Notas iniciais
Agradeço a Ditto por me presentear com este universo de ficção. Dedico esta fic a Luísa, minha querida irmã e fã de Saint Seiya como eu.

"Mamãe? Mamãe? Onde você está?"


Berrava um garoto, cujo cabelo e olhos lembravam a coloração do Rio Ienissei. Perdera-se da mãe no porto siberiano da cidade de Norilsk, Rússia. Haviam ingressado clandestinamente em um cruzeiro, fugindo dos cobradores de sua cidade natal, Krasnojarsk.

A vontade de conhecer novos lugares sempre fascinou o menino de seis anos. Herdara a curiosidade de seu pai, que anos antes deixara sua família em dívidas para seguir o sonho de conhecer São Petersburgo. Em uma pequena parada para repor mantimentos, o menino desembarcou do navio às escondidas e não resistiu às vitrines das lojas de livros. Foi neste momento que a sirene do transatlântico soou, indicando que já estava de partida.

Não o alcançou a tempo. Chorava à beira-mar tentando avistar sua madre pelo menos de relance. Falhou. Nunca mais a veria novamente.


Sumira em um local estranho e frio. Poucas pessoas viviam naquela cidadezinha. Começou a andar pela região, procurando um guarda. Para sua sorte, um homem alto de uniforme anil seguia confiante uma rua próxima:

– Seu policial! Seu policial! — chamou-o, conseguindo sua atenção.

– Ora, ora, o que desejas garotinho? — perguntou com um alegre sorriso.

– Minha mamãe sumiu naquele navio! — apontando para o rio — Tem que pará-lo!

Uma alarma aguda soou em um poste acima deles, assuntando-o. O vigilante agachou-se e avisou:

– Esta ouvindo o sinal? — o menino acenou positivamente — Indica que uma avalanche vem aí. Acompanhe-me até a delegacia, enquanto tentamos contatar os navios que saíram desse porto, pode ser?

– Não! Ela tá escondida, não vai falar com vocês — o guarda fitou-o desconfiado.

– Você está brincando comigo... — o pequeno abaixou os olhos para o chão coberto de neve.

– Não, eu só quero minha mãe! — respondeu choramingando.

No entanto, quando levantou o rosto, não havia ninguém em sua frente. O policial o deixara como sua mãe. Sozinho e com medo do frio que aumentava incessantemente, avistou uma colina e uma pequena floresta de pinheiros. Decidiu seguir para o local, com o intuito de se refugiar contra o vento gélido.


Durante sua caminhada sobre a tundra rasteira, refletiu sobrea a distância daquele lugar de sua casa. Observou que a cidade, agora mais afastada, era bem menor que seu bairro. Notou que marmotas e cabras da neve não existiam em Krasnojarsk. Ele estava perdido.

De repente, uma onda de gelo descia ferozmente do cume da serra. Desesperado, começou a correr. Não adiantava, o alude avançava mais e mais. Quando suas finas pernas não respondiam e ameaçavam derrubá-lo, um ligeiro vulto saltou por entre as árvores, resgatando-o da neve. Mas o frio cortante era muito forte, e o menino não conseguiu permanecer-se consciente.


Acordou em um casebre de madeira mal iluminado pelas chamas de uma fogueira improvisada. O homem que o salvou fitava seu semblante pálido. Não aparentava ter mais de trinta anos. Era ruivo e robusto:

– Coma isto — indicou ele. O menino segurou o que parecia ser um prato de sopa bem quente.

Não conseguira agradecer. Fora ensinado desde o nascimento que não deveria confiar em estranhos, mas uma aura boa emanava do seu salvador, confortando sua preocupação:

– Bem, qual o seu nome? — perguntou serenamente o moço.

Engoliu o caldo nos lábios e prontamente falou:

– Meu nome é Albert. Albert Camus.