Milena chega à casa, juntamente com seu pai e Ricardo. Sheyla e Clóvis vêm logo atrás. Todos ficam bem à vontade na sala de estar. Milena vai à escada e diz as palavras, há muito tempo pronunciadas por sua senhora, Lady Anthonya.

— Pret Blant Ocará, Paranã-Pukana.

A porta se abre, sem necessidade do sangue de Milena, como havia ordenado ao Lacaio. Ele desaparecera, mas, a essas alturas, imaginava que estivesse morto, e pelas mãos de Lázarus. Senão, como havia encontrado seu corpo? Enquanto descia as escadas ante as vistas dos representantes dos clãs Nosferatu e Brujah, imaginava as atrocidades que seu Lacaio deveria ter sofrido, para que Lázarus conseguisse arrancar dele o segredo.

A sala continua às escuras, como sempre foi. Com seus olhos brilhantes, Milena vê cada detalhe, como determinara. O vazio da sala de essências indica que Lacaio foi bastante inteligente em escondê-las. Na sala contígua, o Livro de Nod, intacto. Alguns livros estão em seus lugares. Milena estende a mão direita, e um livro específico, de capa negra (como quase todos os livros daquela biblioteca escondida) sai da estante por encanto, e flutua no ar até suas mãos. Na capa, inscrição dourada: “Ahura Kad”, que quer dizer “Livro de Feitiços”. Com seu olfato bastante apurado, procurou indícios de invasores, mas não encontrou nenhum. Volta à sala, onde todos estão à espera.

Milena volta, mas não fecha a porta da escada, por onde passa. Se dirige ao seu pai, pelo nome.

— Raul, venha comigo.

— Não me chama mais de pai?

Milena olha para seu pai biológico.

— Sou um vampiro. Minha mãe é Lady Anthonya. Não tenho parentesco nenhum contigo.

— Por que me tratas assim? Sou seu pai!

— Meu pai que queria me trair com aquele Malkavian nojento!

— Não queria te trair. Entenda, ele é meu senhor!

— Mas você estava pronto para se esconder da Camarilla, para que ele me ferrasse! Agora, você vai fazer o mesmo, mas por mim!

— Não entendi.

— Vai ficar preso, escondido da Camarilla, para que o desgraçado não te encontre e não possa me denunciar. Então, eu vou destruí-lo, como sempre quis, exterminá-lo com minhas mãos. A ele, e a Marie, que abandonou minha mãe. Pode ter certeza disso.

Sheyla e Clóvis observam a cena. Os que outrora foram pai e filha, agora eram apenas vampiros lutando pela vingança, pela sobrevivência do mais forte. Nada mais, nenhum vínculo afetivo restou. É o que acontece com os vampiros. E eles passaram a refletir sobre suas próprias vidas, a vida que deixaram para trás no momento do abraço, há tantos séculos.

Para Ricardo, Milena estava exagerando. Sabia que ela era centrada e estava fazendo o que deveria, mas aquele Malkaviano Criança da Noite foi o pai dela um dia. E ele ainda não conseguira esquecer sua vida anterior ao abraço. Ainda sentia na pele cada tremor, cada esperança, cada lágrima e cada sorriso de quando era um humano. Lembrava-se de quando conheceu a Tremére, e de o quanto ela foi forte para mantê-lo vivo. Agora, aquela guerra maluca estava revirando os sentidos das histórias de vida. Mas, não era assim que se passava a eternidade vampiresca?

Milena subiu ao primeiro andar do casarão, guiando Raul, visivelmente agitado. Segue para um quarto perto do seu. Está há muito sem uso. Abre a porta, e o coloca lá dentro.

— Vai ficar aí até segunda ordem.

— Por favor, minha filha, não pode me perdoar?

— No Dark World, não há o que perdoar. Não existe eu e você como pai e filha. Não há essa relação. Agora, você é meu prisioneiro e vai ficar aí. Quem sabe, com seu bom comportamento, deixarei que você me ajude na Jyhad com os Tremére, os Malkavian e os Gangrel? Mas por enquanto, você vai ficar preso.

Raul tenta implorar, mas Milena não se importa. Seu rosto é impassível como pedra, e foi assim que o viu quando fechou a porta e a selou com um feitiço de sangue. Jamais poderia sair dali, sem sua autorização. O Mundo das Sombras era traiçoeiro, num momento se está por cima, num outro, por baixo. E, neste devaneio, Raul não imagina o quanto está certo.