O Sacerdote Impetuoso: Protegendo os Inocentes
1 Conhecendo o impetuoso Padre Kim

A vocação sacerdotal não é um mérito pessoal, mas sim um chamado divino que ressoa no coração daqueles escolhidos para servir a Deus e à comunidade. Entretanto, seguir o chamado de seus corações e ser ordenado padre, é algo que leva tempo e muito estudo, por isso, quando pensamos em sacerdotes, logo de imediato nos vêm à cabeça a figura de uma pessoa sábia, boa, gentil, disposta a nos ouvir, a nos dar conselhos e a curar nossas feridas, oferecendo a todos a ternura do Pai. Alguém que tenta ser misericordioso e compassivo em todas as circunstâncias e que busca ser pastor de todas as ovelhas, sem excluir nenhuma do seu rebanho.
Porém, nem todas essas características “abençoadas” podem ser aplicadas ao impetuoso e singular Padre Kim Hae-il. Não é ele seja uma má pessoa ou um padre ruim, muito pelo contrário. Ele certamente fará absolutamente de tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar suas ovelhas necessitadas e sempre seguirá o que é certo e justo; o único detalhe, é que ele fará isso à sua maneira, sem se importar muito com as convenções ou consequências e usará, inclusive, não somente a Palavra do Senhor para isso, mas também seus punhos, caso considere necessário.
Diferentemente da maioria daqueles que escolhem seguir o caminho do sacerdócio, Kim Hae-il não sentiu sua vocação de imediato. Em seu caso, isso foi algo mais tardio. Ele sempre soube que desejava ajudar e proteger as pessoas, mas primeiramente, escolheu fazer isso servindo ao seu país.
Ele entrou para o Serviço Nacional de Inteligência, o SNI, e logo se tornou um de seus melhores agentes. Além de obstinado, ele era extremamente habilidoso em diversos estilos de artes marciais e manejava com maestria os mais variados tipos de armamentos e, por isso, era enviado para inúmeras missões pelo mundo afora.
Após anos servindo incansavelmente seu país com louvor e dedicação, ele foi enviado para uma missão de combate a terroristas no Uzbequistão, mas daquela vez, algo o estava deixando receoso.
Ele, assim como seus demais companheiros de equipe, sabiam que, além dos terroristas, existia uma grande possibilidade de que também houvessem crianças escondidas no lugar em que eles haviam sido enviados para atacar e, pela primeira vez, ele desafiou as ordens de seu oficial superior. Ele pediu para que houvesse cautela e uma análise melhor da situação, porém, por mais que ele fosse um agente de elite, ele não tinha autoridade para ir contra o seu líder.
Ele era apenas um soldado e soldados devem obedecer às ordens que lhe são dadas, mesmo não concordando com elas, e a ordem recebida naquela ocasião, foi a de detonar uma granada dentro de um galpão.
Sob protesto, ele arremessou o artefato explosivo, mas em questão de segundos, ele, lamentavelmente, viu que seu receio inicial tinha fundamento, pois várias crianças começaram a sair assustadas de seus esconderijos. Ele se desesperou, mas era tarde demais e a explosão já não tinha mais como ser contida. Impedir a tragédia não estava ao seu alcance, e aquela ordem cruel, acabou levando-o a tirar a vida de 11 crianças inocentes.
A vida de Kim Hae-il também acabou naquele momento, assim como sua carreira. Mesmo ele não sendo oficialmente responsabilizado ou punido por ter feito aquilo, ele não foi capaz de se perdoar, muito menos de superar o acontecido, e por isso, desistiu de tudo e pediu dispensa de forma definitiva.
Seu pedido foi aceito e ele foi desligado do SNI. Contudo, em honra aos seus serviços prestados à nação, seus registros foram apagados, para que ele pudesse seguir uma nova vida, sem nada que o conectasse ao passado que ele tanto queria esquecer. Mas esquecer aquelas 11 crianças era algo impossível.
Ele não conseguiu seguir em frente, e em dado momento, entrou em uma jornada de autodestruição. Ele pensou que talvez a única forma de superar aquilo seria com sua própria morte, então passou a beber e a arrumar confusão nos bares, até que um dia, acabou sendo ferido gravemente durante uma briga. Mas ele não encarou isso de uma forma negativa, pois viu que, talvez ali, ele encontrasse seu fim. Era o que ele merecia. A justiça dos homens não o havia considerado culpado nem o punido, mas agora a justiça divina estava entrando em ação.
Ele saiu do bar sangrando e cambaleou por uma viela em uma noite de nevasca, até suas forças acabarem e ele desmaiou. Finalmente o seu sofrimento estava terminando. A neve congelante concluiria o serviço, enquanto seu sangue se esvaía e manchava de vermelho o frio e macio tapete branco.
Contudo, Deus tinha outros planos para Kim Hae-il. O ex-soldado não fazia ideia, mas ainda estava destinado a realizar muitas coisas boas pelos seus semelhantes, então, Ele enviou alguém para ajudá-lo, mesmo contra a sua vontade. E foi aí que Kim Hae-il conheceu o bondoso e gentil Padre Lee Yeong-jun. Um ser iluminado, que era a personificação exata do que significava ser padre.
Ele não somente socorreu Hae-il, como também o ouviu e dividiu sua dor, e lhe mostrou como ele poderia expiar seus pecados, ajudando os outros que também sofriam, através da palavra do Senhor. Foi dessa forma, que ele encontrou sua vocação verdadeira e tornou-se um sacerdote.
Mas havia um grande diferencial em Kim Hae-il: seu temperamento impulsivo. Sua forte natureza não permitia que ele fosse como a maioria dos padres e volta e meia, ele acabava arrumado confusão por causa disso. A palavra paciência certamente não fazia parte de seu vocabulário e dentro dele ainda ardia uma raiva que parecia não ter fim. Ele espalhava a palavra do Senhor, mas também nunca hesitava em distribuir socos e pontapés para resolver algum problema quando achava necessário.
Mesmo depois de se tornar padre, seu corpo não tinha se esquecido de tudo o que havia aprendido ao longo dos anos e ele ainda era uma máquina mortífera, mesmo com as mãos nuas. Muitos bandidos sofreram com a ira do Padre Kim e foram “persuadidos” a se arrependerem na marra.
Devido a isso, assim como os criminosos, o Padre Kim também era figura conhecida na delegacia. Às vezes ele ia levar os bandidos que prendia, outras tantas, era ele quem ficava atrás das grades por passar um pouco da conta com seus castigos. Nem a diocese sabia mais o que fazer para controlar o sacerdote impetuoso, até que um dia, após espancar um bando de golpistas, ele finalmente conseguiu esgotar a paciência do delegado e acabou preso para valer.
Com algum esforço, a Igreja obteve sua liberdade, mas para que a denúncia de agressão contra ele não fosse levada adiante e tivesse desdobramentos mais sérios, a condição era a de que ele fosse afastado, e por isso, o padre acabou sendo temporariamente enviado para outro distrito até que os ânimos esfriassem. E assim, ele foi para Gudam, para a paróquia de seu querido amigo e salvador, o idoso Padre Lee.
De início, a personalidade forte e explosiva de Hae-il assustou aos seus novos companheiros de paróquia: o jovem Padre Han Seong-gyu e a freira, Irmã Kim In-gyeong. Eles estavam curiosos pelo motivo da chegada inesperada do novo padre, mas Hae-il não estava muito receptivo aos novos colegas. Eles até acharam graça quando ele revelou que tinha sido mandado para lá, porque quase tinha matado um golpista e seus capangas durante uma briga e que, até aquele momento, um deles ainda não conseguia fechar a boca direito. Não era brincadeira. E esse, na realidade, era apenas um, dos vários motivos que haviam levado à sua transferência forçada.
Ao rever Hae-il, o Padre Lee percebeu que, mesmo após doze anos, as feridas de seu passado doloroso ainda não tinham cicatrizado e novamente tentou conversar com ele e aconselhá-lo sabiamente, como sempre fazia. Hae-il tinha a cabeça dura e não se abria com facilidade, mas Lee Yeong-jun era uma das poucas pessoas a quem ele realmente ouvia e respeitava.
Quando ele soube que o padre idoso e os demais membros da Catedral de Gudam estavam sendo importunados por alguns bandidos da cidade, a fúria, que nunca tinha verdadeiramente se apagado em seu coração, reacendeu. Ficou ainda mais furioso quando foi denunciar o fato para as autoridades locais e descobriu que eram todos uns corruptos mancomunados com os bandidos. A situação era mesmo complicada, porque os bandidos eram pessoas realmente influentes, como a prefeita, o delegado, o promotor chefe, um deputado, e um empresário local.
As brigas e discussões eram constantes, quando Hae-il encontrava com capangas dos bandidos, mas o Padre Lee sempre tentava acalmar os ânimos e resolver as coisas de forma pacífica, até que numa noite, o Padre Lee desapareceu.
Todos se preocuparam com o seu sumiço repentino, mas a notícia que ninguém estava preparado para ouvir, acabou chegando no dia seguinte: o gentil Padre Lee tinha sido encontrado morto, e o pior de tudo: havia indícios de que se tratava de um caso de suicídio.
Ninguém que conhecia verdadeiramente o velho padre acreditou naquela hipótese, principalmente pelo fato de o suicídio ser considerado um dos piores pecados para o catolicismo.
Hae-il então foi à delegacia refutar os acontecimentos e exigir que o corpo de seu amigo fosse autopsiado, mas ninguém lhe deu ouvidos. Apenas a investigadora novata, Seo Seung-a compactuava com as opiniões do padre, mas a recém-chegada não tinha muita influência e não se dava bem com o seu parceiro veterano, Gu Dae-yeong, que, assim como seus demais colegas, não fazia nada além de atrapalhar toda e qualquer investigação a mando do delegado, também envolvido com os criminosos.
A situação se complicou ainda mais, quando, alguns dias depois, foi divulgado pela imprensa, que o falecido Padre Lee estava sendo investigado por desvio de verbas da igreja e também por assédio a uma das fiéis, dando assim, uma justificativa para o seu “suicídio”.
Quando Hae-il soube disso, sua fúria explodiu para valer, porque parecia que os assassinos do Padre Lee, não satisfeitos com sua morte, também pretendiam esconder seu crime, desviando a atenção da opinião pública, destruindo completamente a sua imagem.
Sem a ajuda da polícia corrupta, que também estava nas mãos dos criminosos, o recém-chegado Kim Hae-il, precisou tomar medidas extremas, como, por exemplo, pedir ajuda ao próprio Papa. Com o apoio de Sua Santidade, Hae-il conseguiu, não somente obrigar a polícia a continuar com as investigações, mas também, fez com que eles lhe permitissem acompanhar e participar de todo o processo bem de perto, praticamente liderando a operação.
Quando ele realmente começou a incomodar os figurões do crime, eles passaram a investigar seu passado misterioso e aí, um novo escândalo se sucedeu. O mundo descobriu o que Hae-il fazia antes de se tornar padre, e sobre a tragédia das 11 crianças. Ninguém quis saber se aquilo tinha sido fruto do cumprimento de uma ordem cruel de seu oficial superior e a opinião pública se voltou contra ele, assim como havia se voltado contra o Padre Lee, e isso fez com que ele revivesse toda aquela dor de seu passado. Mas descobrir a verdade sobre o caso do Padre Lee era mais importante do que seu sofrimento e, depois de muito insistir, o jeito impetuoso, porém, justo, do Padre Kim, acabou conquistando todos ao seu redor, até mesmo o investigador Gu Dae-yeong e a Promotora Park Gyeong-seon, que de início só atrapalhavam as investigações e protegiam aos criminosos.
Com o tempo e a ajuda de várias pessoas, meio atrapalhadas, porém, destemidas, a verdade finalmente veio à tona e descobriu-se que o Padre Lee havia sido assassinado de forma acidental, depois de ter sido empurrado sobre uma mesa de vidro durante uma discussão. Os bandidos haviam jogado seu corpo de um penhasco para simular o suicídio e tentar encobrir tudo, mas a persistência do Padre Kim acabou colocando todos os envolvidos atrás das grades e trazendo de volta ao caminho correto algumas ovelhas de seu rebanho, que haviam temporariamente se desgarrado.
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