O sol mal tinha se levantado, quando Hae-il acordou assustado com o choro da bebê. O susto foi tão grande, que ele acabou caindo da cama, porque já estava no limite do colchão. Ele ainda não tinha se acostumado com a presença da nova hóspede da casa paroquial. Por um momento, pensou até que tudo não tivesse passado de um sonho maluco, mas era mesmo real. O choro estridente da menina tornava tudo bastante real.

Ele se levantou com uma careta e massageando as costas, dolorida pelo tombo. Em seguida, se sentou na cama e pegou a chupeta que estava ao lado da bebê e a colocou em sua boca para ver se a acalmava um pouco. A menina começou a chupar o objeto de borracha e parou de chorar, mas ainda estava resmungando.

- O que foi? O que você tem, Maria? – perguntou o padre, bocejando, enquanto passava a mão pelos cabelos desgrenhados. – Você está sentindo alguma dor? Está com fome? Precisa de uma fralda nova? Talvez todas as opções? Irmã Kim!!!! – berrou ele, em busca do auxílio da freira, assim que se deu conta de que não sabia o que fazer.

Alguns minutos depois, a freira apareceu, igualmente sonolenta, ajeitando os óculos no rosto e, usando o véu meio torto, colocado as pressas sobre os cabelos.

- O que foi dessa vez, Padre Kim?

- Preciso da sua ajuda, irmã. Eu acho que ela precisa de uma fralda nova, mas eu, com certeza, não estou qualificado para fazer isso. Dá uma olhada nela. – pediu ele, atemorizado só de pensar no assunto.

- E por que o senhor acha que eu estou qualificada pra isso? É só por que eu sou mulher? – perguntou a religiosa exibindo um olhar inquisidor.

- Não exatamente... É porque você é a única aqui que já teve experiência cuidando de um bebê. Eu acho que você já deve ter trocado uma ou duas fraldas do seu irmão mais novo…

- Tudo bem, tem razão. – precisou admitir, mas com ressalvas. – Eu já fiz isso antes, mas foi há quase 40 anos e eu ainda era uma criança na época. Nem sei se me lembro como se faz.

- Ah, mas isso deve ser como andar de bicicleta… – sugeriu Hae-il, com um sorriso matreiro, mas recebendo em troca um olhar não muito amigável da freira. – É que eu e o Padre Han temos zero conhecimento nessa área, sem contar que ela é uma menina, então não acho certo…

- Ah, então quer dizer que o senhor é um daqueles homens que acha que é obrigação apenas das mães trocarem as fraldas das filhas? – a freira não estava facilitando.

- Não é bem isso… Irmã, acho que você acordou de mau humor e está distorcendo tudo o que eu digo. Relaxa um pouquinho. – tentou se defender o padre, enquanto massageava, com as pontas dos dedos, os ombros da colega religiosa, numa espécie de suborno, porque os argumentos já tinham se acabado.

- Tá bom, eu vou dar uma olhada. – rendeu-se finalmente Kim In-Gyeong. Por mais que ela jamais fosse admitir, a massagem, apesar de rápida, tinha sido boa. – Mas como vamos fazer, se não temos fraldas para trocar?

- Ih, é verdade. Tudo aconteceu tão de repente, que eu nem tinha pensado nisso! – exclamou o padre, ao perceber que eles não estavam preparados, nem de longe, para cumprir a missão que havia sido jogada no colo deles de forma tão inesperada. – Também não temos leite, não temos roupas, nem remédios. Não temos nada, meu Deus!

- Pois é. E se nós vamos mesmo ficar com ela por enquanto, acho bom o senhor dar um jeito de conseguir tudo isso para ontem. – sugeiru a freira, enquanto abria a fralda da menina delicadamente para ver a situação.

- E aí? – perguntou Hae-il, enquanto observava toda a ação da freira, apreensivo com a resposta.

- Ela só está um pouco molhada. Dá para continuar com essa fralda por enquanto, mas vai ter que trocar o quanto antes.

- Tá bom. Eu vou correndo lá na loja de conveniência para comprar os itens mais essenciais.

- Então vai logo, ou então, eu vou ter que transformar alguma de suas camisetas em fralda...

- Não se atreva, irmã. Eu vou num pé e volto no outro.

Kim Hae-il só jogou uma água no rosto e saiu descabelado, vestindo o mesmo moletom que tinha usado para dormir. Ainda era bem cedo e ele cogitou que não haveria ninguém na loja, além dele, e por isso não ligou para aparência. Nem calçou sapatos, foi com os chinelos mesmo.

O estabelecimento ficava a apenas duas quadras da igreja e era bastante frequentado pelo padre, sem contar que um de seus atendentes era o Oh Yo-han, um dos fiéis da igreja, que já estava acostumado às esquisitices do padre.

- Bom dia, Yo-han. – cumprimentou Hae-il.

- Bom dia, Padre Kim. Como está?

- Eu estou bem. – respondeu o sacerdote, entrando apressadamente na loja, sem muita intenção de ficar conversando com o simpático atendente rechonchudo, pois ele tinha pressa. – Preciso comprar umas coisas, é meio urgente.

Por sorte, a loja era bem equipada e Hae-il encontrou quase tudo o que precisava, com exceção dos remédios, que ele compraria na farmácia do outro lado da rua. No entanto, foi impossível não chamar a atenção de Yo-han, quando ele começou a registrar os itens.

- Fralda, fórmula infantil, mamadeira? – estranhou o atendente, achando graça. – Que compra mais incomum para o senhor, padre…

- É verdade, Yo-han… – concordou uma voz feminina bastante familiar, que se intrometeu na conversa e vinha de trás de Hae-il. Aquela voz, em especial, ele não desejava ter escutado naquele momento, pois sabia que, querendo ou não, seria forçado a dar explicações.

- Velhota! (era o apelido, não muito carinhoso, dado pelo Padre Kim à Promotora Park Gyeong-seon, que por sua vez, havia retribuído a gentileza, o apelidando de Kim Tsunami) Que surpresa te encontrar aqui tão cedo. – cumprimentou ele, virando-se lentamente para trás, com um sorriso amarelo, tentando disfarçar e colocando as coisas rapidamente na sacola, para evitar que a promotora curiosa começasse a analisar suas compras, mas não adiantou muito.

- Por que está comprando coisas de bebê? – perguntou ela, sem cerimônias.

- É para… para uma das paroquianas que acabou de ganhar bebê. Ela é uma mãe solo e está passando por um momento financeiro difícil. – foi o que ele conseguiu inventar na hora.

- Ah, entendi. – respondeu a promotora, ainda desconfiada. – Mas se é para um recém-nascido, acho que essas fraldas vão ficar um pouco grandes...

- É um bebê grandinho.

- É menino ou menina? – continuou inquirindo a promotora.

- Menina.

- A mãe precisa de mais doações?

- Acho que sim. A criança não tem nada ainda.

- Ah… tá bom. Então mais tarde eu passo lá na igreja para deixar algumas coisinhas também.

- Oh, obrigado. Tudo será muito bem-vindo. Deus abençoe, Irmã Angela. – agradeceu Hae-il, usando o nome de batismo católico da promotora, enquanto terminava de guardar as compras e saía apressado pela porta.

Deus abençoe, Irmã Angela?” – pensou a promotora, intrigada. – “E desde quando ele é tãoeducado assim comigo? Isso está muito estranho... Isso está me cheirando a mentira… Ah, mas eu vou descobrir o que é, ou o meu nome não é Park Gyeong-seon!”

Sem se dar conta, Kim Hae-il tinha colocado em seu encalço a pessoa mais curiosa e persistente que ele conhecia. Ela jamais descansaria até conseguir desvendar o mistério, que ela já tinha colocado na cabeça, que existia.