O Segredo da Meia-noite
6 Decisão
Notas iniciais
São Paulo, 23:11
27 de maio — 4º dia (?)
Vit olhou-o com atenção, e até desprezo. Ele a enganara. Safado, cretino!
- Você primeiro — ordenou ela, enojada.
- Eu acho que temos o mesmo assunto. Por isso, vou falar logo. — Daniel fez uma pausa dramática. Suspirou, e então começou: — A única mentira que eu te contei foi dizer que meu pai está morto. O resto é verdade absoluta, você tem que confiar em mim.
- Não tente parecer o herói da história agora. E, além do mais, como você espera que eu confie em você depois do que você me fez?
- Não estou tentando. E também não espero. Só vou dizer a verdade. Só a verdade. Ela esperou; então ele começou: — Há vinte e dois anos sua mãe e meu pai se conheceram. Eles trabalhavam na mesma empresa, e então viraram grandes amigos. Quatro anos depois, você nasceu, a meia-noite, filho de duas pessoas que nasceram no mesmo horário. Você era o Segredo, incontestavelmente. E sua mãe pediu ajuda para ele. Muitos anos depois, eles acharam o médium na Zona Sul, e pediram ajuda para ele.
"Ele disse que deveriam esperar a hora certa para te falar, e não deveriam forçá-la a nada. Sua mãe, que queria que você ajudasse o mundo, abraçou essa ideia, mas meu pai queria te usar para controlar o mundo, de um jeito bem escroto: diria que era uma espécie de Senhor do Tempo, e diria o desastre que aconteceria em cada lugar e em cada horário, que seria provocado por você, claro. Sua mãe rejeitava isso de qualquer meio, mas meu pai daria a você a chance de escolher, mas ele contaria a hitória do jeito dele. Há uns dois anos, eu e André entramos no grupo, e os problemas aumentaram de tal forma que parecia que te contariam a qualquer instante.
"Sua mãe e André tinham a mesma escolha: você decidiria. Mas eu, que na época não sabia direito o que estava acontecendo, apoiei meu pai. Garanto a você que me arrependo profundamente disso até hoje. Os grupos estavam formados, e a tensão aumentava, até que sua mãe cortou qualquer tipo de comunicação entre meu pai e ela.
"Há um mês, isso mudou. Meu pai conseguiu achá-la, e tentou convencê-la de fazer o que ele queria, dizendo que seria o melhor para todos: nada mais de guerras ou conflitos, fome ou secas. Juntos, eles impediriam tudo isso. Mas sua mãe, que não se enganava facilmente, recusou. Então ele a matou. E ontem eu disse a ele que não seguiria mais esse plano, porque eu a amava... A amo". Ele fez uma pausa para reação, e então continuou: "Ele queria que eu a levasse para o laboratório dele, onde ele estava construindo uma máquina para controlar o tempo. Ele iria te convencer a dominar o mundo para ele. E eu disse não. Quase me esqueci: você não tem prazo para dominar seus poderes. Isso era para te apressar, pois ele a queria o mais breve possível ali".
Vit o encarou, com raiva.
- Sua vez. — disse ele.
- Não é um jogo — disse, cuspindo as palavras.
- Eu sei. Mas você também me disse que precisava conversar comigo.
Vittoria olhou para ele. Por mais que o amasse, sabia que precisava fazer o que era certo. E ela sabia muito bem o que devia ser feito.
- Você mentiu. Me enganou. Me fez pensar que eu estava salva aqui, quando na verdade na minha casa eu tinha mais segurança. Você podia ter me matado, ou me entregado a seu pai, e eu achando que era para um amigo seu que você precisava fazer um favor. Eu te amava, Daniel.
- Você não precisa sair daqui. Eu não estou mais do lado de ninguém, só do nosso... Eu te amo, Vittoria.
- Não existe mais nós. Existia, até você começar a me enganar deslavadamente.
- Existia?
- Nem sei se devo lhe dizer isso... Mas uma parte de mim gosta de você, enquanto outra quer você longe.
- Isso é normal. Todo mundo tem isso, de vez enquando.
- No meu caso não é normal, e não é só de vez enquando. Eu tenho duas personalidades, Daniel: uma sensata e outra rebelde. Eu tenho que ir a um psiquiatra, mas não vou... Talvez seja por vergonha, ou por não aceitar que eu tenho transtorno da personalidade múltipla, ou que eu seja bipolar. Quando toda essa confusão acabar, eu vou tentar ir, para deixar a minha personalidade rebelde no esquecimento.
- E qual delas gosta de mim? — perguntou, esperançoso.
- A rebelde. Ele se desapontou visivelmente, mas ela continuou.
- Veja essa mecha. — Ela apontou para a faixa roxo berrante no cabelo. — Quem a fez foi minha personalidade rebelde, logo no começo do meu transtorno. — Ele ficou em silêncio, absorvendo a informação. — Eu preciso voltar para a minha casa, para relaxar, cuidar da Missa de Sétimo Dia da minha mãe, esperar a polícia achar o corpo dela no Rio Tietê, se ela está lá mesmo. Preciso chorar um pouco por ela, ir pra escola, fazer as provas, e ir ao psiquiatra para combater minha bipolaridade.
- Vai realmente voltar para casa?
- Amanhã. Boa noite...
Ela estava saindo da sala, quando se lembrou de fazer uma pergunta que estava incomodando-a desde o início da conversa:
— O que você e André tem, para se odiarem tanto?
- A coisa mais normal do mundo. Somos irmãos.
Vit trancou a porta pela primeira vez desde sua chegada ali. Quando dormiu, sonhou com sua mãe mais uma vez, e mais uma vez foi um sonho lúcido.
São Paulo, 08:43
28 de maio
Vit estava numa sala de estar confortável, sentada num sofá vermelho intenso. Ela não reconhecia nada do ambiente, só a figura sentada à sua frente...
- Mamãe...
- Vittoria... Estava com saudades de você.
- Eu também, mamãe... — Ela a abraçou, e ficou por um longo tempo assim, até que sua mãe a soltou.
- Precisamos tratar de um assunto sério, Vit.
- Aquele?
- Sim.
- Eu fiz a escolha certa?
- Isso só o tempo dirá. O que eu tenho para dizer é outra coisa.
- O quê? — pressionou.
- Hoje, duas outras coisas importantes acontecerão. E você vai gostar das duas, meu amor.
Ela sorriu. Controlou o impulso de perguntar o que era, mas ela sabia que o tempo que deveria dizer para ela o que eram.
- Na realidade, poderão ser três, mas isso depende das escolhas das pessoas. Por isso que eu sempre digo a você "só o tempo dirá", porque cada escolha altera tudo de uma forma única. Mas espere somente duas, pois quanto maior a expectativa, maior a decepção. Essa é outra coisa que você tem que aprender.
- Mamãe...?
- Hum?
- Por que todos os sonhos que eu tenho com você são lúcidos?
- Porque os sonhos são desejos profundos de nossa alma. Já os sonhos lúcidos, com parentes e amigos que já se foram, são a única comunicação entre os vivos e os mortos. Bem, querida, já tenho que ir. Todos nós temos um horário de visita, a alguém que amamos, e não podemos ficar muito tempo. Eu vou tentar te visitar todas as noite, meu amor. Beijos...
- Mamãe! Eu te amo!
- Eu também te amo, querida! Fique atenta!
Houve um clarão, e a cena se dissolveu, dando lugar a imagem de uma porta trancada.
Vit levantou-se, trocou de roupa e foi para o banheiro, fazer suas necessidades matinais. Quando foi para sala, viu Daniel sentado junto a mesa, esperando-a para tomar café da manhã.
- Eu não envenenei a comida — deu ujm sorriso amarelo.
Ela sentou-se e começou a comer.
- Quando você quiser ir me fale, que eu vou te levar.
- Não precisa. Vou de metrô, é pertinho.
- Deixe-me te levar. Eu estou te pedindo, e se precisar eu imploro.
- Não vai precisar...
- Vittoria... Por favor...
- Ah! Tudo bem! — tentou dar um fim a essa encheção de saco.
Depois de comer, eles foram para o Audi dele, seguindo para a casa dela. Quando eles chegaram, Daniel parou no meio-fio e, antes de destrancar a porta, disse:
- Tem meu telefone. Se precisar, ligue.
Ela revirou os olhos e saiu assim que ele destrancou-a. Subiu de elevador para sua casa, e, logo que chegou, entrou no MSN.
Carol diz: Oi
Vit sorriu ao ver que a amiga não estava tão brava com ela. Abriu a janela da conversa com sua best.
Vit diz: Oie! Tudo bem?
Carol diz: Sim, e com você?
Vit diz: Também. Você ainda está brava pelo lance de ontem?
Carol diz: Que nada! Você estava com a cabeça quente, e eu estava me entremetendo demais na sua vida.
Vit diz: Foi só um momento Vittoria.
Carol diz: (Risos)
Vit continuou a mexer em seus e-mails. Viu um daquele André. Que saco!, pensou. Não vou confiar nele, nem no Daniel. Chega disso! Mesmo assim, resolveu ler o e-mail dele.
Vittoria,
Eu vou ter que te fazer uma visita urgente. Hoje (sábado), às 13 horas. Me espere, pois é de vital importância. André.
Ela fechou o e-mail.
Carol diz: Você está fazendo o que de bom?
Vit diz: Nada.
Ela olhou o relógio do computador, e viu que eram 12:57. Droga, nem dá mais tempo de recusar, bufou.
Vit diz: Vou ter que desligar, Carol.
Carol diz: Ok. Até mais tarde.
Vit diz: Até.
Ela desligou o computador, deu uma arrumada rápida na casa e pensou consigo mesma: uma das coisas boas que sua mãe dissera que iam acontecer foi assim: ela e Carol continuavam amigas. A segunda teria algo a ver com a visita de André? Ela não teve tempo de pensar, pois o interfone tocou.
- Alô? — falou, assim que o atendeu.
- Senhora Dielo?
- Sim?
- André está aqui, e quer subir.
- Deixe-o — disse, contrariada.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
Ela esperou ele chegar, meio ansiosa, meio receosa. Ouviu então a campainha tocar. Quando abriu, seu único pensamento foi: Será que algo na minha vida continua sendo real?
André era mais bonito que o irmão. Loiro, lindos olhos verdes, caucasiano. Tinha o rosto afilado, nariz pontudo e um sorriso maravilhoso. Mas não fora isso que chamara sua atenção. Sua mãe dissera que ele era seu primo.
- Primo André?
- Sim.
- Você é meu primo ou não?
- Não. Era para não levantar suspeitas. Posso entrar?
Ela cedeu passagem, trancou a porta e eles foram para o sofá.
- Você já sabe de tudo, então?
- Sobre o Segredo.
- Isso é o suficiente.
Ela ainda continuava sem absorver a informação de que André não era seu primo. Ela conhecia ele desde que nascera, e a última vez que tiveram contato fora no domingo passado, o dia anterior a morte de sua mãe.
- É estranho, não?
- Muito...
Vittoria tinha certeza de três coisas naquele momento. Primeira: André não estava mentindo e não estava envolvido em nenhum joguinho. Eles se conheciam muito antes de qualquer um saber sobre o Segredo, ou ter inteligência o suficiente para entender as coisas. Segunda: Essa era a outra coisa que sua mãe dissera que iria acontecer. Terceira: Se antes ela tinha apenas uma quedinha por ele, por ser muito bonito, agora ela sabia que Vit gostava dele, mais que como um amigo de infância.
- Também fiquei surpreso quando eu soube do Segredo. Também, eu te conheço desde que eu me entendo por gente.
Ela suspirou.
- Bem, como você está?
- Ótima, e você?
- Também estou ótimo. Sabia que eu imagino a sua cara quando você descobrisse toda a verdade desde que me contaram?
- E quando foi isso?
- Há uns dois anos. Agora que já passou seu espanto, eu tenho que te falar: meus pêsames pelo falecimento da sua mãe...
Os olhos de Vit se encheram de lágrimas.
- Ela era como se fosse uma mãe para mim... Era mais presente que a minha mãe biológica... — Ele a abraçou, e ela se perdeu em uma mistura bizarra de amor, desejo, saudades, confiança, carinho, tristeza e amizade.
Houve uma longa pausa. Então, depois que todo o momento do choro passou, ele disse:
- Se não se importa, eu poderia ficar aqui? Eu não tenho onde morar, já que sua mãe pagava meu aluguel... Isso é uma longa história. E como eu não tenho dinheiro para pagar, eu tive que sair...
- Claro, primo... Quer dizer, André.
- Não tem problema em me chamar assim — riu. — As vezes eu também a chamo de prima, mesmo sabendo que você não é. E eu só fiquei sabendo quando eu descobri a verdade sobre o Segredo.
Mais uma pausa.
- Quer comer algo? Beber? Pode se sentir em casa... Agora que vamos morar juntos...
- Depois. Espero que não se importe, Vit.
- Claro que não. Você é quase que um irmão para mim.
Ele riu novamente.
- Onde você esteve esse tempo todo?
- Na casa do seu irmão, Daniel Br... Qual é o nome real de vocês? Brown ou Oliveira?
- Oliveira. E o que aconteceu, quando você esteve lá?
- É uma longa história...
Ela começou a contar.
- Nossa! — disse ele, ao terminar. — Quanta coisa!
- Verdade.
- Estou ficando com fome... — disse ele. — Quer fazer o almoço?
- Claro. Eles foram para a cozinha, preparar a comida.
Fizeram uma lasanha quatro queijos, que André adorou. Passaram o resto da tarde assim, conversando sobre a verdade, agora que ambos sabiam tudo, e entandendo o que acontecia, quando eles ainda eram inocentes. Depois, marcaram a Missa da mãe dela, numa igrejinha próxima. A data marcada era o domingo, às seis horas da tarde.
Quando terminaram toda a conversa, já era quase sete horas da noite. Esquentaram mais lasanha, e assistiram um filme que passava numa daquelas sessões de sábado, na televisão.
- Depois temos que ver tudo o que era da sua mãe, para passar pro seu nome. Agora você é maior, e pode receber tudo que ela tinha.
- Minha mãe fez um testamento. Só preciso marcar a leitura dele com o advogado dela, para passar os bens dela para o meu nome.
- Mais fácil.
Eles voltaram a ver o filme.
Por volta das nove horas, o telefone tocou. André atendeu-o.
- Alô? — ele fez uma pausa, escutando o que o interlocutor dizia. — Espere apenas um minuto, que vou chamá-la.
Ele passou o telefone para ela.
- Alô?
- A senhora é Vittoria Dielo?
- Sim.
- Aqui é da polícia. Ligamos para informar que achamos o corpo de Cleide Dielo, e estamos periciando-o. Ele poderá ser retirado hoje, às onze horas.
São Paulo, 02:43
29 de maio
Vittoria e André entraram na sala do velório de Cleide. Após a perícia no corpo, ele foi enviado ao IML, para tentar deixá-lo limpo e conservado para o velório. Depois que foi liberado, já estava tudo certo, pois sua mãe havia feito um plano funeral para ela mesma, há treze anos. Por isso, Vit receberia mais de vinte e dois mil reais do seguro, além da cobertura para o caixão, velório, enterro, e uma coroa de flores.
Assim que ela entrou, o cheiro de flores era forte. O caixão estava repleto delas, envolvendo o corpo de sua mãe, além de duas coroas grandes, dizendo: Saudades da filha e Saudades do filho. Uma para cada um.
Vittoria e André passaram a noite em claro, chorando e rezando para Cleide. Vit estava abraçada com ele, chorando. Ela não se importou com ele estragando sua blusa, com as lágrimas.
Às nove, um padre foi fazer uma oração por ela. Foi mais um momento de tristeza intensa, que só não foi maior que a hora que fecharam o caixão e enterraram-na.
Depois de tanto choro, eles voltaram para casa, no Prisma preto de André. Aquela família tinha mesmo gosto por carros caros e pretos.
Em casa, comeram um resto da lasanha, tomaram banho e conversaram sobre tudo até a hora da missa.
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