Notas iniciais
De antemão, peço perdão por ter demorado tanto a postar. Entretanto, não poderia estar mais feliz em escrever algo tão diferente, que espero do fundo do meu coração esteja agradando... ~Peço também desculpas por ter sido um capítulo tão prologadamente grande. ~Enjoy

O vampiro não sabia dizer quanto tempo havia se passado desde que ele saiu da Transilvânia na Romênia e foi para Budapeste na Hungria. Ás vezes ao abrir os olhos ao anoitecer ia para a janela na única torre que havia naquele castelo e observava toda sua movimentação. Era um silêncio confortável, o castelo foi construído sobre uma ilha, então o silêncio lhe parecia com o silêncio da morte, e mesmo que estivesse morto, aquela sensação não o assustava mais. Ele podia dizer que tinha crescido o suficiente, amadurecido tudo o que tinha para amadurecer, então, ele estava mais confiante consigo mesmo e como lidar com todas as situações.
Porém, ainda sim tinha que fazer alguns truques ilusórios para afastar curiosos ou qualquer outra pessoa da sua nova casa.
E tinha mais cuidado com suas refeições, não queria criar um alarde, e não queria um acidente como o seu. Por isso, geralmente, quase sempre ele entrava pelas janelas dos quartos de jovens descompromissados e sugava-lhe sua força vital, o suficiente para ser dado como morto o mais rápido o possível, sem ficar agonizando. Mas, fazia aquilo apenas para se alimentar, lembrou-se que uma vez o Visconde se apaixonou por um rapaz, manteve consigo décadas o suficiente para vê-lo ir embora com outra recém morta-viva. E Étienne Magyar não queria uma coisa dessas correr tal risco de ser assassino e salvador e ainda mais iludido.

Por isso ele escrevia. Talvez não se apaixonasse. O silêncio e a lua eram sua paixão.

Exceto por aquela noite.

Desastrosa, assim ele podia dizer.

Ele foi descuidado novamente, criou um morto-vivo, e se tivesse a inteligência do visconde de Hardcastle, para evitar confusões e estresse teria deixado ele sair no sol, ou melhor ainda, não teria dado seu sangue para o outro. E esse nem foi o desastre maior. O desastre foi ele não se controlar, foi ele o seguir.
Magyar tratava tudo como uma refeição prazerosa, onde você observa a fonte vital para apenas depois se servir. O que o morto-vivo novato acabou roubando esse prazer fundamental dele. Degolando uma jovem menina depois de a hipnotizar para que ela entrasse no meio das árvores adormecidas pelo inverno. O que devia ser apenas uma mordida, se tornou presas penetrando o pescoço por inteiro, como se fosse uma emergência.
Completamente desanimador, porque mesmo se quisesse revive-la seria impossível; então vendo aquela cena tão suja, ele compreendeu como o Visconde se sentia; repulsa, com seu olfato apurado o cheiro de sangue se misturando com saliva e possivelmente suor por estar sendo afobado, era uma mistura desagradável. Por isso Étienne tentou tirar a menina de seus braços antes que fosse impossível salva-la. E também foi por isso que ela tinha arranhões por todos os lados do corpo. Havia uma briga entre salvar e se alimentar. O outro fizera tudo errado. Pois, no final de contas, ele teve que limpar o corpo, deixar em um lugar para os humanos acharem evitando assim de alguma fera terminar de vez com corpo sanguentado.
Por tempo demais tudo ficou em completa calma e tranquilidade, e agora tudo isso poderia acabar, pela euforia do outro, totalmente indevido foi uma refeição impulsiva, precipitada. Não era para isso ter acontecido; foi tão deselegante que incomodou quem acabou por assistir. Foi um descuido, e sobre a supervisão do vampiro recém chegado da Transilvânia.

—Você sabe o prazer de escolher? Então, se você pensasse um pouco, iria ficar bom... Para ambos. – Étienne colocou dois dedos sobre os lábios, pensou naquele momento e em seguida jogando a cabeça para, riu o suficiente para assustar o outro. – Eu não quero ter problemas contigo, então, não bagunce o local, não torne tudo um enorme espetáculo carnívoro. Ver aquilo me deixou enojado e irritado ao mesmo tempo.

—Mas; meu senhor...Você queria mesmo deixar ela passar? – Não tinha como arrependimento matar; Étienne já estava morto. Na verdade ouviu aquela frase mais de uma vez, porém, com tanta atrocidade fora a primeira vez que mexeu os ombros, agora entendia como o Visconde se sentia. Revirou os olhos.

—Quando você vai deixar esses hábitos animalescos e primitivos, completamente rebeldes dominarem você, assim que eu dou as costas? – O mais jovem olhou para o outro lado, tentou dar uma risada de deboche. – Eu não posso estar sempre cuidando de você. – Sua expressão se tornou séria. Estou começando a odiar coisas desorganizadas.

—Senhor Magyar... Como posso dizer? Aconteceu, não devia; pois então eu não irei fazer novamente. Porém, nossos prazeres são bem diferentes... Foi uma sensação tão deliciosa que você não poderia ignorá-la sem ao menos provar um pouco. – Os olhos azuis brilharam como um vagalume, o que não foi muita coisa para Étienne que passou a mão sobre suas vestes e olhando para o jovem em seguida. –Não me olha assim, sabe que estamos do mesmo lado!

—Você ainda tem coragem de ser atrevido, hein!? – Ele fez um barulho com a boca observando que algumas partes da sua roupa continham sangue. – Que tal você ir se recolher? E ficar quietinho para não chamar atenção e nem virar poeira quando colocar a cara no sol. – O outro pareceu indignado. – Voltamos a conversar no crepúsculo.
Suas roupas deviam ser lavadas, mas, com o nascimento da aurora era impossível fazer qualquer atividade que não pudesse ser exposto nem que fosse um pouco por algum raio do sol; então o momento ideal para se fazer isso seria no crepúsculo; quando também ele iria se certificar que acharam a menina; porque a última coisa que ele queria eram caçadores seguindo os rastros até sua casa. Mas, se isso ocorresse não foi por causa dele, o que o aliviava um pouco. Enquanto caminhava na direção do seu quarto, na única torre alta naquele castelo. Ele preferia descansar naquele lugar por um motivo simples; saberia quando o sol nascesse e quando ele se recolher; essa seria a hora que ele sairia do seu recanto. Do mero caixão que ele arranjou para descansar. Até porque era impossível a luz penetrar nele, ou qualquer cheiro atravessar ele. O recanto ideal. Ele sabia que era um bom lugar para se proteger também; até porque as pessoas normais geralmente evitam de mexer com caixões. E era divertido esse fato.

Enquanto fechava o caixão deu um suspiro, no fim da noite ele já devia ter escrito mais algum capítulo sobre seu livro, mas, ficou tão ocupado repreendendo Nándor Ambrus que não teve a oportunidade de expressar seus pensamentos. Que quando juntos iriam se transformar em pedaços dele mesmo. Ele conhecia aquelas palavras, tinha sentimentos por elas, aquilo o fazia relaxar para poder aturar mais uma noite com sua maldição de viver para sempre, e o seu dom de nunca envelhecer.

Ele deixou o casaco sobre a cadeira que havia do lado do seu caixão, que ficava bem no cantinho do quarto, retirou as abotoaduras as colocando dentro da gaveta, e se deitou para descansar de vez. De olhos fechados pensou como podia continuar morando com outro vampiro tão irresponsável. E claro, ele já foi irresponsável, isso devia ser questão de duração de morte, quanto mais velhos estavam mortos, mais responsáveis eram. A profundidade de mesmo morto, não querer deixar de existir era algo que ele se esforçou para compreender, e se tinha uma coisa que ele aprendeu com o longo das estações era a seguinte: “mesmo que um escritor morra, ele continuará vivo”. Escrever era algo que ele admira e mesmo que suas frases sumissem pelo castelo, alguém acharia. E independente do tempo, lá estaria ele imortal em uma fração do tempo.

Outra fração do tempo que ele precisava se preocupar era com Nándor, o jovem de cabelos castanhos e olhos azuis cintilantes, alvoroçado, repulsivo, desequilibrado tudo isso em uma pessoa só; tudo o que ele não esperava passar. Por exemplo, ele era novo na Hungria não queria ser caçado, isso era um fato, e matar o outro nem era uma opção, porém, como foi uma criança os moradores do local dariam uma atenção especial, e isso incluía que as pessoas iriam começar a proteger-se, proteger as suas casas, andarem protegidas, e eles não poderiam se alimentar sem usar a força física. O que seria demasiado caótico resultando com certeza em roupas sujas.
Não que isso importasse muito.
Importava em um todo. Qualquer ser mal alimentado vai sair devorando tudo o que tiver pela frente, o que era a seu ver bem desagradável.

Então Étienne esperou a noite cair, ele esperou em completo silêncio e imóvel por um longo tempo; mesmo que os dias não fossem tão longos porque ainda era inverno, não chegava a ser uma eternidade para ele. Ele dizia a si mesmo que era uma pausa; como uma pausa entre uma cochilada humana, assim como uma pausa entre o descanso dos pássaros, uma pausa para ele pensar, apenas ficar ali. Porque agora essa era sua única opção. Além de sair no sol e virar cinzas. Tinha essa também.

Quando a noite chegou, ele sentiu, talvez era costume, ou a escuridão repentina que o tomava dentro daquele caixão, assim ele sabia que poderia sair. Mas, mesmo assim ainda esperou algum tempo, apreciava o breu, e quando ficou bem incomodo saiu de dentro da “sua cama”, olhou para fora constando que era realmente o manto perolado da noite, e se levantou. Deixou o casaco sobre o caixão e começou a desabotoar a camisa suja, onde já separando ela para lavar. Enquanto escolhia outra, Nándor apareceu. Estava com um bico, cara fechada. Como se quisesse falar alguma coisa, mas, ao mesmo tempo não quisesse falar. Étienne parou e cruzou os braços.

—Quer dizer algo? – Nándor se apoiou na parede e olhou para cima. Parecia estar fazendo birra, como criança, porém, não dava exatamente para entender o porquê. – Está descansado?

—Você falou que íamos conversar no crepúsculo. – O outro confirmou. – Já escureceu faz um tempo, você demorou de aparecer, então eu fiquei entediado, então estou aqui para o que quer que seja. – O mais velho colocou dois dedos sobre os lábios, estava pensando. Foi quando o mais novo fez uma careta, colocando as mãos nos bolsos da calça esperando.
Étienne não hesitou muito, escolheu outra camisa e então enquanto a colocava fitava o outro.

—Então descansou.

—Por favor senhor Magyar, eu juro que isso nunca mais vai se repetir. – Disse ainda com as mãos nos bolsos. – Mas, eu precisava me alimentar, você não pode me proibir de me alimentar por

—Ambrus, preste atenção; – Ele o interrompeu. – Não irei te proibir de se alimentar ou coisa parecida, até porque você iria do mesmo jeito. Estou falando que você tem que escolher com cuidado e atenção o foco das suas refeições, pois existem casos que os humanos não deixam quieto. – Étienne passou a mão sobre os cabelos. – Pensei bastante e cheguei à conclusão de que seria melhor você não sair por uma semana; até porque você já se alimentou demais e.

—Como é? Se eu não sair para comer eu vou morrer! – O mais velho pigarreou.

—Nándor; você já está morto! – A feição dele mudou, algo como sério e semelhante a uma feição perigosa, como de uma fera. – E ficar sete noites sem se alimentar não vai te fazer nenhum mal. – Nándor revirou os olhos, antes que pudesse defender seu lado, Étienne colocou uma camiseta social longa preta, um colete preto e um novo casaco preto. Ele podia dizer que estava vestido de velório, ou vestido como a noite já que ele colocou sua capa. Perfeito para refeição digna da realeza. – Para o caso de você ainda não ter entendido; hoje você fica aqui. E não vai sair daqui!

Nándor sentou se no chão e resmungou alguma coisa. Os olhos verdes de Étienne cintilaram, e ele se inclinou para o outro, com as mãos nas costas. O mais novo ergueu a cabeça para fitar seus olhos. Vampiros não podem hipnotizar outros vampiros, porém, no caso em questão era intimidação. E podia ás vezes servir como um modo hipnotizante de tortura mental que não feria ninguém. Não fisicamente.
E talvez por esse fato, Nándor entendeu.
Assim dando um sorriso de satisfeito, ele pulou a janela, sentiu o vento bater em seu rosto de uma forma graciosa, se respirasse como um mortal, o ar frio estaria agitando os seus pulmões e congelando suas bochechas; era o pulo da morte e a queda do suicídio. E para Étienne era o voo da imortalidade. E se todos os mortais pudessem ouvi-lo, não seria a gargalhada assustadora que ele dera que ouviriam um uivo sinistro e assustador, como de uma fera. Naquele dia havia nevado bastante, então quando ele pousou perto da aldeia mais próxima os flocos de neve se levantaram sobre seus pés.
Ele ajeitou a gola de seu casaco e caminhou despercebido afastado das trilhas e estradas. Com as mãos nos bolsos do casaco, como se preparasse para escolher quem iria encontrar com suas presas; mas, também estava preocupado com o desastre da noite passada, queria saber se estavam furiosos e iriam começar a caçar o bicho que estraçalhou o pescoço da menina. Era uma questão bem importante a saber.

Com a medida que notava que ficava mais frio, percebeu que a movimentação diminuía, ninguém saia de casa, não parecia que alguém estava preocupado em caçar nada perigoso, Étienne se preocupou a toa. Não precisava ficar com medo, mas, ao menos ele colocou sua camiseta longa na água, apenas para tirar o sangue, e se não resolvesse, evitaria de usar branco; que era uma cor muito pura, para alguém tão pecaminoso como ele. Deu aquela risada boba e olhou para a estrada, percebeu que estava próximo de onde colocou a menina para ser encontrada no dia anterior; e de relance do olho, observou que alguém se mexia. Andava na estrada pela neve, em uma noite muito fria para qualquer mortal que não estivesse muito bem agasalhado. Que não era a questão daquela pequena criatura caminhando sobre a lua crescente gibosa, bailando sobre algumas nuvens.
Então ele parou de andar.
E começou a observar.
Talvez a pobre criatura no frio percebeu, sentiu que ele estava observando, abaixou a cabeça e começou a andar mais rápida. Foi quando ele percebeu que não só uma pobre criatura, era uma garota; o que chamou mais ainda a sua atenção. Era uma garota na idade de casar, que já devia estar casada, e mesmo assim estava sozinha, talvez brigou com o marido, saiu para caminhar nem reparou que estava um frio congelante pois, estava tremendo. E aquela situação era interessante. Ela parecia estar tão encrencada...

Perdida.

Ele se posicionou em um ponto sobre as arvores sem muitas folhas, onde podia ver a estrada por completo, especialmente do ponto em que dava em algumas casas e seguia até a estrada principal. Ali ele observou, esperava e pego de surpresa ela o olhou de volta; não do mesmo jeito que ele, porque humanos não tem uma excelente visão, então do ponto onde ele estava provavelmente ela estaria vendo apenas uma silhueta, sem saber de que tipo de silhueta se trata. E mesmo sem saber, ficou observando estudando, se mantendo curiosa; até que de repente ela parou de olhar e voltou a andar rapidamente.
Étienne achou aquilo impressionante, poderia haver um pânico entre a criatura mas, mesmo assim, a curiosidade ou a burrice a hipnotizou pelo rapaz vestido de morte. Era o cenário mais inspirador que ele estava presenciando, e com certeza era o mais impressionante, pois, ele sorriu, um de seus dentes tocou em seus lábios. Ele havia achado a sua refeição noturna, completamente sozinha, despreparada e indefesa.

O seu jeito favorito de presa.
Ele deslizou como as sombras para perto dela, planou cuidadosamente sem fazer nenhum barulho ou para fazer ela sentir a sua presença; e no momento propício para atacar, começou a andar atrás dela analisando cada traço do corpo, para evitar sujar suas roupas e quando começou a pensar em como iria abordá-la, ela o encarou. Fazendo ele sorrir de surpresa. Quem se vira tão devagar para ver seu caçador? Seu ceifeiro?
Era jovem, de belos olhos castanhos, Étienne jogou a cabeça para trás e apurou a garota de cima a baixo. Não deixando de notar que seus olhos não desgrudavam dele em nenhum momento, será que suas refeições o olhariam assim se ele fosse a seu encontro quando acordadas? Um dos primeiros instintos mortais seria encarar um estranho? Porque quando ele era mortal, seu primeiro passo era sair correndo; principalmente se um estranho estivesse o observando.

—Ah, ah... – Ele começou a conversa, estava começando a ficar sem graça; não tinha que conversar com outras pessoas além de Nándor por mais de uma década. – Vai ser problemático se você continuar me olhando assim... – Não que ele estivesse encantado, mas ao perceber o corpo dela se arrepiar, tornando aquilo interessante, principalmente quando ela esticou a mão para poder tocar em Étienne que não apenas se afastou, como também sorriu. – Interessante sua curiosidade de saber se sou real ou não. – O corpo da pobre garota se arrepiou por completo, ele nunca imaginou que veria algo do tipo ou saberia mesmo se visse como humano, até porque, eram apenas refeições e entrar em contato direto com uma, não estava no que o Visconde Constantin costumava dizer: “não estava em seus cronogramas de vida eterna. ” Mas, a brincadeira precisaria ser interrompida, vinha alguém atrás dela, completamente furioso, seu olhar dizia tudo; poucos olhares faziam isso, naquele caso, corpo e olhares diziam a mesma coisa raiva, ódio. E antes que a atenção saísse da pobrezinha e se dirigisse a Étienne em um segundo ele mergulhou nas sombras das nuvens sobre a estrada desaparecendo. Indo parar em outro lugar bem mais distante de qualquer confusão de marido e mulher.
Havia um desespero no rosto dela; o que acabou sendo um deleite para seus olhos, fazendo com que se tornasse uma escolha inusitada, que ele acabara de fazer por ter sido satisfatório perceber e sentir luto na alma dela.

Ela havia passado a negação porém, não havia isolamento; então talvez a raiva não fosse incluída, poderia não haver ou já tendo uma negociação, apenas pelo seu jeito de andar, á noite, sem nenhuma luz, sem muito agasalho significaria que estaria entrando em uma profunda tristeza. Até que aceitasse a morte de quem tenha sido.
(...)
Então, a pobre garota afinal de contas poderia ser uma jovem viúva?
Mas, porque afinal das contas aquilo estava despertando o seu interesse? Ao passar de mais duas décadas, ou duas luas, ela estaria a sete palmos do chão. Não que seus primeiros pensamentos fossem ver suas lágrimas, presenciar seu sofrimento e ao final de tudo juntar o luto dela com ele vestido de morte a encontrando. Seus lábios fizeram um barulho e se curvaram formando um sorriso.

Étienne Magyar estava morto fazia tanto tempo que até seus pensamentos eram fúnebres.

O abraço da morte não veio para Katherynne naquela noite, mesmo que ela tenha dormido sem comer quase nada, mesmo tendo ficado na neve sem algo quente; não acordou doente, estava mais saudável do que qualquer outro dia em toda a sua vida. E não era isso que a morte geralmente costumava procurar. Quando acordou no dia seguinte pareceu até frustrada; depois de sua irmã ter ficado aliviada por ela estar viva, seu cunhado a repreendeu; aliás, ele tinha esse direito não é? Era o homem da casa, dono de tudo, já que sua noiva estava viva, pois, se em um terrível caso ela viesse a morrer sem ter dado lhe um herdeiro, o nome dela estava no topo da lista. E sempre lhe causava ânsias quando esse pensamento medíocre vinha a mente. Até porque sua vida era medíocre mesmo, não tinha o porquê continuar lembrando-se disso.
Mas, lembrou da conversa que ocorreu a noite; de toda a sua irresponsabilidade, de toda a sua rebeldia, teimosia e burrice, (mesmo que sua burrice salvou ajudou alguém.) Que isso era por falta de um belo casamento, como o deles (Benedek e Katalin nem tinha um casamento extraordinário) que se seu pai tivesse tido tempo de arrumar um ótimo homem ela não seria um incomodo para eles, seria para o seu marido. E Katherynne revirou os olhos toda a vez que ele usou a palavra marido ou casamento e arfou quando a palavra incomodo foi dita. Ela ficou tonta e perdeu o folego algumas vezes durante aquela conversa. Por fim, sua irmã dando um sorriso falou que gostaria que no dia seguinte sorrisse mais, falasse menos e principalmente corasse. Onde naquele momento ela foi obrigada por si mesma a fazer uma careta; por isso naquela manhã estava desapontada, teria que conviver com os Hagedüs mais um dia.

Um dia que amanheceu chovendo, não era muita chuva, mas, era de se esperar bastante frio durante o dia. O que a aborreceu de início, porém a voz entusiasmada de sua irmã a assustou. Katalin dificilmente ficava entusiasmada assim do nada, foram tão poucas vezes que ela se lembra, tinham a ver com o dia que sua irmã casou, quando suas irmãs a ajudavam com pequenas coisas do casamento e assim como ela, estavam animadas com o novo cunhado. Uma enorme pena apenas Katherynne ter sobrevivido para saber que tipo de pessoa ele se tornou. Decepcionaria seu pai que jurava que tiraria Katalin de toda aquela vida dura, de todo fracasso que ele prometeu tirar dela quando se casassem.
Mas enquanto colocava sua roupa de trabalho se recordou daquele homem que encontrou a noite, na estrada, aquele homem incrivelmente bem apessoado, não apenas de um gosto requintado, mas de uma aparência extraordinária, que ela colocou em sua cabeça que não poderia ter imaginado nem criado a miragem de alguém tão belo como ele. Alguém que simplesmente apareceu do nada e sumiu do nada também... Como um demônio. Um demônio na neve. Que vestia uma roupa preta, tinha olhos verdes e era estranho. Porém, demônios são criaturas feias, e a possuiria de imediato sem dizer que, seria um problema ela continuar olhando. Como Katherynne estaria o olhando?

—Não pode sair com essa roupa! – Sua irmã disse preocupada, invadindo o seu quarto. Katherynne franziu a testa. – Não tem algo mais floral?

—Está frio. Eu vou trabalhar, não vou vestir nada floral. – Ela foi interrompida.

—Você vai conhecer o seu marido e.

—Opa, como assim? – Ela deu dois passos para trás – Marido? Não está falando sério... – Ela hesitou um pouco. – Isso foi por causa da conversa desgastante de ontem? Por causa que eu sou um incomodo, por causa de eu estar preocupando vocês?

—Não, não, nem pense nisso... É apenas porque demoramos demais para fazer isso. – Ela encarou a irmã, foi como ser vendida; estava sendo vendida, nem isso, era um jeito muito confortável de se dizer dada, entregada. Uma confusão se formou na cabeça de Katherynne que apenas olhou para a janela do quarto, olhou para os próprios pés, já não tinha o que fazer. – Minha querida, ele é um ótimo homem e.

—Você nem pediu a minha opinião, nem me consultou ou.

—Não precisa gostar, vai aprender a amar! – Soou tão autoritário que os ouvidos dela zuniram a deixando mais tonta ainda. Mas, não queria demonstrar a quão irada estava, não adiantaria gritar, brigar ou chorar... Naquele instante poucas coisas passavam por sua mente, ela poderia manter seu orgulho calada, nisso ela sairia ganhando uma casa sairia da vida da sua irmã e cunhado; o que ocorresse depois com seu marido seria outra questão. – Então você vai trocar de roupa e.

—Não. Caso você esqueceu, eu ainda tenho que trabalhar. – Ela colocou suas botas arrumou seu avental e saiu do quarto, sendo atropelada pela irmã em seguida, mesmo que confusa compreendeu que deveria ser apresentada ao seu novo pesadelo. Katherynne já estava impaciente e apareceu na sala antes de Katalin terminar o que deveria ser a preparação para o homem conhecer sua esposa.
E foi a imagem mais frustrante que ela presenciou. Ela o conhecia. E aquilo foi um miserável reencontro. Frank Agárdy era um cara oito anos mais velho que ela, e na verdade estava apaixonado pela sua segunda irmã mais velha, falecida; por isso se conheciam, mas, havia vários motivos para ela rejeita-lo. Ela nem era a primeira opção dele, que também não tinha um emprego fixo, o último que ela tinha tomado ciência era que ele cuidava de casarões enquanto os donos dessas propriedades estavam fora; eis também que ele não era muito confiável, ele sempre aparentava ser muito presunçoso, mas, para Katherynne ele sempre foi bem preguiçoso. Se nem sua irmã caiu na sua astúcia, porque ela deveria cair?

Por que naquele momento ela era um fardo.

—Estou impressionado! – Frank soltou se levantando do sofá, ela o encarou, não esboçando nenhuma reação. – Está mais bonita do que eu me lembrava... Na verdade você nem imagina como eu fiquei feliz em saber que você queria casar comigo e – Tudo o que ele falou em seguida foi abafado e ignorado porque Katherynne estava de olho na roupa dele. Estava tão mal costurada, precisava de tantos pontos, costuras e remendos que aquilo tomou toda sua atenção e apenas quando tudo ficou quieto, ela percebeu que ele havia lhe feito uma pergunta.

—Perdão... – Ela disse colocando a mão sobre a bochecha. – Eu...

—Podemos nos casar no final do mês, o que acha? – Talvez ela ficou pálida, mas, sua garganta havia secado, não houve resposta, ela nem tinha uma, nem tomou café, aquilo foi jogado na sua cara como um vapor de água quente, antes que pudesse analisar a proposta a voz de Mariska ecoou do lado de fora, onde ela mal pediu licença, e se retirando disse o “bom dia” mais amargo da sua vida.
Enquanto Mariska falava e ela estava pensativa, viu algo no chão da estrada que dava para a cidade, era outro papel bonito, de escrita caprichosa e escrita vaidosa, ela o pegou com rapidez, era seu agora.

—O que é isso? – Mariska perguntou curiosa.

Seja o primeiro no mundo a entender.

E o último que sentirá alivio.

É um tempo melancólico

No lado escuro do sol

Tão escuro mais também tão frio.

—Um pedido.

Notas finais
~♠~Eu sempre digo, estou aqui para Você. E se cada presente for uma história, você merece uma biblioteca da minha parte ~♠~ J'aime vous!! ~♥Beijos da Autora ♥~ Obs: E nunca se esqueçam da nossa Rainha Vampira reptiliana♠