O Sacerdote Impetuoso: Protegendo os Inocentes
10 Outro intrometido

Kim Hae-il estava impaciente à espera da promotora, mas principalmente rezando para que a Irmã Kim e o Padre Han voltassem logo de onde quer que eles tivessem ido com Maria. Ele havia sido contra a saída da menina, mas os colegas alegaram que não era bom que ela ficasse trancada dentro da casa paroquial 24 horas por dia. Hae-il só permitiu que eles a tirassem de lá depois de muitas promessas de atenção reforçada com a segurança da pequena.
Ele permaneceu orando fervorosamente por algum tempo dentro da igreja, mas não conseguiu esperar em seu interior e voltou para o lado de fora, onde ficou andando de um lado para o outro. Ele foi para a frente da igreja, de onde era possível visualizar bem a rua, que vigiava nervosamente, enquanto roía as unhas, esperando que um deles despontasse na esquina, mas nada deles aparecerem.
Nesse meio tempo, Hae-il se esforçou para relembrar tudo o que sabia sobre o caso envolvendo a Família Baek, que havia tomado conta dos noticiários por volta de seis meses antes.
Baek Seok-jun, o único filho e herdeiro da fortuna da Família Baek, havia morrido inesperadamente em um terrível acidente de carro cerca de uns oito meses antes, deixando seus pais desolados. O jovem, de apenas 25 anos, estava se preparando para assumir os negócios da família e se mostrava bastante promissor, quando acabou sendo arrebatado muito precocemente deste mundo. Entretanto, a notícia que chocou a todos de verdade, só veio dois meses após o seu falecimento, quando uma mulher chamada Yoon In-a apareceu com um bebê recém-nascido nos braços, afirmando que a menina era filha do falecido Baek Seok-jun.
Ninguém da família, ou conhecidos, sabia da existência dessa suposta namorada, muito menos que ela estivesse grávida quando ele morreu, por isso, a notícia caiu como uma bomba na família, que se recusava a acreditar na mulher desconhecida, que reclamava os direitos legais de sua filha.
Houve uma grande desconfiança não somente da parte dos familiares, mas também de toda a opinião pública, que acreditava que tudo não passasse de um golpe do baú, mas após a realização de um teste de DNA, foi comprovado que a menina era mesmo filha do falecido Baek Seok-jun, portanto, a nova herdeira da fortuna da família no lugar do pai.
Baek Sang-min foi obrigado a aceitar que a mulher dizia a verdade e até ficou feliz com a chegada da netinha, porque ela era uma parte de seu amado filho que ainda vivia, porém ele nunca aceitou a presença da nora, já que o filho nunca tinha contado da existência de tal mulher, nem para o pai ou a mãe, nem para Baek Ji-sung, que além de ser seu único primo, também era seu melhor amigo e confidente.
Era fato que a menina era mesmo sua neta, mas ela poderia ter sido fruto de apenas uma noite de aventura e não de um relacionamento sério, como Yoon In-a afirmava. Ela falava, inclusive, que os dois tinham planos de se casarem antes da tragédia acontecer, mas isso era algo muito difícil de se acreditar.
Sem querer contato com a mulher que se dizia sua nora, Baek Sang-min entrou com um processo contra ela para tentar obter a guarda da neta na justiça, alegando que ela não teria condições de dar uma vida tão boa para a criança quanto ele poderia. Dificilmente algum juiz tiraria o filho de uma mãe, mas o dono do Grupo Baek era uma pessoa influente demais e tinha muitos contatos dentro da promotoria e por isso, o caso já se arrastava há praticamente seis meses, com ele ganhando em várias instâncias e ela sempre recorrendo da decisão da justiça. Até que finalmente um novo juiz não se intimidou com a influência do empresário e o jogo começava a virar a favor da mãe. A essa altura, ela já tinha se arrependido de ter tido qualquer contato com a Família Baek e só queria poder viver em paz com a filha, mas parece que nem isso ela estava conseguindo e agora, tudo indicava que havia fugido para se livrar de todos.
Hae-il não fazia ideia de que a garotinha, que ele havia sido obrigado a acolher tão repentinamente, era a causadora de todo aquele conflito, mas ele sabia de uma coisa: ele jamais seria a favor de tirar um filho de uma mãe sem um motivo muito forte. Nesse caso específico, ele não achava que o avô tivesse razão em querer a guarda da neta, por isso, após muita oração, reflexão e pedidos de iluminação a Deus para guiá-lo a tomar a decisão certa, ele decidiu que não a entregaria ao avô. Ele não faria isso, até saber o que de fato havia acontecido com a mãe e o que a tinha levado a tomar uma atitude tão desesperada.
Ele sabia que a mulher não havia simplesmente “raptado” a própria filha para escapar de uma possível ordem judicial de entregá-la ao sogro, como ele alegava, pois se esse fosse o caso, ela jamais a teria abandonado na porta de um estranho. Parecia que ainda havia um mistério envolvendo toda a situação e ele precisava saber o que era, por isso, ficou tão curioso com o que a Promotora Park teria para lhe contar, que ainda era desconhecido do grande público.
Após uma espera angustiante de vários minutos que mais pareceram horas, o Padre Han e a Irmã Kim, finalmente apareceram. Eles voltaram animados do passeio com a pequena Maria, mas ficaram atordoados, após quase serem arrastados para dentro da igreja por um impaciente Kim Hae-il.
- O que foi, Padre Kim? Por que o senhor está tão afobado? – perguntou a freira, já dentro da Casa do Senhor.
- É que enquanto vocês estavam zanzando por aí, muitas coisas aconteceram. Acho que todo mundo no país, a essa hora, já conhece o rosto da Maria e está procurando por ela.
- Como assim, Padre Kim? – perguntou o padre mais novo, confuso, ainda não entendendo nada.
- Me dá ela aqui. Precisamos levar ela de volta para a casa paroquial agora. Aqui na igreja não é seguro, porque a qualquer minuto alguém pode entr…
Kim Hae-il não conseguiu completar a frase, porque foi interrompido pelo som do ranger das portas duplas de madeira da igreja sendo abertas. Ele se virou, acreditando que se tratava da Promotora Park, mas se enganou. Era justamente a última pessoa que ele desejava encontrar naquele momento.
- Boa tarde, Padre Kim! Boa tarde, Padre Han! Boa tarde, Irmã Kim! – cumprimentou a todos animadamente e com um belo sorriso no rosto, o Investigador Gu Dae-yeong, enquanto entrava na igreja, carregando um calhamaço de papel. Porém, logo em seguida, sua expressão se transformou de um sorriso, para algo mais parecido com dúvida e curiosidade, quando ele olhou com mais atenção e viu o rosto assustado do padre, que curiosamente, carregava um bebê no colo. Ele parecia ter congelado completamente assim que o viu entrar. Os outros dois religiosos também pareciam paralisados e tinham a mesma expressão estranha em seus rostos. A cena era extremamente suspeita.
- Tudo bem com vocês aí? – perguntou o policial, se aproximando dos três.
- T-tudo bem, Detetive Gu. Como vai você? – respondeu Hae-il, tentando disfarçar e cobrindo o rosto da menina com a mão, de uma forma não muito discreta, para que o policial não a visse. Enquanto ele tentava esconder o rosto da garotinha, ela se esquivava e empurrava a mão dele com as suas mãozinhas.
Às vezes o investigador era bastante desligado, mas não ao ponto de não reparar na criança no colo do padre. Ele, obviamente, ficou curioso.
- Eu vou bem, padre. Estou aqui a trabalho. Vim pedir um favor... – continuou ele, avançando pelo corredor, entre os bancos de madeira da igreja, até finalmente chegar ao altar, onde os religiosos se encontravam. – Mas primeiro, só uma perguntinha pra matar a curiosidade: quem é esse bebê que você está segurando, Padre Kim? Por acaso é seu filho? – perguntou em tom de brincadeira.
No mesmo instante a expressão de desconforto de Hae-il voltou ao bom e velho mau humor. Ele até se esqueceu por um instante de que estava tentando ocultar a identidade da criança e deixou sua raiva tomar conta pela pergunta indiscreta do policial.
- Mais um, Senhor?! Não pode ser… Não, Sr. Gu, ela não é minha filha. – respondeu em tom de ameaça, se aproximando do policial. Curiosamente, parecia que todos os seus amigos pensavam igual.
- Calma, padre. Eu só estava brincando. É lógico que eu sei que ela não é sua filha. – defendeu-se o detetive, dando alguns passos para trás, com medo da reação exagerada do padre. No início conturbado de sua amizade, ele já tinha tido o desprazer de levar um soco do sacerdote no nariz, e sabia exatamente qual era o peso de sua mão e, por isso, não desejava levar outro. Ele tinha feito a pergunta só para provocá-lo, mas não achou que ele reagiria tão seriamente.
Quando Hae-il, irritado, se aproximou descuidadamente do policial, acabou deixando o rostinho sorridente de Maria desprotegido e ele pôde vê-la bem de perto.
- Ah, é uma menina. Agora vendo de perto, eu tenho certeza de que essa princesinha não é sua filha mesmo. Ela é bonita demais pra isso, não é fofinha? – falou Dae-yeong, apertando de leve a bochecha da menina.
Hae-il arregalou os olhos ao perceber que sua raiva descontrolada o tinha deixado descuidado. Ele tinha feito exatamente o que estava tentando evitar. Então tomou rapidamente das mãos da Irmã Kim, uma fralda de pano que ela trazia consigo, e a jogou sobre a cabeça da menina para escondê-la. Parecia que, apesar de seu ato falho, o policial não a tinha reconhecido.
- Leva a Maria de volta para a casa paroquial, Irmã. Daqui a pouco a mãe dela chega para buscá-la. – tentou disfarçar para não prolongar o assunto e não atiçar ainda mais a curiosidade do policial.
A freira entendeu o que Hae-il estava tentado fazer e não fez mais perguntas, apenas esticou os braços para pegar a menina de volta, mas foi interrompida por Gu Dae-yeong, que agora tinha mudado completamente a expressão de seu rosto.
- Espera um pouco aí, Irmã Kim. – ordenou, fazendo com que a freira recuasse e baixasse os braços estendidos para pegar a menina. – Deixa eu ver ela de novo, Padre Kim. Só um pouquinho...
- Pra que você quer ver ela, Investigador? Ela já deve estar até dormindo. – tentou desconversar o padre, exibindo um sorriso forçado.
- Eu só quero ver uma coisinha... – continuou se aproximando e puxou a fralda de cima da cabeça da menina, que nem de longe estava dormindo, estava era rindo, achando que ter uma fralda colocada sobre sua cabeça e depois retirada, era algum tipo de brincadeira. O policial olhou para uma das folhas tirada do calhamaço de papel que trazia debaixo dos braços, depois olhou para a menina. Olhou novamente para o papel, depois outra vez para a menina, só para ter certeza. – Padre Kim…
- Pois não?
- O senhor poderia me dizer, por obséquio, porque diabos está com a herdeira desaparecida dos Baek em seu colo?! – perguntou, num misto de calma e irritação.
- Herdeira dos Baek? Não faço ideia do que o senhor está falando. E cuidado com o seu linguajar, porque estamos na Casa de Deus. Essa aqui é a Maria, filha de uma das fiéis da igreja, que precisou ir a uma entrevista de emprego e não tinha com quem deixar ela. – declarou com a cara mais deslavada do mundo, já inventando outra história, tentando convencer o policial. – Ela me perguntou se eu poderia ficar com a menina por algumas horas e, logicamente, eu aceitei. Quem seria capaz de negar um pedido desse depois de ver essa carinha?
O detetive não respondeu, apenas respirou fundo, e quase a esfregou a folha na cara do padre, que teve que se afastar, porque não conseguia enxergar nada do que estava no papel devido à proximidade. Ele arrancou a folha das mãos de Gu Dae-yeong e finalmente entendeu o motivo da afirmação tão convicta do policial. Aquele era justamente um dos panfletos de desaparecida da pequena Baek Seo-jin, que ele havia trazido na intenção de pedir para que fossem distribuídos durante as missas.
- Ah, eu vi o caso na TV agora a pouco. Fiquei surpreso, porque também achei elas parecidas…
- Parecidas? Nem tenta negar, Padre Kim. Eu sei que, às vezes, eu posso ser meio lerdo, mas dessa vez eu tenho certeza de que é ela.
- Do que vocês estão falando? – perguntou o Padre Han, que não estava entendendo nada, assim como a Irmã Kim, já que o detetive havia interrompido a conversa entre eles bem na hora que Hae-il pretendia explicar a situação aos dois.
A freira tomou um dos panfletos do policial e o compartilhou, atônita, com o padre mais novo, que recebeu a informação com a mesma incredulidade. Eles, com certeza, não eram muito bons em disfarçar. Era até difícil de acreditar que o Padre Han tivesse sido um ator tão famoso na infância, porque naquele instante não conseguiu atuar nada, inclusive, a única coisa que conseguiu fazer, foi confirmar as dúvidas do policial.
- Mas essa é a Maria. – afirmou ele, ao ver a foto no panfleto. – De que herdeira desaparecida dos Baek o senhor está falando? Não estou entendendo nada, Padre Kim…
- Muito obrigado pela ajuda, Padre Han. – disse calmamente Hae-il, mas querendo engolir vivo o colega sacerdote, fuzilando ele com os olhos. – Prestativo como sempre!
O padre estava pensando em como sairia daquela situação sem ter que revelar a verdade ao policial, mas seus planos foram por água abaixo de vez, quando teve outra interrupção.
- Já cheguei, Padre Kim!!!! – berrou esbaforida a Promotora Park, escancarando as portas da igreja, praticamente invadindo o lugar, sem nem se dar conta de quem estava lá dentro. – Já podemos conversar sobre o Presidente Baek.
- Pronto! Agora não me falta mais nada! – desistiu o padre de uma vez. Quando ele a viu surgindo às portas da igreja, se sentiu um verdadeiro derrotado, nem conseguiu mais disfarçar. Primeiro ele quis matar alguém, depois ele quis morrer. Com amigos como aqueles, quem precisava de inimigos?
- Ah, acho que eu cheguei na hora errada, né? – perguntou Gyeong-seon, sem graça e um pouco temerosa, após se dar conta da gafe que tinha acabado de cometer justamente na frente de um policial e, principalmente, depois de ter olhado para Hae-il e recebido em troca seu olhar levemente assassino. Aquela era uma cena verdadeiramente peculiar: um padre, dentro de uma igreja, exibindo um olhar de fúria, enquanto carregava um lindo bebezinho inocente, que sorria. – Como vai, Detetive Gu? Há quanto tempo, né? Eu vi que vocês estão ocupados, então eu volto outra hora. Bye, bye.
Ela até tentou disfarçar e sair pela tangente. Já estava dando meia-volta, quando foi detida pelo policial.
- Paradinha aí, Promotora Park. – disse ele, antes que ela tivesse a chance de cruzar novamente as portas. – O que a senhorita quis dizer com “já podemos conversar sobre o Presidente Baek”?
- Eu disse isso?
- Disse.
- Foi mesmo?
- Com todas as letras. E por uma enorme coincidência, o Padre Kim está justamente ali com a herdeira desaparecida dos Baek, que está em todos os noticiários do país…
- Jura? É mesmo uma coincidência e tanto, né?
- Quase inacreditável…
- Então…
- Ahhh!!! – gritou Hae-il, interrompendo aquela conversa entre o detetive e a promotora que não ia levar a lugar algum. – Vocês dois, parem com essa conversa de maluco e venham comigo. E vocês, – falou dirigindo-se ao Padre Han e a Irmã Kim. – venham também. Temos muito o que conversar. Eu não aguento esse pessoal, Maria. Parece que você é a única sã aqui.
Todos seguiram Kim Hae-il em fila indiana para fora da igreja, em direção à casa paroquial. Lá eles teriam a privacidade que precisavam para conversar sobre o “Caso Baek”. Agora eram cinco pessoas cientes do segredo. Eles realmente não eram muito bons em esconder as coisas…
Fale com o autor