O Sacerdote Impetuoso: Protegendo os Inocentes
2 A família da Catedral de Gudam

Depois de vários meses com a igreja praticamente vazia, os fiéis finalmente estavam lentamente retornando. Não estava sendo fácil para todos superarem os sucessivos escândalos envolvendo a Catedral de Gudam.
Primeiro, a comoção com a chegada do impetuoso Padre Kim Hae-il, em seguida, o suposto suicídio do amado Padre Lee Yoeng-jun, seguido das falsas e inescrupulosas acusações, que só serviram para macular sua santa memória.
Quando as denúncias vieram a público, a grande maioria dos fiéis, acabou se mostrando não tão fiel assim, pois começou a julgar e a condenar impiedosamente uma pessoa que sempre havia sido boa e generosa em vida, mas que agora tinha seu nome jogado na lama, sem poder se defender. Depois disso, os fiéis abandonaram de vez a igreja, e as missas, que passaram a ser celebradas pelo Padre Kim, se tornaram cada vez mais vazias.
Certamente, o jeito nada delicado do novo padre, também não ajudava muito a convencer os fiéis a retornarem à Casa do Senhor, mas quando tudo foi esclarecido, a rotina foi, pouco a pouco, voltando ao normal.
Com a morte do Padre Lee Yeong-jun, Kim Hae-il tinha perdido seu amigo mais próximo e confidente, mas foi justamente graças a ele, que acabou encontrando uma nova família de pessoas tão peculiares quanto ele, que lhe acolheu de braços abertos. Foi assim que ele conheceu a indomável Promotora Park Gyeong-seon, o atrapalhado investigador Gu Dae-yeong, a valente investigadora Seo Seung-a, o amável Padre Han Seong-gyu, a protetora Irmã Kim In-gyeong, o habilidoso Songsak Tekaratanapeuraseoteu e o inteligente Oh Yo-han.
Todos eles, enfrentado seus próprios problemas e dilemas, acabaram se unindo nas dificuldades e formando laços. O Padre Lee havia lhe ajudado a seguir em frente após a morte das crianças e essa família confusa e atrapalhada, havia lhe ajudado as seguir em frente após a morte do Padre Lee. Mas não só isso, eles tinham também ajudado a descobrir a verdade por trás de seu suposto suicídio, se pondo, inclusive, em perigo, para ajudá-lo a colocar todos os culpados atrás das grades.
Às vezes Hae-il perdia a paciência com eles, principalmente com o Investigador Gu, mas todos eles já haviam entrado em seu coração e agora não tinha mais jeito, e ele os protegeria com unhas e dentes até o fim de sua vida. Ele havia ido a Gudam apenas para passar um tempo como punição por seu comportamento contraindicado para sacerdotes, mas lá, encontrou sua verdadeira casa e nunca mais partiu. Deus realmente agia de formas misteriosas.
*****
Após celebrar quatro missas naquele domingo com a ajuda do Padre Han, a quem ele carinhosamente considerava como seu “irmão mais novo”, Kim Hae-il finalmente teria o seu merecido descanso. A noite havia chegado e todos estavam cansados, mas felizes com o êxito daquele dia, porque depois de um longo período de abandono dos devotos, todas as missas haviam sido realizadas com lotação completa.
- Parece que os fiéis finalmente estão voltando para a Casa do Senhor! – observou o Padre Han, durante o jantar na casa paroquial.
- Depois de tudo o que aconteceu, eu achei que eles nunca mais voltariam. – disse a Irmã Kim, animadamente. – Mas o senhor bem que poderia ter se esforçado um pouco mais para conquistá-los mais facilmente, não é, Padre Kim? Às vezes, seus sermões são um pouco duros demais.
- Conquistá-los? – indignou-se o Padre Kim com o comentário da freira. – E por acaso eu estou participando de algum programa de namoro pra ter que conquistar alguém? Deus é amor, mas tem horas que precisamos ser duros. Eles não hesitaram nem por um segundo para crucificar o Padre Lee depois daquelas denúncias descabidas, por isso eu não tenho obrigação nenhuma de adular eles.
- Sim, eu entendo que eles erraram, mas nosso dever como emissários do Senhor é perdoá-los e colocá-los de volta no caminho certo. – insistiu a freira.
- Eles erraram e precisam enxergar a verdade por si mesmos. – continuou o Padre Kim, irredutível. – A verdade pode até doer, mas só podemos realmente encontrar o Senhor, depois de enxergarmos os nossos defeitos e admitimos os nossos erros. A maioria adora colocar a culpa nos outros, sempre achando que o errado é o outro, nunca eles próprios. Não é a mim ou ao Nosso Senhor que eles devem pedir perdão, e sim ao Padre Lee. Não adianta cometer erros a torto e a direito e depois vir aqui pedir o perdão de Deus. Ele tem mais o que fazer do que ficar dando penitência para aqueles que ainda não se arrependeram verdadeiramente de seus pecados.
- Eu até concordo com isso, Padre Kim, mas o senhor poderia dizer isso de um jeito mais… – pensou a freira por um instante para encontrar a palavra mais adequada. – ...mais delicado. E se quiser que os fiéis continuem voltando, te dou um conselho: pare de ter ataques de histeria e de gritar com eles durante as missas. Isso assusta as pessoas, sabia? O senhor deveria ser mais como o Padre Han…
- Pois eu já acho que o Padre Kim nunca deveria mudar. – discordou o Padre Han, sorrindo. – Isso é exatamente o que torna o Padre Kim, o Padre Kim. De início, ele pode até parecer ser meio duro e assustar um pouco, mas depois que se conhece ele melhor, descobre-se que ele também tem um lado carinhoso e protetor. Não foi assim conosco? Quando ele veio para cá pela primeira vez, estranhamos seu jeito bruto e explosivo, mas depois de tudo o que aconteceu e tudo pelo que passamos juntos, hoje o entendemos melhor. Hoje eu vejo que esse seu jeito peculiar é capaz de despertar o que temos de melhor dentro de nós. Eu acho até que aqueles seus acessos de raiva repentinos deram uma diminuída, não é Padre Kim?
Kim Hae-il demorou um pouco para responder a pergunta do padre mais novo, porque ficou realmente tocado por suas palavras. Depois que Hae-il finalmente começou a baixar a guarda com seus novos colegas, eles tiveram momentos muito divertidos e também momentos muito difíceis, principalmente depois de o próprio Padre Han ter ficado entre a vida e a morte, após também ter sido gravemente ferido, bem diante de seus olhos, pelos mesmos bandidos que haviam matado o Padre Lee. Presenciar aquele ataque brutal a uma pessoa completamente indefesa, sem conseguir ajudá-la, trouxe as trevas de volta ao coração de Hae-il por algum tempo e o fez duvidar da sua fé e querer desistir do sacerdócio. Ele queria vingança e só não tirou a vida dos bandidos graças as palavras da Irmã Kim, do Inspetor Gu e da Promotora Park. Se não fosse pela perseverança deles e pela sua fé em Hae-il, naquele momento, ele teria ido por um caminho sem volta.
- Assim você me deixa sem jeito, Padre Han. – disse Hae-il, verdadeiramente encabulado, o que não era algo comum de se presenciar. – Acho que a raiva diminuiu um tiquinho depois que eu conheci vocês.
- Mas isso é porque acho que isso é contagioso e você passou parte dela pra gente. – disse a irmã, dando risada.
- Acho que nisso, eu tenho que concordar com a Irmã Kim. – disse o Padre Han, também achando graça. – Antes eu pensava que tudo era a vontade do Senhor e aceitava calado até mesmo as coisas que me desagradavam, porque achava que não havia nada que pudéssemos fazer, mas hoje, eu também me irrito com as injustiças e vejo que não podemos deixar tudo nas mãos d’Ele e que não precisamos aceitar tudo em silêncio. Nós também somos capazes de ajudar, não apenas com orações, mas com ações.
- Exatamente isso, Padre Han! – disse Hae-il, orgulhoso de seu “irmãozinho”. – Acho que meu trabalho aqui está feito. Se me mandarem embora pra outra paróquia amanhã, posso ir tranquilo.
- Não fala isso nem de brincadeira! – disse a Irmã Kim, que apesar de ser a responsável pelas broncas, (afinal alguém tinha que colocar ordem naquela casa) também já nutria um grande carinho pelo padre estressado. – Se ousarem tirar o senhor daqui, eu vou até a diocese e faço um escândalo que eles nunca mais vão esquecer!
- Tá bom irmã, eu retiro o que eu disse. – disse o Padre Kim, achando graça da reação exagerada da freira. Ela dizia que ele era temperamental, mas ela era igualzinha. A única diferença, era que ela, ao menos, se esforçava para se controlar, ao contrário dele, que fazia questão de externar seu descontentamento na mesma hora e de todos os modos possíveis, como com gritos, socos, chutes ou destruição das coisas mais próximas. A própria delegacia de Gudam não estava ilesa e acumulava alguns prejuízos materiais originados depois das visitas irritadas do Padre Kim. – Agora vamos comer, porque eu estou morrendo de fome e acho até que a comida já esfriou.
Todos os momentos ao redor daquela mesa eram assim, eles raramente tinham uma refeição silenciosa. Sempre conversando, rindo, discutindo ou planejando coisas que iam de “qual será o assunto do sermão da missa do próximo domingo?” até “eu vou acabar com a raça da prefeita, do deputado, do delegado e roubar todo o dinheiro sujo do cofre secreto deles, quem está comigo?”. Enfim, monotonia não era com eles.
Quando eles pararam de falar sobre a personalidade difícil do Padre Kim e focaram em outros assuntos, o jantar finalmente prosseguiu e todos puderam desfrutar de uma simples, porém saborosa refeição e foram descansar pouco tempo depois.
Domingo era o dia mais cansativo no que se referia aos assuntos eclesiásticos, pois era o dia que mais tinha missas. Durante a semana eles se ocupavam da administração da igreja e também de um orfanato. Eles eram bastante ocupados e também mereciam descansar.
Depois de jantar e ajudar a lavar a louça, Kim Hae-il foi para o seu quarto e logo após trocar o uniforme preto de clérigo por algo mais esportivo e confortável, se jogou na cama. Estava com o corpo moído. Deitado, ele se virou e olhou para o porta-retratos com uma foto dele, junto do falecido Padre Lee, que ele mantinha na mesinha de cabeceira ao lado de sua cama.
Para ele, aquele não era apenas um porta-retratos, era uma espécie de confessionário pessoal, pois quase que diariamente, ele costumava conversar com o objeto. Aquele tinha sido o modo que ele havia encontrado de manter o Padre Lee sempre por perto. Conversar com aquele porta-retratos, de alguma forma, o acalmava e lhe dava força e confiança nos momentos de hesitação. Era como se o querido Padre Lee nunca o tivesse abandonado.
Naquela noite incomumente quente de outono, ele pegou o porta-retratos e se sentou na cama. Sorriu ao olhar a fotografia e trocou algumas palavras rápidas com seu amigo antes de fazer suas preces noturnas.
- Que família mais doida essa que o senhor foi me arrumar, hein, Padre Lee? Mas tudo bem, porque eu, com certeza, sou o mais doido deles. – disse ele, soltando uma gargalhada em seguida e devolvendo o porta-retratos à mesinha de cabeceira. Logo depois se ajoelhou ao lado da cama e fez uma breve oração.
- Obrigado, Senhor, por ter colocado o Padre Lee e esse bando de malucos no meu caminho. Eles podem ser um pouco atrapalhados, mas seus grandes corações são repletos de amor. Sem eles, eu acho que já teria desistido de tudo há muito tempo. Por favor, cuide de todos eles, quando eu não estiver por perto para fazer isso. Olhe com um pouquinho mais de atenção para aquela inconsequente da Promotora Park e aquele destrambelhado do Investigador Gu. O Senhor sabe como eles são: é só a gente piscar, que eles já estão aprontando. Muito obrigado. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
Após encerrar a prece, ele fez o sinal da cruz e se jogou novamente na cama, com os braços e pernas estirados, como se fosse uma estrela. Ele estava cansado, mas o calor e os pernilongos irritantes estavam realmente incomodando.
Depois de tentar, sem sucesso, dar um fim nos monstrinhos voadores sugadores de sangue e se virar, durante um bom tempo, impacientemente de um lado para o outro na cama, sem conseguir dormir, ele desistiu e se levantou irritado. Queria um copo d’água para ver se ajudava a refrescar um pouco. Acendeu apenas algumas luzes da casa paroquial e tropeçou em algumas coisas pelo caminho, mas finalmente chegou à cozinha e se fartou de um copo d’água bem gelado. Sentiu também um desejo de tomar um sorvete, mas descobriu que não tinha na geladeira. Ficou desapontado, mas já era tarde e ele não estava disposto a sair para comprar àquela hora, embora soubesse que a loja de conveniências próxima, ficava aberta 24 horas por dia. Decidiu que seria uma das primeiras coisas que faria na manhã seguinte. Teve que se contentar só com a bebida gelada mesmo.
Ele já estava voltando para o quarto, quando um som estranho vindo de fora o deteve.
A princípio, ele achou que pudesse ser um gato resmungando, mas ao seguir o som e chegar perto da porta de entrada da casa paroquial, se deu conta de que se parecia mais com um choro de criança. Ele achou que estivesse ouvindo coisas e, desconfiadamente, encostou o ouvido na porta. Em seguida, deu dois passos, assustado, para trás.
Por mais que ele preferisse acreditar que se tratava de um gato, ele não teve mais dúvidas: era um choro de bebê. Rapidamente ele abriu a porta e lá estava, dentro de uma caixa de papelão, um bebezinho, de apenas alguns meses de idade, com lágrimas nos olhinhos.
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