para a sala de aula do terceiro ano C(as séries do colegial eram divididas em várias turmas de manhã e de tarde, para não sobrecarregar um único professor).
Elas entraram na sala de vinte e dois alunos, e sentaram-se em seus respectivos lugares, longe uma da outra por duas fileiras. O professor Marcos entrou na sala com seu habitual "bom dia" em voz baixa, e sentando-se na mesa do professor. Espalhou seus livros e cadernos sobre ela, selecionou um, pegou um giz e começou a escrever freneticamente na lousa, sem fazer perguntas ou nada mais. Vittoria detestava o professor, mas gostava o suficiente da matéria para aturá-la por alguns meses.
Ela copiou o texto sobre energia nuclear, o quinto tema do ano, que ocupou, com rapidez, três páginas de caderno, enquanto a aula ainda nem estava pela metade.
Seu colega que sentava ao lado passou-lhe furtivamente um pedaço de papel dobrado duas ou três vezes, longe do olhar severo e controlador do professor. Ela desdobrou e leu as seis breves e urgentes palavras: "Me encontre no intervalo. Urgente. Carol".
Vit lançou um olhar interrogativo para ela, que fez o sinal de "depois". Ela gesticulou com os ombros, e recebeu uma mão espalmada em troca.
- Algum problema, senhoritas? — assustou-lhe o professor.
- Não. — responderam em uníssono.
- Ótimo. — ele voltou à lousa.
Vittoria balançou a cabeça e voltou ao texto.
Depois das duas aulas de física e uma de geografia, veio o tão esperado intervalo de vinte minutos. Vittoria saiu em disparada na direção de Carol, que mantinha seu suspense.
- Vai me contar agora o que aconteceu?
- Sabe aquele gato, o Júnior?
- Hum? — Vit decepcionou-se de se tratar de algo, na opinião dela, tão banal.
- Ele me convidou para ir ao cinema na sexta-feira.
- Por isso você me mandou te encontrar urgente aqui?
- Pensei que você poderia me ajudar a escolher a roupa. Não quero parecer desleixada.
- Você percebe que o que ele quer na realidade é um encontro fácil?
- É mais que isso, Vittoria. Ele disse que gosta de mim ontem, pelo MSN, e hoje me convida para ir ao cinema. Ele está afim de mim!
Ai, Carol, como você é ingênua!, queria dizer Vittoria, mas não disse para não magoar a amiga.
- Bem, você vai me ajudar?
- Ok! Eu te ajudo! — livrou-se.
Elas seguiram para a lanchonete, enquanto Caroline contava suas expectativas que, como Vit sabia, seriam frustradas por ele.
Vittoria relaxou quando o sinal tocou, anunciando o fim das aulas daquele dia. Ela saiu na porta do colégio após se despedir de Carol e foi para casa.
- Mãe? — chamou, ansiosa, assim que chegou em casa.
Sem resposta. Talvez sua mãe estive ocupada com algo e resolvesse voltar mais tarde.
Esquentou as sobras da noite anterior — um macarrão que era especialidade de sua mãe, e foi para a mesa da sala de jantar, com o prato e um copo de refrigerante. Depois de comer, tomou um banho e foi para o computador, mexer no MSN antes de trocar de roupa para ir ao shopping com Carol.
Logo que entrou, uma prima veio dizer "oi", como aquelas pessoas que não tem o que fazer falam logo que entra alguém qualquer. Vittoria disse "oi" também, e continuou olhando sua lista de amigos on-line. Não tinha muitas pessoas; certo que a maioria estava definida como invisível, para não ser atormentado pelos bandos de conversa oi-você-está-tudo bem-está fazendo o que (passa meia hora) tchau. Vittoria viu um e-mail de seu primo, André, que dizia "Parabéns!". Típico dele.
Ela entrou também no seu orkut, olhou os novos scraps, respondeu-os e entrou no Facebook. Ninguém interessante on-line. Desligou tudo e finalmente foi se arrumar.
Escolheu uma calça jeans justa, uma blusa branca discreta em baixo de um cardigã preto, a roupa da moda, uma Melissa baixa vermelha, assim como a bolsa pequena que ela levava. Olhou-se no espelho: estava apresentável. Saiu de casa e foi para o shopping.
No caminho, tentou ligar no celular de sua mãe, mas não adiantava, estava "fora da área de cobertura". Deixou isso de lado e seguiu em frente, entrando no luxuoso shopping classe média alta. Foi até a praça de alimentação, em frente ao Mc Donald's, onde Carol a esperava.
- Oi — cumprimentou.
- Oi. Quer comer agora ou vamos ao cinema primeiro?
- Tanto faz.
- O aniversário é seu, Vit.
- Vamos comer antes então. Aí não comeremos tanta pipoca.
- Mas onde você quer comer?
- Aqui mesmo.
- Mas engorda.
- Somos mais magras que um palito, Carol.
- Tudo bem, mas só dessa vez. — cedeu, mas ainda hesitante. Vittoria a conduziu para o Mc, que estava, naturalmente, cheio de gente. — Quer ir ao Burger King? Ele é mais vazio e mais barato.
Vittoria revirou os olhos. Sua amiga era muito indecisa.
Elas foram ao fast food mais popular dos Estados Unidos, porém menos popular que o Mc Donald's no Brasil. Realmente, era muito mais barato e mais vazio, sem falar que o lanche era mais saboroso e maior. Comeram um sanduíche enorme, com batatas fritas e milk shake. Depois, foram ao cinema e assistiram um filme novo que estava em cartaz: Piratas do Caribe — Navegando em águas misteriosas. Na realidade, Carol ficou mais empolgada com Johnny Deep do que com o filme, e Vittoria não gostou. Preferia uma comédia romântica básica, mas a amiga a fez ver esse.
Depois do cinema elas deram um passeio pelas lojas — talvez a parte mais divertida do passeio. Vittoria comprou sapatos vermelhos, e ficou namorando um vestido preto e branco, com listras horizontais tomara-que-caia, mas não comprou, pois custava quatrocentos reais. Compraria quando ela estivesse com sua mãe. Carol comprou três blusas, das quais Vit achou duas bonitas e a outra aceitável.
Elas saíram felizes do shopping — mas Vit não sabia que essa alegria estava prestes a terminar. E muito antes do que ela pensava.
Vittoria Dielo estava realmente preocupada e zangada. No dia do seu aniversário sua mãe passara a maior parte do dia fora, com celular fora de área. Ela cogitou ligar para a polícia — mas desistiu, era desnecessário se ela só se atrasara um dia. Um dia realmente importante.
Resolveu esperar mais algum tempo. Zapeou pelos programas horríveis que passavam na TV no chamado "horário nobre". Ela achava que só havia dois ou três programas que valessem a pena por semana, se contasse todos os canais de televisão aberta. Ouviu um pouco de música: pop, o que ela gostava. Mas não ficou assim por muito tempo, estava ansiosa demais. Começou a roer as unhas, seu tique quando estava ansiosa e nervosa. Voltou para a televisão. Por volta das oito horas da noite, sentiu fome.
Ela comeu macarrão instantâneo, e assistiu alguns programas de televisão enquanto esperava. Tomou banho, secou o cabelo, e até lavou a louça que sujara. Eram quase nove horas quando ela resolveu dormir, e, assim que visse sua mãe, teria uma séria conversa com ela por ter perdido seu aniversário. E era bom que ela tivesse um bom motivo.
Assim que tocou a cabeça no travesseiro, seu celular tocou dois bipes, anunciando uma mensagem de texto. Ela olhou:
Abra seu e-mail.
O número estava como desconhecido. Ela pensou que poderia ser uma mensagem de sua mãe, então entrou no computador e abriu seu e-mail. Lá, ela percebeu que havia uma nova mensagem desde as quatro da tarde.
Querida Vittoria Dielo,
Meu nome é Daniel, moro na Parada Inglesa, e estou aqui para te ajudar, principalmente nessa hora difícil da sua vida. Sou um grande amigo de sua mãe, Cleide Dielo, e ela me pediu para te ajudar com algo realmente importante que está acontecendo agora, além de algo que acontecerá um pouco mais tarde.
Não sei como dizer isso, mas eu preciso falar e você precisa ouvir. Sua mãe foi assassinada de maneira brutal numa ponte, e o assassino sanguinário jogou o corpo no Rio Tietê. Ela me pediu que ficasse de olho nele enquanto ela conversava. A intenção dele era causar-lhe mal, por isso ela resolveu cortar qualquer meio de comunicação com ele, mas ele a matou antes que eu pudesse chamar a polícia. O assassino fugiu, por isso não conseguiram prendê-lo. Mas, por mais que demore para você se recuperar totalmente do choque, precisamos fugir o quanto antes, já que ele está atrás de você. Eu deixarei meu endereço, e-mail e número de telefone abaixo. Copie-os em seu celular e apague esse e-mail o quanto antes, pois o assassino poderá facilmente hackear seu sistema, já que ele é perito nisso. Aviso-te novamente: amanhã, assim que você acordar, não vá a escola, venha a minha casa para que eu possa te ajudar a desvendar algo muito importante que sua mãe me incumbiu de fazer. É de suma importância que venha aqui o quanto antes, para que o pior não ocorra. Quanto a certidão de óbito, velório e enterro eu mesmo providenciei, e em breve estará tudo pronto para que você possa se despedir de sua mãe.
De uma coisa sempre tenha certeza: ela te amava mais que tudo na vida dela, e ela me disse que devo lhe ajudar a desvendar o Segredo da Meia-Noite, algo importante demais. Importante: não confie em André Oliveira, ele matou sua mãe e pretende te matar.
Não queria dizer tudo assim e nessas circunstâncias.
Até amanhã,
Daniel Brown.
A visão de Vit turvou-se. Ela pegou o telefone de casa e digitou um nove zero.
- Boa noite, Polícia.
- Boa noite. Eu gostaria de saber se Cleide Dielo faleceu. – sua voz estava fraca e muito perturbada.
- Soletre “Dielo”, por favor.
- D-I-E-L-O.
- Aguarde um instante.
Foi o instante mais torturante da sua vida. Ela sentiu seu coração acelerando.
- Segundo o nosso sistema, tem uma denúncia que ela foi assassinada por volta da meia-noite de hoje.
Vittoria largou o telefone no chão. Sua visão turvou-se, ela sentiu-se pesada demais para as pernas bambas agora. Desmaiou no sofá mesmo, e ficou ali mesmo até acordar.
Notas finais
Próximo capítulo...
"O Segredo"
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