O Retorno Ao País Das Maravilhas
1 1- Alice.
Notas iniciais
Alice fitava a janela do seu quarto, calada.Uma lágrima percorria sua bochecha pálida, caindo em sua jaqueta. Mais uma discussão, como sempre. Há alguns meses, seu pai faleceu. Teve que morar com uma tia que nem sabia que tinha, mas isso não era o pior de tudo. A tia era alcoólatra, e todo dia chegava bêbada em casa junto de algum homem.Era difícil sobreviver feliz naquelas condições, e no seu colégio tudo ia de mal à pior. Era como se tivesse morrido junto de seu pai, ninguém falava com ela, ninguém a notava, era um fantasma.Seus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta, era ela.
- Alice! Alice! Abra essa porta agora, ou te ponho pra fora de casa. — Disse a voz esganifada do outro lado.
- Você não pode fazer isso, eu sou de menor, você seria presa. — Comentou Alice, ainda fitando a janela.Um tempo se passou, e após mais algumas batidas, a mulher bufou, desistindo.
- Arg, que maldição... — Comentou, descendo as escadas com seus sapatos de bico fino.
A garota apertava um livro contra o peito.Moveu os olhos até ele, o observando detalhadamente. Ainda se lembrava das tardes que passava com seu pai quando nova, deitada na grama.O pai lendo Alice no País das Maravilhas, seu livro favorito."Você nunca enjoa dessa história?"- Perguntava o pai, entre risos."Nunquinha, é a história mais linda de todas, e tem o meu nome nela. Papai, eu quero ir pra lá." — Respondia Alice, com os olhos brilhando."Quem sabe um dia, filha.Quem sabe um dia..." — Era sua resposta, sempre que ela falava sobre aquilo. Ele sorria misteriosamente, como se realmente acreditasse que o País das Maravilhas existisse.Mas não existia.Nada daquilo existia.O mundo é realista e triste.
Alice deitou-se na cama, não se preocupando em vestir um pijama. Estava simplesmente exausta. Fechou os olhos, sua mente estava tão confusa que nenhum pensamento permitia-se ser entendido.Um turbilhão de imagens passava pelos olhos da garota, imagens desfiguradas do passado, que nunca voltariam à tona. Em poucos minutos, caiu no sono. E teve mais um sonho.
Estava em um campo de rosas brancas. As colinas verdes esbanjavam lindos botões de rosas, e ao longe montanhas cinzentas davam fim ao mar de flores. Alice estava sentada no meio das delicadas rosas, estava vestindo um vestido azul, que a lembrava muito o que a Alice do livro usava. Ao seu lado, de pé, estava uma mulher de idade. Apesar dos traços do tempo em seu rosto, era exuberante. Sua pele ela branca como a cor das rosas, assim como seu vestido, que tinha mantas que voavam ao vento. Tinha um coque de cabelos brancos com nuances cinza, adornados de uma tiara de cor prata. Ela fitava Alice, sorrindo com seus lábios de cor bordô.
- Está chegando a hora, querida. — Disse ela, com sua voz meiga e doce.
- Ainda não estou pronta... — Disse Alice, só agora percebendo que tinha uns dez anos a menos, sendo ainda uma criança.
- Você será bem recebida, e na hora certa tudo vai ser revelado. — Disse a mulher, entregando uma linda rosa desabrochada para Alice, que a pegou com seus pálidos dedos. — Ah, tem mais uma coisa. Por favor, não se envolva com... — Antes que pudesse terminar, um som familiar começou a tocar. Seu despertador.
Alice abriu os olhos, fitando o teto escuro do quarto. Praticamente jogou o despertador na parede, frustrada por não terminar aquele sonho. Todos os anos, tinha o mesmo sonho. O campo de rosas brancas já se tornara um local costumeiro, pois ela o conhecia bem.Resmungou, se aprontando para ir para o colégio. Fitou o uniforme sujo jogado na porta de seu quarto. Não era de se surpreender que sua tia não o colocou na máquina de lavar semana passada.
Mais uma advertência por não usar o uniforme...- Pensou ela, se dirigindo ao armário para vestir outra roupa. Colocou uma calça jeans esfarrapada, e um casaco azul por cima de uma regata branca.Colocou a mochila nas costas. Tinha feito a lição? Não se lembrava.
Após alguns minutos, estava na rua, fitando o sol da manhã. Mais um dia nebuloso na escola, como de costume. Até que de repente, algo a surpreendeu.
Saindo de um beco, surgiu um coelho. O coelho usava roupas elegantes e um óculos antiquado.Alice parou, fitando a criatura, sem reação.Um coelho usando roupas? Quem fez isso com o pobre animal?
- Esses vândalos... ficam se aproveitando da ignorância dos animais... — Resmungou ela, se aproximando aos poucos do coelho, que farejava o ar como se estivesse à procura de algo.
Ele a avistou, e imediatamente saiu saltando à uma velocidade incrível de volta para o beco. Alice apertou o passo, e logo em seguida se pôs a correr. O coelho entrou no beco, e a garota o seguiu, fazendo a volta. Quando viu, não havia nada. Era um beco sem saída, com algumas latas de lixo caídas.
Caminhou pelo beco, vasculhando possíveis esconderijos que um coelho escolheria. Quando chegou ao fim, percebeu que havia um grande buraco, provavelmente do tamanho de seu corpo. Á frente do grande túnel vertical, havia uma rosa branca desabrochada, idêntica à do seu sonho.
- Só pode ser brincadeira... — Murmurou ela, se aproximando da borda e pegando a rosa. Fitou a escuridão profunda do buraco, algumas pétalas da rosa caíram, flutuando pelo túnel e mergulhando no breu. — Há, agora vou bancar a Alice e cair lá dentro, e ir pro mundo das maravilhas. — Disse ela, reprimindo uma risada. Mas era verdade.
Ao invés de cair lá dentro, o chão à sua volta começou a rachar. Alice fitou os arredores do grande túnel, não percebendo as pequenas rachaduras em torno de seus pés. Um único estralo foi ouvido, ecoando pelo buraco. Em uma fração de segundos, o concreto se abriu, mergulhando na escuridão.
Alice gritou, fitando o céu nublado se afastando cada vez mais, e fechou os olhos. Sabia que dalí em diante, não estaria mais em casa.
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