O Segredo da Meia-noite
3 O Segredo
Notas iniciais
São Paulo, 08:16
24 de maio
Já estava claro quando Vittoria Dielo acordara. Ela havia desmaiado no sofá e ficado ali mesmo, até agora.
Quando ela acordou, tinha certeza de uma coisa: deveria ir, urgentemente, para o endereço que Daniel Brown especificara-lhe. Preparou um rápido café de manhã, arrumou uma mala e deixou tudo pronto para sair. Ela não sabia de onde viera essa certeza, mas ela sabia que era importante demais para não aceitá-la.
Saiu de casa apressada, quando o celular começou a vibrar insistentemente. Olhou no visor: era Carol.
- Alô? — atendeu.
- Vittoria? Onde você está?
- Estou saindo de casa.
- Que estranho! Você perder aula logo na semana antes da prova.
- Eu vou ficar um tempo fora... Tenho uns assuntos para resolver. E você, não deveria estar em alguma aula?
- Deveria, mas fiquei preocupada com você. E agora, vai me explicar o que está acontecendo?
- Depois.
Vit encerrou a ligação e continuou seu caminho. Foi de metrô até a Parada Inglesa, já que o lugar que o endereço dizia era próximo dali. Passou por duas ruas, perguntando em vários lugares onde ficava. Quando finalmente chegou a um prédio, identificou-se e entrou.
Ela subiu de elevador até o quinto andar, tocou a campainha do andar especificado e não demorou muito para ser atendida. Um homem muito bonito atendeu-a. Não devia ter mais que uns 25 anos.
- Você deve ser Vittoria Dielo, não? – sua voz era forte, decidida. Tentadora demais para ser humana. Mas era.
- S... sim. – disse, sem fôlego.
- Meus pêsames. – ele a abraçou. O seu perfume era masculino, suave. Ela poderia ficar ali mesmo por muito tempo, só se perguntando como era mesmo seu nome.
Ele a soltou. Foi rápido demais.
- Entre. – ele indicou a porta.
Vit passou por ele e viu onde se encontrava: era um corredor pequeno, com porta para a cozinha e que terminava nas salas. Um lugar que seria maravilhoso para recém casados. Ela olhou tudo: a sacada com vista para o sul, com cortinas brancas e douradas, como a moldura de um quadro. O sofá bege, a televisão LCD presa num painel de madeira cor tabaco, carpete de madeira marfim, gesso decorando o teto. A mesa de jantar era triangular, com tampo de vidro. Vit se encantou com a beleza do lugar.
O mesmo podia-se dizer sobre ele. Tinha cabelos louros que caíam pela testa, lisos, olhos castanho-claros, nariz pontudo, boca carnuda, pele levemente bronzeada, nada em excesso. Seu corpo era musculoso na medida certa. Ele deveria ter cerca de 1,80 m, e uns 75 kg. Tudo perfeito nele. Mas... Como sua mãe conheceu um garoto de uns vinte anos?
- Quantos anos você tem? – perguntou Vit.
- Dezenove.
- E como você, com dezenove anos, conheceu minha mãe, de cinqüenta e dois? – perguntou, com desconfiança.
- Na realidade ela era amiga do meu pai. Quando meu pai estava em seus últimos meses de vida, ele me apresentou a ela. E quando meu pai morreu, começamos a conversar sobre o que ela e meu pai falavam. Você.
- Eu?
- Exatamente. Você e sobre o Segredo.
- Que segredo?
- O Segredo. Da meia-noite.
- Você me disse algo sobre isso no e-mail que me enviou.
- Sim. Sua mãe foi assassinada por causa disso. E querem te matar pelo mesmo motivo.
- E qual é esse segredo?
- É uma questão muito complexa. Precisamos nos conhecer antes, e eu vou começar a te mostrar cada fato, cada questão.
- Mas eu vou te ajudar sem saber em que?
- Você não está me ajudando. E sim se ajudando. Se salvando da morte.
- Então me fala qual é esse segredo.
- Amanhã. Prometo.
- E minha mãe? Como vou saber se ela está realmente no fundo do rio ou se você está mentindo?
- O que eu ganharia mentindo para você?
- Sua história está muito mal contada. Se me falasse mais sobre esse segredo, eu talvez poderia acreditar.
- Não é o segredo, e sim o Segredo. É importante demais para se falar nele em nome comum.
- O Segredo, que seja.
- Sente-se. Posso te falar um pouco. Amanhã nós faremos o que temos que fazer.
Vit sentou-se no sofá.
- Agora vai me falar? Se não vou embora. – ela disse, impiedosamente.
- Tudo bem! – ele se sentou também, e começou: — Em mil novecentos e noventa e dois, em setembro, para ser mais exato, sua mãe engravidou de você. A propósito, você conhece seu pai, Vittoria?
- Não mude de assunto.
- É importante para mim poder continuar a narrar.
- Não.
- Não você não conhece ou não você não vai falar?
- Eu não conheço.
- Então. Seu pai era... Digamos... Ele ficou com sua mãe algumas semanas e depois se separou dela. Foi daí que você nasceu. E o Segredo tem a ver com isso.
- Em quê?
- Você é o Segredo da meia-noite. Você nasceu da união de duas pessoas que nasceram à meia-noite e ainda você também nasceu. Você também percebeu que sua mãe foi assassinada à meia-noite? Seu pai ainda está vivo, mas ele mora em Brasília.
- E esse tal Segredo...?
Ele foi até o quarto, e voltou trazendo um livrinho. Abriu e leu uma passagem:
- “Aquele nascido à meia-noite, fruto de duas pessoas que nasceram no mesmo horário, carregará o Segredo”. Livro dos Mortos. Essa folha foi arrancada há muito, antes de lerem-na. E ela foi escrita nesse livrinho, que passou muitos séculos nas mãos da minha família. E sua mãe já tinha contatos com meu pai. E quando você nasceu, à meia-noite de um dia vinte e três de maio de mil novecentos e noventa e três, sua mãe veio procurá-lo.
Ele fez uma pausa dramática, e então continuou:
- “Seus pais morrerão à meia-noite, assim como ele. Quando souber que é o Segredo, terá uma semana para dominá-lo. Caso contrário, morrerá, à meia-noite”. Entendeu agora porquê eu não queria te contar hoje?
- Ai meu Deus! – apavorou-se.
- Temos até a meia-noite do dia trinta e um de maio para que você saiba dominar seus poderes. E ainda salvar sua vida de um assassino em série, que sabe muito sobre sua vida.
Vit respirou fundo várias vezes, até controlar-se. Olhou a vista da sacada e pensou em sua mãe. Nem chorara, desde que recebera a notícia. Ela era má? Não gostava o suficiente de sua mãe? Ou isso era só por ter recebido a notícia anexada de uma mensagem de que estão prestes a matá-la também? E agora tinha uma maldita profecia repleta de “meia-noite”. Eram tantas que estavam cansando.
- Você... Você me falou a parte da meia-noite, mas não me contou o Segredo ainda. – gaguejou.
- Você pode fazer coisas inimagináveis.
- E tudo isso porque meus pais e eu nascemos à meia-noite?
- Sim. Parece surreal demais para ser verdade, não?
- Não parece. É surreal demais para ser realidade. E qual é o Segredo? – insistiu.
- Você pode controlar o tempo.
Vittoria Dielo ficou um bom tempo calada. Ela podia controlar o tempo?
- Mas de que tempo você está falando? – conseguiu dizer, finalmente. – Tempo de clima ou tempo de relógio?
- Tempo de clima. Você pode fazer chover, nevar, ficar nublado, ensolarado ou qualquer coisa relacionada à meteorologia. Você será um pesadelo aos meteorologistas, quando controlar o clima.
Vittoria fez mais uma pausa.
- E quem disse que eu vou controlar o tempo?
- Você prefere morrer? – perguntou, irônico.
- Claro que não. – silenciou-se por um longo instante. – E quando vou começar a aprender a controlar tudo?
- Eu não sei. Amanhã iríamos encontrar alguém que pudesse ajudá-la. E só te falaria quando eu tivesse certeza que alguém poderia fazê-lo. Mas você me forçou a dizer hoje... Talvez eu nunca ache. Se não quisesse saber, você teria tempo.
- E porque você continuou? Bastava falar essa última parte, e não me contar o Segredo realmente.
- Se você não for morta pela profecia, seria morta por André Oliveira. Você sairia daqui, não? Corrija-me se eu estiver errado. – ele esperou, mas ela nada disse.
- O que faremos, então?
- Meu pai procurou várias pessoas desde que sua mãe foi procurá-lo. Ele tinha uma lista feita nos últimos quinze anos de sua vida. Podemos verificar cada um; não vai demorar muito, afinal, quantas pessoas podem ajudá-la nisso?
Vit ficou em silêncio. Era uma pergunta retórica, claro. Ou não.
- Hein?
- Não muitas.
- Exatamente, três. E duas vivem no exterior.
- E esse último vive em qual cidade?
- Garota, você não sabe a sorte que tem. Ou não. Não sei se ele morreu; meu pai teve um contato com ele há dezessete anos. E esse foi o último. Se ele estiver vivo e oitenta e nove anos, ele vive na Zona Sul.
- Bem, fazer o que. É a minha última chance, mesmo.
- Na realidade, antepenúltima.
- Você é sempre tão certinho assim?
- Nem sempre. Só quando eu preciso ser, se não a situação fica monótona ou dramática demais.
Ela deu uma risadinha e um tapinha bem fraco nele.
São Paulo, 14:25
24 de maio – 1º dia
Vittoria esperou na sala, enquanto ele falava ao telefone com o tal homem. Ela não poderia acreditar que ele estava vivo, mesmo depois de tanto tempo. E ainda com oitenta e nove anos?
Daniel voltou à sala com boas notícias:
- Ele disse que pode atendê-la amanhã, às oito.
- Amanhã eu vou para a escola.
- Não, não vai. Ele disse que já seria difícil ensiná-la com sete dias. Com seis, então, nem se fala. O treinamento poderia levar anos, dependendo da pessoa. A nossa sorte é que você não descobriu antes.
- Realmente.
- Você tem muita sorte mesmo, Vittoria Dielo.
- Ainda bem – comentou.
Depois disso, eles resolveram conversar mais sobre cada um, para se conhecerem melhor. Vittoria contou-lhe sua monótona vida, enquanto ele lhe falou de coisas mais interessantes, como viagens a Europa, de fim de ano, enquanto ela ia a Praia Grande, algumas festas de arromba, enquanto Vit era reservada.
- Seu pai morreu há três anos, certo?
- Sim.
- Então, se você tem dezenove agora, você tinha dezesseis na época.
- Sim.
- Você ficou com quem, nesse período?
- Com a minha mãe. Mas ela se mudou para o Rio de Janeiro, e eu fiquei aqui.
Vit concordou.
- Você trabalha em algo?
- Estudo engenharia genética. À noite. Entro às sete.
Ela sentiu fome depois de tanto conversar. Eles foram para a cozinha, e prepararam um macarrão rapidinho, pois ele não havia feito compras – há três meses.
- Amanhã então vamos fazer compras.
- Nada disso. – respondeu ele. – Amanhã você vai aprender a lidar com as habilidades que você tem.
- O dia todo?
- Você pretende morrer, garota?
- É claro que não.
- Não podemos correr o risco, então.
Ela concordou mais uma vez. Ele estava sempre certo... Ela aproximou-se dele, para sentir melhor seu perfume delicioso. Ele também se aproximou dela... Quando Vit percebeu, já estava beijando-o.
- Não posso fazer isso. – virou o rosto.
- Qual o problema? Eu beijo mal?
- Não é isso. Eu não posso beijá-lo.
- Você já tem namorado?
- Não.
- Então qual é o problema?
- Eu não posso. Só isso.
Ele concordou com ela, pela primeira vez. Ele que sempre estava certo.
Mais tarde, Vit tomou um banho e deitou-se para dormir, num quarto de hóspedes, bem confortável, mesmo que só tivesse uma cama de solteiro e um guarda-roupas. Daniel fora para a faculdade. Ela ficou pensando em sua mãe... Chorou, chorou até dormir. Se perguntasse a ela quando foi que adormeceu, responderia: quando eu estava dormindo...
São Paulo, 07:00
25 de maio – 2º dia
Vit e sua mãe estavam descendo uma ladeira, abraçadas. Ela já sabia que ela tinha morrido, e ela havia ressuscitado para viver alguns dias com ela. Ela passou por várias ruas, até que chegou na porta de um condomínio, onde estavam reunidas muitas pessoas. As pessoas sabiam que ela havia falecido, mas olhavam-na com a maior naturalidade do mundo. Então sua mãe disse:
- Vinte e oito de maio, minha filha. Você vai saber tudo.
- Tudo o que, mamãe?
- Vittoria? – chamou Daniel Brown. – Acorde. Você tem que se arrumar para irmos aquele homem.
Ela se levantou preguiçosamente. Tomou um banho, trocou de roupa. Estava perfeita para ir.
- Quais ônibus devo pegar?
- Ônibus?
- Sim.
- Você não vai de ônibus. Vai de carro comigo.
- Você já tem carro?
- Sim.
- Nossa.
Eles desceram e foram até o Audi preto dele.
- Uau! – espantou-se.
Ele sorriu e abriu a porta para ela.
- Onde é? – perguntou, quando eles já estavam saindo do condomínio.
- Consolação.
Eles passaram um longo tempo no trânsito carregado, mas que fluía bem. Em meia hora eles chegaram na Consolação, mais precisamente na Rua Bela Cintra, próximo à Paulista. Num muro estava pichada a seguinte frase: “O casamento é igual à Avenida Paulista: começa no Paraíso e termina na Consolação”. Vit riu e mostrou ao Daniel, que fez o mesmo.
- Chegamos – disse ele.
Ela viu em frente a onde estavam estacionados: um sobrado bonito, de três andares, verde. Na porta tinha uma placa que dizia:
Mago Eme
• visões
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- Até as seis, Vittoria.
- Me chame de Vit.
- Vit, ok.
Ela despediu-se dele, saiu do carro e entrou lá.
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