O Sabor Da Insanidade
3 Pagando Pelos Pecados
– Larga a arma, agora! – escutei no segundo seguinte em que a porta se abriu.
Com meu coração acelerado, o terror e a adrenalina espalhados por todo meu corpo, minha mente demorou um pouco para assimilar a situação.
– EU DISSE PRA VOCÊ LARGAR A ARMA!
Como se uma bolha tivesse estourado, eu rapidamente compreendi o que acontecia, duas pessoas estavam apontando pistolas em minha direção. Sem nenhum tempo disponível pra pensar, eu deixei meu revolver cair suavemente.
– Quem é você? O que você quer? – foi o que disse o homem mais exaltado.
Eu tentei, na medida do possível, controlar meu nervosismo e dei uma rápida analisada no lugar. Aquele era um quarto vasto e espaçoso, com várias coisas espalhadas pelo chão, algumas grandes sacolas encostadas na parede, talvez fosse algum tipo de dispensa.
– Meu... meu no-nome é Thomas Schimdt. – não consegui evitar de gaguejar – Eu estava procurando comida, perdão se...
– Perdão o caralho, olha a merda que você fez! Deixe sua arma ai e vaza, agora! – A agressividade do homem me deu um susto e comecei a sentir um misto de raiva e frustração. – Vou contar até três! Um...
– Steve, pare agora! – Essa voz me pegou de surpresa, pela primeira vez, notei que havia uma velha senhora sentada ao fundo do aposento. – Eu não te eduquei para você ser tão violento. O homem já está desarmado, vamos conversar um pouco com ele primeiro.
– Conversar? Você está louca, mãe? Este filho da puta acabou de destruir a porta e abrir caminho para os mortos nos foderem. Olha o corpo dele! Ele foi mordido, esse cara já está morto e vai nos ferrar ainda mais.
Nesse meio tempo, consegui prestar atenção nestas pessoas. O tal Steve parece forte e saudável, não deve ter mais de trinta anos, o outro homem, apesar de bem mais velho, também parece manter seu vigor, já a mulher está bem debilitada, seus membros parecem atrofiados, sua pele é muito pálida e é possível enxergar as veias e as rugas saltando.
Finalmente, o homem mais velho, com uma postura autoritária e serena, disse:
– Já chega, deixe que eu cuido disso. – ele olhou para mim com seus olhos escuros e exalando frieza – Rapaz, me dê uma boa razão para eu não me livrar de você.
Preciso ficar calmo, esse cara é duro, tenho que medir minhas palavras.
– Por favor, eu estava com minha filha numa casinha perto daqui, ela tem apenas oito anos, estamos passando fome, preciso levar comida. Por favor...
– Sinto muito, — ele me interrompeu, sua voz era seca e afiada – não temos nada pra você aqui, não temos nem o bastante para nós, imagine para dividir.
– Mas...
– Basta! Olhe seu estado, se o que diz é verdade, o melhor é que nem volte para ver sua filha, você vai apenas mata-la mais rápido.
Nesta hora senti um espasmo e comecei a tossir, novamente aquele gosto horrível de sangue e putrefação, meu coração parece bater de forma desordenada, como se fosse um trem desgovernado, meu corpo inteiro dói.
– Olha aí, tô falando! – Gritou o maldito Steven, desta vez olhei bem nos seus olhos e vi que, muito além da fúria, o que transbordava em seu semblante era o medo, o cara estava se cagando como uma criança sendo estuprada – Esse imbecil está quase morto, vamos acabar logo com isso!
Não suporto mais, bando de filhos da puta, se eu puder pegar minha arma rápido, posso matar todos e levar o que conseguir. Mas... ‘‘Chega disso pai, chega!’’, não, não posso Sarah, é assim que as coisas funcionam. Vou matar todos agora e...
– NÃO! O que vocês estão pensando?! Escutaram o que ele disse? Tem uma criança sozinha, como podem simplesmente abandoná-la assim? – Disse a senhora, para o meu espanto.
– Mãe, você está totalmente louca, não podemos dar comida pra esse idiota!
– Não precisa dar comida a ele. Sim, ele está acabado, mas a menina não, tragam ela aqui e cuidaremos dela!
Sim, sim! Sarah... me desculpe, mas essa é a única chance.
– Por favor, cuide dela, eu imploro... – não aguentei e comecei a chorar, as lágrimas saíram de meu rosto de forma incontrolável.
– Elza, não podemos cuidar de mais ninguém! – disse o homem, dessa vez com irritação no lugar de frieza.
– Se não podem cuidar de uma criança, então também não podem cuidar de mim! Mal consigo andar e sou um fardo ainda maior em termos de sobrevivência! – Olhei bem para a mulher, sua face demonstrava um misto de nojo com decepção – O que vocês se tornaram? Monstros sedentos por sangue? Não foram vocês que amaldiçoaram aquelas pessoas que queriam me deixar pra trás porque estou velha e fraca?
– Mas... – o filho nitidamente estava puto, estava à beira de espancar a própria mãe – e como sabe que ele está falando a verdade?
– E porque ele haveria de mentir? Olhe o estado dele, que diferença poderia fazer? Steve, sou mãe há muitos anos, consigo diferenciar um pai desesperado de um mentiroso.
– Então... que ele vá sozinho e traga a criança aqui!
– Não! Este homem não chegará sozinho neste estado a lugar nenhum. Mandá-lo sozinho é o mesmo que sentenciar a garota à morte! Willian, acompanhe o senhor Thomas Schimdt até o lugar que ela se encontra, depois decidimos o que fazer com ele.
– Muito bem... você venceu Elza. — o homem recuperou seu semblante calmo e sereno, lançou-me um olhar ainda mais frio, quase arrogante, e por fim completou — vou com ele ver o que posso fazer. Filho, tente dar um jeito nessa porta e cuide de sua mãe enquanto eu não volto. Quanto a você, é melhor não tentar nenhum tipo de truque.
A mulher me parece uma pessoa legitimamente honesta. Não tenho outra escolha, preciso confiar que ela cuide de Sarah. Sarah...
O homem desceu uma escada de mão pela janela e saímos por uma área onde os mortos não conseguiam nos ver.
Meu corpo está piorando, sinto uma tontura cada vez mais forte, os espasmos de dor são cada vez mais frequentes. Tenho que aguentar até encontrarmos Sarah, não falta muito.
... Um disparo...
– AAAAAAAAAAAAAAH!
Minhas costas, minhas costas! Caí no chão, meu corpo está gélido, sinto um frio infernal se espalhando por toda parte... Que tipo de dor é essa? Não tenho mais forças... O que esse filho da puta...
– Sinto muito, rapaz. Não temos espaço para mais um.
Filho da puta, maldito. Não... Não acredito... Não consigo fazer nada. Quero me levantar e rasgar todo o corpo desse...
Meu coração... cada batida é como um soco, cada respiração parece me enforcar, não enxergo mais nada. Sarah!
Sarah...
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