Hae-il ficou estático ao se deparar com aquela cena no meio da madrugada. Completamente incrédulo, ele não sabia o que fazer. Andou para lá e para cá, roendo as unhas nervosamente, sem conseguir tirar os olhos daquela caixa de papelão, até que finalmente se agachou e pôde ver a criança de perto. O bebê fez uma pequena pausa em seu choro quando o padre se aproximou, mas logo voltou a fazer beicinho e chorar.

Perdido, Hae-il tentou argumentar com o bebê, mas, como era de se esperar, não deu muito certo.

- Por favor, pare de chorar. – pediu ele, já quase chorando também. Depois, numa segunda investida bem mais inteligente, resolveu pegar o bebê no colo. Aí sim, conseguiu algum resultado. Aos poucos, ele foi se acalmando e, quando recostou a cabecinha no peito do padre, finalmente parou de chorar.

Enquanto Hae-il andava de um lado para o outro tentando ninar, ainda meio que desajeitadamente, o bebê, as luzes da casa paroquial começaram a se acender atrás deles. Eram o Padre Han e a Irmã Kim, que tinham acordado com o barulho e vinham, ainda sonolentos, ver o que estava acontecendo.

Dar de cara com o Padre Kim angustiado, em frente à porta aberta, com um bebê no colo, nem de longe era a cena que eles imaginavam encontrar, mas ela foi mais do que o suficiente para despertá-los por completo.

- Padre Kim, o que está acontecendo aqui? – perguntou a freira, atordoada.

- Não faço ideia, irmã. Segura ele aqui. – disse o padre, tentando passar a missão para a freira, mas a criança pareceu não aprovar a decisão e ameaçou a chorar assim que ele fez menção de entregá-la para a mulher.

- Acho que não é uma boa ideia. – esquivou-se a freira.

- Mas eu nem sei o que eu estou fazendo! – disse Hae-il, agoniado.

- Isso não importa. Seja lá o que estiver fazendo, continue. Está dando certo. – aconselhou a religiosa.

- Padre Han… – tentou, dessa vez, passar o bebê para o colega mais novo, mas também não deu certo.

- Eu nunca segurei um bebê na vida! – disse o jovem padre, ainda mais assustado do que o padre mais velho.

Hae-il percebeu que tinha perdido a batalha. O bebê era dele.

- Algum desalmado deixou ele aqui? – indagou a freira.

- Eu ouvi um barulho lá fora e achei que fosse um gato miando, mas quando abri a porta, ele estava ali, naquela caixa de papelão. – explicou Hae-il de forma acelerada, quase sem respirar, apontando para a caixa na soleira da porta, ainda tentado absorver toda aquela história.

- Tá bom, tá bom. Vamos nos acalmar. – disse a Irmã Kim, respirando fundo, tentando manter a calma, mesmo estando tão surpresa quanto os dois padres. – O senhor viu se tem mais alguma coisa na caixa? Um bilhete?

- Não. Eu só vi a criança e quase tive um treco.

Enquanto os dois conversavam, o Padre Han foi até a porta pegar a caixa de papelão. A freira estava certa. Havia mesmo um pedaço de papel dobrado e apenas mais um bichinho de pelúcia e uma chupeta.

- Tem um bilhete sim, irmã. – disse o religioso, desdobrando o papel e começando a ler.

- “Hae-il, cuide dela, por favor. Não conte a ninguém que ela está aqui, porque só assim ela ficará segura. Assim que eu puder, volto para pegá-la. Eu só confio em você.”

O bilhete não trazia muitas respostas.

- “Ela”… Então é uma menina… – constatou a freira.

- Acho que não foi nenhum fiel da igreja que a deixou aqui. – especulou o Padre Han. – O bilhete está muito informal. Te chamou de “Hae-il”. Acho que se fosse algum paroquiano, teria escrito “Padre Kim”.

- Bem observado, Padre Han. – Disse Hae-il, um pouco mais calmo e tentando colocar a cabeça para pensar.

- Mas com certeza é alguém que te conhece muito bem. – continuou o jovem padre, com um tom meio desconfiado. – Aliás, bem até demais… Por acaso… essa criança é sua filha?

- Padre Han!!! – berrou Hae-il, assustando a bebê, que já estava quase dormindo. – Você ficou maluco? Olha, você se salvou por um triz de levar uns tapas agora mesmo! Agradeça que ela está no meu colo.

- Tá bom, não está mais aqui quem falou. – desculpou-se o jovem padre, percebendo que realmente havia brincado com o perigo ao fazer uma insinuação daquelas à queima-roupa. Se o Padre Kim não estivesse segurando a bebê, ele, com certeza, teria levado, no mínimo, uns safanões.

- Ok. Vamos respirar e começar a pensar. – sugeriu a freira, fechando a porta e sentando-se no sofá da pequena sala, que ficava no mesmo ambiente da cozinha. Os padres fizeram o mesmo. Passado o susto com o breve chilique de Hae-il, a bebê parecia ter se acostumado ao seu colo, porque agora já dormia profundamente.

- Vamos falar baixo, para ela não acordar. – propôs Hae-il. Todos concordaram.

- Quem será essa menina? A mãe nem escreveu o nome dela. Nós não podemos continuar chamando ela de “bebê”. – observou o Padre Han.

- Que tal, Maria? – sugeriu a Irmã Kim.

- É um belo nome, irmã. – aprovou Han Seong-gyu.

- De acordo. A partir de agora, eu te batizo “irmãzinha” Maria. – cochichou Kim Hae-il, colocando delicadamente a mão sobre a testa da criança e a abençoando. – E agora, o que faremos?

- Eu tenho a impressão de que deixar ela aqui foi uma decisão meio repentina. Acho que ela estava dormindo, quando a trouxeram para cá. Parece que ela está vestindo roupinhas de dormir, não parece? – observou a freira.

- Sim. – concordou o Padre Han. – O bilhete também parece ter sido escrito às pressas. Vejam a letra…

- Verdade. O bilhete está pedindo para que eu a esconda e a proteja, isso significa que ela está correndo perigo, de alguma forma. – deduziu Kim Hae-il.

- Então não é melhor a gente entregar ela para a polícia? – perguntou a freira.

- Isso seria o correto a se fazer, mas o bilhete pede para eu não contar para ninguém. – recusou-se Hae-il.

- Mas agora é tarde, porque nós dois também já sabemos. – pontuou o Padre Han, referindo-se a ele próprio e à Irmã Kim.

- Tá bom, Padre Han. Ninguém além de nós três. – respondeu Hae-il, revirando os olhos com o comentário obvio do colega. – O caso pode ser sério. Minha intuição diz que pode ter sido alguém do SNI que a trouxe até aqui. Eu não tenho tantos amigos próximos assim, por isso acho que pode ter sido um ex-companheiro da Inteligência.

- Então vai perguntar pra eles. – sugeriu a mulher.

- Não, também. Porque se foi mesmo um agente, o protocolo seria ele ter levado ela para lá ou para um dos abrigos de segurança da agência e não ter trazido aqui, para um civil. Por algum motivo, levá-la para lá também não deve ser seguro.

- Faz sentido. – concordou o Padre Han.

- Por enquanto, vamos manter o segredo. A Maria ficará conosco até descobrirmos o que está acontecendo. – resolveu Hae-il.

- Eu ainda acho que deveríamos, ao menos, contar para o Detetive Gu… – insistiu a freira, ainda em dúvida se o que eles estavam fazendo era mesmo o certo.

- Vamos esperar, Irmã Kim. Por enquanto vamos cumprir com a vontade de quem escreveu o bilhete. – disse o padre. – Vamos fazer o seguinte: se em uma semana não descobrirmos quem ela é e nem tivermos notícias dos pais, entregamos ela para as autoridades. Combinado?

- Combinado. – concordaram em uníssono a freira e o outro padre.

- Então, vamos aproveitar que ela pegou no sono e vamos dormir também. Amanhã, com a cabeça mais fria, pensamos no próximo passo.

- Está certo, Padre Kim. Se esse anjinho foi colocado aos nossos cuidados, foi porque Ele quis. Vamos obedecer à vontade d’Ele, então. Boa noite. – concordou finalmente a freira.

- Boa noite. – despediram-se também os dois padres.

Cada um seguiu para o seu quarto e, como a menina havia adormecido em seus braços, Hae-il levou-a consigo. Ele a colocou na cama cuidadosamente, para que não acordasse, mas, preocupado, pegou todas as almofadas e travesseiros que encontrou e os colocou ao redor da menina, para evitar que ela caísse da cama. Depois de fazer uma verdadeira barricada, não sobrou muito espaço para que ele também se deitasse na cama, então ficou espremido no cantinho lateral e adormeceu algum tempo depois, numa posição não muito confortável.