"Engraçado, você tem o mesmo nome que eu. Também me chamo Albert!"


Isso foi motivo de regozijo por ambos os lados. Camus descobriu que Albert tinha trinta e três anos e construiu a cabana ainda jovem com a ajuda do falecido pai. Ele também revelou que acolhera outra pessoa há alguns anos, chamada Natássia. A conversa evoluiu de forma agradável, até o garoto relatar o motivo de estar na nevasca. O homem escutou atentamente, sem criticá-lo. Pelo contrário, preferiu deixa-lo a sós para familiarizar-se com o estreito ambiente.

O cômodo lembrava um quarto em vários aspectos. Possuía uma cama — onde Camus terminara o jantar — um guarda roupa rafado e uma pequena lareira improvisada.O teto era baixo e muito bem coberto, impossibilitando qualquer visão de uma chaminé ao topo. Sentiu-se acolhido.


As lembranças de sua mãe retornaram unidas às lágrimas. Pensou que talvez nunca mais visse sua família novamente. Mas as ideias dissiparam-se com a brusca entrada de uma garota no recinto. Seus cabelos louros e cacheados eram presos por uma fita ocre como seu vestido sem renda. Os olhos eram profundos como os dele:

– Prazer Camus, sou Natássia! — anunciou ela, estendendo a mão destra. Segurava com certa dificuldade um pesado livro com a esquerda.

– Oi — retribuindo o cumprimento.

– Você tem quantos anos? — o semblante alegre remetia ao seu pai adotivo.

– Seis — respondeu acuado.

– Bem, tenho vinte.

O assunto pareceu morrer ali. Embora a jovem estivesse empenhada em fazer amizade, o menino permanecia imóvel e rijo perante suas falas:

– Você não é muito de conversar, não é? — desanimou Natássia, que se acomodara perto do leito de Camus.

– Minha mãe sempre me ensinou a não confiar em estranhos.

– Sério? — entusiasmou-se — A minha também.

– E onde ela está agora? — a moça abaixou a cabeça. Não havia sido uma pergunta boa.

– Ela morreu — levantara-se e fitava Camus — Num acidente de navio, aqui na Sibéria. Iceberg. Decidi seguir até aqui em um barco clandestino. Mas eu não tinha onde ficar e fui acolhida por Kok-i-Noor. Ah, é o sobrenome de Albert — acrescentou ela, percebendo a expressão confusa no rosto do menino.

A confiança inundou os sentimentos dele. Natássia atravessara o extenso Ienissei para reencontrar-se com a mãe. Ajeitou-se e iniciou:

– Minha mãe foi embora hoje em um cruzeiro. Será que eu posso alcançá-la? — a esperança transbordava em suas palavras.

– Não! — bradou uma voz em suas costas.

Era Albert, vestindo sobre a camisa uma ombreira surrada cor castanho:

– Para tal, você precisa se tornar forte e inteligente — prosseguiu — Evolua o mais rápido possível e siga seu sonho. Caso contrário, chegará lá com fome e machucado, como aconteceu com Natássia.

A garota confirmou o sermão do pai. Camus também assentiu. O homem estava certo. "Talvez, lendo muito e trabalhando duro, eu possa ser forte como ele", pensou. Ergueu os ombros, demonstrou um aspecto de bravura e respondeu de forma clara:

– Sim! — e três sorrisos brilharam sobre o luar que entrava pela janela.

– Ótimo! Se quiser ficar aqui por uns tempos, até ficar pronto, tem este quarto reservado para você — sugeriu bondoso.

Não havia mais porque temer. Os dois pareciam ter bom coração e o empenhava a buscar logo sua mãe. Kok-i-Noor saiu do quarto. No momento que Natássia tocou a maçaneta, a curiosidade de Camus se inquietou:

– Posso ler este livro com você? — porém, a reação da jovem foi adversa.

– Err... — rapidamente pegou um livro sobre o armário

– Tome! Leia este, é mais curto e não menos interessante.


E foi. Calada. O coração do garoto batia forte. Todo o presságio de má sorte fora embora, dando lugar ao riso largo idêntico ao de seu novo pai.

Notas finais
Leitor, o que está achando da história? Ideias novas estão sendo aceitas! Deixe seu review ^^