Alice caía cada vez mais no fundo e grande buraco. Seus cabelos negros flutuavam no ar, sua mochila estava bem longe, à deriva no grande túnel. Após alguns segundos, abriu os olhos, e se deparou com vários objetos que flutuavam como se não tivessem gravidade.

Havia de tudo, dos mais antigos aos mais recentes objetos, pensou ter visto até uma caixa de pizza. Todos flutuavam, caindo lentamente como plumas. Após alguns minutos, se deparou com uma abertura, a qual passou com extrema velocidade, caindo em um chão côncavo. Quando pensou que havia se recuperado do susto, caiu novamente, pois na verdade estava no teto de uma pequena cùpula.

Se ajoelhou no chão quadriculado, logo em seguida se levantando.

Minha mochila... — Resmungou, fitando a abertura negra no teto. Baixou os olhos, fitando o local.

As paredes eram de metal, um metal muito peculiar, uma mistura de cobre e ouro. Várias portas de ferro se encontravam alí, dispostas em ângulos e tamanhos diferentes.

Só pode ser um sonho... eu ainda não acordei. — Pensou ela, coçando a nuca e fitando o lugar. — Que divertido, estou dentro da história da Alice. Mas onde estaria o vidrinho escrito beba-me?

Analisou o local, não encontrando nada. Passou o dedo pelas paredes metálicas, analisando melhor o teto do estranho recinto. Haviam vários desenhos de garotas loiras, de vestes e alturas diferentes, todas loiras e com tons de pele parecidos.

- Eu não sou bem uma Alice... — Resmungou ela, olhando para sua jaqueta e sua calça esfarrapada. — Sou pálida, tenho cabelo preto...

Seus pensamentos foram interrompidos por algo que tocou com a mão. Era um relevo na grande parede gélida. Ela olhou, reparando que parecia ser um botão. O apertou, sem delongas, curiosíssima.

Ruídos foram emitidos através da parede, e do lado oposto da cúpula uma parede girou cento e oitenta graus, mostrando um compartimento secreto. Correu até lá, e assim que entrou, a parede se fechou, a deixando na escuridão.

Após alguns minutos, quando já estava pensando que ficaria a eternidade toda no escuro total, uma vela tremeluziu na escuridão, seguida de outras quatro velas, que revelavam um pequeno compartimento. De um dos lados, havia um estranho armário, cheio de desenhos cravados no metal. No armário haviam milhares de pequenos conta-gotas dispostos em compartimentos prateados.

- Nossa... Que coisa mais moderna... — Murmurou, se aproximando do armário e pegando um dos conta-gotas. Parou para pensar, depois pegando mais três e colocando nos bolsos da calça jeans. Colocou todas as gotas do que estava em sua mão. Sentiu seu corpo esquentar, o sangue corria mais rápido em suas veias. Em poucos minutos, estava encolhendo. Era como se estivesse em um elevador, descendo vagarosamente até o chão. Pensou ter visto algumas faíscas, mas deve ter sido coisa de sua mente. Por mais contra-senso que parecesse, suas vestes também encolheram. Como aquilo acontecera? Não tinha ideia.

Assim que finalmente parou de diminuir, fitou o agora gigantesco quarto, procurando alguma porta. A encontrou, escondida em um canto próximo ao do armário. Estava entreaberta.

O coelho passou por aqui. — Pensou ela, logo depois segurando uma risada, pois aquilo tudo era surreal demais pra ela encarar em tom sério.

Passou pela porta. O que viu também era surreal o bastante para ela rir. Era uma colina de pequenas flores de cor púrpura. Alguns cogumelos bem grandes haviam crescido pelas proximidades, mas não passavam os joelhos da garota. A colina dava para um litoral. A areia era de cor quase branca, a água era do azul mais belo que viu na vida. Ao longo da praia, várias gigantescas estátuas de mármore branca se encontravam, mostrando sete cavalos ao todo. Espere, eram os cavalos do jogo de damas? Ou seria xadrêz? Não ligava, apenas corria para a solitária praia.

Alice, assim que tocou a areia, se aproximou da água. As ondas eram grandes, possivelmente eram maiores que ela. Sua espuma branca espirrava pelo ar, sendo levada pela leve brisa. Fechou os olhos por alguns minutos, sentindo o aroma do mar, o vento tocando seu rosto, e o som das ondas em choque com as gigantescas estátuas de mármore.

- É uma bela paisagem... — Comentou uma voz grossa atrás da garota, que levou um susto, se virando e deparando-se com um gato.

Era um gato cinza, com listras azuis por todo o corpo. Ele a fitava com seus lindos olhos turquesa, dando um sorriso um tanto quanto insano.

- Espera... eu sei quem é você. É o che... ches... chessure, chetshare... — Disse ela, observando bem cada detalhe do gato que flutuava em uma neblina cinza que o envolvia pela metade.

- Pode me chamar como quiser. Chessur, Cheshire, Gato Risonho, ou só gato. — Disse ele, flutuando pelo ar em um movimento leve e lento.

- Você não deveria ser rosa com listras roxas, e ter um sorriso que some no ar? — Comenta ela, querendo gozar um pouco do sonho que estava tendo. Afinal, não era real. Apenas um sonho, poderia fazer o que quisesse.

- Desculpe, mas não totalmente igual ao gato que os seres da superfície descrevem. — Disse ele, dando uma risada um tanto doida.

- Sempre me perguntei uma coisa... Nas histórias, as Alices nunca sabem sobre o País das Maravilhas. Como eu sei? Não era pra ser uma coisa escondida pelas pessoas daqui? — Perguntou a garota, estreitando os olhos.

- Querida, muitos seres da superfície vieram para cá, o Mundo Subterrâneo. Eles voltaram para seu lar de origem, e tentaram contar ao mundo sobre nós. Mas tudo que descreveu foi tomado por fantasia, ficção. É uma pena. — Disse o gato, dando um suspiro teatral.

- Ei... Conhece alguma senhora de cabelos brancos, bem pálida, tem uma boca bem vermelha, um tom bordô...? — Indagou ela, olhando para o felino flutuante.

- Mas é claro! É a Raínha Branca. Ela não está na sua melhor idade, já tem mais de cento e setenta anos. Tinha que ver ela em sua época de maior vigor... Era fenomenal. — Disse o animal, sorrindo.

- Nossa, cento e setenta? Meu Deus... Eu preciso vê-la. Me leva até ela? — Disse Alice, o fitando com seus olhos de cor azul claro.

- Me diga seu nome primeiro. — Disse ele.

- Alice. — A garota disse, pensando que ele já imaginaria o seu nome.

O gato por um momento sorriu mais do que o comum, seus olhos reluziram, e seu pelo eriçou.

- Então vamos, Alice. Eu conheço um caminho. Me acompanhe. — Disse ele, flutuante em direção leste, onde várias colinas se encontravam, com cogumelos bem maiores, gradativamente mais altos.

Ambos começaram a andar, e passaram horas e horas conversando. Conversaram sobre a Raínha, sobre o Mundo Subterrâneo, e toda a sua história.

- Sabe, Alice. Já vi outra Alice aqui, à muito tempo atrás. Ela matou uma das piores criaturas já vistas, e colocou a Raínha Vermelha na prisão, junto de seu ridículo comparsa, o Valete. Você gosta de aventuras? — Perguntou o gato risonho, parando e a fitando.

- Eu nunca passei por uma. — Disse ela, fitando o horizonte. Ao longe, uma obscura floresta se encontrava, aparecendo aos poucos nas proximidades, ficando cada vez mais profunda e medonha.

- Algo me diz que ainda vai ter várias aventuras, minha pequena. — Disse o felino, dando um misterioso sorriso. Sorriso este similar ao de seu pai, que sempre o fazia. Continuaram andando, em direção à obscura e gigantesca floresta rodeada de névoa e trevas.