O Cat Café era um estabelecimento bastante movimentado, mas especialmente aquele dia parecia mais cheio que todos os outros dias. Os clientes chegavam sem parar a ponto de formarem uma fila na entrada. Shampoo servia as mesas e corria para atender os pedidos o mais rápido possível.

Shampoo estava indo servir a milésima mesa quando um calafrio a pegou de surpresa, percorrendo pelo estômago e gelando os mamilos, soltou sem querer a bandeja, fazendo uma arte no chão com cacos de tigela, caldo e macarrão.

– Desculpe – ela disse, abaixando-se para limpar a sujeira – eu estava distraída...

Ao levantar-se, uma tontura assolou a mente da Shampoo e ela se viu obrigada a apoiar-se no balcão que separava as mesas da cozinha. Cologne estranhou o comportamento da sua neta e deixou os afazeres um pouco de lado, correndo em sua direção.

– O que houve? – Cologne indagou.

– Eu – a amazona disse, enfraquecida – eu estou... – antes que pudesse completar a frase, ela perdeu a força nas pernas e junto com essa fraqueza, também perdeu os cinco sentidos.

– Shian-Pu! – a anciã gritou seu nome.

Cologne arriscou em carregar o peso da sua neta sozinha, no entanto, por ser uma senhora de idade avançada, não conseguia sequer mover a desfalecida do lugar. De repente, comovidos com a cena presenciada, um rapaz que aparentemente conhecia a Shampoo de algum lugar, saiu de sua mesa e ofereceu ajuda a anciã.

O jovem gentil seguiu as indicações da dona do restaurante e levou rapidamente a amazona nos fundos onde Mousse costumava pernoitar. Enquanto isso, Cologne notou a clientela impacientar e telefonou para a casa da família Tendo.

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Kasumi atendeu a ligação e acatando o pedido da anciã chinesa, caminhou pelos arredores da casa, sondando o paradeiro do Ranma. Esse por sua vez estava praticando artes marciais com sua noiva na sala de treinamento em sua forma de mulher.

– Ranma-kun, ligação para você – Kasumi disse, delicadamente.

– Quem é? – Ranma indagou, ofegante.

– É a senhora Cologne – Kasumi respondeu.

– Aquela velha... – Ranma cruzou os braços e murmurou sozinho – O que será que ela quer comigo dessa vez?

– Ela parecia com bastante pressa... – Kasumi comentou, preocupada.

Ranma suspirou e olhando para sua noiva, disse: — Eu vou atender e já volto.

– Será que volta mesmo? – Akane indagou, desconfiada.

Ranma trocou duas palavras com a karateca e caminhou pelo corredor, limpando o suor que insistia em escorrer da sua testa com a toalha branca envolta no pescoço e mesmo contrariado, pegou o telefone fora do gancho.

– Escuta aqui oh velha – a garota de tranças vermelhas disse – se me ligou para insistir sobre a Shampoo está... – Cologne não permitiu que terminasse a fala.

– O problema é justo esse: a Shampoo passou mal – a anciã respondeu.

– E o que eu tenho a ver com isso? – indagou, com uma voz seca.

– Eu preciso que você venha imediatamente para cá me ajudar a servir as mesas porque estou sozinha e os clientes estão esperando os pedidos – acrescentou – ah se quiser trazer a Akane também, será de grande serventia.

– Hei, eu ainda não... – Cologne interrompeu-o mais uma vez, o deixando irritado.

– Eu estou à sua espera – Essas foram as últimas palavras da anciã antes de encerrar a ligação.

Ao devolver o telefone no gancho, Ranma não sabia se iria ajudar ou simplesmente ignorar os apelos da Cologne. Também pudera, ele já havia colocado seu relacionamento com Akane em risco por diversas vezes, por causa das armações feitas pela Shampoo.

Com passos lentos, Ranma retornou pensativo a sala de treinamento e encontrou sua prometida socando e chutando o ar como se quisesse descontar o ciúme que sentia por ele.

– Você demorou – Akane comentou, inquieta.

– Será que você pode vir comigo no Cat Café agora? – Ranma explicou, coçando a cabeça – Shampoo passou mal e a velha está sem ninguém para ajudar lá.

– E você acreditou no que ela disse? – desabafou, irritada – Com certeza deve ser mais uma armação daquela mentirosa da Shampoo.

– Mas se fosse assim eu acho que a Cologne não falaria para você vir comigo – falou, a deixando confusa.

– Se pensar por esse lado... – concordou a contragosto, ajeitando a faixa do seu uniforme de karatê – tudo bem eu vou com você, mas se tudo não passar de uma mentira eu te largo lá e volto sozinha.

– Está com ciúmes? – indagou, sorrindo.

– Você é um baka... – disse, com a face enrubescida.

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Shampoo abriu seus olhinhos. Uma escuridão infinita a cercava por todos os lados como se estivesse sozinha no mundo. “Será que eu morri?” Pensava ela, aflita. Começou a correr desesperadamente em linha reta, gritando por socorro, desacelerou os passos, sentindo os primeiros sinais de cansaço.

– Alguém? – a amazona berrou novamente – Tem alguém aí?

Clamou por ajuda até quase perder a voz, porém, ninguém dava sinal de vida e muito menos atendia o seu chamado. Após uma pequena tregua, a isolada tornou a disparar sem rumo. Aquilo era pior do que um labirinto que pelo menos existia todos os sentidos para seguir: frente, trás, direita e esquerda. Naquela atmosfera densa, Shampoo finalmente mostrou-se fraquejada, perdendo a força nos braços e pernas.

– Socorro... – gritou, ofegante – socorro!

Subitamente, a amazona percebeu que neblinas surgiram áquela imensidão sem começo e fim, melhorando um pouco o ambiente, que ganhara mais cores. Levantou-se bastante surpresa com a repentina mudança e retomou a caminhada, olhando sempre para os lados.

Caminhou incansavelmente até notar a névoa ficar mais forte a ponto de incomodar sua vista. Notou a presença de um jovem misterioso. Esse estava de costas para ela, mirando um ponto fixo no além que se estendia ao imensurável horizonte.

– Finalmente uma alma viva! – Shampoo exclamou aliviada, mas ele não reagiu as suas palavras.

Ao aproximar-se discretamente daquele jovem calado, a visão da Shampoo ficou acostumada com o novo cenário e logo ela percebeu de quem se tratava o rapaz pela inconfundível indumentária branca e seus cabelos negros e compridos.

– O que você está fazendo aqui seu inútil? – a amazona não esperou ele responder e prosseguiu – Essa sua viagem não mudará os meus sentimentos pelo Ranma, portanto trate de voltar para o Cat Café que assim eu vou poder ver meu noivo em paz e... – antes que Shampoo completasse a fala, Mousse indagou.

– O que eu significo para você Shampoo? – indagou, encarando-a nos olhos.

– Eu já disse – respondeu, disfarçando o nervosismo – nada.

– Nesse caso – falou com convicção – adeus para sempre.

E para a surpresa da amazona, os pés do Mousse ficaram petrificados, contaminando gradativamente o corpo e a cabeça como se fosse uma epidemia. Shampoo não sabia o que fazer áquela terrível situação. Num ato impulsivo, a chinesa tentou sacudir violentamente o seu amigo de infância na tentativa de reanimá-lo para a vida. No instante seguinte, a estátua de pedra despedaçou-se em pequenos fragmentos, por fim virando cinzas.

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– Mu-Tsu! – a amazona chamou por ele e levantou-se do sofá num pulo.

Shampoo estava bastante assustada, suada e demasiadamente ofegante, tamanha era o realismo daquele pesadelo. Com um pouco de demora, a chinesa caiu na realidade, lembrando do verdadeiro motivo que ali ficara deitada. Constatou então que três elementos familiares a observavam naquele instante: a garota de tranças vermelhas, a karateca e Cologne estavam surpresos com a cena presenciada.

– O que fazem aqui? – a amazonas indagou, notando sua face arder violentamente.

– Vocês viram o que eu vi? – Akane indagou.

– Oh querida neta se eu soubesse antes dos seus sentimentos pelo Mousse – a anciã comentou, pensativa – talvez eu tivesse impedido ele de voltar para China...

Uma tontura inexplicável atordoou a consciência da Shampoo, ela estava zonza e sentia seu corpo ir de quente para fervente. Ranma a ajudou deitar-se no sofá, colocando sua mão na testa febril da chinesa para ver a temperatura.

– Nossa – a garota de traças disse, preocupada – eu acho que dá até para fritar um ovo...

– Obrigada Ranma – a amazona falou sem força – você sempre muito gentil comigo – ela retirou a mão dela (dele) e acrescentou – mas por favor, eu preciso ficar sozinha agora...

– Tudo bem – Cologne concordou sem relutar – qualquer coisa é só gritar.

– Akane – Shampoo chamou sua rival, a paralisando na saída.

– O que foi? – a karateca indagou.

– Você é uma mulher afortunada... – a amazona falou baixinho.

– Eu não sei o que você quis dizer com isso, mas obrigada – Akane pensou antes de deixar o local – “Ela está tão estranha hoje” – tirou as próprias conclusões – “deve ser por causa da febre...”

Shampoo aguardou ficar sozinha para relaxar seus ombros e esconder seus olhinhos cansados debaixo do braço. Agora ela podia decifrar aquele pesadelo sem a interferência de ninguém, apesar do seu orgulho maldito não permitisse assumir sua preocupação pelo sumiço do Mousse...

– Eu não me importo se aquele pato idiota e imprestável morrer afogado... – as primeiras lágrimas insistiam em escorrer pelos seus orbes e indagou, mordendo os lábios inferiores – por que você está “só” quando eu não quero?

Notas finais
E no próximo capítulo ocorrerá uma pequena passagem de tempo...